O roteirista Steve Tesich ganhou o Oscar pelo seu primeiro roteiro, para o filme de disputa entre ciclistas, “Correndo Pela Vitória” (1979), de Peter Yates. O roteiro foi considerado tão bom que ganhou os principais prêmios, tornando-se um modelo para filmes de competição.

Tesich foi contratado a peso de ouro (para a época) para fazer o roteiro de um best-seller de um dos mais importantes autores americanos: “O Mundo Segundo Garp”, de John Irving. O escolhido para a direção foi George Roy Hill, que vinha de uma série de filmes de sucesso com Robert Redford e Paul Newman, como “Butch Cassidy e Sundance Kid” e “Golpe de Mestre”.

Hill estava acostumado com grandes astros, mas precisava de um “rosto sem história” para esse projeto. Garp, o personagem principal, era um sujeito estranho, estranhamente bem-humorado, um escritor que se leva a sério enquanto convive com figuras sensacionalmente hilárias. O nome escolhido foi do iniciante Robin Williams, que tinha sido o “Popeye” de Altman e vinha de aparições na TV. “O Mundo Segundo Garp” foi seu primeiro filme sem (muitas) caretas e quilos de maquiagem.

A mãe de Garp é um personagem relevante, uma feminista irascível da primeira hora, e precisavam de uma grande atriz. Uma atriz que também havia feito alguns telefilmes estava sendo muito comentada nos bastidores – e foi logo cooptada: Glen Close. Para o trio de personagens principais, para o papel da travesti Roberta, queriam um homem grande e meio desengonçado e encontraram em John Lithgow o ator perfeito.

World According To Garp

O filme acompanhou o sucesso do livro, nos EUA. Deu indicações ao Oscar para Lithgow e Close. Ambos venceram o prêmio de melhor ator e atriz da Associação dos Críticos de Los Angeles. O Oscar esqueceu de Tesich, de Hill e de Williams – mas o estrondoso sucesso do filme encobriu as possíveis mágoas.

Os atores seguiram fazendo filmes, mas Tesich e Hill praticamente jogaram as toalhas. Tesich escreveu livros e peças de teatro extremamente pessimistas, morreu em 1996. Hill fez mais dois filmes fracos e encerrou a carreira; morreu em 2002 de complicações do mal de Parkinson.

O que acho mais estranho nesse filme é que parece que ninguém o viu. Parece um filme invisível, que as pessoas sabem que existe (ou existiu) mas que ninguém viu. O fato do livro não ser tão conhecido no Brasil é compreensível; Irving não conseguiu por aqui os medianos êxitos de Wolfe, Mailer e Updike – o pessoalzinho da sua geração. Mas um filme tão bem realizado, com atores soberbos, roteiro inteligente… por quê não foi visto, não pode ser encontrado nas locadoras? Outra: quase não se acha cenas, trechos, textos sobre o filme na internet. Estranho, não? Nem mesmo a bela sequência de abertura eu consegui encontrar no YouTube.

É um filme invisível que eu me orgulho de ter visto um dia na TV – e de ter ainda fresco na memória.