O enciclopedista possui como dever de ofício o catálogo absoluto de todos os seres que se correspondam, mesmo que de maneira longínqua, com o seu objeto de estudo. Escrever uma enciclopédia não é simplesmente amontoar dados sobre objetos, mas buscar as correspondências, sejam lá onde elas se encontrem, em um vaso de plantas, dentro de um armário ou no último dos copos ainda não quebrados na cristaleira e não permitir que o mundo vaze por nenhuma fresta. Poucos homens podem ser enciclopedistas, do mesmo modo como poucos homens podem ser qualquer coisa, todavia o enciclopedista pode sê-lo na afeição irrestrita a elucidação de pastichos, pois ao impedir o vazamento do mundo, reúne todos os borrões, dos sentidos que tentaram escapar, e os classifica, pela técnica do grafar por cima para prender mesmo. Para além de todas as virtudes do enciclopedista, em dominar as poéticas, em transformar qualquer elemento do mundo, através da técnica do grafar em cima para prender mesmo, em abrandar as informações, transformá-las em letras e bicos de pena, o imperador insistia em colocar o enciclopedista a buscar os seus pertences, em determinar tudo o que podia ser dito de seu, os seus domínios, não mais os domínios da imaginação, tarefa e sina de um enciclopedista, mas os domínios de baixo, os da pertença, os da lança. Um enciclopedista não é um catalogador, para um imperador não existem senão catalogadores. Imperador: Quantas mulheres possuo? Quantas vacas possuo? Quantas mulheres, vacas e ventres possuo? E se não os possuo por que não são meus? Há necessidade de fazer jorrar o sangue para possuí-los. Escreva. Enciclopedista: Na ficção habita o cristal e o carvão, o dia e a noite, a vida e a morte. Na ficção habita o cristal e o carvão. Para queimar a morte, apodrecer com a morte ou apagar a vida ou esquecê-la. Imperador: Para que servem mortes apodrecidas se não posso ter os corpos? Fala-me de vida e fogo, mas apenas nas linhas que escreverá posso dizer que existem, fora do tempo, todos os meus pertences. Não esqueça de catalogar o enciclopedista que é – tudo o que pode ser é meu. Sou o dono de seus dedos. Sou o senhor das suas linhas e dominando as linhas tenho o mundo.
(I)
Brincar de ser do tempo.
Louvar de ser do mundo.
Tentar ser de tudo.
Mas o tempo não
aceita os pertencimentos.
O tempo só aceita os
intempestivos. O tempo não
aceita os louvores. O tempo
brinda sempre aos vagabundos.
Porque o tempo não tenta
ser de tudo. O tudo é que
é um pedaço do tempo.
Brincar de ser do tudo.
Louvar de ser do nada.
Tentar ser de turvo.
(II)
Porque o enciclopedista
não podia deixar de
verificar os bolsos.
Alguma coisa faltava.
Havia uma sensação constante
de que alguma coisa
havia sido perdida;
um furor persecutório
acima da alma do
enciclopedista. Perseguir o
que se esquece, o que
não se tem. Mas o enciclopedista
não quer posse ou
propriedade. Deseja o calor
e a proximidade de tudo
o que pode ser esquecido.
Por isso anota. Grafa em
tudo. Tumundo. Tudo
o que há no mundo.
(III)
Sejam sinceros
com as suas
concubinas.
Comigo sejam
carinhosos.
Deixem que seus sonhos
voem para longe. Mas
não tentem espantar os
meus. Meus sonhos não
se libertam de mim. Meus
sonhos só se libertam pelo
fogo. Mas prometo que
arrancarei o fogo dos homens.
Para que não se possa mais
queimar livros. Meus sonhos
são escritos. Como tudo aquilo
que há. Tudo o que existe.
Sou amo das borboletas
dentadas e das abelhas
cantoras. As escrevo. As
criei. As amo. Minhas
são as cantigas do
útero. As ranhuras da
unha. As escrevi. As
criei. As amo.
O papel absorve
a tinta. A permanência cria.
Apenas a fragilidade
da tinta cria.
Prometo que
arrancarei o
fogo dos
homens.
(IV)
(3)
– É assim que se caça
um enciclopedista.
Bradou o imperador. – É
preciso que seus ossos
quebrem. Seu sangue
deve apagar as linhas.
Para que tudo reescreva.
E reescreva meu. A
morte cria a linha.
(1)
Um corpo pesado se
estatelando no chão. Cartilagens,
vísceras batendo forte no
chão. Um quebrar ruidoso.
(4)
É fácil prender
um enciclopedista. Porque
esse tudo teme. Não agüenta
saber que a cada nova
experiência, uma antiga
morre, e novas nascem
sempre. Para o enciclopedista
as experiências deveriam
ser contínuas e empilháveis.
Continuamente empilháveis sempre.
Não existindo esquecimento.
É fácil pegar um enciclopedista.
Basta que se lhe ofereça penas,
folhas, modos de fazer
perdurar o vivido. Basta
que lhe seja oferecida
eternidade e acesso a
todos os seres. Basta que
lhe seja dada a entrada
do céu. Do céu da permanência.
Da continuidade, do
mesmo,
sempre.
(2)
A cabeça do
enciclopedista bateu
forte contra o
chão. Alguns
juram que sentiram
o mundo tremer.
Mas não saiu livro
de suas orelhas,
mas sangue. E
esse manchou o
chão e seus
escritos.
(V)
Mas não julguemos
mal o enciclopedista.
Por hoje. É
capaz de viver
toda a vida.
Mas só por hoje.
Só por assim
viver.
(VI)
Escravo das minhas
fraturas. Servo de minhas
contraturas.
(VII)
o mundo se manchou.
(VIII)
e o imperador exigiu que lhe fossem
permitidas todas as criaturas. e todas
as criaturas foram permitidas. mas o
imperador não sabia a arte do permitir.
então, ordenou que o enciclopedista
fizesse as honras da permissão. e o
enciclopedista permitiu que todas as criaturas
lhe fossem franqueadas. os animais do ártico.
com ou sem urso. os animais da savana.
todos os pingüins de pindorama ou de
pasárgada. e tudo lhe foi franqueado pela pena
bela do enciclopedista. o enciclopedista
tomado pela febre do fazer permanecer. permitiu
todas as permissões. entregou também os animais pensados.
as mulheres desejadas. as sandices inventadas. e não
inventadas. e lhe franqueou tanto. que tanto de tudo.
tanto. todos os desejos das mulheres. dos homens.
as alturas dos anões. e o enciclopedista lhe forneceu.
os amores de ontem e de ontem. com sua pena.
fez com que tudo permanecesse. e fosse
do imperador.
(IX)
mas o enciclopedista não franqueou
os próprios sonhos. e o imperador percebeu
as artimanhas. as papas de aranhas do enciclopedista
foram requisitadas. o imperador queria toda a permanência.
até mesmo a permanência do espírito do enciclopedista.
mas o enciclopedista, não poderia lhe entregar.
o que mora no espaço da constância. deve permanecer
constante. no espaço obtuso entre uma orelha e outra.
entre uma idéia de outra. o imperador teve a idéia
de fazer o sangue derramar em idéias pela mundo.
novamente. fez as entranhas do enciclopedista se baterem contra
o chão. mas não foram as idéias que mancharam o chão.
apenas o sangue sujou o belo tapete de bicho do ártico.
sem ursos. tremendamente irritado o imperador
quis sanar a sua sana, mais que sã, de querer tudo
quanto o que há. mesmo sem vontade de respirar.
e quis jogar o jogo do Xá. mas sem peças se fez
entender ao enciclopedista que prontamente arrancou
o dedão com os dentes. para fazer o papel do rei. e assim
o imperador pode guerrear. mas o enciclopedista. pela dor.
não conseguiu arrancar os outros. o imperador fez
todas as honras. e fez falanges guerreiras. das falanges do
enciclopedista. arrancadas pelos dentes imperiais.
tremendamente se fez o tabuleiro. e o enciclopedista
sangrou para não se lhe entregarem os sonhos. e morreu.
prendendo com os dentes os sonhos de permanência
em pena e seda. o imperador não compreendeu a
resistência. mas não resistiu ao jogo do Xá. e teve
por alguns instantes. todos os animais imaginados.
e jogou com todos os sonhos. com o dedão como
rei. e todas as suas falanges.