“Mortos de Fome” é um filme de terror incomum, já que tudo nele parece meio fora de lugar. Estamos em 1847, durante a disputa entre norte-americanos e mexicanos pela fronteira e anexação do Texas, um ano especialmente mais frio nas Serras Nevadas. Temos um herói de guerra que é, na verdade, um covarde. Um comandante que come carne humana. Um acampamento, o Forte Spencer, com tipos peculiares: um médico alcoólatra, um casal de índios, desiludidos desnorteados com algum espírito bravio. Visto de longe, o filme parece um fumetti onde Ken Parker encontra Dylan Dog.

Ravenous

Mas temos ali também dois grandes atores, Guy Pearce e Robert Carlyle, apoiados em David Arquette, Jeremy Davies e Jeffrey Jones. Grande quinteto, vai dizer?

Na bárbara trilha sonora, que parece igualmente estranha e deslocada, casando perfeitamente com o conjunto todo, temos Michael Nyman e Damon Albarn. O primeiro é o prolífico compositor de trilhas cult como alguns Greenaway, “O Piano” e “Gattaca”. O segundo é vocalista e líder do Blur, idealizador do Gorillaz e voz e piano da banda The Good, The Bad and The Queen – uma pessoa que não se espera ver em uma trilha de filme de terror.

Bem, mas quem é o regente desse samba do criolo doido? Uma diretora fofa, que tem um pé no ativismo vegan e nos direitos dos homossexuais: Antonia Bird. Estranho, né? Não era pra funcionar. Uma vegetariana fazendo filme de canibalismo? Um filme extremamente macho, sem espaço para leituras homoeróticas? (Ah, bem, gente comendo gente, nham, nham…)

Nham Nham Nham

Pois funcionou demais, é um dos meus filmes de terror preferidos.

Antonia Bird deixou a TV brevemente para fazer 4 filmes para o cinema. O primeiro foi “O Padre”, elogiado drama sobre os dilemas de um padre gay. Depois houve uma aventura road e um policial também com Robert Carlyle. Até chegar ao assustador “Mortos de Fome”. Aí Bird voltou para a TV.

Segundo o IMDB, ela tem um novo projeto para cinema, novamente com Carlyle, uma comédia com invasores de corpos em Londres. O roteiro é de Irvine Welsh, de “Trainspotting”. Esse tipo de coisa sim, me dá medo.