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auto-retrato com agulhas

quinta-feira, 15 de maio de 2008


Vodoo

auto-retrato com agulhas 

alegoria dos alfineteiros.

alegria dos alfinetados.

que esse olho que me pisca,

essa perna que em dói,

não o fazem porque desejo.

mas porque me alfinetam

os caracóis.

 

eu. almofada de alfinetes.

gosto e não gosto das alfinetadas.

 

sou macio, a comparar-se com

coisas duras, feito pedra, mas duro,

se comparado com coisas macias,

feito bronze. mas as agulhas me

atravessam. porque alegorizo os

alfinetes.

 

ao acumularem-se as agulhas.

encontro cabecinhas coloridas espalhadas

por meus ouvidos. gosto e não gosto

de ser boneco vodu.

 

Cesar Kiraly 

minuscUlisses

quarta-feira, 7 de maio de 2008

minuscUlisses

algumas folhas têm nervuras
outras não.
algumas pessoas têm nervuras
outras não.
alguns sonhos têm nervuras
outros não.
alguns poemas têm nervuras
outros não.
algumas paixões têm nervuras
outras não.
algumas sandices têm nervuras.
sempre.

alguns instantes têm certezas
outros não.
algumas idéias têm certezas
outras não.
alguns cigarros têm certezas
outros não.
algumas canetas têm certezas
outras não.
algumas páginas têm certezas
outras não.
alguns versos têm certezas
outros não.
alguns solfejos têm certezas.
sempre.

algumas mulheres têm pequena
outras não.
algumas mulheres têm azul
outras não.
algumas mulheres nos fazem esperar
outras não.
algumas mulheres são de sonho
outras não.
algumas mulheres são de dia
outras não.
algumas mulheres têm lindas mãos
outras não.
algumas mulheres são você
outras não.

a velhice não é o atributo

quinta-feira, 17 de abril de 2008

a velhice não é o atributo
de quem vive muito.
mas de quem nasce primeiro.

se me gafanhotam: gafanhoto.

o esquecimento não é atributo
da memória gasta.
mas da memória primeira.

se me gafanhotam: gafanhoto.

a morte não é o atributo
da extinção da vida.
mas do esquecimento da infância.

se me gafanhotam: gafanhoto.

ao desaparecerem os que lembram do que não lembro,
dos meus momentos de infância, de que não lembro,
porque me lembro. então, morrerei um pouco.
a morte não vem de todo. ela vem de pouco. de pouco a pouco
levar quem se lembra do que não lembro. até que ninguém
possa atestar de que fui pequeno. a não ser do que lembro.
então serei o único garante da minha vida em salto.
estarei morto.

e se me gafanhotam: gafanhoto.

Dois Poemas para Shostakovich

terça-feira, 15 de abril de 2008

O primeiro, de Anna Akhmátova:

Música

Para Dmitri Shostakovich

Algo de miraculoso arde nela,
e fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar,
depois que todos os outros ficaram com medo de se aproximar.
Depois que o último amigo tiver desviado o olhar,
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores tivessem começado a falar.

2. O segundo, de Fernando Monteiro:

O dia 24 era um domingo e no dia seguinte, 25 de setembro de 2006, minha filha completaria doze anos. No mesmo dia, o mundo musical comemorava os cem anos de nascimento de Dmitri Shostakovich. Lá pelas tantas, naquele tranqüilo domingo, resolvi olhar os e-mails e havia um do escritor Fernando Monteiro.

Era um poema, uma litania que Fernando escrevera e dedicara a mim - seu geograficamente longínquo amigo - e a Bárbara. Fiquei honradíssimo com a dedicatória, li o poema para minha companheira de filha e aquela Litania nos cem anos de Shostakovich acabou publicada em alguns jornais. Lembro que planejei fazer referências a estas publicações, mas nunca as fiz.

Hoje, ao procurar uns papéis, encontrei a Litania grampeada a outros dois papéis: um da imagem de uma página de 23 de fevereiro de 2007 do caderno “Anexo - Idéias” do jornal A Notícia de Joinville, onde a Litania tinha sido publicada, e outro, um e-mail de Fernando, explicando-me que as alusões “venezianas” do poema - detritos, crianças, gradis, febre, scirocco -, eram uma homenagem a Mahler que, para ele, é o que Shostakovich é para mim.

Fernando, digo-te que meu coração musicalmente promíscuo coloca Mahler ao lado de meu amado Shostakovich…

Antes de escrever este post, examinei demorada e amorosamente a primeira folha, a da litania sozinha, onde há a linda e enorme letra infantil de minha filha. Bem sobre o B.R., ela escreveu Bárbara Ribeiro.

Litania nos cem anos de Shostakovich

Para M.R. e B.R.

O torso de beleza afastando-se
Como se afasta um afogado
Das margens da praia
Também recuada para trás
De onde o Mediterrâneo
Vinha beijar os pés das sílfides,
Debaixo do sol silencioso.

Abandonados pelas crianças,
Os brinquedos da marina
Zunem de calor no metal
Aquecido como as águas.

O planeta está mais quente
E mais enlouquecido
Entre os pios nublados
Do pássaro escondido
Em árvores molhadas
Da chuva ácida que se filtra
De um céu de tempestade.

Aviões caíram nesta manhã,
Levando passageiros
Para o fundo de uma laguna
E o nenhum lugar da selva
Remota que irá retomar
Seu espaço sobre azulejos
Encardidos e embalagens
Não-degradáveis
Num mundo que prefere o desastre.

Tudo o prenuncia, de certa forma,
E nada está perdoado
Nem foi esquecido
Com todas as coisas que já foram
E com aquelas que ainda serão
Ou que apenas dormem na tarde
À espera dos anos sem emoção.

Os humanos repousam
No sono da sombra de toldos
Estalando na Veneza insalubre
Deste lado do Atlântico
De exímios nadadores
que não viram as crianças
Se afogando.

Sim, eu prefiro estar
Por apanhar um resfriado
Antes da peste
No limite da cerca-viva
De mato e detritos do lixo
Avançando até o antigo gradil
De gladíolos brancos.

É minha a opção de não manter
A saúde, fumar e perder esperança
Na vigilância sem objeto,
Exposto ao vento da tarde,
Ao siroco da mente
Igualmente desistindo
Das perguntas a ninguém
Muito depois de Pã
Anunciado como morto
Antes da morte dos mares.

Então, não importa molhar
Os sapatos da espuma de solfejos
Rumorejando as queixas do Adriático
Como outrora o mar dos gregos
Deixava leve gosto de salgado
Entre os artelhos limpos
De náiades banhando-se
Nos oceanos mitológicos
Que hoje são de plástico
Cor de chumbo.

O poeta só lâmina

sábado, 15 de março de 2008

Um dia após a data adequada a essa postagem - o tal Dia Nacional da Poesia -, aí vai a homenagem ao maior dos poetas deste país - que, por sinal, deveria valorizá-lo mais. João merecia a popularidade. Seus livros deveriam ser leitura obrigatória em todos os níveis, mesmo sabendo que sua poesia é perfurante, como faca em nossa carne. Aliás, até por isso (ou principalmente).

Jo%C3%A3o+cabral

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

Sonetos Estranhos sobre Poética

quinta-feira, 13 de março de 2008

1.

q

que é o poeta?

é aquele que faz poesia, oras!

e poesia, o que é?

poesia, bem… poesia é poesia!

q

é o que eu quiser que seja

pouco me importa a forma,

a norma… isso tudo é prisão do mais puro

qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqCONCRETO

1

que me importa se o soneto não parece

tanto um soneto. que me importa?! eu digo: é

aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaSONETO!]

então é soneto

se tem começo e tem fim, se não tem, enfim…

que me importa? se é boa ou ruim, se eu digo - é poesia

qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqtudo posso na minha poética]
não quero mais saber do lirismo que não é

qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqlibertação]

q

2.

q

tornei-me pégasus para voar alto, bem alto

tentei. mas fui um pégasus pangaré

senti-me ridículo, incapaz

d

preso a idéias tão próximas, tão rasas

tão ralo de imagens

e há tanta coisa para ser cantada, tanta coisa…

s

e então comecei a caminhar e observar. caminhar e observar,

qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqcaminhar e observar]

- às vezes parava para fumar um cigarro -

na busca muitas coisas aprendi e nada me foi revelado

sim, sou jovem! mas temo que nada de realmente relevante um dia

qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqvá ser revelado]

q

então abri o livro e, triste, constatei

que isso já foi cantado por outro poeta

o que me faz lembrar de outro que versou sobra a impossibilidade

qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq de se ter idéias]

filosóficas sobre as quais algum grego não tenha pensado antes,

qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqou algo assim]

q

3.

q

poderia dizer que você pode começar a ler por aqui.

poderia dizer que você pode começar por onde você quiser,

(entretanto já seria uma mentira muito difícil de engolir)

mas os versos que seguem, é verdade, esses realmente não tem

qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqORDEM]

q

Eu faço assim, mas você pode fazer

assado.

Você pode fazer assado.

Você pode fazer!

qq

VOCÊ PODE!

vc pode fazer axim

só você pode

q

só eu posso, só você, só eu, só nós, só podemos, só, só mente

ISSO é POESIA (???)

Você quer poesia? Você quer? É SUA!

q

q

Quando sangro sou um outro

sábado, 8 de março de 2008

Viro esta página em branco.
Aquela? Aquela não. Esta
página em branco.

Minha mão parece que não sabe
mais virar a página ou
pegar a caneta. Minha mão dói.
Parece grande demais para a poesia.
Minha mão era menor. Menor para
escrever poesia. Por isso doía menos.
Poesia para mãos doloridas.
Escrevo poesias para mãos grandes
demais. Mãos sujas de chocolate seco.

O chocolate seco se parece com o
sangue seco. Como o seco se parece
com o sexo. Chocolate e sangue
seco nas mãos. Lamber o sangue
seco dos dedos, lamber o chocolate
seco nos dedos, umedecer até amolecer
o sangue e o chocolate.

A depressão, como o chocolate,
é uma química. O sangue é
uma química. Não passamos de
química. Para mim a depressão é
uma falta. A impossibilidade de se
encontrar sentido nas coisas. É
um esforço. A luta para
criar sentido para tudo. A depressão
quimicomunica com o mundo
me lambuza
os dedos com
chocolate, quando
os lambo sinto
que é sangue,
quando os
sangro, sinto
que é outro.

Um tanto outro

sábado, 8 de março de 2008

Busquei todos os estilos,

a desagregação da língua,

a agregação lírica, o tea-

tro, os romances, mas

sempre a poesia se impunha.

E minha poesia restou novelesca,

agregadora, desagregadora, teatral…

A minha prosa restou poética,

teatral, novelesca, agregadora,

desagregadora. Na língua. Em sua ponta.

Na pontinha da língua. Com sal.

Como fazem com os de baixa pressão.

talvez, poesia, romance, teatro,

restem debaixo da língua.

Como fazem com os que

desfalecem.

Assim, escrevo sempre debaixo

da língua. Apenas onde o

dedo alcança. Sempre um

tanto poema, um tanto prosa,

um tanto confuso…

O enciclopedista e o imperador

sexta-feira, 7 de março de 2008

O enciclopedista possui como dever de ofício o catálogo absoluto de todos os seres que se correspondam, mesmo que de maneira longínqua, com o seu objeto de estudo. Escrever uma enciclopédia não é simplesmente amontoar dados sobre objetos, mas buscar as correspondências, sejam lá onde elas se encontrem, em um vaso de plantas, dentro de um armário ou no último dos copos ainda não quebrados na cristaleira e não permitir que o mundo vaze por nenhuma fresta. Poucos homens podem ser enciclopedistas, do mesmo modo como poucos homens podem ser qualquer coisa, todavia o enciclopedista pode sê-lo na afeição irrestrita a elucidação de pastichos, pois ao impedir o vazamento do mundo, reúne todos os borrões, dos sentidos que tentaram escapar, e os classifica, pela técnica do grafar por cima para prender mesmo. Para além de todas as virtudes do enciclopedista, em dominar as poéticas, em transformar qualquer elemento do mundo, através da técnica do grafar em cima para prender mesmo, em abrandar as informações, transformá-las em letras e bicos de pena, o imperador insistia em colocar o enciclopedista a buscar os seus pertences, em determinar tudo o que podia ser dito de seu, os seus domínios, não mais os domínios da imaginação, tarefa e sina de um enciclopedista, mas os domínios de baixo, os da pertença, os da lança. Um enciclopedista não é um catalogador, para um imperador não existem senão catalogadores.  Imperador: Quantas mulheres possuo? Quantas vacas possuo? Quantas mulheres, vacas e ventres possuo? E se não os possuo por que não são meus? Há necessidade de fazer jorrar o sangue para possuí-los. Escreva. Enciclopedista: Na ficção habita o cristal e o carvão, o dia e a noite, a vida e a morte. Na ficção habita o cristal e o carvão. Para queimar a morte, apodrecer com a morte ou apagar a vida ou esquecê-la.  Imperador: Para que servem mortes apodrecidas se não posso ter os corpos? Fala-me de vida e fogo, mas apenas nas linhas que escreverá posso dizer que existem, fora do tempo, todos os meus pertences. Não esqueça de catalogar o enciclopedista que é – tudo o que pode ser é meu. Sou o dono de seus dedos. Sou o senhor das suas linhas e dominando as linhas tenho o mundo.  

(I)

 

Brincar de ser do tempo.

Louvar de ser do mundo.

Tentar ser de tudo.

 

Mas o tempo não

aceita os pertencimentos.

O tempo só aceita os

intempestivos. O tempo não

aceita os louvores. O tempo

brinda sempre aos vagabundos.

Porque o tempo não tenta

ser de tudo. O tudo é que

é um pedaço do tempo.

 

Brincar de ser do tudo.

Louvar de ser do nada.

Tentar ser de turvo.

 

(II)

 

Porque o enciclopedista

não podia deixar de

verificar os bolsos.

Alguma coisa faltava.

Havia uma sensação constante

de que alguma coisa

havia sido perdida;

um furor persecutório

acima da alma do

enciclopedista. Perseguir o

que se esquece, o que

não se tem. Mas o enciclopedista

não quer posse ou

propriedade. Deseja o calor

e a proximidade de tudo

o que pode ser esquecido.

Por isso anota. Grafa em

tudo. Tumundo. Tudo

o que há no mundo.   

 

(III)

 

Sejam sinceros

com as suas

concubinas.

Comigo sejam

carinhosos.

 

Deixem que seus sonhos

voem para longe. Mas

não tentem espantar os

meus. Meus sonhos não

se libertam de mim. Meus

sonhos só se libertam pelo

fogo. Mas prometo que

arrancarei o fogo dos homens.

Para que não se possa mais

queimar livros. Meus sonhos

são escritos. Como tudo aquilo

que há. Tudo o que existe.

Sou amo das borboletas

dentadas e das abelhas

cantoras. As escrevo. As

criei. As amo. Minhas

são as cantigas do

útero. As ranhuras da

unha. As escrevi. As

criei. As amo.

O papel absorve

a tinta. A permanência cria.

Apenas a fragilidade

da tinta cria.

Prometo que

arrancarei o

fogo dos

homens.

(IV)

 

(3)

– É assim que se caça

um enciclopedista.

Bradou o imperador. – É

preciso que seus ossos

quebrem. Seu sangue

deve apagar as linhas.

Para que tudo reescreva.

E reescreva meu. A

morte cria a linha.

 

(1)

Um corpo pesado se

estatelando no chão. Cartilagens,

vísceras batendo forte no

chão. Um quebrar ruidoso.

 

(4)

É fácil prender

um enciclopedista. Porque

esse tudo teme. Não agüenta

saber que a cada nova

experiência, uma antiga

morre, e novas nascem

sempre. Para o enciclopedista

as experiências deveriam

ser contínuas e empilháveis.

Continuamente empilháveis sempre.

Não existindo esquecimento.

 

É fácil pegar um enciclopedista.

Basta que se lhe ofereça penas,

folhas, modos de fazer

perdurar o vivido. Basta

que lhe seja oferecida

eternidade e acesso a

todos os seres. Basta que

lhe seja dada a entrada

do céu. Do céu da permanência.

Da continuidade, do

mesmo,

sempre.

 

(2)

A cabeça do

enciclopedista bateu

forte contra o

chão. Alguns

juram que sentiram

o mundo tremer.

Mas não saiu livro

de suas orelhas,

mas sangue. E

esse manchou o

chão e seus

escritos.

 

(V)

 

Mas não julguemos

mal o enciclopedista.

Por hoje. É

capaz de viver

toda a vida.

Mas só por hoje.

Só por assim

viver.

 

(VI)

 

Escravo das minhas

fraturas. Servo de minhas

contraturas.

 

(VII)

 

o mundo se manchou.

 

(VIII)

 

e o imperador exigiu que lhe fossem

permitidas todas as criaturas. e todas

as criaturas foram permitidas. mas o

imperador não sabia a arte do permitir.

então, ordenou que o enciclopedista

fizesse as honras da permissão. e o

enciclopedista permitiu que todas as criaturas

lhe fossem franqueadas. os animais do ártico.

com ou sem urso. os animais da savana.

todos os pingüins de pindorama ou de

pasárgada. e tudo lhe foi franqueado pela pena

bela do enciclopedista. o enciclopedista

tomado pela febre do fazer permanecer. permitiu

todas as permissões. entregou também os animais pensados.

as mulheres desejadas. as sandices inventadas. e não

inventadas. e lhe franqueou tanto. que tanto de tudo.

tanto. todos os desejos das mulheres. dos homens.

as alturas dos anões. e o enciclopedista lhe forneceu.

os amores de ontem e de ontem. com sua pena.

fez com que tudo permanecesse. e fosse

do imperador.

 

(IX)

 

mas o enciclopedista não franqueou

os próprios sonhos. e o imperador percebeu

as artimanhas. as papas de aranhas do enciclopedista

foram requisitadas. o imperador queria toda a permanência.

até mesmo a permanência do espírito do enciclopedista.

mas o enciclopedista, não poderia lhe entregar.

o que mora no espaço da constância. deve permanecer

constante. no espaço obtuso entre uma orelha e outra.

entre uma idéia de outra. o imperador teve a idéia

de fazer o sangue derramar em idéias pela mundo.

novamente. fez as entranhas do enciclopedista se baterem contra

o chão. mas não foram as idéias que mancharam o chão.

apenas o sangue sujou o belo tapete de bicho do ártico.

sem ursos. tremendamente irritado o imperador

quis sanar a sua sana, mais que sã, de querer tudo

quanto o que há. mesmo sem vontade de respirar.

e quis jogar o jogo do Xá. mas sem peças se fez

entender ao enciclopedista que prontamente arrancou

o dedão com os dentes. para fazer o papel do rei. e assim

o imperador pode guerrear. mas o enciclopedista. pela dor.

não conseguiu arrancar os outros. o imperador fez

todas as honras. e fez falanges guerreiras. das falanges do

enciclopedista. arrancadas pelos dentes imperiais.

tremendamente se fez o tabuleiro. e o enciclopedista

sangrou para não se lhe entregarem os sonhos. e morreu.

prendendo com os dentes os sonhos de permanência

em pena e seda. o imperador não compreendeu a

resistência. mas não resistiu ao jogo do Xá. e teve

por alguns instantes. todos os animais imaginados.

e jogou com todos os sonhos. com o dedão como

rei. e todas as suas falanges.     

Poesia Cronópios

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Bandoneon 

Queridos amigos,

 aproveito para dar a conhecer um site muito bacana, de literatura.  E para dar notícia de que foram publicados alguns poemas meus. Espero que sejam bastante criteriosos com o site e muito permissivos com a minha poesia. Aproveitem e vejam as entrevistas da TV Cronópios. http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=2967

Um abraço,

Cesar Kiraly

Curtos

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Olá leitor, seja bem-vindo ao primeiro post da sessão “Achados e Perdidos”, sempre com pérolas artísticas coletadas na internet ou em outros meios. Divirtam-se!

http://www.youtube.com/watch?v=Zdj9vMH4BfQ

Dir: Nash Edgerton

http://www.bluetonguefilms.com

*** 

 

obsoleto

tudo que eu sabia

absoluto

 

Tchello d’Barros

http://tchellodbarros-poemas.blogspot.com/

Adendo

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Maiakóvski

Encontro no post anterior um pretexto para citar um pequeno trecho da autobiografia de Maiakóvski, oportunamente intitulada “Eu mesmo”. O poeta, por meio de pequenos parágrafos um tanto irônicos, discorre desde suas primeiras lembranças até acontecimentos em meados de 1928.

Planejava escrever uma autobiografia mais completa e elaborada, mas sequer começou. Isso porque, em 1930, deve ter se lembrado dos versos iniciais de A Flauta-Vértebra, escrito quinze anos antes:

Freqüentemente me indago:
Talvez fosse melhor
dar à minha vida
o ponto final de um balaço.

E o fez.

Mas, enfim, voltemos à autobiografia. Aos seus primeiros anos. Há diversas passagens geniais, como esta:

Meus estudos

Mamãe e primas de vários graus ensinavam-me. A aritmética parecia-me inverossímil. Era preciso calcular pêras e maçãs distribuídas a garotos. Contudo, eu sempre recebia e dava sem contar, pois no Cáucaso há frutas à vontade. Foi com gosto que aprendi a ler.

E, logo em seguida, complementa:

Primeiro livro

Passarinheira Agáfia. Se na época eu tivesse encontrado alguns livros daqueles, deixaria para sempre de ler. Afortunadamente, o segundo livro foi Dom Quixote. Que livro! Fiz uma espada de pau e uma armadura e destruía tudo que me cercava.

Mas o que trecho que eu queria mesmo citar é o que vem abaixo, cujo pretexto, como já vos disse, é o diagrama anterior, pois Maiakóvski era um dos principais integrantes do movimento futurista russo e essa passagem revela o princípio de seu fascínio pela modernidade, ainda quando criança. Ei-lo:

O inusitado

Eu tinha uns sete anos. Meu pai [guarda florestal] passou a levar-me a cavalo para a ronda das matas. Um desfiladeiro. Noite. A cerração era densa. Nem conseguia ver meu pai. Uma vereda muito estreita. Talvez meu pai tenha empurrado com o braço um ramo de roseira-brava. O ramo enterrou espinhos no meu rosto. Com gritos, vou tirando os espinhos. Subitamente, a dor e o nevoeiro sumiram. Na cerração que desaparece surgiu uma coisa mais brilhante que o céu. Era a eletricidade. A fábrica de aduelas do príncipe Nakachidze. Depois de ver a eletricidade, a natureza perdeu completamente o interesse para mim. É uma coisa não aperfeiçoada.