História do Olho – Georges Bataille – primeira edição em 1928

- A grande pergunta que a leitura das páginas desse primeiro e brevíssimo livro de Georges Bataille suscitou em mim é a grande pergunta que eu mesmo gostaria que os leitores do meu livro se fizessem no desvendar sucessivo das páginas.

Estranhamente, não encontrei essa pergunta nos elaborados ensaios que li sobre o livro. Eliane Robert de Moraes, Michel Leiris, Barthes, Cortázar e Vargas Llosa escreveram sobre ele. São textos muito interessantes; realmente dá para viajar muito nessas páginas da “História do Olho” – possivelmente um dos livros mais escolhidos para trabalhos acadêmicos de psicologia.

A história do livro, se conhece: Bataille era um jovem arquivista na Biblioteca de Paris atormentado por uma infância traumática - o pai sifilítico, cego, paralítico e louco; a mãe igualmente louca e suicida na sequência – e pela infrutífera aspiração para escritor. O empurrão foi dado pelo psicanalista Adrien Borel que pediu que Bataille escrevesse sem amarras. Dessa iniciativa surgiu a “História do Olho”.

A história em si reúne um jovem e sua amiga em brincadeiras sexuais cheias de imagens fortes e impressionantes. Uma outra amiga se une a eles brevemente, pois é internada num sanatório e, em seguida, se mata.

O jovem casal sem idade parte então para uma jornada de sexo, morte e devassidão apoiados por um patrocinador inglês. A penúltima cena, que deveria fechar o livro, é assustadora em imagens e palavras. Mas talvez o assustador esteja no último capítulo, chamado de “Reminiscências” em que Bataille tenta dar um norte para a relação entre os fatos da história e de sua própria vida.

Antes mesmo de ler essa parte, eu já havia me feito a grande pergunta várias vezes. E qual seria essa grande pergunta? A seguinte: até que ponto o que o livro conta pode ter sido ou ser realmente realidade?

Sim, pois o que lemos nos impressiona e nos tira de nossa razão de maneira surreal – e o choque da realidade quando olhamos em volta, a posteriori, parece ser o questionamento sobre todas as pessoas comuns e o que de fato eles podem ser capazes de fazer!

(Tela “Corrida au Soleil”, de André Masson, surrealista francês, que ilustrou “A História do Olho”, de Georges Bataille)

- Acontece já na segunda página, de forma memorialista e real: “Lembro-me de um dia em que passeávamos de carro, em alta velocidade. Atropelei uma ciclista jovem e bela, cujo pescoço foi quase arrancado pelas rodas. Contemplamos a morta por um bom tempo.”.

Teria isso acontecido de fato? Ao assumir o tom autobiográfico, inclusive no adendo final, Bataille nos coloca mais medo. E aponta que talvez as perversões das mentes humanas podem ser realmente chocantes quando olhadas bem de perto. Talvez por isso, mas não somente, o livro tenha esse nome.

dario argento, o melhor diretor de filmes ruins do mundo

Hoje é 7 de setembro, uma data importante. Não pela lenga-lenga da Independência do Brasil, esse dia em que Dom Pedro II, em seu cavalo branco de Napoelão, teria liberado no País as piadas de português. No sétimo dia de Setembro se comemora o “Dia do Giallo” – e isso sim  é importante! É aniversário de Dario Argento.

Filho de mãe brasileira, com mais de 20 filmes no currículo, Argento é pouco conhecido e divulgado no Brasil, não há espaço para seus filmes nas grades de TV, as locadoras têm medo de disponibilizar filmes tão estranhos, as grandes lojas não vendem seus DVDs. Sim, boa parte da filmografia de Argento saiu no Brasil, comprei uns três ou quatro de seus filmes em bancas de DVD de supermercado de periferia… onde eles foram parar.

É incrível que um diretor como ele, que impressionou e influenciou Kubrick, DePalma e Tarantino – para ficarmos apenas no primeiro time -, não seja tratado com, pelo menos, mais cuidado. O que disseram sobre Serge Gainsbourg (“Se fosse americano estaria no mesmo nível de um Dylan”) talvez possa ser dito sobre Argento em paralelo com um desses grandes e estilosos cineastas americanos, talvez um David Lynch não tão recente. Nem evoco alguém do cinema fantástico ou de terror porque o cinema americano não tem, de fato, um GRANDE representante nessa linha, talvez John Carpenter. E Argento reina como poucos – mesmo cometendo grandes erros.

O homem começou em 1970 com “O Pássaro das Plumas de Cristal”, filme que inaugura seu estilo que ele passa a perseguir, canibalizar, introjetar, referenciar. Quase todos os outros filmes dele tem algo de “O Passáro…”, mesmo aqueles que exploram mais o fantástico que o thriller. Dizem que o filme foi inspirado pelo “Blow Up” do Antonioni, que é cheio de citações a Hitchcock, que a direção tem mais de Vitorio Storaro (fotógrafo de cena, Morricone fez a trilha) que de Argento… Não acho nada disso; acho que Argento estava meio perdido fazendo seu primeiro filme e nem ele mesmo soube direito como fez o que fez. Os caminhos que o filme percorre, na investigação de um crime, se perdem e se encontram tanto que o final não faz a menor diferença: temos um balé de cenas tão interessantes que o conjunto quase não importa.

Muitos dizem que “O Pássaro…” é um aquecimento para “Profondo Rosso – Prelúdio para Matar”, a obra-prima que ele faria cinco anos depois. O filme só não é melhor porque Argento tinha conhecido uns caras duma banda chamada Goblin e eles, infelizmente, se tornariam parceiros fiéis nas trilhas. A música eletrônica dos caras só não é pior que as músicas de heavy-metal que Argento também inventou de meter nos filmes. Dá saudade da inventiva trilha de Morricone de “O Pássaro…”.

Na mesma linha desse dois filmes surgiria depois “Sleepless” (2001), com Max Von Sydow, melhor que a média dos filmes mais recentes do diretor.

Além desses três, gosto muito de “Trauma” (1993)  e do “Terror na Ópera” (1987), filmes que revelaram ao mundo a beleza da filha do diretor, Asia Argento. Esses cinco filmes resumem a maravilha do fazer de Argento, que antes de se tornar diretor escreveu filmes, como “Era uma vez no Oeste”, de Sergio Leone.

Há quem goste dos filmes mais oníricos, esse efeito de sonho/pesadelo que Argento consegue com sua câmera fluídica… Mas o incensado “Phenomena” (1985) ou mesmo “Suspiria” (1977) não entram em minha lista dos melhores dele.

Seu último filme, recém-rodado, está sendo muito aguardado. Chama-se, adequadamente, “Giallo”, amarelo em italiano, que é como chamavam as revistinhas de terror e mistério com capa amarela que eram vendidas em bancas italianas. Virou definição de tipo de filme, como “Noir”. E em termos de Giallo, Argento virou sinônimo. Como Raymond Chandler e Dashiel Hammet para o Noir.

 

 

amor pra cachorro - 2007

Eu adoro ler comentários de pessoas sobre filmes, em sites de divulgação, como o Interfilmes. Sobre “Amor pra Cachorro”, filme sobre o qual quero escrever, a Nayama e a Marina comentaram lá que o filme é “Muito bom! Mostra como as pessoas devem amar realmente os animais… Uma lição.” e “Estou recomendando este filme para várias pessoas, para que tomem consciência do dever de respeitarmos todos os animais, além de nós.”. Se Mike White, o diretor, estivesse morto, certamente se reviraria no túmulo.

Yeardogyear Of The Dog Posters

White é amigo de Jack Black e criador de personagens disfuncionais & tramas insensatas presentes em “Orange County” “Escola do Rock” e “Nacho Libre”. Em sua estréia como diretor, ele escreveu uma sátira cínica a essas pessoas que não conseguem se relacionar, não conseguem namorar, não conseguem ser felizes porque geralmente estão mais preocupadas com os cãezinhos de rua, com as manifestações pelos direitos dos animais ou gastam mais dinheiro com a casa, comida e roupa lavada dos bichinhos de estimação do que com o próprio guarda-roupa. O problema é que essas pessoas – que podiam se identificar e achar graça no escracho de White – geralmente não tem bom-humor. Algumas dessas pessoas sequer têm qualquer humor. E o retrato que o filme faz delas, com algum realismo, faz com que elas, as personagens do filme, às vezes pareçam tão chatas, tão chatas, tão insossas nesse ramerrame em prol dos bichos que… não há bom-humor que se sustente.

Na chatice de ser e representar esse tipo de gente na tela, sobra um filme ácido que, para mim, resultou em uma hora e meia de curtição. Menos curtição que “Nacho Libre”, é verdade, mas uma curtição de ver ali, na tela, algumas pessoas que conheço na vida real. É gente que geralmente não vemos no cinema. E o filme é curto, isso ele tem de muito bom.

Faltou a White chutar o pau da barraca, botar a personagem da Molly Shannon para ficar com o personagem do John C. Reilly, fazer a cena final dos dois numa mega-trepada ao ar livre enquanto uma picanha sangra na churrasqueira. Fecha na picanha, sobem os créditos.

Mas só mentes re-al-men-te doentias como a minha pensam esse tipo de coisa.

shine - daniel lanois - 2003

Imagine que você fosse o detentor de um grande segredo: o segredo do grande sucesso musical. As maiores bandas querem que você produza seus discos; todos aqueles discos nos quais você tocou, viraram ouro. Você sabe como fazer um grande disco. Você sabe criar os climas certos para as canções. Você é sensível, sensitivo, cool até os ossos, transpira música. E seus discos não têm apenas o sucesso de público, mas também da crítica.

Muito bem, mas às vezes você quer fazer um disco seu.

E pensa no sucesso que talvez você tivesse – se quisesse.

Mas você não quer o sucesso com os seus discos. Você poderia usar as fórmulas, mas não quer. Você quer juntar amigos e criar músicas mágicas mas não quer que isso chegue até o rádio ou não quer assinar com uma gravadora – não quer excursionar, não precisa de groupies, não quer agüentar empresários gananciosos, nem fãs bestas… Quer apenas gravar bons discos que poucas pessoas vão acabar querendo e comprando e gostando de fato.

Esse cara é Daniel Lanois.

Ele produziu discos do U2, Bob Dylan, Willie Nelson, Peter Gabriel, Brian Eno entre vários outros. E fez discos próprios, pequenos, com amigos, que são puro ouro – pouquíssimo conhecidos, quase nunca comentados.

Seu melhor disco é o primeiro, “Acadie”, sobre o qual já escrevi em vários lugares. Dele, tirei uma música para a trilha de “Virgínia Berlim”.

419F8TBX6XL SS500

Mas só recentemente encontrei e comprei seu terceiro e mais comentado disco, “Shine”. É lindo. Consegue ser ainda mais intimista que “Acadie” – é menos soul, mais country de slide guitars. É um disco para se respirar enquanto se ouve. Não dá pra ler o jornal ou passar roupa ou costurar: a gente presta atenção naquilo, mesmo se não quiser.

A primeira faixa tem participação de Emmylou Harris, a segunda de Bono Vox (Falling at Your Feet). Depois o disco começa a ser de Lanois e sua voz segura mas miúda, algums vezes flertando com alguma levada pop, um suíngue latino, mas nada de arroubos. Duas ou três canções centrais são landscapes, puro delírio low-fi que a gente vê que ele curtiu fazer, ali, com sua guitarra, baixo aquela mesa enooooorme cheia de bo-tões-zi-nhos!

Se você achar, compre. Se encontrar para baixar, baixa tudo, grava o cd.
Aí, um dia em que estiver sozinho em casa, bota o disco, senta no sofá e fica ouvindo.
Depois me manda um e-mail agradecendo.

a caverna - 2005

O que justifica fazerem um filme onde um grupo de exploradores entra em uma caverna e acaba tendo que enfrentar um bando de monstrengos mutantes?
Pior: o que faz um camarada preferir um filme desses a, por exemplo, algo do Jim Jarmusch, como “Café & Cigarros”?

Porra, primeiro que eu acho esse “Café & Cigarros” uma das maiores merdas já registradas em celulóide… talvez só valha pelo episódio com Iggy Pop e Tom Waits, pela curiosidade simples, nada mais. Merda é pouco.

Já “A Caverna”, o filme dos exploradores versus monstrengos, não é uma merda.
Está longe, muito longe, de ser um clássico, mas pode-se ver grandes qualidades nele, especialmente quando se liga o foda-se e se abre uma cerva.
É filme para ver bebendo.

Caveposter

O diretor é Bruce Hunt, diretor de segunda unidade da trilogia “Matrix”. Ele faz as coisas direitinho, assim como o editor, Brian Berdan, o mesmo de “Assassinos por Natureza”

O que difere esse de outros filmes de terror é que a trama se desenvolve em cenários reais, cavernas em aquíferos, alguns dos maiores e menos conhecidos locais da Terra.

A fotografia é bacana, a cinematografia é de gente especializada nesse tipo de ambiente e isso contribui muito com a sensação de claustrofobia.

Isso pode justificar um filme fraco, pode ser o diferencial: vermos ambientes diferentes em um filme de ação e não naqueles modorrentos documentários que passam na National Geographic.
Aconselho ver também os extras, com o documentário dos especialistas, com mais imagens das impressionantes cavernas. Locações na Romênia e em Yucatán, México.

É um filme que não assusta e não muda sua vida, mas que pode fazer você passar agradavelmente uma hora e meia.
Diferente do filmeco de capítulos, onde personagens ficam só falando dispensáveis merdas enquanto fumam e tomam café, no filme de Jarmusch.

Mesmo achando que ela não gosta de filmes de terror, creio que até Lucia Malla ia gostar d´”A Caverna”.

Página 1 de 512345»