Para quê serve a música - Parte 2

Arte e Entretenimento - Música Desconcertante

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Na semana passada, após observar alguns esboços de composição e manuscritos nos quais eu trabalhava, eu ouvi uma pergunta (não foi a primeira vez e com certeza não será a última) que na minha opinião revela-se sintomática de um impasse entre o artista e seu público (se é que podemos afirmar que ainda existe um público).

A pergunta foi: “qual é o objetivo disso?”

Se esta pergunta fosse direcionada a mim há 5 anos atrás, eu a tomaria como uma ofensa: “o que este cara está querendo dizer com isso? Que meu trabalho é inútil? Que música é inútil? Quero dar uma porrada nele. Grrr”.

Para ser honesto, dependendo do tipo de pessoa que me pergunta isso (e do tom de voz), eu realmente fico com vontade de falar umas coisas deselegantes. Porém, a pessoa que me fez esta pergunta realmente estava curiosa, querendo entender que tipo de motivação faz uma pessoa dedicar parte de seu tempo livre a ficar rabiscando um pedaço de papel (considerando que não haverá retorno financeiro e nem mesmo intérpretes para tocar a música).

A resposta é: porque é preciso. É necessário. Agora, necessário à sociedade? Claro que não, a sociedade não está nem aí para a arte. Não é necessário para ninguém, exceto para o artista. O processo criativo, para mim, está inevitavelmente ligado a uma sensação de inconformismo, a uma necessidade de ouvir uma música que não existe (ou que ainda não foi escutada). Se procuramos por esta música e ela não pode ser encontrada em coleções, discografias, partituras ou bibliotecas, temos que escrevê-la.

Isto vai de encontro com uma diretriz didática na qual eu acredito: aprender música é aprender a ouvir música. A notação, técnicas instrumentais e a teoria elementar são apenas técnicas. Há quem acredite que aprender música é aprender somente a técnica. Então, aprender uma língua estrangeira é aprender somente as palavras? Parece correto à primeira vista, mas só se aprende uma língua nova se você estiver submerso no ambiente onde se fala aquela língua. Você aprende ouvindo. (É claro que a técnica faz parte do aprendizado, mas não constitui a totalidade do conteúdo que deve ser aprendido).

Música também se aprende ouvindo. Na verdade, é óbvio, é tão óbvio que dá vontade de pintar isso num zepelim e sobrevoar Copacabana.

Para quê serve a música, enfim? A música cumpre a mesma função que as pirâmides, a literatura, as pinturas rupestres, os esboços de Da Vinci, a formulação da teoria da relatividade e as partidas de xadrez: essas coisas todas são o patrimônio intelectual da humanidade. Todas estas obras refletem a inteligência do seu tempo. A obra de arte deve ser valorizada porque ela imortaliza uma fração do pensamento de quem a produz. E imortaliza o tempo.

A inteligência de Eistein perdura, mesmo que Eistein não exista mais. Assim como a inteligência de Da Vinci, Mozart, Goethe, Platão, Haydn, Gesualdo. É a inteligência desses indivíduos que enriquece o legado do homem. É esta inteligência que apreciamos em suas obras, não as “biografias romanceadas”.

É por isso que devemos produzir arte apoiados na razão. A emoção pode fazer parte do processo criativo, mas são diretrizes racionais que devem engendrar uma obra. A obra de arte precisa ser um produto de nosso tempo; ela representará a nossa era no futuro.

Vamos ilustrar este pensamento da seguinte maneira: imagine que o homem sumiu da face da Terra (digamos, em 10.000 anos) e só sobraram as obras de arte. Estamos partindo do princípio de que os deuses que governam o destino do mundo gostam mais da arte do que dos homens, e por isso deixaram as obras serem conservadas. Então ETs descem na Terra e decifram as obras: peças de Beethoven, Stravinsky, Bach, Monteverdi... filmes de Hitchcock e Chaplin... o Werther de Goethe, Memórias Póstumas de Machado de Assis...

Os ETs datam as obras e pensam: “cacildis!* Aqui viveu um povinho cabuloso nesses períodos que a gente está catalogando”. Então, de repente, eles descobrem as obras do final do século XX e início do século XXI...

E aí? O que será que eles vão pensar de nós?

Você pode supor que eles nos achariam uns xexelentos por causa das porcarias de cultura de massa que eles encontrariam. Então, que tal dar uma chance à arte contemporânea? Procure conhecer a música de seu tempo. Ou a arte de seu tempo, tanto faz. Veja se esta arte te representa. Se não te representa, crie algo que manifeste a sua expressão. Estude para ter os meios (e a técnica) para isso, se for necessário. E prepare-se para produzir muita coisa ruim antes de sair algo que preste.

 



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Comentários (8)
  • Fernando Cunha
    avatar
    Adorei a continuação... Estava aguardando a tempos! Então mãos à obra! Comecemos
    a nos representar...
  • José Marcos  - Para que serve a música???
    Li seu artigo e gostei, porque já fui músico, se é que se pode ter sido e não
    mais ser. Mas fiquei pensando: li certa vez que música é a arte de combinar os
    sons de forma a agradar ao ouvido. Não levando em conta querelas filosóficas
    sobre a beleza da arte e essas coisas, achei que essa pode ser uma definição
    muito boa para o que serve a música: para agradar aos ouvidos. Só. É uma coisa
    assim (não pense que sou hedonista): para agradar ao paladar, comemos algo bom,
    uma torta, um doce, sei lá; para agradar ao olfato, um cheiro bom, não importa
    qual seja; e assim vale para todos os sentidos. Talvez seja algo biológico. Não
    sei, só pensando mesmo.
  • Rafael Reinehr  - Múltiplos sentidos
    avatar
    Oi José! Olha só, tenho uma ressalva à sua observação: se a música é para
    agradar os ouvidos, discordo. Agora, se é para agradar os sentidos, começo a
    concordar! A música pode ser escutada com todo o corpo. Nossos ouvidos captam
    uma parte essencial dela, mas o sistema proprioceptor e tátil sentem a vibração,
    principalmente das notas mais graves e nosso espírito, nossa alma, se enternecem
    e ficam profundamente tocados com algumas melodias. Ainda, podemos ter até
    estímulo do lado esquerdo do cérebro, em algumas músicas atonais e com escala
    dodecafônica. Talvez até em músicas barrocas, mais palatáveis e ainda nas
    músicas experimentais de Moondog e Steve Reich e outros autores minimalistas.

    A própria gastronomia não se faz somente com o paladar, mas muito com o olfato
    e, na gastronomia molecular, até mesmo com o "tato oral" (sem contar a
    visão, que faz toda diferença na apreciação de um prato").

    Abraço!
  • José Marcos
    Oi, Rafael. Quando disse que era para agradar aos ouvidos eu não quis esgotar
    outras possibilidades. Somente que o sentido primordial da música é a audição,
    só. Mas foi uma tentativa de tentar entender para que serve a música.
    Sinceramente, eu não sei para que serve e acho que nunca saberemos. Viajando
    para o mundo das idéias de Platão, talvez a música já exista lá, nesse mundo,
    cabendo a nós trazê-la à Terra, captando-a como se fôssemos antenas. Essa é uma
    idéia já bastante discutida e até trivial, mas me lembrei de um comentário de
    Mozart que dizia que a música já existia, ele somente a colocava no papel. Mas é
    isso... Abraços.
  • Marcel
    O primeiro sinal que os ET´s provavelmente captaram foi Hitler fazendo o
    discurso nos jogos de Berlin. Aí sim eles diriam que somos mesmos uns
    "xexelentos" aueuae. Gostaria que fossemos mais conhecido pelo show
    Pulse do Pink Floyd. Seria legal a humanidade ser conhecida por gastar energia e
    criatividade em coisas mais dignas de um cérebro e sentimentos desenvolvidos,
    mostrar como somos capazes de composições e metáforas. Por aqui essas coisas não
    são muito valorizadas, como você disse. Já pensou? Uma sociedade alienígena
    avançada poderia não ter alta tecnologia como todo filme de hollywood mostra.
    Eles poderiam ter arte, música, como principal característica.
  • Rafael Reinehr  - Muito bom!
    avatar
    Belíssimo comentário, Marcel. Este passo ao lado, esta reanálise da realidade
    através das lentes da cultura seria realmente uma fantástica obra humana.
  • Ulisses Adirt  - re:
    avatar
    Falando de obras de arte, Marcel, bela alusão ao Contato, do Carl Sagan. Graças
    a Clio a ideia do sinal das Olimpiadas de Berlim ser captado em outros planetas
    é apenas uma pequena possibilidade.
  • Guilherme Sassaki
    Nossa, você expressou nessa última parte toda a indignação que sinto em relação
    a cultura pobre a qual nossa sociedade está imersa hoje em dia.
    Muito bom, ganhei esclarecimentos quanto música, algo vital para mim, nesses
    dois post!
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