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Scarlett & Travolta: desajuste, canção de amor

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Tenho pesquisado sobre cinema e literatura, duas artes que se correspondem porque vivem das histórias, da subjetividade explícita, e muitas vezes da íntima poesia que as ilumina. Tenho lido um bocado sobre o papel de um criador - seja ele social, político, estético ou puramente lúdico. Viver a própria literatura é o sonho secreto de qualquer escritor, mesmo daqueles que não assumem ter esse desejo. É disso que trata Uma Canção de Amor para Bobby Long, filme de 2004, dirigido por Shainee Gabel, que revi da melhor forma de se rever um filme: como se inédito fosse.

Cancao De Amor Para Bobby Long Poster03

É um filme sobre desajuste e redenção, dois substantivos que se comunicam, quase que inevitavelmente, por conta da literatura. John Travolta interpreta o tal Bobby do título, um bebum que manja literatura como poucos e que se relaciona com o mundo - em especial com seu pupilo/amigo/biógrafo, interpretado com competência por Gabriel Macht - por meio de citações dos titãs da poesia e da prosa. É um homem triste e melancólico cuja morte do grande amor - uma cantora - proporciona-lhe conhecer Purslane Will, adolescente interpretada por Scarlett Johansson (ainda um pouco crua, mas ótima de se ver).

Carson McCullers, a extraordinária escritora norte-americana, é sutilmente evocada em todo o filme. Autora do ótimo O Coração é um Caçador Solitário - um romance sobre desajustes -, é leitura preferida de Bobby, além de representar a perene ligação com seu grande amor (a cantora), que criou, para ele, uma música com esse título. O romance (excelente, repito), além de outros personagens, traz uma adolescente Mick e o surdo-mudo John Singer, ambos desajustados, mas cada um à sua maneira. Intertextualidade pura, e bem feita.

O desfecho é previsível? Mais ou menos - mas não é ele que conta, e sim a história de amor e companheirismo, aquela cumplicidade que se mantém coesa quando há algo maior que os desajustes da própria vida: a arte em si, e mais especificamente a literatura. E há a trilha sonora: um caso à parte. Todo o filme se passa em New Orleans (muita chuva e muita música) - dá para imaginar o que rola.

Uma+can%C3%A7%C3%A3o+de+amor+para

Nada me tira do sério como um filme picareta

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Fogueira Para Um Mau Filme
Minha maior dificuldade na hora de falar de filmes que vi, livros que li, músicas que escutei e por aí vai é que não consigo ser elegante quando me sinto agredido pelo autor. Friso que isso é diferente de não gostar: posso sair de uma sessão com a impressão de que aquele filme não era para mim; posso, ao terminar um livro, considerar o autor fraco e o enredo desinteressante; posso não ser atraído por um ritmo ou uma melodia. Em todos esses casos, até que tudo bem. Não gostei e ponto; que outros gostem, não faz mal, e viva a democracia.

Coisa muito diversa é quando fica patente, ao subirem os letreiros (no caso do cinema), que alguém ali quis me fazer de otário. Pode ser o diretor, o roteirista, o protagonista, pouco importa. Aceito com o coração aberto uma produção pobre, até mesmo, em alguns casos, descuidada. Pontos de vista estéticos, mesmo filosóficos, muito diferentes dos meus, idem. Picaretagem e cretinice, jamais.

Mas nem sempre a gente vai ao cinema sozinho. Podemos ir, vamos supor, com a namorada e um grupo de amigos. Podemos ser todos confrontados, juntos, com um filme que não tem o menor respeito por nossa inteligência, paciência, tempo, dinheiro, enumere o que quiser. Podemos todos sair revoltados da sala, querendo o sangue de quem cometeu o crime e de quem o financiou (grande chance de terem sido nossos impostos). Mas, como estamos do outro lado do oceano, não podemos fazer nada. Sob efeito da irritação, a namorada e os amigos só podem se voltar para você e inquirir:

- E então, blogueiro? Vai escrever o quê sobre essa maravilha?

Você explica aquilo que eu já disse: não consigo ser elegante ao desancar um filme. Tampouco estou disposto a abrir mão da elegância. Melhor calar, principalmente porque o filme em questão merece todos os adjetivos impublicáveis que eu poderia elencar. A namorada e os amigos fazem cara feia. Insistem, você se nega. Finalmente, cede um pouco, promete pensar, mas só na esperança de que eles esqueçam o assunto.

Pobre esperança! No dia seguinte, os amigos voltam à carga. Pensou? Escreveu? Você fica encabulado ao admitir que não. As massas, que é o que você gostaria que fossem sua namorada e seus dois ou três amigos, o conclamam a deixar de tolices e descer a lenha no tal do filme. Você, que é inflexível como chiclete, acaba cedendo.

Muito bem, chega de nariz de cera: depois de ver A Via Láctea, juro pelo asfalto da Paulista que nunca mais assistirei a um filme de Marco Ricca. Não vou chegar a desejar, como esbravejou uma desconhecida na poltrona à minha frente, que ele queime lenta e dolorosamente nas chamas do inferno. Verdade que algo parecido chegou a passar pela minha cabeça, mas é demais. Ou sou eu que sou condescendente demais. Por outro lado, bem que os negativos desse filme podiam queimar, e nem precisa ser no inferno. Basta que eu não corra o risco de, um dia, sem querer, topar com um trecho na televisão.

Não sei o que me levou a trocar um dia de sol no cais do Sena por um filme do Marco Ricca. Por acaso eu não sabia que ele é uma espécie de anti-Midas cinematográfico? Aliás, teatral também. Tudo em que mete a mão vira lixo, para não usar um termo deselegante demais. O problema é que, de uns tempos para cá, a figura resolveu se meter a fazer filmes intelichentes. Por quê, meu Deus?

Assim como no último, Crime delicado, o próprio Ricca interpreta um cara intelichente e atormenta-a-a-ado, pobrezinho. Mas é praticamente a mesma pessoa, para não dizer que é o próprio Ricca. No outro, era um crítico teatral; neste, é um escritor frustrante, isto é, frustrado. Tudo bem, a produtora é dele, o dinheiro veio sei lá de onde, mas está na mão dele e ele faz o que quiser. Pode até meter uma câmera em close em cima de si mesmo durante uma hora e meia e obrigar o público a ouvir seus poemas mal recitados enquanto perdigotos se espalham pela tela. Excelente programa, e peço perdão pela imagem um tanto repulsiva.

Desculpe estragar a surpresa do final, mas, bom… não é surpresa nenhuma, então não tem problema. A história foi a seguinte: um belo dia, alguém deve ter montado Vestido de Noiva (Nelson Rodrigues) em São Paulo, e convidado Marco Ricca para a estréia. Grande erro. Ele gostou da idéia de alguém que é atropelado e delira entre a vida e a morte. Só esqueceram de avisar a Marco Ricca que Vestido de Noiva é uma obra-prima porque Nelson Rodrigues é um gênio. E não basta enfiar no filme umas cenas metidas a poéticas, uns diálogos metidos a intelichentes, uns flash-backs e outros truques banais para tornar um filme genial e seu produtor, um gênio.

É preciso um algo a mais. E, com todo respeito à Alice Braga, que esteve bem em outros filmes, e ao sobrinho da Daniela Thomas, cujo nome me escapa, maus atores não são esse algo a mais. Trilha sonora banal e, ao mesmo tempo, metida a besta, muito menos. Uma súbita, desnecessária e muito mal executada reconstituição de época, então, nem merece comentários.

Talvez Marco Ricca tenha buscado a polêmica. Talvez para alavancar seu nome, o que explicaria que apareçam, logo ao final da última cena (talvez para não dar tempo ao púbico de escapar), estourando o tamanho da tela, as dez letras que o constituem. Como se dissessem: eis o culpado! Ecce homo, para ser tão pedante, ou melhor, intelichente quanto o filme. Mas esse desígnio também deu com os burros n’água: não há polêmica alguma, pelo menos na sessão em que estive, com uma sofredora centena de pessoas, o veredito foi unânime. Quem não se levantou a meio filme fugiu imediatamente ao final. Exceção feita, é óbvio, para os que dormiam.

Nenhum amigo lhe avisou, ao ver o copião, que o filme é vergonhoso? Que sua tentativa de se mostrar intelichente redundaria em um papelão histórico? Será que ele mesmo não percebeu? Agora estamos nós, pobres cinéfilos, obrigados a engolir um tijolo. Vendido para o mundo inteiro. Imagino o dono de uma sala de exibição estrangeira que presencie um desastre tamanho. Vai certamente pensar: “nunca mais penso em comprar um filme brasileiro…” É que o estrangeiro não sabe discernir nossas produções umas das outras. Ele não pode, como é meu caso, deixar de ver só os filmes do Marco Ricca. Vai acabar largando tudo. Uma pena.

Deixe ver se tenho mais alguma coisa a comentar sobre esses rolos de filme jogados fora… Ah, sim: antes de escrever uma cena que se passa na Livraria Francesa do centro de São Paulo, não custa dar uma passada lá. Eu sei que o centro é de difícil acesso, é feio, é sujo, é perigoso, é tudo isso e muito mais. Mas pelo menos não veríamos pessoas procurando (e o pior, encontrando) Drummond, Bandeira e João Cabral no original, numa loja que só vende Prévert, Desnos e Mallarmé. Outra solução, se a idéia era filmar lá dentro, seria simplesmente não dar um close no painel da loja. Pode parecer intelichente ter no filme um diálogo na Livraria Francesa. Mas, puxa, com uma gafe dessas, acaba ficando estúpido.

Chega de ser deselegante. Talvez eu devesse fazer um artigo inteiro para as boas novas, mas ora, tarde demais. Vai só um parágrafo, e bem rápido. Hoje, dia 12, este blog completa dois anos de existência. Nesse meio-tempo, ele mudou de cara algumas vezes, até que, por fim, mudou de casa. E cresceu. Pouca coisa, mas saiu do zero! Longa vida ao Para Ler Sem Olhar! Hip-hip, hurra!

Categorias: arte, barbárie, brasil, cinema, crime, desespero, opinião, paris, roubo, São Paulo, tristeza.

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Estratégia para ensinar História

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Jantar Por Debret
Uma única pessoa veio comentar que ando sumido. E foi minha irmã. Aos demais membros da multidão apreensiva com meu silêncio, podem ficar tranqüilos: não sofri nenhum acidente, não atirei o computador pela janela (mesmo ele merecendo), não desisti de blogar, embora o ritmo já ande lento há tempos. É que aconteceu um milagre, coisa rara por estas bandas e que não se pode deixar de aproveitar: o tempo está magnífico. Já faz quatro dias que não chove. Na hora do almoço, a temperatura ultrapassa os vinte graus. Tenho até tomado sol. Passo o dia fora de casa, tentando guardar bem a lembrança do céu azul, que provavelmente só poderei rever em setembro, e depois só no próximo mês de maio. Daí o sumiço: quando finalmente volto ao lar, tenho de me dedicar às atividades obrigatórias, estudo, pesquisa, trabalho e assim por diante.

Mas acaba aparecendo uma janela, mais cedo ou mais tarde. Posso abrir o processador de texto e escrever alguma bobagem para postar. Blog parado é muito feio. Assim sendo, vou dedicar um tempo a comentar filmes. É que começou ontem o décimo Festival de Cinema Brasileiro de Paris, e eu me permiti interromper a fruição do céu azul, essa raridade deliciosa, para ver Sem Controle, primeiro longa de Chris d’Amato (diretora-assistente de diversos filmes nacionais nos últimos anos), com Eduardo Moscovis no papel principal. Como não sou crítico de cinema, não vou me perder em análises estéticas. Bem que dá vontade, mas me limito a dizer que, durante a maior parte do tempo, achei que não estava gostando. Mas, no final, descobri que gostei sim, e bastante.

Acho difícil fazer um elogio à fita sem contar o final. Ou seja, se você pretende assistir, não leia as próximas linhas. O que achei mais interessante no filme foi o fato de ele ser quase uma desculpa para difundir a história de Manuel da Motta Coqueiro, que tanto sucesso faz entre os oriundos do Norte Fluminense. E esse papel (digamos assim) didático é muito bem cumprido, sem que o didatismo não torna o enredo maçante. Muito pelo contrário, aliás. Palmas para o roteirista. Se os brasileiros assistissem aos filmes feitos em nossa terra (produção global não conta), o país inteiro poderia ficar sabendo da história do fazendeiro enforcado talvez injustamente.

Ainda sobre o enredo, é interessante observar suas várias auto-referências (as inconsistências são irrelevantes. Não só não comprometem o todo, ainda ajudam a história a atingir seu objetivo). O protagonista é um diretor de teatro que montou uma peça sobre, justamente, Motta Coqueiro, e fracassou escandalosamente. Uma das primeiras frases que ouvimos é o trecho de uma crítica: “o texto não tem conflito. O diretor não conseguiu atrair a atenção do público”. E essa parece ser a preocupação que guiou a construção do enredo. Desde o início, está avisado que o objetivo da narrativa é chamar a atenção para outra história. É claro que o público desavisado não percebe na hora. Mas, refletindo depois, a estratégia transparece.

É por isso que um certo número de coisas difíceis de engolir são perfeitamente releváveis. Numa obra de arte (e não vale a pena discutir aqui se cinema é arte ou não), devemos ter em mente que o que conta é o todo. O detalhe só é importante na medida em que contribua para o todo ou o comprometa. Por exemplo, as atuações bastante questionáveis das duas principais atrizes quase comprometem, mas o filme consegue sobreviver, empurrado por sua construção sagaz e interessante. O próprio Eduardo Moscovis, aliás, não é nenhum Lawrence Olivier, mas nada que estrague a sessão.

O mesmo vale para a menção, tirada um pouco da cartola, a um relacionamento passado entre o diretor e sua analista. Não serve para nada, só torna a história menos crível, mas e daí? Não é importante, então passa. Um pouco mais incômodas são algumas panorâmicas de Macaé (onde se passa o enredo) inseridas de maneira manifestamente aleatória. Paisagens muito bonitas, sem dúvida, mas o que estão fazendo ali, espremidas entre uma cena tensa e outra nervosa? Ah, entendi: a prefeitura da cidade é um dos principais investidores…

Em alguns momentos, o filme tem uma proposta estética arrojada, dosada com habilidade pela diretora. Um pouco mais de câmera tremida, cortes bruscos, sons insuportáveis e flashbacks enjoariam. Assim como está, atiça a atenção do público e confere ao filme um certo tempero. Outro ponto que merece ser mencionado é o capricho da produção, coisa rara em filmes brasileiros.

Opa, parece que acabei fazendo alguns comentários estéticos… Difícil evitar, peço perdão. Então vou cortar por aqui o comentário, só encerrando com a constatação de que Sem Controle não é nenhuma obra-prima, longe disso, mas é um filme que vale a pena ser conferido. Mesmo porque a história de Motta Coqueiro deveria ter uma repercussão maior. Diz muito sobre nosso país. Não só em relação à pena de morte, por onde é mais conhecida, mas também quanto à maneira como encaramos questões de trabalho e propriedade.

Mas isso também é tema para outro texto! Então dou este por encerrado. À minha espera, há um relvado verdejante (ou seja, um gramado bem cuidado na linguagem dos tempos de Motta Coqueiro). Como não sei por quanto tempo vou poder aproveitar esse clima, vou lá fora sugar dele o máximo que puder.

Categorias: arte, brasil, calor, cinema, costumes, história, opinião, reflexão, tempo.

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When The Wind Blows (1986)

terça-feira, 6 de maio de 2008


When+the+wind+blows

Um dos freqüentadores do Ipsis Litteris disse que o blog precisava de mais animação. Então, lá vai: no início dos anos 90, quando eu dirigia – em companhia de meu amigo Talmon Jr. – um sebo fincado no coração da Ufes, num anexo da primeira versão do Cine Metrópolis, chegou-me às mãos uma fita VHS cujo título era When the Wind Blows, de um tal Jimmy Murakami, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Mais tarde, vim a saber que trabalhara em Heavy Metal (o filme), co-dirigindo um dos episódios.

A cópia em VHS era ruim e sem legendas, mas a história, atualíssima, era (ainda é) de impressionar, principalmente porque os desenhos, de aparente ingenuidade, carregam uma força dramática intensa, mesmo que representem o modo de vida tranqüilo de um casal inglês da área rural, cujos filhos, já crescidos, não vivem com ele. É um desenho pacifista – contrário a qualquer manifestação armamentista nuclear, além de ser uma história de amor, mais especificamente quando os efeitos da radioatividade começam a ser percebidos nos corpos dos personagens centrais. A forma como o casal lida com o horror atômico é simplista: pensam que as guerras são inevitáveis – daí, é melhor ficar em casa e assistir a elas, desintegrando-se aos poucos, diante do cenário real, em stop motion.

Não há finais felizes quando se trata de guerra. Sempre alguém perde e o horror - também sempre - torna-se herança. Neste filme, a ingenuidade do casal parece atuar como antídoto, aparenta atenuar a desesperança, suavizar a dor - mas é só aparência. Não existem atenuantes. O filme me fez correr alucinado atrás dos quadrinhos homônimos de Raymond Briggs, o autor do texto e dos desenhos. Tentativa vã: até hoje, quase vinte anos depois, desconheço a revista. A trilha sonora é de arrepiar: David Bowie, Roger Waters, Genesis. soube que será lançado, no Brasil, em devedê (por isso, e por outros motivos, a postagem).

Wind3

Para quem curte YouTube, aí vai o filme, em partes e sem legendas:

Parte 1: clique aqui. Parte 2: clique aqui. Parte 3: clique aqui. Parte 4: clique aqui. Parte 5: clique aqui. Parte 6: clique aqui. Parte 7: clique aqui. Parte 8: clique aqui.

Escritores versus editoras: o Vigarista do Ano

segunda-feira, 5 de maio de 2008


Vigarista Do Ano Poster03

É tudo uma grande mentira: mente-se para si mesmo, para a esposa, para o bom amigo (que, mesmo participando da canalhice, reserva a própria dignidade que, inevitavelmente, vira pó). Mente-se para o conglomerado editorial que vive da mentira - o que é a literatura de ficção senão “ficção”? Até o espectador, que ali, diante e com ingresso pago, entra na dança: é vítima da mentira que se conta, da farsa que se arma. Um filme saborossíssimo: O Vigarista do Ano, The Hoax, dirigido pelo sueco Lars Hallström, em 2006.

Falei mal de Richard Gere numa postagem anterior. Continuo falando: considero-o um canastra profissional. O mulherio gosta, mas se decepcionará com um Gere que nada tem de charmoso ou sexy, a não ser a capacidade para imaginar. Há muito de sexy na mentira, que é um poderoso combustível para a sedução. Mas Richard Gere (no papel do escritor Clifford Irving) não quer saber disso, não está ali para arrancar suspiros balzaquianos. Na verdade, tem dois amores: a literatura e a fama. Que escritor foge desse anseio? (Nenhum levantará a mão).

O tema do filme - um tanto óbvio -: histórias boas não interessam; interessam, de fato, histórias que podem se tornar dinheiro. Quem dá a última palavra é o leitor, o sujeito e o objeto do universo editorial. Publica-se o que será lido e justamente por isso, por esse axioma, a capacidade criativa de um escritor é algo secundário, quando não descartável. Estilo, criatividade, imaginação e originalidade - quem se importa com isso? E é por essa temática que o filme passeia, a passos largos. Somente a mentira, a farsa, o boato podem ser adversários do triste destino de dignos escritores.

Vigarista Do Ano08

Richard Gere recria - assim como Scorsese, em O Aviador - Howard Hughes, real personagem multimilionário, lelé da cuca, tarado por aviões e metido em falcatruas políticas - incluindo tramóias com Kennedy e Nixon. É esse personagem, que nunca aparece no filme (a não ser em fotografias), que rouba a cena (além de Alfred Molina, paranóico de fazer rir). Gere inventa contatos inexistentes com Hughes, que lhe concede entrevistas que desembocarão numa biografia tonitruante. Tergiversa, omite, confunde - e leva até o espectador no bico, que vai na onda, mas e a editora? E o poder? Não pode dar certo. Que escritor pode enfrentar, com êxito, uma estrutura editorial que, de fato, não se importa com ele?

Remakes 2: Acossado

terça-feira, 29 de abril de 2008


Acossado Poster01

Se um nada tivesse a ver com o outro, compará-los seria uma brutal injustiça. Mas têm a ver porque Jim McBride assim o quis. Resolveu refilmar o único divertido filme de Godard, A Bout de Souffle, (Acossado, para nós). Godard deu sorte: tinha em mãos uma boa história, tinha Jean-Paul Belmondo como o charmoso bandido e tinha, claro, Jean Seberg para iluminar cenas e seduzir platéias (de todos os sexos). McBride, em seu Breathless (A Força de um Amor, para nós), tenta convencer o público de Richard Gere é capaz de atuar sem os maneirismos que trouxe de American Gigolo. Não é nem nunca será. Vai continuar fechando os olhinhos seja em filmes policiais, seja em produções musicais. Para contrabalançar, apresenta-nos Valérie Kaprisky, a atriz francesa de vinte anos (à época, 1983). Uma beleza, embora não se pudesse encontrar nela a refulgência de Seberg.

Godard filmou uma aventura, um jogo de velocidade contida, à moda européia e - por que não? - à nouvelle vague, o movimento chatíssimo que os intelectuais veneram. Mas o filme é de uma elegância que somente os franceses são capazes de criar. Jim McBride fez um filme sem beleza cênica - exceto, claro, a cena do chuveiro entre mocinha e mocinho -, sem o frescor que um filme em que a juventude de um assassino acidental deveria ser a tônica. Ainda mais num filme em que o personagem central dirige um porsche e ouve rock & roll.

Breathless1

Sei que há críticos ao trabalho de Godard. Sou um deles. Acho muitos de seus filmes chatos, sonolentos, alguns cheios de lacunas. Mas não esse, que é de prima. É bem feito, a despeito de Godard não ter o roteiro pronto durante as filmagens e, segundo a Cahiers du Cinéma dedicada a ele, escrevê-lo durante a manhã para que fosse filmado à tarde. Se é lenda, publique-se. Mas Jim McBride tem um ponto a seu favor: ele escolheu a trilha sonora, que vai de Sam Cooke, Bob Fripp, Brian Eno, Jerry Lee Lewis e Pretenders. Quer mais? Elvis está lá também.

O Marabá está morto

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Não há mais cinemas de rua em Porto Alegre. Todos os cinemas se internaram em shoppings ou em Centros “Culturais”. À noite, não se vê mais placas luminosas de letras quase sempre tortas ou faltantes anunciando filmes. Além, disto, os cinemas reduziram seu tamanho. Já faz tempo que desapareceram aquelas imensas salas em que funcionários com lanterninhas nos indicavam os lugares livres, pois lotavam… A televisão, o VHS e o DVD, aliados à falta de espaço, de tempo e charme transformaram nossas salas em coisas diminutas e bonitinhas, mas com pouco a mostrar na tela. Os filmes mudaram, tornaram-se infantis, acelerados, meio bestas. Suas fórmulas passaram a se repetir como os sapatos à venda nos shoppings e alguns são criados como em série, como Big Macs.

Mas a época do Marabá era diferente. O Marabá era um cinema que ficava em um bairro contíguo ao centro da cidade. Ou no bairro mais próximo a ele, se considerarmos que nosso centro é, na verdade, uma ponta enfiada no rio-lagoa-estuário Guaíba. O Marabá não tinha nenhum charme, não era freqüentado por mulheres elegantes que deixavam rastros não de ódio, mas de perfume atrás de si. Essas iam a outros lugares. Nenhuma surpresa nisto, pois o Marabá, fora construído para passar reprises e porcarias. Os filmes mais artísticos que lá vi foram as obras-primas kitsch de Jack Arnold: O Monstro da Lagoa Negra, O incrível homem que encolheu e — como esquecer dos gritos da mocinha? — A Revanche do Monstro. O enorme cinema ficava na rua Cel. Genuíno, 210, próximo à Av. José do Patrocínio. Só que, um dia, cansado de tanto passar filmes ruins, alguém por lá enlouqueceu por lá e começou a passar somente grandes filmes em programas duplos. Eram apenas duas sessões — uma iniciava às 14h e outra às 20h — mas, meus amigos, que sessões! Um belo dia, estando eu na casa dos quinze anos, abri o jornal e li que o Marabá passava A Noite, de Antonioni, e Viridiana (*), de Buñuel, em seu programa duplo. Talvez a nova geração desconheça a expressão “programa duplo”. É o seguinte: semanalmente, eram apresentados dois filmes com um pequeno intervalo no meio para irmos ao banheiro e ao bar comprar balas, fumar, conversar, beber, namorar ou simplesmente esticar as pernas. Só que os programas duplos apresentavam normalmente filmes pornográficos ou de pancadaria. Nunca coisas daquele calibre.

Eu e um bando de loucos por cinema começamos a acorrer ao lúgubre Marabá. Aposentados e desocupados também pagavam o ingresso baratíssimo do cinema não muito limpo. Grupos de estudantes vinham ver e rever filmes enquanto matavam aulas. Minha sessão habitual era a das 14h; formávamos uma peculiar fauna de jovens secundaristas, universitários, velhos e desempregados. Lembro de ter saído muitas vezes rapidamente de casa, batido a porta, lembro de pegar e pagar o ônibus, de parar nas imediações do centro e de correr como Catherine, Jules e Jim (ou Lola, para os mais jovens) em direção ao cinema. Comigo, chegavam outros esbaforidos. Trocávamos um cumprimento rápido e entrávamos. Comigo, muitas vezes veio Maria Cristina, minha primeira namorada; quando víamos os filmes pela primeira vez, não protagonizávamos grandes cenas de amor nas poltronas desconfortáveis de encosto de madeira, deixávamos para fazer isto em frente a sua casa, na rua Santana. No máximo, trocávamos alguns beijos apaixonados no intervalo — afinal, estávamos ali pelo cinema. Porém, quando conseguíamos ir duas vezes na mesma semana, a segunda tarde era dedicada quase que inteiramente ao amor. Foi numa cadeira do Marabá — ou em duas, mais precisamente — que minhas mãos e boca tiveram seu primeiro contato com o seio feminino. Inesquecível. Não entrarei em detalhes sobre tudo o que fiz pela primeira vez no Marabá, mas não exagerem na imaginação, pois nossa primeira relação sexual, a minha e a dela, ocorreu numa noite, atrás do sofá da sala de sua casa… Voltemos ao cinema.

Depois vieram outros programas duplos. Houve Gritos e Sussurros (Bergman) e Amarcord (Fellini), Jules e Jim (Truffaut) e Ascensor para o Cadafalso (Malle), O Mensageiro (Losey) e Petúlia, um Demônio de Mulher (Lester), Janela Indiscreta e Um corpo que cai (ambos de Hitchcock), Cidadão Kane e A Marca da Maldade (ambos de Welles), Paixões que alucinam (Fuller) e O Sétimo Selo (Bergman), O Magnífico (de Broca) e A Malvada (All About Eve, de Mankewicz), West Side Story (Wise-Robbins) e O Criado (Losey), e, comprovando que a loucura tomara conta do programador, houve Andrei Rublev (Tarkovski) e Acossado (Godard), evento que deixou nossas bundas quadradas por longo tempo. Em 1975, após um programa duplo que apresentava Contos da Lua Vaga (Mizoguchi) e Morangos Silvestres (Bergman), comecei a ter aulas à tarde e a estudar para o exame vestibular. Planejava voltar ao Marabá quando entrasse na universidade, em 1976. Só que, neste ínterim, o Marabá morreu para virar garagem. Sim, após Dillinger está morto (Ferreri) fazer dupla com Um Caso de Amor ou O Drama da Funcionária dos Correios (Makavejev) começou a demolição. Ou seja, a glória do Marabá, um cinema de 1800 lugares fundado em 1947, era sua agonia, a agonia de um querido dinossauro.

Não há mais cinemas de rua em Porto Alegre e também não há nenhuma cinemateca alucinada e radical como o Marabá. Quando as salas menores pareciam ter o poder de reabilitar para nós a gloriosa história do cinema, algo as trouxe para a isonômica mediocridade dos blockbusters. Resta-nos o egoísmo do DVD, resta-nos ver os filmes em nossa casa, às vezes na cama, podendo a sessão ser interrompida pelo telefone ou pela campainha da porta. Apesar das imagens perfeitas, não há o ritual de ir ao cinema, nem a sala escura onde somos ininterrompíveis, nem — perversão minha — o divino cheiro de mofo do Marabá, hoje substituído pela fuligem dos automóveis e pelos gritos dos manobristas.

(*) Aquele Viridiana tinha uma curiosidade que muito nos fez pensar. O filme começava com todos os atores falando espanhol, depois, subitamente, todos aderiam ao francês. Só as legendas permaneciam na língua de Camões. Alguns espectadores desejavam discutir esta característica do filme. Descobrimos depois, conversando no saguão do cinema, que houvera uma troca de rolos por parte da distribuidora e que naquele momento, em Recife, talvez Fernando Monteiro estivesse vendo o filme com sua primeira metade em francês e a segunda em espanhol.

Costner, Hurt, Moore, Brooks

quarta-feira, 23 de abril de 2008


Costner1

Alguém - fã de Demi Moore - disse-me que haverá uma estréia que, na verdade, representará a reentrada da atriz no panteão. O filme, de título Um Plano Brilhante, transforma a ex-musa em ladra. É esperar para ver. Demi Moore é daquelas atrizes que conheceram Inferno e Paraíso e que passa mais temporadas num do que noutro. Assisti, despretensiosamente, em devedê, neste último fim-de-semana que se estendeu a feriado, a Instinto Secreto, Mr. Brooks, no original.

Uma surpresa: Kevin Costner e William Hurt inspirados, como nos bons tempos. Demi Moore menos, mas seu papel - uma policial herdeira de uma sólida herança - era mais difícil, é preciso relevar. Mas ela, de fato, nunca foi grande atriz. Já Hurt e Costner, que interpretam o mesmo personagem (com nomes e rostos diferentes, entretanto) estão perfeitos. É um filme sobre destino, sobre inevitabilidade, ao mesmo tempo em que reforça que o mal existe em nós e é preciso refreá-lo, sob pena de que tudo desande. Mas como refrear aquilo que nos é natural? Ei-la: a questão. E que tal pensar em William Hurt como um anjo que, barroco ao extremo, antes de proteger, tenta aquele a quem acompanha?

A tríade Moore-Hurt-Costner faz parte, hoje, do segundo time de Hollywood. São atores anos-80, como se diz por aí, condenados a estrelar filmes de segunda e a viver da memória de blockbusters anteriores. Mas eis que ressurgem num filme bem armado como esse que, se não é obra-prima (e não é mesmo), é para ser observado (mais do que apenas visto) atentamente. Merece ser revisto para que os detalhes possam dizer mais do que dizem. E o que acontece? Assim como seus protagonistas, o filme é mantido na obscuridade, relegado ao plano do devedê. É, mais uma vez, o destino, a inevitabilidade.

Costner2

Um país sem guerras?

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Full Metal Jacket 1

Leio que lançaram o produto definitivo em devedê: Nascido para Matar, de Stanley Kubrick. A informação é tentadora: versão widescreen, comentários em áudio (atores e crítica), trailers, making of e informações curiosas. É um prato recheado para quem curte esse exercício metalingüístico. Às vezes - poucas! -, quando nada há para fazer, busco essas “informações especiais”, mas isso realmente não me interessa muito.

Tento me lembrar de quais filmes “de guerra” gostei. Discípulo de Proust, volto no tempo: apreciei muito Tora! Tora! Tora!, de Richard Fleisher e Kinji Fukasaku, Cartas de Iwojima, de Clint Eastwood, Apocalypse Now, de Coppola, Platoon, de Oliver Stone, A Um Passo da Eternidade, de Fred Zinnemann, e um filme visto numa sessão da tarde, há trinta anos, cujo título é Coragem é a Senha. O Gúgol auxiliou-me: é um filme de 1962 - ano em que nasci - e tem Dirk Bogarde na linha de frente. O diretor é o desconhecido (para mim) Andrew Stone.


Tora+tora+tora

Filmes de guerra não estão entre minhas preferências. Pergunto-me por quê e a resposta (muito pessoal) parece-me simples: sendo eu um brasileiro - e, portanto, acostumado a inexpressividades históricas no front -, as frentes de batalha soam-me um tanto “estrangeiras”, exceto, claro, quando se fala na distante guerra contra os guaranis, há quase um sesquicentenário, em que dividimos a vitória com argentinos e uruguaios. Assobermamo-nos, mas sem muitos motivos.

O brasileiro contenta-se com outra guerra - a doméstica, aquela cujos horrores o cinema aprendeu a expressar: os horrores do tráfico, a violência da ditadura militar, a inevitável marginalidade a que indivíduos se submetem, os morros intransponíveis, a corrupção policial. Na falta de heróis de guerra - Rambos ou Pattons - ou de testemunhar “resistências” européias contra Hiltler, o brasileiro vira-se como pode, e chega até a glamurizar figuras como Zé Pequeno, de Cidade de Deus, e Johnny, aquele cujo nome não era esse.

Cinemusas VIII - Sophia Loren

terça-feira, 15 de abril de 2008

Mais uma européia: italiana, que venceria - se uma contenda houvesse - musas como Ornella Muti, Silvana Mangano, Monica Vitti, Laura Antonelli, Gina Lollobrigida e Monica Bellucci - isso para citar apenas as conterrâneas, e em qualquer época. Sophia Loren, que, com Mastroianni, fez da comédia a narrativa sensual. Loren para De Sica, que a transformou em Cesira, em Duas Mulheres. Logo ela, que valia por todas.

Yesterday

Música versus força bruta

quarta-feira, 2 de abril de 2008


LES%2520CHORISTES%2520(2004)

O tema é batido: de um lado o desafio do magistério; de outro, a delinqüência infanto-juvenil. Num canto do ringue, o adulto sensível e bem-intencionado; no outro extremo, a certeza de um futuro duvidoso para crianças e adolescentes. Não sei quantos filmes Hollywood dedicou ao assunto, mas, pelo menos dois me vêm à cabeça de imediato: o clássico Ao Mestre com Carinho, de 1967, com Sidney Poitier, e o recente Escritores da Liberdade, com a bonitinha Hilary Swank. São filmes dignos. Mas não é sobre eles que quero falar, e sim sobre A Voz do Coração, Les Choristes, uma produção francesa de 2004 que propõe ser a música o antídoto contra a força bruta. E talvez seja mesmo.

De fato, não somente a música pode contrapor-se à brutalidade do homem e das situações que ele mesmo cria. A arte, como um todo, pode (e deve) concretizar-se como antítese à opressão. A literatura, a pintura e o cinema encarnaram a resistência em épocas passadas, instituindo-se como vias de escape e de crítica. A Voz do Coração é um filme delicado, lírico, bem-humorado, sentimental (sem ser piegas), mas nem de longe deixa de expor a eterna batalha entre aqueles que amam a arte e aqueles que não a compreendem - e por não compreendê-la tentam impedi-la.

À parte ser um filme que enaltece a educação (o professor Clément é um libertador), a música é o grande personagem da película. É através dela que as crianças se civilizam, é por conta dela que os caminhos se encontram. É a música que gera a felicidade, tanto para o músico-educador quanto para um dos meninos, Pierre Morhange, cujo destino se modificou a partir do canto e que, mais tarde, passa a fazer parte da própria música, tornando-se maestro. No fundo, é para isso que serve a arte.

Voz Do Coracao01

O Paraíso Sem Nós Dois

segunda-feira, 31 de março de 2008

Ainda trabalhando como gigolô dos meus amigos… ou de gente que nem é tão amiga, são mais conhecidos, mas talentosos o suficiente para merecerem uma força…

O Paraíso Sem Nós Dois é um curta feita por estudantes da História/USP para o curso de História das Fontes Visuais. O pano de fundo é a especulação imobiliária no bairro de Vila Leopoldina, Sampa City, um ex-bairro operário que hoje ganha feições de vizinhança da moda. Mas isso pouco importa… prestem atenção em como um grupo de graduandos pé-rapados, sem nenhuma grana do governo e recursos pra lá de precários, consegue fazer algo mais interessante (e bem-feito) que 90% da cinematografia brasileira atual. Talento, pessoal. Faz a diferença.

Aí vai a primeira parte… vocês caçam o resto.

http://www.youtube.com/watch?v=5xqueF0mqY8

PS: Devido a problemas legais com a trilha sonora, que é basicamente a nata do Robertão, esse filme dificilmente vai alcançar o circuito comercial. É obrigação moral de vocês contarem aos outros sobre ele. Se gostarem.