O Peladão de São Paulo foi visto pela primeira vez às 9 horas e 47 minutos do dia 20 de agosto de 1991. Segundo Maria Vitória de Aquino Assis, então com 64 anos, ele teria cruzado seu caminho em grande velocidade, na esquina da Avenida São João com Alameda Nothmann, correndo completamente nu pelas ruas da metrópole. Na ocasião, Maria Vitória não pensou em avisar as autoridades; apenas fez o sinal-da-cruz, murmurou “Pela madrugada!” e seguiu em frente.
Durante o decorrer do dia o drama do Peladão de São Paulo se espalharia por toda cidade, causando desconforto, risadas e terror nos habitantes da capital. Pouco após se encontro com Maria Vitória, o Peladão foi visto no centro da cidade, abrindo caminho através das escadas rolantes das Grandes Galerias. Segundo Chacal, nome de batismo José Lourdes de Oliveira Pontes Neto, anarco-punk, o Peladão teria trombado com ele a namorada enquanto subiam a tradicionalmente desativada escadaria, derrubando os dois. Chacal teria se erguido prontamente, disposto a tomar satisfações até o nível da violência física, se necessário, mas, demonstrando uma velocidade muito superior a de um ser humano, constatou que o Peladão já atravessava a Praça da Luz, em direção ao Vale do Anhangabaú, fazendo com que metaleiros e punks, góticos e rappers dividessem um mesmo momento de choque e união. “Todo mundo tava aturdido, cara”, diz Baby Chakra Tavares, então dono de uma barraquinha de artesanato na região. “Aquele cara Peladão correndo através de todo mundo… dava pra ver nos rostos do pessoal. De repente, os gostos musicais, o estilo de vestir, nada mais importava. Eu vi mané de cabeça raspada abraçar gente com camiseta do Sisters of Mercy. O Peladão era o avatar do amor. Veio nos ensinar a sermos legais uns com os outros. Pena que foi embora tão rápido.”
A saga do nudista corredor logo se tornou conhecida por toda cidade. Às 11 horas e 14 minutos daquele dia a 2a. Delegacia de Polícia de São Paulo, no Bom Retiro, já enviava alerta para que todos os carros ficassem atentos para elemento à solta nas ruas da cidade, em estado de exposição imoral. Nas rádios, locutores interrompiam a lista dos gols da rodada e as sequências dos maiores sucessos da música pop daquela semana (à saber: (Everything I do) I do it for you, de Bryan Adams, Justify My Love, de Madonna e Unbelievable, do EMF) para alertar a população no inaudito que tomava São Paulo. O senhor Celso Penna Afonsino, taxista, do Bexiga diz que “Não acreditei na história. Eu estava tomando meu pingado quando ouvi, lá no Bar do Estadão. Lembro até hoje. O locutor falava do campeonato gaúcho e eu estava prestando muita atenção porque o Grêmio tinha acabado de ser rebaixado para a segunda divisão do brasileiro, e naquela época time grande não caía… tanto que inventaram aquela história de módulo verde e amarelo no campeonato paulista justamente pra impedir o São Paulo de ir pra segunda divisão, o que foi boa coisa por que eles foram campeões aquele ano… mas, enfim, de repente, não é que passa um cara pelado correndo na rua, que me vira logo ali na Martins Fontes em direção à Augusta? Porca pipa! Depois daquela, nem terminei o pingado.”
A partir daí os testemunhos de aparições do Peladão se multiplicam, nem sempre se encaixando… Bianca Pituxa (nom du guerre) alega que teria visto o Peladão subir pela Augusta, sorrindo, dando tchauzinhos para os passantes e até mesmo parando para posar nas fotografias. Marcelino Freitas Albuquerque, dono de um sebo na região, diz que o Peladão chegou a entrar em seu estabelecimento, confuso e assustado, pedindo por um copo de água e um telefone. Marcelino o expulsou dali “por conta da sem-vergonhice”, mas diz que se arrepende até hoje. Jonas Schelling Ramos, então estudante de marketing, hoje dono de um estacionamento, diz que o Peladão sentou-se ao lado dele e da namorada em uma sala de cinema no Cine Bristol, já na Avenida Paulista, onde assistia-se “Matou a Família e Foi Ao Cinema” com Claúdia Raia e Alexandre Frota. Segundo Eunícia Pereira Schelling Ramos, isso, no entanto, nunca aconteceu, e o filme na verdade era “Meu Primeiro Amor”.
Por volta do meio-dia a cidade já tremia de pânico e excitação com a presença do Peladão em suas calçadas. Alguns esperavam vidrados na tevê, que já cobria o caso no São Paulo Já e em plantões especiais. Outros faziam campana nas calçadas, aguardando com diferentes graus de interesse a passagem da misteriosa figura. Visões do Peladão se multiplicavam. Entre as 13 horas e 17 horas da tarde daquele dia, reportam-se aparições na Igreja de Santa Cecília, no campus do Mackenzie, na loja da Zoomp da Oscar Freire, no shopping center Paulista, na Estação Paraíso de metrô (onde teria entrado no trem e descido na Sé), na Livraria Cultura (onde folheou um exemplar de “O Homem Nu”, até hoje guardado), no Madame Satã, no Museu da Imagem e do Som, em uma reunião na FIESP, e no Cemitério da Consolação, sentado em cima do túmulo de Mário de Andrade. É possível que todas essas aparições, improváveis devido a óbvias limitações de tempo e espaço, sejam resultado da histeria em massa que contaminava a cidade, que parava para acompanhar a perseguição ao misterioso naturista. Nos subúrbios, as mães proibiam os filhos de brincar na rua. No Mandaqui, as senhoras da Tradição, Família e Propriedade organizavam uma passeata em protesto. Na Vila Madalena jovens estudantes da USP e da PUC concluíram que se tratava de um ato político e decidiram tirar suas próprias roupas e se juntar a ele. Foram impedidos por uma ameaça veemente do dono do bar onde bebiam.
Foi às 17 horas e 35 minutos daquele dia que o Peladão foi visto pela última vez. As câmeras da Globo captavam sua figura esguia correndo por entre os carros da Marginal Pinheiros, à frente de viaturas da polícia impossibilitadas de abrir caminho pelo engarrafamento do fim da tarde. Na altura da ponte Jaguaré, ele sumiu. Aturdidos as autoridades ensejaram não poucos esforços para localizar aquele homem que, por um dia, aterrorizara e emocionara a cidade. O rio Pinheiros foi dragado. Os relatórios policiais das próximas semanas, minuciosamente estudados em busca de pistas. Mas nada. Tão subitamente quanto surgiu, o Peladão desapareceu. No dia seguinte, a população, perturbada, voltava à rotina, enquanto o jornal Notícias Populares publicava a manchete “Como era Grande! O Susto!”
Explicações para o fenômeno não faltaram: um pobre amante surpreendido por um marido inesperado que não teve outra opção senão fugir de imediato, ficando assim na terrível situação de retornar, a pé e nu, para casa. Alguns preferiram expôr a tese da intencionalidade, de que o Peladão corria nu pelas vias de São Paulo como um esforço absurdista de tornar patente a arbitrariedade de nosso cotidiano, tão facilmente desmantelado pelo evento mais precário, ou ainda mostrar que, paradoxalmente, todos nós é que estávamos nus. E ainda houve outros que buscaram interpretações mais esotéricas: seria um anjo, ou talvez um alienígena, uma criatura toda ignorante dos costumes da Terra. Segundo Zé Celso, “uma espécie de Kaspar Hauser paulistano, só que pelado, o que é ainda melhor.” Mas nenhuma das explicações satisfaz totalmente a questão perene da identidade e intenção do enigmática figura nua.
Durante os anos seguintes, outros avistamentos, de natureza incerta, chegaram a ocorrer. Uma foto, borrada, revelava o Peladão junto à estátua de Borba Gato. Outros juram de pé junto que ele estava no palanque do Lula na ocasião de sua primeira eleição, ou que viram ele em meio a multidão na procissão do enterro de Mário Covas. Boatos dizem que o Peladão se juntou ao PCC, que se mudou para uma praia naturista, ou que foi preso pela CIA. Mas nada documentado, nada sequer semelhante aos eventos daquele dia de agosto. Foi um fenômeno paranormal? Ou só um prosaico caso de adultério que se tornou um escândalo de proporções peculiares? O que se sabe com certeza é que São Paulo jamais foi a mesma. Certa inocência se perdeu. Um espírito sutil de auto-crítica se instalou, a partir daquele dia, no coração de cada paulistano. Mais de um, aliás, passou a observar atentamente as ruas, na esparança fútil de vislumbrar mais uma vez aquele arauto da liberdade, alimentando no peito a vontade secreta de, dessa vez, tomar coragem e se juntar à ele.