Punk x Igreja Universal

Punks

O que é o punk?

Faço a pergunta a meus amigos que percebo simpáticos à causa. Pergunto de outro modo, na verdade:

O punk é imagem?

Claro que não – respondem – a imagem é parte da ideologia, mas o punk é muito mais do que isso.

O punk é música?

Não! É muito além da música, que é apenas um dos seus modos de expressão.

O punk é – agora eu acho que acerto a pergunta – atitude?

É mais: é atitude política.

(…)

É assim que os simpáticos à causa punk percebem o movimento.

O termo punk tornou-se um adjetivo encomiástico. É sempre utilizado de maneira afirmativa, positiva, o oposto da acepção original da palavra.

O poeta carioca, já com seus 70 anos de idade, dá uma entrevista lembrando dos anos 60s, claro. A certa altura, atestando sua rebeldia poética, afirma: “Sempre fui punk, entende? ”. O estilista de uma grife famosa, com uns 65 anos de idade, também afirma sobre os anos 70s: “Meu trabalho já tinha uma pegada punk…”. E tem o dramaturgo paulistano, lá pelos 55 anos de idade: “Nunca me conformei com o estado das coisas. Sou rebelde, sempre fui rebelde. Eu era punk antes dos punks. ”

Ser punk é ser fodão.

Que é mais do que atitude comportamental, mais do que imagem agressiva. É atitude política. Como disse um dos meus amigos, é corroer o Sistema por dentro, recusando-se a participar Dele.

Não faz muito tempo, um ex-punk da primeira geração, Billy Idol, destoou do coro dos contentes numa entrevista. Disse que o movimento, em termos políticos, deu em coisa nenhuma. Gritaria enorme, por certo. Justo um traidor do movimento vem falar esse tipo de coisa?

Eu, que sou um cínico, logo pensei na Igreja Universal do Reino de Deus, do sr. Edir Macedo. Que nasceu, segundo a mitologia interna, nos fundos de uma funerária, ali no final dos anos 70s, no Rio de Janeiro. Mais ou menos quando da data oficial do nascimento do movimento punk, em Londres. Um início modesto, portanto. Ao contrário do ideário e da imagética punk, os ideólogos da IURD certamente não pensavam em derrubar o Sistema. Ao contrário, queriam que seus membros fizessem parte do Sistema. Queriam sucesso financeiro, para a Igreja e para o Bispo, e, posteriormente, quem sabe, para os fiéis.

(…)

Pergunto aos meus conhecidos que são evangélicos:

A Igreja Universal do Reino de Deus tem ambições políticas?

Claro que não – a resposta é indignada – tá maluco?

A IURD é imagem?

O que é isso? Meu Deus, NÃO! É um caminho para Jesus.

A IURD é religião?

É isso o que ela é. Melhor ainda: é um instrumento de Deus para a transformação de vida das pessoas que acreditam. Não é política, não é partido, não é imagem, é mais do que tudo isso. É um modo de vida dedicado a Deus.

(…)

Passados 40 anos, a IURD tem cerca de 8 milhões de seguidores, está presente em 105 países, possui partido político, dezenas de deputados, senadores, ministros do governo, centenas de prefeitos, inclusive o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, e um sem número de vereadores espalhados por todo país. Sua meta, mais do que eleger um presidente da república, é emplacar ministros afinados com suas ideias no STF. Ela conta com um império de comunicação: jornais, gravadora fonográfica, editora de livros, 76 rádios AM e FM, 20 retransmissoras de TV, bem como seu veículo principal, a Rede Record de televisão.

Não vemos, e não veremos, é óbvio, nenhum poeta carioca de 70 anos afirmar “Sempre fui Universal, entende? ”, nem o estilista de 65 dizer que seu trabalho “sempre teve uma pegada Universal. ” Menos ainda o dramaturgo paulista asseverar: “Sempre fui conformado com o estado das coisas. Sou conservador, sempre fui conservador. Eu era Universal antes da Universal. ” A IURD penetrou no Sistema, mas não na intelligentsia.

Claro que o parágrafo anterior é maldoso: há um abismo que separa a manifestação artística verdadeira da ideologia conservadora das igrejas neopentecostais. Não é disso que trato aqui.

Trato da imagem. Da imagem que que criamos para embalar as ideias. Das ideias que apreciamos e das que odiamos. E de como essas imagens nos enganam.

O punk é a formatação do espírito jovem, inquieto, que se rebela contra a Autoridade. Como não simpatizar com isso? O fiel da IURD, ao contrário, incorpora tudo aquilo o que a já citada intelligentsia abomina: conservadorismo, hipocrisia, controle, charlatanismo, caretice.

A atitude punk é uma autoimagem que certas pessoas têm de si. Como tal, extremamente condescendente. Como ela eterniza o frescor da juventude é de difícil análise crítica. Daí que se perpetua como conceito positivo, como ideologia transformadora, subversiva, mas ainda assim de grande impacto. Pega bem um escritor septuagenário afirmar-se punk, ainda que em termos concretos não signifique muita coisa.

Mas, se compararmos o movimento punk com um movimento ideológico como a IURD, que não se vê como tal, o veredicto de Billy Idol é irretocável: o movimento punk é um fracasso. Não penetrou o Sistema, não o corroeu, não arrebata corações e mentes em número suficiente para derrubá-lo. Fica sendo uma autoimagem que conforta o poeta carioca, o estilista da grife famosa e o dramaturgo paulistano.

Gugu Punk

Gugu, sempre rebelde, corroendo o Sistema por dentro

Mas vende coisas: roupas, discos, livros, filmes, etc. Bota o Sistema prá funcionar. Nisso, o movimento punk é muito parecido com a IURD. Como os publicitários bem sabem, a propaganda não vende um produto: vende um estilo de vida.

Imagens enganam afirmei anteriormente. Pior: muitas das vezes, nós é que fazemos questão de sermos enganados por elas.

Portanto, meu caro leitor, desconfie toda vez que ouvir alguém adjetivar seu trabalho como sendo punk. Medida por medida, o sr. Edir Macedo e seu império causam mais estrago do que todos os punks do mundo reunidos.

 

About the author

Marcos Schmidt

Marcos Schmidt é designer gráfico e ilustrador. Vive e trabalha na irremediável cidade de São Paulo.

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