Primatas Miseravelmente Destrutivos: Babuínos

Há períodos em que um grupo de babuínos entra no mais absoluto caos. Após a queda de Saul, foi exatamente o que ocorreu. Observe-se: Saul era um babuíno macho-alfa tão impressionante que foi necessária uma coalisão de 6 outros machos para derrubá-lo do posto. Joshua, Menesseh, Levi, Nabuchanezzar, Daniel e Benjamin, entretanto, romperam a aliança quase que imediatamente. E o caos se instalou.

Todos conspiravam e passavam horas costurando alianças estratégicas que se desfaziam quando postas à prova. Em 40% das vezes em que colapsavam, aquele que antes era parceiro passava a adversário, aliando-se aos outros machos que disputavam o posto. Para, novamente, romper o acordo, voltar a conspirar e costurar novos tratos, e assim por diante.

A quantidade de lutas entre os babuínos do grupo aumentou assustadoramente, bem como sua intensidade e o grau de violência. Como resultado, todos muito machucados o tempo todo, nenhum babuíno se alimentava suficientemente, e foi-se embora o cuidado com a saúde, com a limpeza da pelagem e o sexo. Uma sociedade em colapso.

Por cerca de três anos o grupo foi atormentado por essa luta pelo posto dominante. Nenhum dos machos do grupo dos 6 era capaz de se manter no posto por muito tempo. Benjamin, por exemplo, quando ascendeu ao posto de macho-alfa, foi um desastre. Constantemente estressado e histérico, comprava briga com os outros babuínos e fugia, escondendo-se atrás de Devorah. Um dia, após provocar Menesseh e fugir, tentou tomar Devorah como refém para não apanhar de Menesseh. Ela respondeu lhe dando um bofetão na cara.

Nesse estado das coisas, com todos lutando contra todos, e todos enfraquecidos e muitos severamente machucados, a liderança ficava aberta para babuínos de outros grupos que se dispusessem a tomar o posto. E foi o que aconteceu. Nathanial, um babuíno gigantesco, chegou e assumiu a posição de macho dominante pela simples presença amedrontadora (ele, que não tinha um pingo de agressividade ou ambição, e que gostava de brincar com as crianças).

Joshua, Menesseh, Levi, Nabuchanezzar, Daniel e Benjamin recolheram-se, e passaram a descontar sua frustração nos babuínos hierarquicamente inferiores (Nabuchanezzar com crueldade e covardia exemplares). A estabilidade voltou, momentaneamente, já que, com babuínos, o acaso é que determina a qualidade da liderança, e mais nada.

Este escriba parafraseou descaradamente trechos do fantástico livro de memórias do neurocientista Robert Sapolsky, A primate’s memoir (2001). Ele costumava batizar os babuínos que estudava no Quênia com nomes tirados do Velho Testamento.

Casualmente, me lembrei de babuínos machos disputando o poder enquanto ouvia o rádio e sucessivas, intermináveis e repetitivas propagandas obrigatórias do PMDB asseguravam possuir as soluções para os nossos atuais impasses políticos.

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Marcos Schmidt

Marcos Schmidt é designer gráfico e ilustrador. Vive e trabalha na irremediável cidade de São Paulo.

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