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carrie, a estranha - 1976

Publicado em 28/03/2008, às 00:09, por biajoni


“Carrie, a Estranha” é um filme que muita gente acredita ter visto um dia e que não merece revisão. Errado: é o momento de rever “Carrie”. Primeiro como um exemplo de cinema politicamente incorreto, que quase não se faz hoje em dia. Segundo, como pioneiro em falar de um tema que está em discussão a pouco, o bullying. Em terceiro lugar pelo deleite da criatividade de Brian DePalma, o Jorge Luis Borges do Oscar.

Carrie Plakat

DePalma teve duas décadas de intensa, criativa e autoral produção cinematográfica. Foi entre os anos 70 e 80 que ele dirigiu (e roteirizou e produziu a maioria) clássicos do suspense como “O Fantasma do Paraíso” (74), “Carrie” (76), “A Fúria” (78), “Vestida para Matar” (80), “Um Tiro na Noite” (81), “Scarface” (83), “Dublê de Corpo” (84), “Os Intocáveis” (87) entre filmes menores mas não desprezíveis. Desde o princípio, todos puderam observar o gosto do diretor por referências cinematográficas, especialmente de dois mestres: Hitchcock e Dario Argento. As referências todas, literárias inclusive, e muito misturadas, afastou a crítica de “O Fantasma do Paraíso”. Mas De Palma as escondeu bem demais no filme seguinte, “Carrie”. “A Fúria” explorou elementos herdados de “Carrie”, que foi um grande sucesso e tem pouca originalidade, apesar de ser um precursor do que Cronenberg faria depois com “Scanners” (81). A partir de “Vestida para Matar”, porém, DePalma assumiu seu referencial – e não o esconde em entrevistas. Porém, expande as possibilidades hitchcockianas por conta, especialmente, do aparato técnico à mão. Mesmo com toda genialidade dos roteiros, da direção e dos, digamos, tributos embutidos, nunca DePalma foi indicado ao Oscar. Nunca.

“Carrie”, que muitos consideram seu filme inicial, merecia uma indicação, num ano que premiou “Rocky” e tinha “Taxi Driver” como indicado. Scorsese, diga-se, é grande amigo de DePalma, também vive de referências cinematográficas e só recebeu uma estatueta no ano passado, por “Os Infiltrados”. As atrizes de “Carrie” ganharam indicações, Sissy Spacek e Piper Laurie. Acho que podemos considerar que “Carrie” e “Taxi Driver” foram os primeiros filmes de Spacek e Jodie Foster, pois não?

Se “Carrie” indicou suas atrizes e dois anos antes “O Fantasma do Paraíso” tinha recebido uma indicação para trilha sonora, a partir de 1976, quando aparece com toda retumbante força em “Carrie”, DePalma é renegado ao ostracismo do prêmio americano maior. Os seus filmes posteriores, não tiveram uma sequer indicação ao Oscar. Nem a originalíssima trama de “Vestida para Matar”, nem o perfeito roteiro e direção de “Um Tiro na Noite”, nem o Al Pacino de “Scarface”, nem o irrepreensível ritmo de “Dublê de Corpo” mereceram uma única indicação. Só em 1987, com “Os Intocáveis”, decidiram dar um prêmio para Sean Connery e indicaram Ennio Morricone, que não ganhou. O ostracismo segue até hoje, de todos os filmes posteriores (que se não foram geniais, foram OK), um filme de De Palma apenas conseguiu uma indicação, para o diretor de fotografia Vilmos Zsigmond, de “Dália Negra”.

O que motiva a Academia a ignorar DePalma?

Algum tipo de “maldição” por Carrie?

Pode ser. “Carrie” é o primeiro livro de Stephen King; sofreu censura e repreensão de grupos religiosos quando foi lançado, em 1974. Adapta-lo para o cinema foi um desafio para De Palma e para o terrível roteirista Larry Cohen – mas eles estavam determinados a levar a história da garota dominada pela mãe fanática religiosa (você imagina um filme com uma mãe castradora-fanática-religiosa hoje em dia?) que acaba sendo provocada pelas colegas de colégio e se vinga com um banho de sangue promovido por sua capacidade telecinética. Ufa! Apesar do plot fantástico, a história é genialmente crível; temos a certeza que um comportamento castrador como o da mãe de Carrie pode detonar poderes ocultos. Bem, vemos isso acontecer diariamente nos noticiários, não é?, com fanáticos explodindo coisas e a si mesmos!

Grupos religiosos (quem mais?) divulgaram que o filme mostrava a religião como algo prejudicial. Estamos em 1976, Richard Dawkins devia freqüentar cinemas.

Sabemos que os grupos por trás dos grandes estúdios simplesmente odeiam polêmicas com lideranças religiosas, lembremos que Scorsese teve um dissabor com “A Última Tentação de Cristo” (88). Podem esses grupos terem renegados ambos a alguma espécie de limbo oscariano?

Não sei, não importa. “Carrie” tem essa presença constante da opressão religiosa como elemento causador, mas não só isso: deve ser o primeiro filme a explorar de maneira dramática (e tendendo ao horror, como bem deveria ser) o bullying. A cena inicial mostra um grupo de garotas num chuveiro coletivo, quando Carrie começa a menstruar pela primeira vez. Os filmes de DePalma têm cenas de chuveiro, sempre em referência a “Psicose”. Nesta cena, Carrie não sabe o que está acontecendo, a mãe não lhe contou sobre a menstruação. Assustada, ela recorre às amigas que caçoam dela, da ignorância dela, e atiram absorventes sobre ela. A montagem da cena pode mesmo lembrar do clássico de Hitchcock: ao invés da faca de Norman Bates temos o macio igualmente machucante de absorventes atirados por ninfetas. Não por acaso, o colégio tem o nome de “Bates High”.

Cinematograficamente falando, se DePalma estava deslumbrado com a descoberta do splitscreen em “O Fantasma do Paraíso”, em “Carrie” ele o usa com comedimento, apenas no momento de real tensão. É uma demonstração de total domínio da arte. Ele recorre ainda ao slowmotion como recurso dramático, mas quem pode dizer que isso não é extremamente funcional num filme de terror?

Temos em “Carrie” a transgressão de conteúdo com grande domínio de técnica narrativa e atualidade dramática, com grandes atores (é o primeiro papel de verdade de John Travolta) e verdade estética.

O que você procura num grande filme?

5 comentários

#1. John Coffey, 28/03/2008, 15:46

Eu tenho livro Carrie em casa, mas concordo inteiramente que o filme é excelente!!!

Eu vi quando era moleque num dos Super cines da vida.

Post excelente! Assim como o resto do blog!

Algumas coisas aqui eu vi várias vezes, como o “Body Snatchers” e os clássicos do Bruce Lee!

Abração!

#2. Serbão, 29/03/2008, 01:28

Bia , Carrie é ótimo. a sequencia final é antológica. e tem a sra. Bruno Barreto nele.
uma duvida: o Bugsy Malone é antes ou depois de Taxi Driver???
a Jodie Foster tá nele, pequetita.
um abraço!

#3. Biajoni, 29/03/2008, 10:25

serbone, pelo que me lembro, os dois filmes foram rodados quase simultaneamente, lançados juntos - bem diferentes, vai dizer?
...
eu adoro bugsy malone, assisti incontáveis vezes em vídeo, sabia as músicas de cor.
:>)

#4. Gabi, 30/03/2008, 14:09

Tanto concordo com os argumentos, que esse filme já está em minha DVDteca a alguns bons meses!
Baccios!!
Gabyte!

#5. Clarisse, 04/04/2008, 10:38

Já que é fã de Carrie recomendo um novinho que acabei de assistir. Se chama A L' interieur com a Beatrice Dalle no papel de uma psicopata que quer roubar o bebê de uma grávida. Nossa, quanto sangue!

Gostei do blog. Voltarei...
Abraço,
Clarisse

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