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and then nothing turned itself inside-out - 2003

Publicado em 24/01/2008, às 21:06, por biajoni


[ou]
Um maravilhoso disco do Yo La Tengo e as emoções que ele me provoca

Era um sábado, de outono, talvez. Fomos ao Shopping Iguatemi, eu e Ana, minha mulher à época. Almoçamos por lá e passamos numa livraria onde eu me demorava com os CDs e os livros e a Ana achava ruim. Achava. Tentando me conter para não gastar mais do que podia, peguei o último, na ocasião, do Yo La Tengo - e fiquei fazendo uma cena para levar… A Ana lá, de olhos compridos. Eu, com culpa por gastar mais dinheiro em CD.

Eu já tinha o primeiro disco do trio de Hoboken. A crítica estava falando de uma mudança no som deles e eu estava interessado… Comprei. A Ana… Fomos pro carro, meu inesquecível Corsa com som bom. A tarde caía. O céu estava vermelho. Rasguei com ânsia o celofane - e coloquei lá a bolachinha.Nos primeiros acordes de “Everyday”, naquela tarde lânguida, com aquela mulher ali do meu lado, a conversa nenhuma, eu me emocionei. As músicas foram se sucedendo, suaves, sem a quebradeira característica do grupo… As letras quase ininteligíveis - mas nem precisava. Era só o som. E o lusco-fusco. E a presença simples. E o vento entrando pela janela. E.

Yo La Tengo And Then Nothing Turned Front

Corta.

Alguns meses depois o grupo vem ao Brasil para um show no Sesc-Pompéia. Era uma quinta feira. Nossa amiga Tilê, do Sesc-Piracicaba, havia arranjado um esquema com os ingressos que não eram vendidos nem pela internet nem pelo telefone. Devíamos procurar um cara lá em Sampa que estaria com os tíquetes. Saímos mais cedo do trampo para chegar a tempo. Chegamos - mas o cara não estava lá, como combinado. Estávamos na capital, excitados para ver o show e sem os ingressos. Caridosa, uma funcionária do local, por saber de nossa condição, deu a saída: podíamos assistir ao show, mas não havia mais cadeiras; ia nos colocar no palco - assistiríamos ao show exatamente assim, em cima do palco, do lado dos músicos. E assim foi.

Lá, em cima do palco, esperando que o trio entrasse, pensei como as adversidades podem ser convertidas em benefícios. O show aconteceu perfeito, o show da minha vida. Eu ali, com Ana, sentado no minúsculo palco, há pouco mais de dois metros da banda. E as músicas de “And then Nothing Turned Itself Inside-Out” se sucedendo - uma a uma.

Uma noite inesquecível. Ainda saí com o set-list das mãos.

Corta.

A Ana saiu de casa. Nos dois últimos meses o afastamento havia sido progressivo e constante. Ninguém sabia o que tinha acontecido. Sem briga ou discussões - apenas o rompimento gradual. Precisávamos dividir as coisas, separar os CDs. Ela pediu que eu fizesse isso, já que a maioria dos discos eram meus “pré-união”. Separei os que eram dela e mais alguns que gostaria que ficassem com ela. Entre eles, o fatídico álbum em questão, “And Then Nothing Turned Itself Inside-Out. “Leva esse pra você”, falei. “Depois eu compro outro pra mim”. Não comprei. Ficou na memória a batidinha programada de “Saturday”.

Corta.

Passado um ano da separação, Ana e eu restabelecemos algum contato. Ambos fazemos aniversário em Outubro e nos cumprimentamos e saímos pra comer alguma coisa e trocamos e-mail e telefonemas. Fui levar um presente no seu aniversário e pedi emprestado o disco do Yo La Tengo. Ela emprestou, claro. Cheguei em casa, coloquei o disco em cima da mesa e ele ficou lá. Não escutei. Não queria escutar. Achei que não devia escutar. O disco ia desencadear uma série de lembranças que não queria reviver - ou não estava a fim de reviver. O disco ficou lá.

Corta.

Ligo para a Ana no sábado. Puro impulso - queria saber se estava tudo bem. Não estava. Tinha batido o carro na sexta, estava bem abalada. Foi um acidente ruim. Fiquei compadecido, nada podia fazer para ajudar. Não podia oferecer nada - apesar de querer oferecer-lhe toda companhia e bem-estar do mundo. Senti-me impotente. No mesmo sábado, meu carro velho sofre uma pane e sou obrigado a passar o feriado todo em casa, sozinho. O que se faz sem um carro?

Domingo, cuido da casa, ouço alguns discos do Cohen que compramos, eu e Ana, em Buenos Aires, numa promoção. De uma só tacada compramos sete discos do Cohen. O dólar valia um peso que valia um real. A grossa voz do canadense rolando e o disco do Yo La Tengo em cima da mesa.

Não vou ouvir essa porra, pensei.

Yo La Tengo

Vou deitar por volta das onze e fico mais de uma hora e meia lendo. Quando acho que está na hora de dormir, apago as luzes e o sono não vem. Não vem. No relógio, duas da manhã. Daqui a pouco, três.

Levanto. Nada a fazer. Morfeu nada quer comigo. Ou será alguma outra coisa? Vou até a cozinha tomar um copo d’água. O CD está lá. O CD está lá há uns vinte dias - e vou ouví-lo às três da manhã de domingo, com insônia. Preciso escrever alguma coisa.

Quando alguém gosta de música e realmente se deixa tocar pelo som e pela poesia e pela persona do artista ou do grupo ou, ainda, quando se cria algum tipo de identificação invisível entre ouvinte e o objeto artístico, aparece algo único - uma possibilidade de epifania quase religiosa. Naquele sábado, lá na Saraiva, podia ter escolhido outro disco ou comprado nenhum -, como bem dizia a razão. E tudo o que aconteceu envolvendo esse simples disquinho não teria acontecido. Provavelmente nem teríamos ido ao show. E nesse domingo insone não estaria escrevendo isso.

Bem no geral, esse disco do fala sobre verdades e mentiras. A capa tem um cara em frente a uma casa, à noite, possivelmente em contato com um disco voador - uma luz estranha incide sobre ele.

A foto lembra o surrealista Magritte. Entretanto, no parco encarte, encontramos a foto de uma pessoa com um cortador de grama fazendo um daqueles famosos e inexplicáveis círculos concêntricos em uma plantação. Aquele fenômeno que rendeu aquele ótimo filme do Shyamalan, “Sinais.

Não se pode saber o quanto de verdade existe por trás dos ETs assim como não sabemos quanto de verdade se esconde - ou se apresenta - por trás de nossos sentimentos. ETs existem? É possível! Eu amo essa mulher? É possível! Mas provar, provar mesmo, com aquela prova irrefutável, com aquele carimbo fantástico, com aquela firma reconhecida inefável… Isso é impossível!

Mas a vida da gente, diz aí meu amigo, não é uma sucessão de pequenos pedaços? Minha vida não seria mais pobre, não faltaria um pedaço, se eu deixasse de levar aquele disco naquele dia?

O amor existiu ou ainda existe? Não se sabe, não se pode saber… Em alguns momentos, como aparições fugazes de OVNIs, certamente, ele esteve lá. Ou cá. Ou em todos os lugares.

(Originalmente publicado no Tiro&Queda, republicado em 17/09/2005, no Sublinhando. Para Mônica Ribeiro)

2 comentários

#1. FM, 26/01/2008, 18:54

Olá Biajoni,
meirmnão, que relato.
Muito sensível.
Éita que texto bom sô.
Duca!!!
Que talento.
...Não vejo a hora de ler Virginia Berilin eh eh eh.

#2. Jean, 27/01/2008, 13:11

E finakmente, vc ouviu ou nãoo disco?

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