Um bode expiatório: Nelson Rodrigues

Alguns amigos que desperdiçam seu tempo com literatura não gostam de Nelson Rodrigues. Não variam muito as justificativas: repetitivo, reacionário, mórbido[1]. Como conheço o discurso desses meus amigos, intuo que o motivo verdadeiro seja outro.

Não considero Nelson Rodrigues o maior dos escritores, mas no que me diz respeito ninguém tocou no nervo, para usar uma expressão cara a Francis Bacon, tanto quanto ele. Creio ser esta a verdadeira razão do desgostar de Nelson Rodrigues dos meus esclarecidos amigos[2].

Muito verdadeiro, disse o papa Inocêncio XII do retrato pintado por Velázquez. Muito verdadeiro, dizemos da imagem que vemos no espelho fornecido por Nelson Rodrigues, e viramos o rosto enojados. A psicanálise nos alerta em relação aos nossos ódios e repugnâncias: a motivação para um ou outro está sempre muito próxima.

Suas peças míticas merecem o rótulo, criado por Sábato Magaldi. Podem ser chamadas de arquetípicas, já que foram desbastadas até o osso, todas as camadas de pudor, civilidade e bom-tom foram arrancadas até se chegar ao núcleo primitivo de desejos e pulsões, aquele núcleo que tentamos acessar nas sessões de psicanálise e que raramente conseguimos.

Imaginar que Álbum de família é de 1946 é assombroso – não por acaso ela foi proibida, e assim permaneceu por mais de vinte anos. Fosse escrita hoje, por outro lado, faria de Nelson o inimigo número 1 da novíssima direita neurótica e ignorante do Brasil. Nelson afirma que a escreveu “como um anjo. Isso pode parecer uma frase, aliás, subliterária, mas eu digo anjo no sentido de que realmente não fiz a menor concessão dos critérios aos valores convencionais. Fui até as últimas consequências do assunto. Mergulhei no abismo”.

É esse mergulho no abismo que faz de Nelson Rodrigues um autor maior. Mas seu abismo é particular: é o abismo brasileiro, é o abismo do homem de bem brasileiro, tão evocado nesses últimos tempos.

E como o homem de bem brasileiro não tem espelho em casa, é preciso de um Nelson Rodrigues que lhe sirva de bode expiatório, que seja o pornógrafo doentio que será sacrificado para que ele, o homem de bem, possa sentar-se à mesa de jantar tranquilo, apaziguado, limpo de pecados, com a sua família ao redor, em harmonia e confiante no futuro, que o futuro, se Deus assim quiser, será sempre igual.

[1] Curioso que não digam o mesmo de Dostóievski.

[2] Claro que há a questão política: em tempos de luta como os dias de hoje, pega mal para militantes e engajados admitirem algum valor em Nelson Rodrigues, que tanto fustigou a esquerda.

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Marcos Schmidt

Marcos Schmidt é designer gráfico e ilustrador. Vive e trabalha na irremediável cidade de São Paulo.

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