Damien Hirst, o homem de 250 milhões de dólares.

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Por Marcos Schmidt   
03 de outubro de 2008

Ou, de como nas artes plásticas vale o dito de Tim Maia, o filósofo: “tudo é tudo e nada é nada...”

Esta é minha terceira tentativa de escrever sobre Damien Hirst, o homem de 250 milhões de dólares. E também a última, já que o assunto, e o artista, não valem mais do que isso. Apenas dobro-me diante do “acontecimento do ano” nas artes plásticas: o leilão, pela casa Sotheby’s, de 223 obras de Damien Hirst, que amealhou a quantia que citei acima.
Meu primeiro texto ficou imenso e acadêmico demais, e o segundo muito irado e recheado de impropérios. No final das contas, é melhor ler o excelente artigo de Robert Hughes no The Guardian sobre o assunto. Mas vou tentar mais uma vez...
Acho que ser direto e objetivo é uma abordagem mais adequada: na boa, falar do autor de uma obra que é um tubarão apodrecendo num tanque de formol furado e que se chama “A Impossibilidade Da Morte Na Mente De Alguém Que Está Vivo” não merece mais do que algumas linhas. É um trabalho banal (como, de modo geral, é a obra de Hirst), com um título tão pretensioso quanto vazio e que, na opinião deste que vos escreve, só amplifica a arrematada palermice que é este trabalho. E além dos tubarões, Hirst já fez (mandou fazer, já que ele, naturalmente, não se suja com imundícies) trabalhos com carneiros, zebras, porcos, bezerros e outros bichos infelizes. Nada diferente daquilo o que você pode ver em qualquer museu de ciências naturais ou num aquário qualquer. A diferença são esses títulos “profundos” (o bezerro com cascos, chifres e um disco de ouro sobre a cabeça chama-se, veja você, meu caro leitor, O Bezerro de Ouro; percebeu a sacada?) e o preço que ele cobra, e que pagam, por essas obras.
Até aí, tudo bem. O diretor do aquário de São Sebastião, por exemplo, pode pegar aquele golfinho deprimente que eles tem por lá, intitulá-lo “A Infinita Noite Dos Astrônomos Ptolomaicos”, e colocá-lo à venda na Galeria Fortes Vilaça por quinhentos mil reais, uma verdadeira pechincha.
Só que o diretor do aquário não é um nome griffado, a Fortes Vilaça provavelmente vai sugerir que o sujeito leve seu golfinho morto para vender na feirinha do MASP, e certamente não haverá nenhum investidor como Steve Cohen (que pagou 12 milhões de dólares por um dos tubarões) disposto a liberar algum troco pelo pobre animal.
Mas existem pelo menos 223 outros Steve Cohens que tascaram suas assinaturas em cheques bem gordos para ter em suas mansões uma legítima zebra Damien Hirst apodrecendo no formol, ou uma das fotos do crânio coberto de brilhantes (que custa, só ele, 100 milhões de dólares) salpicadas com pó de diamantes, esta por míseros 10 mil dólares.
O “Acontecimento Hirst” (o evento merece um título) é uma manifestação gritante do atual estado das coisas nas artes plásticas. É uma condição em que se misturam os mais diversos interesses, e todos eles completamente descolados da qualidade intrínseca do trabalho artístico.
Damien Hirst é um gênio, sem dúvida, mas de uma outra ordem.
E há algo de muito podre no mundinho das artes plásticas, e não é o tubarão.

Comentários
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Rafael Reinehr  - A morte como arte     |05-10-2008 10:37:01
avatar Um dia me falaram de um artista plástico (japonês, acho), cuja obra derradeira foi uma "tela", resultado do seu suicídio ao se jogar de não sei que andar sobre a "tela", lá embaixo. Não sei se procede, se essa história é verídica, mas um bom título para esta obra seria "Quanto vale a vida?". Senti falta de algumas imagens da mostra aqui no OPS!...
Marcos Schmidt   |05-10-2008 21:23:47
avatar Confesso que essa eu não conhecia, Rafael. Mas lembro de uma vídeo-performance dos anos 70s em que o sujeito cortou o próprio pênis e ficou sangrando até morrer enquanto um outro filmava. Tenho uma certa dificuldade de entender esse tipo de "arte". Não sei o que essa espécie de performance radical pode revelar, prá ser bem sincero...
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