Você sabe que “Apocalipse Now” ganhou a Palma de Ouro em 1979.
Mas você sabe que um filme empatou com a obra-prima de Coppola?
É a obra-prima,  à mesma altura de “Apocalipse Now”, de Volker Schlöndorff, baseada na obra-prima do Nobel Günter Grass, “O Tambor”.

Antes de falar do filme em si, algumas curiosidades…
Além da Palma, “O Tambor” venceu o Oscar de filme estrangeiro (1980).
Além do próprio diretor e de Grass, o roteiro contou com a mão de Jean-Claude Carrière.
O filme traz uma curiosa participação de Charlez Aznavour e uma brilhante atuação de Mario Adorf, incansável ator alemão (nascido na Suiça), que persigo por aí.

Porém, o filme é do jovem David Bennent, que faz Oskar, o personagem principal.
Bennent tinha 11 anos quando filmou “O Tambor”, nunca mais fez nada parecido. É o típico caso de personagem talhado para o ator naquele exato momento.
O ator-mirim encarna Oskar ainda no útero da mãe. Ao completar 3 anos, decide parar de crescer.
Isso mesmo, o garoto decide parar de crescer.
Estamos na Polônia, em plena Segunda Guerra, e Oskar só faz tocar o seu tambor e soltar gritos estridentes que têm o poder de quebrar coisas.
Dotade de extrema inteligência, Oskar pretende alertar seus contemporâneos para as desgraças que estão por vir com o nazismo.
Ninguém o ouve.

Tambor 1

Difícil explicar o impacto que “O Tambor” teve sobre mim.
Eu me lembro de estar, muito jovem, talvez criança, sentado no sofá de casa e começar a ver o filme por acaso.
As coisas acontecem rápido no filme (e também no livro) e em poucos minutos acontece a decisão de Oskar de não mais crescer.
Aquilo me pegou de surpresa.
Já tinha achado estranho as imagens iniciais, de Oskar no útero da mãe, consciente do que estava acontecendo.

Quando o garoto revela seu talento vitricida, alucinei.
Talvez eu desejasse ser Oskar, ter aquele talento, não mais crescer.
Talvez tenha conseguido um pouco.
Muito me espelhei em Oskar, até soltar alguma espécie de grito e quebrar o espelho onde eu em mim me refletia.

Foi também, portanto, o tipo de filme que se vê num momento específico.
Às vezes tenho receio de rever e perder em mim o encanto que ele causou.
Comprei-o recentemente por uma bagatela. Ainda não revi.
Espero uma ocasião para ver com Isabelle e Dudu - meu filhos.
Talvez seja importante pra eles.
Ou não.
Talvez não seja importante ter ilusões de que gritos estridentes mudem algo.
Não sei.

O ápice de Volker Schlöndorff foi em “O Tambor”. Se meteu a fazer filmes épicos depois, acabou rodando filmecos em Hollywood.
Talvez esse filme tenha alguma maldição.