Queimemos a tudo. Queimemos a todos.

Queimada de livros

Senhoras e senhores, mulheres e homens de bem. É passado o momento da gente decente deste país tomar as rédeas da situação. Chega de condescendência para com os pervertidos.

Basta. É hora de agir.

Queimemos o obsceno, o indecente, o profano, o que ofende, o que escandaliza, o que duvida, o que provoca. Transformemos todos em cinzas. Destruamos tudo. Tudo.

E avancemos para trás, paradoxo que é nosso fado: não fiquemos apenas nos exemplos dos nossos dias. Extirpemos toda mancha, toda conspurcação humana que porventura tenha caminhado nesse mundo do Nosso Senhor.

Queimemos Lucian Freud, degenerado que pintou as próprias filhas nuas.

Queimemos Francis Bacon, pederasta mil vezes devasso que perpetrou o ato sexual entre dois homens com tinta sobre a tela.

Queimemos Basquiat, queimemos Leonilson, queimemos Mapplethorpe, queimemos Jorge Guinle, queimemos Andy Warhol, todos sodomitas, todos corrompidos. E todos corruptores.

Queimemos Balthus, pedófilo enrustido, membro extraviado da nobreza, arremedo de artista.

Queimemos Thomas Bernhard, infeliz trocista de tudo o que é sadio e nobre.

Queimemos Vladimir Nabokov, um russo (comunista??? comunista???) que escreveu sobre a paixão desgraçada de um homem por uma adolescente. E, claro, queimemos Stanley Kubrick que transformou tal obscenidade em película. Aliás, queimemos Kubrick por tudo o que ele fez, niilista atroz que era.

Queimemos George Bataille, cínico, heresiarca e devasso absoluto.

Queimemos Baudelaire, queimemos Rimbaud: satanistas nauseantes, sem remissão.

Queimemos Nelson Rodrigues e Hilda Hilst, pornógrafos incorrigíveis.

Queimemos o avô de Lucian, Sigmund Freud, monstro que debocha de tudo aquilo o que é humano. E queimemos Nietzsche, e Spinoza, hereges além do perdão.

Queimemos William S. Burroughs, Charles Buckowski, Allan Ginsberg, Jack Kerouac, todos transviados, corrompidos, corruptores.

Queimemos Picasso, cultuador da zoofilia em seus trabalhos.

Queimemos Courbet, que ousou pintar vaginas escancaradas.

Queimemos Voltaire, este heresiarca cínico, este ateísta maldito.

Queimemos Copérnico, Kepler, Galileu, alquimistas profanos disfarçados de “cientistas”.

Queimemos Watteau, Fragonard, Boucher, pintores frívolos de diversões escusas, porcas.

Queimemos Caravaggio, bissexual fescenino que ousou utilizar-se de prostitutas como modelos para a santíssima Virgem Maria.

Queimemos Michelangelo, depredador de paredes sagradas, que as cobriu de figuras nuas sem nenhuma cerimônia.

Queimemos Hieronymus Bosch, pintor herege e pornográfico, criador de pesadelos travestido de cristão.

Queimemos Masaccio, que perturbou os espíritos mais semelhantes aos nossos em sua época.

Queimemos os gregos antigos, todos eles, cultuadores da pederastia mais escancarada.

Queimemos a Bíblia Sagrada, na qual conta-se de filhas lascivas que embebedam o pai para fornicarem com ele.

Queimemos todos os livros, todos os quadros, todos os discos, os museus, os teatros, os cinemas. Queimemos ideias. Todas.

Saquemos nossas pistolas quando falarem de cultura, disparemos nossos fuzis ao falarem de arte, adorno inútil que ilude os homens e as mulheres de bem.

Queimemos com nossa raiva, com nosso ódio, com nossa fúria vingadora.

Queimemos toda a subjetividade.

Queimemos a tudo e a todos que possam nos lembrar que uma vida melhor e menos miserável possa ser possível.

Fiquemos com nossos edires macedos, nossos crivelas, nossos silas malafaias, nossos bolsonaros, nossos aécios, nossos temers e nossos dórias, esses homens brilhantes, impolutos, honrados, decentes. Todos homens de bem.

Todos homens de bem.

Eles são o nosso futuro.

About the author

Marcos Schmidt

Marcos Schmidt é designer gráfico e ilustrador. Vive e trabalha na irremediável cidade de São Paulo.

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