Blackadder (1983 - 1989)

Não conhecia Rowan Atkinson para além de seus papéis de comicidade suspeita, mas o cara não era apenas bom como Blackadder, ele era ótimo. Outro tipinho extraordinário era o, até então desconhecido por mim, Tony Robinson na pele do impagável Baldrick (aka I have a cunning plan).
O seriado que entra fácil nas listas das melhores sitcoms de todos os tempos foi dividido em quatro temporadas, todas protagonizadas por um Blackadder em algum período da história:
The Black Adder (1983): O período em que se passa é fins do século XV. Nem Fry, nem Laurie participaram desta, mas o pai-de-todo-mundo-cômico-inglês Peter Cook participa e isso não é pouca coisa. Ninguém conhece Rowan Atkinson até ver isto, é verdadeiramente genial.
Blackadder II (1986): Se passa em tempos de Elizabeth I. Aqui Fry é um dos atores principais e Laurie é ator convidado. Miranda Richardson e e Rik “WOOF WOOF” Mayall também fazem parte da trupe e a série continua engraçadíssima.
Blackadder The Third (1987): O tempo é do louco Rei George, Laurie interpreta seu filho e Fry é o ator convidado desta vez. Robbie Coltrane dá as caras e o seriado continua a gerar gargalhadas sinceras.
Blackadder Goes Forth (1989): O período é da primeira guerra mundial, tanto Fry quanto Laurie são atores fixos. O conteúdo antibelicista e kick-your-ass em seu ápice, o final da temporada chega ser mesmo depressivo. Miranda Richardson e Rik Mayall voltam a fazer uma participação.
Especial Blackadder: The Cavalier Years (1988): Especial para o Comic Relief em tempos de Cromwell , o atual Príncipe Charles (que é assumidamente fã de Fry & Laurie) é satirizado por Fry e Laurie faz figuração só para marcar presença.
Especial Blackadder’s Christmas Carol (1988): Especial de natal cínico em cima de Charles Dickens. Fry & Laurie, Jim Broadbent, Miriam Margolyes, Robbie Coltrane (já fantasiado de Hagrid) e Miranda Richardson participam.
Especial Blackadder Back and Forth (1999): Esse especial soa como uma grande homenagem às temporadas passadas, Fry & Laurie se sobressaem como duas divas romanas loiras e de mini-saia durante o Grande Império. Colin Firth, Miranda Richardson e Kate Moss participam.
Jeeves and Wooster (1990 - 1993)

Este é um seriado de classe. Literalmente de classe. Lembro-me de ter lido em algum lugar que ao se mencionar a criação desse seriado falou-se o quão disparatada era a idéia de transpôr a obra de Wodehouse para a tv, mesmo para a televisão britânica, e em pleno anos 90.
Por volta dos anos 20/30, a vida do milionário britânico Bertie Wooster gira em torno de arrumar os relacionamentos dos amigos e fazê-los casar - praticamente uma alcoviteira, mas quando é mencionado um casamento para si próprio entra em pânico, para consertar todos os seus planos mirabolantes que jamais dão certo existe seu brilhante mordomo Jeeves.
Wodehouse é preciso ser lido, ouvido e visto, estranhamente há poucos grandes escritores cômicos no mundo e Wodehouse é um deles, seu estilo é de uma elegância incomparável, ele extrai das pequenas mazelas da vida um mundo. Mas tudo isso pode ser meio suspeito de minha parte, já que para me fazer feliz é só entregar em minhas mãos um livro escrito entre 1880 e 1930, mas é sinceramente delicioso e faz-me falta ficar longe de Jeeves e Wooster, seja na versão escrita ou na versão televisiva.
Por ser fã de Wodehouse e desse seriado, Douglas Adams escolheu a dedo Fry & Laurie para encarnarem a voz do Guia e Arthur Dent, respectivamente, na versão cinematográfica de sua obra prima, mas quando Adams morreu (o fdp morreu demasiadamente jovem) e a produção mudou de rumo, apenas Fry permaneceu como a voz do Guia do Mochileiro das Galáxias, o que foi uma pena, pois Laurie nasceu para interpretar Arthur Dent, que pode ser considerado um descendente de Bertie Wooster enquanto que o Guia é a versão tecnológica de Jeeves.
Um artigo que Laurie escreveu no fim dos anos 90 ficou famosíssimo em virtude das considerações feitas de como Wodehouse pôde salvar uma vida, no caso a dele, pois sofre de depressão (em compensação o House não faz muito bem para Laurie e teve que intensificar o seu tratamento). Fry é bipolar, assim como Peter Sellers e John Cleese, é quase que uma maldição todos os gênios cômicos da Inglaterra sofrerem de algum transtorno mental.
A Bit of Fry and Laurie (1987-1995)

Isso é uma verdadeira maravilha, por esse programa Fry & Laurie chegaram a ser comparados aos míticos Peter Cook & Dudley Moore nos anos 60, o que não é pouca coisa. A meta aqui ainda é a rebuscada linguagem cômica inglesa com seus jogos de semântica e sintaxe, como disse o próprio Laurie quando participou do SNL americano: “Não farei aqui piadas britânicas porque vocês demorarão dois dias para entender”, afinal comicidade britânica é mais estilo de linguagem do que qualquer outra coisa, claro que o ato de derrubar a quarta parede é um dos métodos mais usados e que constroem os melhores sketchs do programa.
Mas nada, nada suplanta um sketch em que Laurie encarna um tipo Clint Eastwood misturado a Steve McQueen (não por acaso ambos são ídolos seus), ele chega até a ficar fisicamente parecido, é claro que o seu formato de rosto, nariz e olhos ajudam mas o seu domínio da expressão facial é quase que assustador. Em compensação desfaleço porque Stephen Fry é o professor de linguística no melhor estilo sonho de consumo que sempre quis. Esses dois sketches podem mostrar o que os fazem diferentes e complementares, Fry é mais gênio e Laurie é mais ator, Fry é cérebro e Laurie é corpo. Enquanto Fry se sobressai onde se use exclusivamente a mente, Laurie é empurrado para uma genialidade que necessita da coordenação motora como a música e as suas qualidades de ator completo.
Nota 1: Bloody hell. Assistir tudo isso me deu uma compulsão incrível por chá. E nem é por sempre ter achado Earl Grey o chá mais saboroso do mundo.
Nota 2: É claro que existem mais infinitos trabalhos de Fry com Laurie espalhados por aí, seja no cinema ou principalmente na tv, mas esses 3 são os principais. Inclusive há o Afresco, uma das primeiras coisas pós Footlights Group. Footlights Group era uma turma de teatro de Cambridge onde Stephen Fry fora apresentado a Hugh Laurie por Emma Thompson, tal grupo é lendário por boa parte do Monty Python ter se conhecido neste mesmo grupo anos antes. Típico “feitos um para o outro”.
Vejam Fry & Laurie entregando o “prêmio” The Silver Dick ao ídolo John Cleese:
Nota 3: Deixe-me exaltar um pouco a Stephen Fry… O cara é um típico cara renascentista, aquele cara que sabe tudo de tudo mas de forma alguma é afetado por isso, muito pelo contrário, ele é um desses casos raros que jamais usam o seu conhecimento com o intuito de ferir alguém, ele poderia cortar gargantas com uma reles frase, mas não o faz. E, convenhamos, é lindo ver pessoas assim por aí ainda, já que isso é considerado completamente fora de moda (bom, isso também pode ser chamado convenientemente de maturidade).
Lembram daquela música do Zeca Baleiro chamada “Por onde andará Stephen Fry?”, ela é baseada num famoso episódio de sua vida, onde Fry desapareceu da face da terra por alguns dias devido a uma crise bipolar, então fica a recomendação do excelente documentário conduzido por Fry: The Secret Life of the Manic Depressive. Bacana ver pessoas fazendo algo para “aclarar” um pouco com a sua própria experiência as mazelas dos diagnosticados com algum tipo de transtorno de personalidade ou de afetividade. O interessante é que durante minha “pesquisa” em torno de “A Bit of Fry and Laurie” pude notar alguns sketches em que ele brincava com a própria doença, onde Fry dava aquelas aulas frenéticas de sapiência e verborragia para de repente se deprimir.
Nota despropositada do dia: Neste exato momento acaba de passar um bêbado na rua gritanto “Eu sou Escócia, Inglaterra não, eu sou Escócia! Freedom!”, a revolução começa aqui, a independência da Escócia está nas mãos dos brasileiros agora. Feriado da Paixão é uma coisa linda, não?
Categorias: ANOS 80, ANOS 90, COMÉDIA, SERIADOS.
Tags: HUGH LAURIE, STEPHEN FRY.
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