Arquivo da Categoria ‘Pequenas Histórias’

A Educação Sentimental dos Cadáveres

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Você sabe o que é um fantasma?

 Um fantasma é um restolho, um resquício. O fantasma não é a coisa real; essa se foi, está perdida de forma definitiva nos recessos do passado. O fantasma é o que sobrevive, vagando por aí, existindo apenas para assombrar. 

Tem quem se confunda. Tarde da noite, em uma faculdade vazia, ela aparece do nada e é compreensível, é normal que você ache que é alguém que você conhece(u), que imagine que tem algo a dizer. Mas basta um segundo olhar atento, ou um ínfimo instante de auto-conhecimento para que se perceba; não, é um fantasma. Não é alguém que eu conheci, amei e dividi tempo junto. Não é alguém que significou algo para mim. É algo muito parecido, algo enganoso, mas não é aquela pessoa. Aquela pessoa está morta. E a face fria que toca seu rosto em um beijo de educação, sem cruzar olhares, é de seu fantasma. Tem quem conviva com fantasmas. Fale com eles. Tem quem não consiga ver, ou não queira aceitar que a vida não volta para trás, quem não queira permitir que o que passou descansem em paz. Transitam entre assombrações, comerciam com os mortos. Vagam em um mundo de sombras ocas, alimentando sua dor com aparência e memória de coisas que já não existem.

Mas um fantasma é, acima de tudo, uma ausência. É uma casca vazia, privada de tudo aquilo que significou algo para você. Aquele carinho, não está mais lá. Aquele afeto mútuo, não está mais lá. Aquela paixão, não está mais lá. Todo aquele amor que ela um dia sentiu… não, não, não há nada mais disso lá. Sua amante de palavras ternas e carícias, de dias doces de verão desperdiçados nos braços um do outro, ela agora só existe na lembrança. Aquela aparição inesperada saindo da noite, é apenas uma vaguidão, um avantesma, um cadáver ambulante. É o fantasma.

Deve-se deixar os fantasmas partirem. Seguirem seu caminho para o tártaro ou qualquer outro que tal. Fantasmas só servem para assombrar. Fustigar a consciência e despertar todo aquele ódio, e raiva, e mágoa, e saudade que você acreditava que tinha se esgotado… Toda palavra doce de amor doendo porque foi calada. E não creia que adianta confrontar o fantasma. Não alimente a esperança vã de que é possível exorciza-lo com verdades ou mentiras quais. Fantasmas são surdos e cegos para qualquer coisa além de sua pós-vida… Assim como balda-se a iniciativa de mais uma vez amá-lo, também não se pode mais dialogar com eles. Afinal seus termos e suas conversas, seus argumentos não são dirigidos a ele… mas a alguém que deveria estar vivo, que queríamos que estivesse vivo, mas não está, não, não está e já não pode ouvir, não mais, nunca, nunca mais.

Mas não se deve detestar os fantasmas. Não é culpa deles. Tudo morre, e vive, e o que eles podem fazer se já não existem mais? O mundo é, enfim, cheio de fantasmas… e é forçoso aprender a não se assustar, não permitir que seu toque frio e olhar distante, suas palavras vazias e momentos sem rumo reverberem sobre o calor vibrante do que certa vez foi tão feliz. E não julgue, nem odeie, não aponte os dedos ou se apresse em atacar. Porque quando ela logo em seguida se vai, quando ela cumprimenta e foge, dando as costas sem olhar para trás, você tem que entender, tem que perceber, que você é um fantasma também.

Corrida

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Irrompeu pela multidão como um exército invasor trespassando fronteiras, pondo à pique a muralha de carne e ternos, de pessoas anônimas, de nomes desconhecidos. “Quem são eles?, O que querem?, O que encontra repouso em seus corações” , ele não pensou nada disso, ele não se importava, bastava chegar ao destino, bastava correr, bastava vencer o tempo que escorre incontido, sem oferecer clemência para os amores e os amantes.

Trombou com um homem de terno, meia-idade, que usava chapéu mas não parecia engraçado e que resmungou algo que ele não ouviu. Correu mais, alguém ao fundo gritou, assobiou, talvez fosse com outra pessoa, talvez chamassem sua atenção, ele não viu, não importava, olhou o relógio, nada importava, será que já era muito tarde?, só uma coisa importava e era ela, ela, ela, ela, indo embora e ele não podia deixar, chegou ao Balcão da Companhia de Viagens, um atraso que não podia ser evitado, não era possível cortar a fila, talvez fosse, talvez ele pudesse explicar a cada um deles, desconhecidos, sua história, tudo que tinha acontecido até então, as reviravoltas e surpresas, os dramas e traições e todos iam ficar tão comovidos que iam deixá-lo passar na frente, “Não precisa pagar a passagem, senhor”, e alguma velhinha ia lhe lançar um olhar de comiseração, aquele olhar em que a sabedoria da experiência reconhece sua inferioridade às tolices do amor, mas nem ao menos havia uma velhinha na fila, e já era hora de dar um passo adiante, e mais um passo, e outro, e cada centímetro o abandonava um pouco mais perto de seu objetivo, ainda que este estivesse em outra direção e era essa a estranha geometria da vontade, cujo conhecimento era o único bálsamo para a angústia criada pela aquela espera cruel, que torturava e oprimia e esmagava até que chegou sua vez, esperada vez e agarrou a passagem, saiu em desabalada carreira, pulou degraus e fez olhos se virarem, mas que importa?, essa é a pressa do destino, esse é o desespero da última chance que se esgota com a luz do crepúsculo e quem tem um coração que bate forte e firme, quem já cometeu erros e perdeu, quem foi enganado e se descobriu o enganador, eles podem entender os saltos e corridas, as trombadas e batidas, com licença e pode abrir caminho, por favor? e quem não pode entender, quem não viu sua vida escapar pelos dedos, após uma palavra cruel e uma frase que disse menos do que deveria ter dito, quem não dançou a equívoca valsa das paixões difíceis, ah, foda-se a opinião deles, eles é que são os doidos, e com isso puxou um último fôlego que escapou forçoso pela garganta, um último passo que desabou pesado no chão, e lá estava ela. Ela não o percebeu, ela não se virou, não era como Holywood, não era bonito e fantástico como nos filmes, na verdade é complicado, dá trabalho, ele teve que se aproximar, suado, esbaforido, e ela já estava com um pé no ônibus quando ele gritou seu nome, e ela virou a cabeça, seus cabelos refletiam a luz difusa do sol, seus olhos brilhavam porque se encherem instantaneamente de lágrimas e, daí sim, daí foi fantástico e inesperado porque ela correu, agora era a vez dela de correr, ela correu até ele, o sobretudo cinza balançando no vento, correu, e ela quase derrubou a bolsa, nem tudo é Holywood, mas que se dane pois logo os dois estavam abraçados, se estreitando fortemente nos braços um do outro, e ele afundou seu rosto em seus cabelos cacheados, sorvendo seu cheiro reconfortante, sentindo seu corpo soluçar envolto aos seus braços, a umidade das lágrimas banhando seu peito e ele se afastou um pouco, ergueu o queixo dela e olhou para seu rosto molhado, vermelho e que combinava com o batom e ela disse

“O bebê não é seu, Paulo.”

e ele disse “Foda-se”, e a beijou.

Aconteceu Em Uma Terça-Feira

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Foi em uma terça-feira que aconteceu. A príncipio, nada se notou. Levantaram de suas camas, tomaram seus cafés, começaram seus dias. Alguns olharam o jornal; houve quem ficasse irritado, houve quem se frustrasse. Aqueles cuja indignação não conhecia aguardo logo ligaram para o Atendimento dos Assinantes, protestando. Se surpreenderam; também das bancas e das distribuidoras choviam reclamações, clamores e, olhe só, até mesmo alguns expletivos. Do outro lado do telefone, atendentes se desperavam, nos escritórios do jornal poderosos homens de terno já bufafam, vermelhos como o sol que mal se erguia tingindo o horizonte. De quem era a culpa? Quem era o responsável? Como podia aquilo ser? Como, em toda a cidade, em todo país, em todo mundo, como todos os jornais distribuídos naquela manhã podiam pertencer ao dia anterior?

Os últimos ventos frios da noite ainda corriam quando as outras pistas surgiram. Em escritórios planilhas feitas no decorrer do ontem tinham desaparecido.  Não só as planilhas, mas os projetos, os desenhos, os relatórios, as previsões de custo, os contratos, as propostas, até mesmo as lições de casa tinham sumido, desvanecido no ar como se nunca existissem, como se fossem apenas uma febre, temporã e efemêra.  Professoras ficaram nervosas; seus alunos estariam se amotinando? Confusos, alguns negavam, outros aproveitavam o caos gerado pelo falso motim para atiçar a flama da revolta real. Nas agências de notícia, repórteres estupefatos verificavam que todos os eventos do dia anterior tinham sido apagados. Desastres naturais e falecimentos, roubos e desaparecimentos, inaugurações e encerramentos, nada tinha acontecido, nada estava registrado, nada tinha deixado consequência. Chefes de Estado em visita oficial acordavam em países dos quais já tinham partido, amantes que mal tinham se separado se descobriam uma vez mais, dolorosamente, juntos. Um mendigo que tinha morrido de fome e frio na tarde de terça, se descobria vivo e sofrendo de novo naquela manhã, e achou por um momento que estava no inferno. Ao meio-dia a situação já se apresentava clara como o brilho inclemente do Sol… O tempo rebobinara. O dia seguinte não existia mais. A humanidade estava presa naquela mesma terça-feira, naquele mesmo dia de amor e morte, e alegria e confusão, e vitórias e derrotas, e banalidades e assombros, para sempre, sempre, sempre e então, de novo.

Houve quem pilhasse. Houve quem perdesse a cabeça, houve quem se escondesse. De repente, nada mais fazia sentido. Em Paris, um jovem evitou o acidente de carro que o aleijara no dia anterior. Em Hoboken, outro decidiu sofrer o mesmo acidente que sofrera ontem, simplesmente porque achou que era o mais certo a se fazer. Suicidas tentaram se matar novamente; ao acordar vivos na terceira manhã repetida de terça-feira, a maioria chegou a conclusão que era mais trabalho do que valia a pena. Persistiram apenas alguns mais determinados, que se resignavam a se matar tão logo acordavam, alguns repetindo sempre o mesmo método, apegados até o mais mínimo detalhe de suas mortes constantemente reencenadas, outros aproveitando a chance para realizar algumas experimentações.  Em salas de guerra escondidas em centros de poder, generais se perguntaram se deveriam repetir os ataques estratégicos feitos no dia anterior, já que agora todas suas vítimas respiravam novamente, todas as ruínas tinham se recomposto, todas as bombas descansavam novamente em seus silos. Uns poucos argumentaram que a lembrança do ataque ainda estava viva na mente dos alvos, ainda que a destruição física não existisse mais. Voto vencido. Atacaram de novo. E de novo. E de novo, a cada nascer do sol. Em meio à escombros, uma criança chorava, aguda, e todo dia ela era salva por alguém diferente.

Os mortos voltavam, ninguém morria para sempre. Campos de batalha viraram jogos violentos, soldados armados caçando vítimas sem se importar com bandeira ou crime, apenas para matar o tempo que subitamente se tornara imortal. A anarquia da falta de consequências dominou o mundo. Vítimas traumatizadas da violência desses tempos loucos despertavam no dia seguinte sem qualquer traço físico dos abusos que sofreram, e se perguntavam se tudo não era um sonho ruim. Com uma semana de repetição, já ninguém aparecia no trabalho, já ninguém se importava, já ninguém fazia nada. Mesmo a destruição afinal perdera a graça, cada manhã recuperando infinitamente tudo aquilo que caiu por terra. Agora, as pessoas saíam para passear, andavam, se encontravam. Conversavam com desconhecidos para aprender sobre eles, um dos poucos tipos de novidade restante, entupiam bibliotecas decididos a ler todos os livros do mundo, assistir todos os filmes, comer em todos os lugares, morrer e amar de todos os jeitos.

Corriam soltos pelas ruas, pegavam jóias de lojas abandonadas e as usavam como brinquedos, entravam em sangrentas batalhas de brincadeira, riam e riam mais, e choravam e gozavam. E os cientistas falhavam em explicar, e os místicos tentavam entender, e os homens de autoridade logo se encontraram sozinhos. Era a terça-feira em que tudo aconteceu, que vinha depois da terça-feira, seguida pela terça-feira e outra terça ainda mais. Nada podia agora ser construído, tudo só podia ser sonhado, imaginado, discutido.  E foi assim que viveram e morreram e renasceram, jamais cresceram, jamais escaparam, para sempre e sempre e sempre, e em meio à tudo isso, das tragédias e glórias, das derrotas e das vitórias, das paixões e da dor, Guilherme e Camila que sempre tinham se amado e nunca confessado isso um ao outro finalmente perceberam que iriam passar toda a eternidade juntos, e se beijaram e se amaram, porque não tinham mais tempo a perder.

O Peladão de São Paulo

sábado, 22 de março de 2008

O Peladão de São Paulo foi visto pela primeira vez às 9 horas e 47 minutos do dia 20 de agosto de 1991. Segundo Maria Vitória de Aquino Assis, então com 64 anos, ele teria cruzado seu caminho em grande velocidade, na esquina da Avenida São João com Alameda Nothmann, correndo completamente nu pelas ruas da metrópole. Na ocasião, Maria Vitória não pensou em avisar as autoridades; apenas fez o sinal-da-cruz, murmurou “Pela madrugada!” e seguiu em frente.

Durante o decorrer do dia o drama do Peladão de São Paulo se espalharia por toda cidade, causando desconforto, risadas e terror nos habitantes da capital. Pouco após se encontro com Maria Vitória, o Peladão foi visto no centro da cidade, abrindo caminho através das escadas rolantes das Grandes Galerias. Segundo Chacal, nome de batismo José Lourdes de Oliveira Pontes Neto, anarco-punk, o Peladão teria trombado com ele a namorada enquanto subiam a tradicionalmente desativada escadaria, derrubando os dois. Chacal teria se erguido prontamente, disposto a tomar satisfações até o nível da violência física, se necessário, mas, demonstrando uma velocidade muito superior a de um ser humano, constatou que o Peladão já atravessava a Praça da Luz, em direção ao Vale do Anhangabaú, fazendo com que metaleiros e punks, góticos e rappers dividessem um mesmo momento de choque e união. “Todo mundo tava aturdido, cara”, diz Baby Chakra Tavares, então dono de uma barraquinha de artesanato na região. “Aquele cara Peladão correndo através de todo mundo… dava pra ver nos rostos do pessoal. De repente, os gostos musicais, o estilo de vestir, nada mais importava. Eu vi mané de cabeça raspada abraçar gente com camiseta do Sisters of Mercy. O Peladão era o avatar do amor. Veio nos ensinar a sermos legais uns com os outros. Pena que foi embora tão rápido.”

A saga do nudista corredor logo se tornou conhecida por toda cidade. Às 11 horas e 14 minutos daquele dia a 2a. Delegacia de Polícia de São Paulo, no Bom Retiro, já enviava alerta para que todos os carros ficassem atentos para elemento à solta nas ruas da cidade, em estado de exposição imoral. Nas rádios, locutores interrompiam a lista dos gols da rodada e as sequências dos maiores sucessos da música pop daquela semana (à saber: (Everything I do) I do it for you, de Bryan Adams, Justify My Love, de Madonna e Unbelievable, do EMF) para alertar a população no inaudito que tomava São Paulo. O senhor Celso Penna Afonsino, taxista, do Bexiga diz que “Não acreditei na história. Eu estava tomando meu pingado quando ouvi, lá no Bar do Estadão. Lembro até hoje. O locutor falava do campeonato gaúcho e eu estava prestando muita atenção porque o Grêmio tinha acabado de ser rebaixado para a segunda divisão do brasileiro, e naquela época time grande não caía… tanto que inventaram aquela história de módulo verde e amarelo no campeonato paulista justamente pra impedir o São Paulo de ir pra segunda divisão, o que foi boa coisa por que eles foram campeões aquele ano… mas, enfim, de repente, não é que passa um cara pelado correndo na rua, que me vira logo ali na Martins Fontes em direção à Augusta? Porca pipa! Depois daquela, nem terminei o pingado.”

A partir daí os testemunhos de aparições do Peladão se multiplicam, nem sempre se encaixando… Bianca Pituxa (nom du guerre) alega que teria visto o Peladão subir pela Augusta, sorrindo, dando tchauzinhos para os passantes e até mesmo parando para posar nas fotografias. Marcelino Freitas Albuquerque, dono de um sebo na região, diz que o Peladão chegou a entrar em seu estabelecimento, confuso e assustado, pedindo por um copo de água e um telefone. Marcelino o expulsou dali “por conta da sem-vergonhice”, mas diz que se arrepende até hoje. Jonas Schelling Ramos, então estudante de marketing, hoje dono de um estacionamento, diz que o Peladão sentou-se ao lado dele e da namorada em uma sala de cinema no Cine Bristol, já na Avenida Paulista, onde assistia-se “Matou a Família e Foi Ao Cinema” com Claúdia Raia e Alexandre Frota. Segundo Eunícia Pereira Schelling Ramos, isso, no entanto, nunca aconteceu, e o filme na verdade era “Meu Primeiro Amor”.

Por volta do meio-dia a cidade já tremia de pânico e excitação com a presença do Peladão em suas calçadas. Alguns esperavam vidrados na tevê, que já cobria o caso no São Paulo Já e em plantões especiais. Outros faziam campana nas calçadas, aguardando com diferentes graus de interesse a passagem da misteriosa figura. Visões do Peladão se multiplicavam. Entre as 13 horas e 17 horas da tarde daquele dia, reportam-se aparições na Igreja de Santa Cecília, no campus do Mackenzie, na loja da Zoomp da Oscar Freire, no shopping center Paulista, na Estação Paraíso de metrô (onde teria entrado no trem e descido na Sé), na Livraria Cultura (onde folheou um exemplar de “O Homem Nu”, até hoje guardado), no Madame Satã, no Museu da Imagem e do Som, em uma reunião na FIESP, e no Cemitério da Consolação, sentado em cima do túmulo de Mário de Andrade. É possível que todas essas aparições, improváveis devido a óbvias limitações de tempo e espaço, sejam resultado da histeria em massa que contaminava a cidade, que parava para acompanhar a perseguição ao misterioso naturista. Nos subúrbios, as mães proibiam os filhos de brincar na rua. No Mandaqui, as senhoras da Tradição, Família e Propriedade organizavam uma passeata em protesto. Na Vila Madalena jovens estudantes da USP e da PUC concluíram que se tratava de um ato político e decidiram tirar suas próprias roupas e se juntar a ele. Foram impedidos por uma ameaça veemente do dono do bar onde bebiam.

Foi às 17 horas e 35 minutos daquele dia que o Peladão foi visto pela última vez. As câmeras da Globo captavam sua figura esguia correndo por entre os carros da Marginal Pinheiros, à frente de viaturas da polícia impossibilitadas de abrir caminho pelo engarrafamento do fim da tarde. Na altura da ponte Jaguaré, ele sumiu. Aturdidos as autoridades ensejaram não poucos esforços para localizar aquele homem que, por um dia, aterrorizara e emocionara a cidade. O rio Pinheiros foi dragado. Os relatórios policiais das próximas semanas, minuciosamente estudados em busca de pistas. Mas nada. Tão subitamente quanto surgiu, o Peladão desapareceu. No dia seguinte, a população, perturbada, voltava à rotina, enquanto o jornal Notícias Populares publicava a manchete “Como era Grande! O Susto!”

Explicações para o fenômeno não faltaram: um pobre amante surpreendido por um marido inesperado que não teve outra opção senão fugir de imediato, ficando assim na terrível situação de retornar, a pé e nu, para casa. Alguns preferiram expôr a tese da intencionalidade, de que o Peladão corria nu pelas vias de São Paulo como um esforço absurdista de tornar patente a arbitrariedade de nosso cotidiano, tão facilmente desmantelado pelo evento mais precário, ou ainda mostrar que, paradoxalmente, todos nós é que estávamos nus. E ainda houve outros que buscaram interpretações mais esotéricas: seria um anjo, ou talvez um alienígena, uma criatura toda ignorante dos costumes da Terra. Segundo Zé Celso, “uma espécie de Kaspar Hauser paulistano, só que pelado, o que é ainda melhor.”  Mas nenhuma das explicações satisfaz totalmente a questão perene da identidade e intenção do enigmática figura nua.

Durante os anos seguintes, outros avistamentos, de natureza incerta, chegaram a ocorrer. Uma foto, borrada, revelava o Peladão junto à estátua de Borba Gato. Outros juram de pé junto que ele estava no palanque do Lula na ocasião de sua primeira eleição, ou que viram ele em meio a multidão na procissão do enterro de Mário Covas. Boatos dizem que o Peladão se juntou ao PCC, que se mudou para uma praia naturista, ou que foi preso pela CIA. Mas nada documentado, nada sequer semelhante aos eventos daquele dia de agosto. Foi um fenômeno paranormal? Ou só um prosaico caso de adultério que se tornou um escândalo de proporções peculiares? O que se sabe com certeza é que São Paulo jamais foi a mesma. Certa inocência se perdeu. Um espírito sutil de auto-crítica se instalou, a partir daquele dia, no coração de cada paulistano. Mais de um, aliás, passou a observar atentamente as ruas, na esparança fútil de vislumbrar mais uma vez aquele arauto da liberdade, alimentando no peito a vontade secreta de, dessa vez, tomar coragem e se juntar à ele.

O Grande Jantar

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Marcela estava já há um bom tempo sentada no sofá. Resolveu dar outra olhada no relógio, mas ainda faltavam três minutos. Essa era a pior parte, ela pensou. Quando está quase pronto e você não consegue se aguentar de tirar a carne do fogo e ver como está. Mas faltavam só três minutos, e ela resolveu esperar.

Não adiantava ver nada na tv. Só três minutos. Não valia a pena começar a assistir algo se daqui a pouco ela ia ter que ir para a cozinha fazer os últimos preparativos para o grande jantar. O grande jantar, ela repetiu com os lábios, permitindo-se saborear a expressão estranha. Não é como se fosse acontecer nada de especial. O pedido de casamento já tinha acontecido, as núpcias, os primeiros meses juntos. Agora, ambos se assentavam confortavelmente na vida conjunta, calma e alegre, muito mais feliz do que nenhum dos dois esperava. Claro que não ia durar. Todo casal tem seus tempos chuvosos, e Fernando era do tipo dramático, passional. Ela sabia que ia ter que suportar algumas águas caudalosas, mas se este era o preço por aqueles meses de júbilo, então valia a pena.

Dois minutos. Ela estava ansiosa, mas era de se esperar. Ela tinha perdido uma tarde inteira cozinhando aquela peça de lagarto na panela, como nos velhos tempos. Quatro horas de cozimento em fogo baixo, e a cada hora Marcela tinha que virar a carne, que, mergulhada nos legumes e no vinho Barbera, adquiria lentamente um tez escurecida e escarlate. Ela podia ter economizado tempo usando o microondas ou mesmo o forno comum, mas não seria o mesmo. Seria prático, funcional, mas não ia ser arte, não ia ser do jeito como as avós de Marcela e Fernando faziam em algum vilarejo da Itália, uma Itália perdida e mítica que só existia em histórias antigas, lembranças de gerações mortas e que era vez ou outra recuperada em um desses dificultosos, ocasionais e as vezes equivocados, gestos de carinho.

Um minuto. Fernando ia chegar a qualquer momento. Ele ia gostar, ela sabia. Adorava carne assada no vinho, e dessa vez ela tinha caprichado. Logo as férias iam terminar e ela ia ter que voltar ao trabalho e, por algum tempo pelo menos, gastar uma tarde preparando um único prato ia ser impossível. Pior ainda se eles tivessem filhos. Ia ser díficil manejar pratos, ingredientes, especiarias e modos de preparo, tendo que lidar com bêbes chorando ou crianças correndo pela casa. Essa talvez fosse uma das últimas vezes em que poderia cozinhar algo assim, desse modo. Era bom aproveitar. Mais uns poucos segundos, e ela ia tirar a carne do fogo, arrumar a mesa e subir para se arrumar. Uma tarde de sua vida tinha sido perdida, mas estava tudo bem. Tudo para ver o sorriso satisfeito e amoroso de Fernando mais uma vez.

O telefone tocou.

«Alô» ela disse, já preparada para dispensar logo quem quer que fosse que estivesse ligando. Um quilo de lagarto a esperava na cozinha, perigosamente no ponto.

«Marcela? Marcela é você?»

«Armando? Sim sou eu, o que foi? Onde está o Fernando?»

«Ele estava comigo, Marcela…escute…Marcela, aconteceu um acidente.»

«O que?! O que aconteceu, Armando?»

«Marcela, o Fernando morreu.»