Sobre homens minúsculos

Penso que um traço marcante das eleições que se encerram neste domingo próximo é a pequenez de todos os atores políticos envolvidos. É a característica que ficará para a posteridade: na hora mais grave, em que o próprio processo civilizatório estava em jogo, todas as peças relevantes falharam. Por erro de cálculo, por arrogância, por ambição, por oportunismo, por covardia. Haverá um preço a ser cobrado por isso, medido em atraso, dissenso e mortes.

Imagine, cara leitora, caro leitor, se ao invés de Winston Churchill, tivéssemos algum destes nomes em seu lugar, em 1942: FHC, Ciro Gomes, Marina Silva, Henrique Meireles, João Amoedo, Álvaro Dias, João Dória, Márcio França, entre tantos outros. Como decidiriam entre o nazi-fascismo e o comunismo?

Optariam pela neutralidade? Ficariam quietos, com medo pânico de contrariar a onda de atraso, medo e ódio que tem nos arrastado? Pensariam, antes de tudo, como sempre o fazem, nas reações do mercado? Anunciariam, talvez, uma espécie de apoio crítico à Stálin, e se manteriam à distância, viajando para Miami, quem sabe, para de lá ver o circo pegar fogo?

Não. Apoiariam o nazi-fascismo. Fariam aliança com o nazi-fascismo. Dividiriam a cama com Hitler e Mussolini, felizes com a perspectiva de uma possível esmola dispensada.

Repare, rara leitora, raro leitor, que citei apenas nomes de centro esquerda e de direita. Porque, isso é importante de se lembrar, Churchill era um conservador. Sua situação política e sua biografia pareciam favorecer um posicionamento mais tímido e hesitante, à maneira de nossos políticos contemporâneos. Como bem sabemos, não foi o caso.

Churchill, sozinho na Europa conquistada por Hitler, convenceu os Estados Unidos a entrarem na guerra, e forjou a Aliança: Inglaterra, EUA e União Soviética. Nossos atores políticos de centro esquerda e direita, claro, implodiriam essa configuração, porque eles, tão atinados quanto os eleitores de Bolsonaro, sabem mais do que o mundo todo, e sabem que com comunistas não se negocia, porque são piores do que Belzebu[1].

Vale lembrar que, apesar do que Hollywood tenta vender como verdade, quem venceu de fato a máquina nazista foram os soviéticos, a um custo terrível.

Mas não deixemos de lado a pequenez de Luís Inácio Lula da Silva e do PT. O primeiro, confiante em sua genialidade política, arquitetou um xeque que não foi mate. E o segundo, descolado da realidade e acossado pela húbris, mostrou-se incapaz de abandonar seus projetos de poder (ah, José Dirceu, essa voz profunda do inconsciente que não se consegue calar…) em nome do algo maior que estava em jogo – no caso, a própria democracia. Ignoraram o fato de que o único combustível de bolsonaristas e simpatizantes, primários como são, é o mais tacanho antipetismo. Votam no já citado Belzebu, mas não votam num candidato do PT. Simples desse modo. Mas é difícil abdicar do papel de protagonista, e o PT é uma estrela que quer brilhar.

O futuro, que nos parece tão sombrio hoje, lembrará do papel mesquinho de todos esses atores políticos. Não lembrarão dos seus nomes, que gente minúscula assim não fica na memória, mas estarão enterrados na vala comum dos homens públicos medíocres. Dessa vala, lembrarão.

[1] Aparentemente, nem Inglaterra nem Estados Unidos se tornaram comunistas.

About the author

Marcos Schmidt

Marcos Schmidt é designer gráfico e ilustrador. Vive e trabalha na irremediável cidade de São Paulo.

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