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MEU ENCONTRO COM JESUS (Versículo 3)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O sujeito procurava limpar o rosto e os cabelos com a barra da túnica. Arrepanhando as vestes, olhava a paisagem de nossa formosa cidade.

— Que coisa horrorosa! — comentou.

— Você diz isso porque não tá vendo o que eu tô vendo. Dá pra baixar o vestido?

— Onde nós estamos?

— No leito do rio, onde mais?

— Como fede! É o Estige?

— Não, embora aqui faça tanto calor quanto em algumas regiões do Inferno — expliquei e, em seguida, percebendo que o outro arregalava os olhos e temendo que ele mordesse, tivesse uma doença contagiosa ou recitasse poesia alternativa, emendei: — Infelizmente, estamos no Recife. Tô percebendo que seu sotaque é meio esquisito… Você é do Espírito Santo?

— Espírito Santo? Onde? Fala baixo que eu saí escondido.

Objetos flamejantes caindo do espaço e quase matando a gente são coisas que se administram. Já de malucos, bichos de quatro patas, atores de teatro infantil e outros seres estranhos sempre tive medo. Levantei-me e ia abrir a boca para dizer que a conversa estava muito boa, mas eu precisava ir para casa tomar meu Rivotril, quando ele anunciou, mais tranqüilo:

— Bom, finalmente consegui, então. Eia! Sus!

— Olha, se você tá machucado e não é daqui, não aconselho o SUS, não, hein?

— Enfim na Terra — interrompeu ele, caminhando para a margem. — Venha. Vamos!

— Que foi que você disse?

— Tá surdo? Posso resolver o problema com saliva. Hi, hi. Eu disse: “Vamos”.

— Pra onde?

— Pra tua casa, é claro. Nunca leu o Levítico? Sou um estrangeiro na tua terra.

— Por isso, não. Nunca leu Camus? Eu também sou. Agora me diga, ó Quincas Borba: que é que eu tenho a ver com isso?

— Eu sou Jesus, teu Salvador, abilolado. Não tá me vendo caminhar sobre as águas?

— No Capibaribe? Ha, ha, ha! Andar sobre o Capibaribe até eu!

— Tudo bem. Então, deixa ver… Você tem lepra, paralisia, alguma doença?

— Sou escritor.

— A viagem foi longa pra esse tipo de cura. Mas, acredite, eu sou Jesus.

— Dulcinea del Toboso. Prazer.

Dando provas de que apreciava Cervantes, ele não ficou satisfeito. Já começava a subir o barranco, quando se virou subitamente:

— Faça xixi!

Seu grito me lançou alguns metros para trás. Deslizei de costas no atoleiro, tapando os ouvidos latejantes.

— Xi-xi-xixi? — balbuciei, trêmulo.

— Não, só xixi tá bom.

— Mas…

— Pegue a garrafinha de uísque vazia que tem aí no bolso, encha de urina e depois beba. Na falta de água, vou transformar xixi em vinho.

— Co-como é que você sabe que eu…

— Agora!

Mais uma vez, a frase reverberou e seu bafo de ázimos me fez voar como antes e aterrissar de bunda na lama. Àquela altura, uma coisa estava clara. Quem quer que fosse aquela criatura, ela não tinha sido fruto de uma reprodução natural. Humana, não era. Advogada, talvez.

(CONTINUA AMANHÃ)

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Malagueta Nueve

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Saiu agorinha a nona edição da Revista Malagueta.

Revista Malagueta 9

Além (ou apesar) da presença deste que vos fala, revisitando um texto que já passou por aqui, também estão por lá o companheiro selvagem Diego Viana, com suas Duas Palavras, e o amigo João Barreto, com O “gozar sem entraves” e a tragédia egoísta.

Sugiro, portanto, que dêem uma olhada na pimenta toda e no bom trabalho da Renata.

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Três

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Três coisas rápidas e inúteis:

1) Mudei o header e vou mudá-lo mais uma vez.

2) Acho que vou voltar a postar diariamente e não sei bem porquê. Amanhã trago um post decente. (E sim, até isso aqui é considerado um “post”, o que torna a idéia menos interessante, eu sei.)

3) Arranjei, hoje de madrugada, um novo espaço, que vocês podem visitar clicando aqui. Em poucas palavras, pois prometi ser rápido, é um agregador de coisas julgo interessantes e que não caberiam nesse blog, um indexador de boas músicas que encontro nas rádios do Last.fm e outras coisas musicofotográficas que se encaixem nessa proposta. Sendo ainda mais sintético: quando você estiver sem saco pra leitura, passe lá.

Pronto. É isso.

E passe lá.

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31

segunda-feira, 31 de março de 2008

O leitor atento deve ter notado que costumo recorrer à figura do leitor atento para revelar algo que eu gostaria que qualquer pessoa não-tão-atenta pudesse ter notado — o que nem sempre acontece; ou pelo menos eu não sei quando acontece.

De qualquer forma, o folclórico leitor atento — que em meu delírio é também bastante assíduo, quase obsecado, para reduzir essa anormalidade numa só palavra — deve ter notado um acréscimo na freqüência de atualizações cá deste espaço. Se não, basta olhar os números ali ao lado. Não que isso signifique algo realmente relevante ou que a quantidade implique na qualidade (não, não implica), mas eu o fiz justamente porque poderia fazer — e é bom dar-se ao luxo de cumprir metas insignificantes antes de partir para Everests maiores e etc. Pareceu-me legal. Fiz somente para ter o prazer bobo de olhar, pelos próximos segundos, e dizer para mim mesmo que “porra, nesse mês de março eu publiquei (estatisticamente) um post por dia!” (E é bem verdade que eu poderia ter feito isso em fevereiro, mas vocês não iam me dar tanto crédito assim, nem mesmo num ano bissexto como esse.)

Sei que esses textos mais curtos e meio soltos podem interessar menos do que os mais longos e articulados, mas estes me cansam um pouco e aqueles me divertem mais.

Não pretendo, no entanto, manter o embalo que adquiri nesses dias: a simples idéia de um compromisso diário me enfada por antecipação. Já cumpri essa meta simbólica. Agora partirei para outras, que podem ir desde postar somente nos dias pares ou nos ímpares, nos que coincidem com os números do Lost ou nos múltiplos de 19. Ainda vou me decidir, mas é bem provável que só o farei quando estiver afim — como é o natural.

Ainda em defesa dos textos curtos, posso dizer que eu os julgo interessantes não só pela comodidade de quem os escreve, mas pelo tipo de impacto que causa no leitor. Desnecessário dizer que eu escrevo justamente o que eu gostaria de ler (parece-me óbvio que todos também fazem isso… é o mínimo que se espera de vocês, colegas) e quando esbarro com esse tipo de coisa por aí, rápido, informal e sem vontade de agradar, leio com prazer — geralmente discordando, mas discordando gostoso. E quando o meu leitor de feeds se enche de textos cujos autores que não conseguem deixar de lado a sanha (entre muitas aspas) “jornalística” de trazer os fatos à seco, tratá-los com argumentação calculada e, horror!, politicamente correta, fico, er, zangado. Não zangado zangado, mas zangado.

Esse texto, que já deixou de ser curto mas nem por isso passou a ser sério, pode ser entendido como um elogio às crônicas. Ou, sem tanta pretensão, aos causos. Não quero ficar fazendo ressalvas óbvias nem tentar expor os dois lados da coisa — porque tanto faz –, mas ficar repetindo notícias toda hora ou encaixar palavras-chave no modelo introdução-desenvolvimento-conclusão não é legal. Reanalisar o que já foi analisado à exaustão me parece um desperdício de recursos e não é algo que eu goste muito ler.

Voltando à vaca fria ou ao leitor atento que, além de não ter abandonado a leitura no meio do post, também já deve ter notado que a coerência por aqui é algo, se não volátil, consideravelmente maleável, eu posso, como já o fiz, insistir, vez ou outra, em bater nas teclas que acabei condenar. Afinal, o que seria do texto curto e pessoal sem o longo e impessoal? O que seria da coerência sem a incoerência?– vocês entenderam o espírito da coisa.

E ainda, para encerar, o que seria do mitológico leitor atento sem os leitores relapsos? Sem os pára-quedistas?

Acho que é isso.

* * *

PS: Acabo de constatar que esse tema tem um bug na hora de exibir os arquivos do blog no 31º dia do mês. Tinha visto isso acontecer em dezembro, mas achei que era por causa da mudança de ano (?). Em janeiro esqueci de olhar. Em nome da procrastinação e, claro, da análise empírica dos fatos, em 31 de maio eu provo minha teoria… Mas acreditem na minha contagem.

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Os Recém Chegados

quarta-feira, 19 de março de 2008

Há algumas semanas estou na função de administrador dos blogs do OPS! e também nesse período tivemos três valiosas importações — algumas ainda em fase de ajustes finais. O leitor perspicaz pode ter notado alguma alteração na relação de links aí ao lado, mas sinto ter de ignorar tal capacidade de percepção em prol dos visitantes mais normais e apresentar os novos comparsas de forma explícita e com a devida pompa.

São eles:

Aconselho uma visita ao três.

E aos demais aí ao lado, também, caso o leitor ainda não os conheça.

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Not to worry about it

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Os blogs do OPS saíram do ar por volta das 11h50 da manhã de hoje e só voltaram agora, às 22h30.

Tudo indicava algum erro no servidor e/ou na configuração de alguns arquivos cuja data de modificação era um pouco anterior a do início do problema, quando na verdade era apenas uma questão de permissões de uns arquivos — que ninguém alterou.

“Not to worry about it,” nos disse o sujeito do suporte.

Tudo bem, então.

A Computação é a ciência da fé.

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Eu poderia falar de gadgets, mas tenho mais o que fazer

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Eu poderia falar do aniversário de São Paulo, da morte do novo Coringa, do vereador-exorcista Cururu, dos altos e baixos das bolsas de valores, do vídeo do Tom Cruise sobre cientologia, da paródia do vídeo do Tom Cruise sobre cientologia, dos peitos recém siliconados daquela argentina que encontrou uma maleta cheia de grana, do mais novo lançamento da Apple ou até mesmo do novo favicon do Google Reader. Eu poderia, também, começar a falar de gadgets, não parar de falar gadgets, dizer tudo sobre os novos e tão esperados gadgets e repetir o que os outros andam dizendo sobre esses mesmos gadgets.

Porra, eu poderia falar do Big Brother, eu poderia citar 1984 também, eu poderia falar dos peitos também siliconados de alguma interna desse programa que eu não assisto (e isso não faz diferença, pois para dissimular meu desconhecimento eu poderia falar um pouco sobre… gadgets).

(E eu poderia encher de links os dois parágrafos anteriores para ganhar um certo respeito pelo número de referências que acabei descobrindo numa longa leitura de algumas centenas de itens acumulados de pouco mais de uma centena de feeds de blogs e sites que não faziam mais do que falar de tudo o que eu poderia falar, mas não vou.)

Eu poderia, e talvez fosse até interessante, falar dos filmes que assisti esse mês (em ordem: O Grande Êxtase do Entalhador Steiner, Blowup, I’m Not There, Jango, Redentor, Os Infiltrados, Oldboy, The Cook the Thief His Wife & Her Lover e Jesus Camp), dos livros que li (Ereções, Ejaculações e Exibicionismos (ou Crônicas de um Amor Louco, parte 1), do Bukowski e A Hora da Estrela, da Clarice Lispector), dos livros que estou lendo (Maiakóvski e um chamado Queda Livre), da série que terminei de assistir hoje cujo penúltimo episódio foi ao ar há exatos 40 anos, do texto que venho escrevendo e que já me tomou um tempo 400% maior do que eu tinha em mente ou de outras tantas negligências musicais, literárias, sociais e, claro, bloguísticas.

Aliás, eu poderia falar sobre o que todo e qualquer dono de blog (e o termo blogueiro soa como algo inferiorizador), o que todo e qualquer dono de blog sabe fazer, e o faz com propriedade e não necessariamente com originalidade, que é falar de si mesmo e do próprio espaço — e de gadgets, que é um assunto corriqueiro. Poderia também reclamar da falta de tempo, da responsabilidade e periodicidade que nos é subconscientemente exigida nesse mundo tão rápido e cheio de informações, em geral, fúteis. Eu poderia falar de compromisso, de interação, de conhecimento e, claro!, da mística e supostamente expressiva blogosfera — ah, disso eu já falei, e mal; procurem o link aí nos arquivos.

Ora, eu poderia comentar de modo mais profundo sobre tudo isso que ficou mais ou menos subentendido aqui, mas a verdade é que pouco importa (o único link que lamento não poder citar, por pura preguiça, é de um sujeito, de algum blog que já não lembro mais qual é, que comentou que hoje em dia não se faz mais nada de original, nada novo, estamos nessa onda do remake e da aposta constante em fórmulas que já deram certo, o que, de certo modo, é o mesmo que acontece com os blogs — pura repetição. Então, ao autor desse artigo que li, sinta-se citado.)

Aproveito para dizer que a pressa, o descaso, a falta de links e de formatação (acho que um itálico cairia bem nos gadgets e nos títulos do filmes e livros), assim como o excesso de parênteses, se devem a uma insatisfação que, roubando uma frase da Olivia dita via twitter, pode ser resumida mais ou menos assim: os blogs andam muito chatos (ou qualquer coisa nessa linha).

(E acabo de perceber que o título do post é, ao mesmo tempo, um bom resumo e um bom encerramento, não é? Então encerro.)

Buscas Balanceadas

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Meu texto de hoje pro Selvagem:

Privacidade Ilusória

Google Big Brother

As palavras que entramos nos campos de pesquisa dos mecanismos de busca não servem só apenas para encontrarmos aquilo que procuramos, mas também para enriquecer bancos de dados e auxiliar na construção de perfis de usuários que utilizam estes serviços.

Leia o texto completo

Uma dica que não pus lá (aliás, não pus dica nenhuma), mas que você pode seguir para evitar que, com base nas buscas que você faz, eles sejam capazes de obter seu perfil e saber de todos os seus gostos e interesses, é tentar enganá-los “balanceando” suas pesquisas: quando você buscar por hot naked teens no Google, por exemplo, faça, logo depois, uma outra busca por, digamos, cold dressed old ladies. Eles vão enlouquecer.

Fim de ano sempre vem cheio de desculpas

domingo, 30 de dezembro de 2007

E comigo não será diferente, embora a minha desculpa não tenha nada a ver com festas, viagens ou compras de artigos para fazer simpatias ridículas na virada do ano.

O que acontece é que estou há quatro dias trabalhando em cerca de vinte páginas, um texto que deve ficar pronto até amanhã — em verdade, é um prazo simbólico, mas o estou levando muito a sério. Logo, me vejo na obrigação de roubar o tempo de outras atividades, uma vez que divisão organizada de tarefas não é comigo.

(Talvez eu venha a postar o resultado do esforço desses dias lá na Catarse, que, tadinha, anda muito parada, mas ainda é cedo demais. O que estou fazendo entre esses parênteses é, de fato, uma propaganda sem vergonha.)

E como este provavelmente será o último post do ano, escolhi alguns textos interessantes que escrevi em meio a essa bobagem toda para dar uma pequena ênfase e satisfazer as necessidades do visitantes. Algo como uma retrospectiva egocêntrica:

(Dê uma olhadinha no Selvagem também, vá saber. Ou, talvez, num curta-metragem…)

Portanto, tenho quase certeza que pelo menos um dos posts listados acima (de acordo com a data de publicação) irão interessar o leitor. Se não, desculpe, mas no momento não posso fazer mais nada. Fui bem generoso comigo mesmo ao fazer essa listagem, como pode perceber, então leia com carinho, sim?

Em todo caso, eis aqui o melhor post de fim de ano que “li” até agora. Hors concours.

Outro para o Selvagem

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Além de comer e beber, aproveitei a calmaria natalina para escrever meu artigo dessa semana para O Pensador Selvagem. Aliás, não poderia ser de outra forma, pois eu deixei pra última hora mesmo.

Dêem um pulo até lá e leiam. Segue o comecinho:

Blogosfera, um Delírio

“Blogosfera”, essa palavra tão utilizada para se referir ao grande e emergente universo dos blogs, foi cunhada em 1999 como uma piada. Dois anos depois, o termo foi forjado novamente, dessa vez com mais seriedade, mas muitos preferiram continuar achando graça da coisa. Derivado de logosfera, que se refere ao mundo da língua, da palavra, e já bem consolidado entre os blogs, o termo ainda é capaz de arrancar sorrisos dos mais atentos.

Continue lendo…

É isso.

Dois Artigos para o Selvagem

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Quase esqueci de avisar: cá estão dois artigos que escrevi para a seção de Cibercultura d’O Pensador Selvagem:

A princípio, escrevo por lá às quartas. Quando não tiverem nada melhor para fazer, dêem uma olhadinha, sim?

Vou tentar seduzí-los com um trechinho do artigo de hoje:

Alzheimer Digital

«Vivemos em um mundo onde todo nosso conhecimento está guardado em arquivos binários de formato desconhecido. Se nossos documentos são nossa memória incorporada, a Microsoft ainda nos mantém condenados ao Alzheimer.»

A frase acima é de Simon Phipps, funcionário da empresa californiana Sun, e que levanta uma questão importante: se quisermos continuar acessando dados armazenados em formatos proprietários, é melhor torcermos para que as empresas responsáveis por eles continuem existindo.

E então? O artigo inteiro está aqui, leiam.

Nasce o Filho de Múltiplos Pais!

domingo, 9 de dezembro de 2007

O Pensador Selvagem

Depois de muita espera e suspense, eis O Pensador Selvagem!

Leia aqui o editorial do lançamento.

Saravá!