Terra plana, homens ocos

Nós somos os homens ocos / Os homens empalhados / Uns nos outros amparados / O elmo cheio de nada. Ai de nós! / Nossas vozes dessecadas, / Quando juntos sussurramos, / São quietas e inexpressas / Como o vento na relva seca / Ou pés de ratos sobre cacos / Em nossa adega evaporada

Os terraplanistas explicam o Brasil. São sua mais perfeita expressão. Explicam nossa política, nossa sociedade, nossa cultura, nossa vida interior, nossa possibilidade de concepção abstrata, nossa religiosidade. Nossa loucura, enfim.

O terraplanismo explica o pós-modernismo. É sua mais perfeita expressão. Explica o descolamento definitivo entre as narrativas e os fenômenos. Separados, não se unem mais.

Fôrma sem forma, sombra sem cor / Força paralisada, gesto sem vigor; / Aqueles que atravessaram / De olhos retos, para o outro reino da morte / Nos recordam - se o fazem - não como violentas / Almas danadas, mas apenas / Como os homens ocos / Os homens empalhados.

É ironia que sejam justamente as tecnologias que tenham propiciado tal descolamento entre interpretação e fato. Avançamos tanto nas ciências que os produtos por ela gerados são os veículos utilizados para solapá-la. Multiplicamos os homens, multiplicamos as informações, e disso resulta ruído, cacofonia, terraplanistas.

Esta é a terra morta / Esta é a terra do cacto / Aqui as imagens de pedra / Estão eretas, aqui recebem elas / A súplica da mão de um morto / Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

Os defensores da terra plana são afirmativos e enfáticos em suas certezas. Não há margem para dúvidas. É natural: somente o descolamento total entre o fato e sua interpretação permite tanta certeza afirmativa. E esse descolamento é fenômeno pós-moderno.

O pós-modernismo pode ser caracterizado pelo seu a-historicismo, sua superficialidade, seu aspecto fragmentário e pelo déficit de apelo emocional. São características que, reunidas, não raramente tendem ao pastiche e à paródia, intencional ou não. Há quem defenda que o próprio pós-modernismo já está morto. Não saberia dizer. Nossos tempos são cínicos e desencantados, e o pós-modernismo também é cínico e desencantado.

O pós-modernismo pressupõe o fim da história. O modernismo teria sido o estertor agônico da História, que faleceu à maneira do poema de T. S. Eliot aqui citado, não com uma explosão, mas com um suspiro.

Os olhos não estão aqui / Aqui os olhos não brilham / Neste vale de estrelas tíbias / Neste vale desvalido / Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Com a História morta, estamos mortos. Nos tornamos almas penadas que repetem e repetem e repetem o que já foi feito e o que já foi pensado. Apenas degeneramos. Em terraplanistas ou bolsonaristas, o que dá mais ou menos no mesmo. Descolados da realidade, angustiados e vazios.

Os terraplanistas explicam o Brasil e explicam o mundo do século XXI.

A terra é plana, mas os homens são ocos.

 

(o poema que aqui se cita é Os homens ocos, de T. S. Eliot, na tradução de Ivan Junqueira)

About the author

Marcos Schmidt

Marcos Schmidt é designer gráfico e ilustrador. Vive e trabalha na irremediável cidade de São Paulo.

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