No início das videolocadoras, lá pros anos de 1982, quando o VHS ainda disputava com o Betamax, a gente encontrava uns filmes dos quais nunca mais ouviríamos falar.

Geralmente eram filmes B, mal e porcamente dublados. Aprendi um pouco de inglês assistindo a esses filmes, prestando atenção nas falas, tentando entender o que os atores diziam, já que não podia ser aquilo que mostravam as legendas.

Na TV passava coisa melhor do que achávamos nas locadoras - e quando falamos em TV, devemos lembrar que não havia mais que 5 canais abertos. Algumas locadoras GRAVAVAM filmes da TV e ofereciam aos clientes.

Um dos filmes que vi e me lembro - lembro de poucos - é “The Keep” (1983), do Michael Mann. Gostei muito; a forma, a estética do Mann já me conquistou nesse filmeco ruim…

Foi o bastante para me chamar a atenção para o próximo filme de Mann: “Manhunter” (1986). Clique neste link e veja se você conhece algum site não-oficial de algum filme tão completo.

Trata-se da primeira adaptação para o cinema de um livro de Thomas Harris, o criador de Hannibal Lecter. Na verdade, o primeiro livro de Harris: “Dragão Vermelho”.

Não sei o motivo, mas mudam, em “Manhunter”, o nome de Hannibal Lecter para Hannibal Lektor - o que não atrapalha. Quem faz o papel do canibal é o excelente Brian Cox que certamente serviu de inspiração para Anthony Hopkins compor o personagem definitivamente a partir de “Silêncio dos Inocentes“.

Manhunter Lektor

William Petersen é Will Grahan, o agente do FBI que perseguiu e prendeu Lecter (ou Lektor) e ficou traumatizado - papel que Edward Norton não conseguiu encarnar no remake de Brett Ratner. O serial-killer Francis Dollarhyde é do ator/roteirista/diretor Tom Noonan - e Ralph Fienes não chega aos seus pés no novo “Dragão Vermelho“.

A principal diferença desse filme dentro da série pós-Silêncio dos Inocentes é… a luz.

Mann faz um filme luminoso, contrastando com o interior sombrio dos personagens. É a mesma fotografia da série criada por Mann, “Miami Vice”. Jonathan Demme fez um “negativo” do filme de Mann, em “Silêncio dos Inocentes”… Em “Manhunter” a prisão de Lecter é limpa, branca, asséptica, ao contrário da sombria catacumba de Hopkins.

É engraçado… talvez por ter visto primeiro o filme de Mann, leio os livros de Harris com essa estética em mente, e não aquela escura, quando Lecter se esgueira pelas sombras da noite.
Lecter não é um vampiro, não parece ser um sujeito que precisa do escuro.

Senti que um pouco dessa estética foi resgatada com o último filme da série, que conta, na verdade, a infância/juventude do canibal; “Hannibal - A Origem do Mal“. A crítica detonou tanto o livro de Harris (que acusaram de oportunista) como o filme. O livro está longe dos momentos inspirados de Harris, mas defendo o filme. O diretor Peter Webber é o mesmo do elogiado “Moça com Brinco de Pérola“. O sujeito tem um apurado senso estético, é um cinéfilo que adora citações - algumas bastante eruditas - e começou na TV, dirigindo, inlcusive, episódios de séries. Justamente como Michael Mann.

Mas só Mann para escolher as horas mágicas certas para filmar. Webber ainda tem que treinar um pouco.

Abaixo, cenas de “Manhunter”.

Manhunter Red Dragon

Manhunter Crime

Manhunter Bill

William L Petersen Will Graham Learjet

Manhunter Lektor2