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Esperando Meu Godot
sexta-feira, 17 de outubro de 2008Influência nem sempre é algo sobre a qual um autor tem muito controle. Você não decide: “Eu vou escrever como Hemingway”. Quer dizer, a não ser que você seja medíocre.
Influência é algo que se absorve, quase passivamente, quase por osmose. Como cianeto. Parte mais estranha, às vezes você nem é influenciado por autores que você gosta. Acho que todo mundo consegue ver que minha obra é fortemente influenciada por Kafka; está lá em “O Tigre Fortuito”, a série dos “101 Infernos”, até “Macacos”. Bom, adivinha só: eu não gostava de Kafka. Eu odiei “O Processo”, e achava “Amérika” uma das maiores perdas de tempo a que já havia me submetido. Mas, aos poucos e até imperceptivelmente, Kafka tomou conta de mim. Hoje eu posso dizer que nenhuma literatura pesa mais nas minhas palavras que a do gênio perdido de Praga… exceto talvez a de Samuel Beckett.
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Vocês devem esse blog a Samuel Beckett. Foi ele que me fez desistir dos romances e da literatura quadrada na qual eu estava metido. Foi Beckett que me fez ver a desintegração da linguagem, sua futilidade e fraqueza. Beckett foi um bálsamo para as minhas ilusões literárias que me tirou do triste caminho de ser outra inútil voz no vazio, punhetando modernistas mortos… Chega de escrever as mesmas velhas histórias e repetir as lições, como um garoto sendo punido a reeescrever vez por vez o mesmo texto em um quadro-negro. Sob a influência de Beckett, permiti que minha literatura se fragmentasse, abandonei a pretensão de objetividade e parti para outras coisas. A decisão de fazer cinema, também veio daí. Imagens contam, uma vez que as palavras não são mais sagradas.
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“Esperando Godot” é minha peça predileta. Até mais do que qualquer uma de Shakespeare. Embora, convenhamos, “Hamlet” já prenunciava “Godot”, “Hamlet” já era uma peça onde nada acontecia por vários atos.
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E qual a graça de “Godot”? É que a peça é uma ferramenta de auto-conhecimento. Quem é Godot? O que é Godot? A resposta, definitivamente, diz mais sobre quem o espera do que sobre ele. Eu lia “Esperando Godot” e saquei: “Godot é a esperança!” Mas daí pensei… “Não. Godot é a esperança porque eu vivo de esperanças. Para as outras pessoas, Godot é outra coisa…” Para cristãos, Godot é deus. Para comunistas, Godot é a revolução. Para capitalistas, Godot é um grande empresário, para os nihilistas, Godot é uma ilusão. A genialidade de Beckett está aí: a imagem especular de “Esperando Godot” não se manifesta apenas no fato de que um ato repete o outro. Ela se manifesta no fato de que a peça reflete o próprio espectador. Como Didi e Gogó, você também está esperando Godot, matando o tempo e tentando se entreter com algumas vãs palhaçadas. E, assim como Didi e Gogó, você também infeste e atribui a Godot características que explicam o que VOCÊ aguarda… O que você passou a vida esperando, ou o que você acredita, ainda que não confesse sequer para si próprio, que vale a pena esperar.
Cada um tem seu Godot. Sua salvação mágica, seu deus ex machina. Talvez ele venha amanhã, talvez não. Não importa. Nada acontece, enquanto você apenas esperar.
Diálogos Impertinentes (Cap. 2)
sexta-feira, 17 de outubro de 2008Sempre preocupado com as graves questões que emocionam a nação, meu amigo Marconi Leal (sim, eu tenho amigo que é casado, coitado, mas não tem filhos. Qual o problema?) esqueceu sua tradicional casquinhagem e largou via interurbano.
- Rapaz, nesta eleição de São Paulo, me decepcionei duplamente. Primeiro, por causa da concorrência kassabiana. E, depois, porque eu pensava que ele pertencia a outra minoria - a dos retardados mentais.
Nas condições normais de temperatura e pressão, não costumo dar muita importância a este tipo de chilique deste meu amigo. Porém, percebi que a concorrência kassabiana estava lhe obnubilando o seu já parco raciocínio quando ele afirmou que retardado mental é minoria no Brasil. Aonde?
Pois bem. Diante da gravidade do problema, fiquei matutando uma fórmula para ajudar o rapaz, quando o mesmo, aflito, interrompeu minhas reflexões, com a óbvia pergunta.
- Sêo Françuel, Kassab é mesmo viado?
- Não, Marconi. Claro que não. Isto é apenas mais uma calúnia, uma baixaria do PT. Pode mandar as Senhoras de Santana e os reaças homofóbicos paulistanos votar no rapaz com a consciência tranqüila. Kassab não é viado. Viado é o namorado dele.
- Mas, então, por que ele começou a cair nas pesquisas?
- Simples. Por uma questão bíblica. Ta lá em Romanos. Capítulo um, versículo 26. São Paulo condena os efeminados.
- Ai, meu São Luiz Mott. E ainda tem jeito de reverter a queda de Kassab?
- Tem, sim. É só você mandar os marqueteiros do pefelista colocar em prática o ensinamento de meu amigo Janjão de Aratuípe.
- E qual é, qual é? Indagou a ansiosa gazela pernambucana
- Seguinte. Os marqueteiros devem elaborar uma peça publicitária com a foto de Supla seguida da frase: foi Marta quem fez.
- E se nem isso der jeito?
- Quase impossível que tal estratégia não funcione. Mas, ainda assim, resta um último recurso. Pegue um spray cor-de-rosa e saia pichando as feias paredes da capital paulista com o ensinamento do pessoal do Zeno.
DÁ O CU NÃO É DEFEITO. KASSAB PARA PREFEITO.
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sexta-feira, 17 de outubro de 2008O pessoal reclama da crise, mas é lindo falar “Circuit Breaker!”
Bom nome pra quando eu tiver uma banda de rock heavy metal.
Não é nada, mas é bem melhor que ‘crise subprime’ ou ‘duplo twist carpado’…
Novas escrituras
sexta-feira, 17 de outubro de 2008Publico duas novas escrituras no sítio principal do OPS! Não as reproduzirei por inteiro aqui, em virtude do acordo editorial da Revista, mas gostaria que todos passassem os olhos. A primeira escritura aborda a crise financeira, sob a perspectiva da crítica ao delírio, A crise financeira e a economia real: um delírio.
A outra escritura é uma proposta de conferência para o evento de arte denominado FOTO Rio. Na perspectiva experimental abordo A câmara clara de Roland Barthes, para fazer comentários sobre os argumentos de morte e vida da história da arte:
O Monólogo Amoroso (I)
sexta-feira, 17 de outubro de 2008Que importância tem isso? Tuas palavras servem a tua realidade; as minhas, à minha. Se trocarmos as palavras, elas passam a não valer nada.
INGMAR BERGMAN – Sonata de Outono
Ela virou-se com dificuldade para o lado e, com o gravador sobre o travesseiro, ligou-o e começou a falar.
Minha querida filha. Ontem fiquei surpresa com nossa conversa. Não esperava tuas expressões desencantadas e as comparações que fizeste entre a minha vida e a tua. Disseste que minha existência era a comprovação de que todo amor e intimidade transformava-se inexoravelmente em indiferença ou ódio. Não concordo. Não é minha experiência geral e, se é a tua, só posso lamentar. Como penso que não sobreviverei à doença, quero deixar aqui um registro sobre fatos de nossas vidas que talvez ignores. Prometo gravar meus monólogos nos intervalos entre minhas crises de dor. Não suportas minhas lamúrias de doente e, além disto, há outro motivo para pensar que estas gravações sejam ideais para mim: sabes que tenho dificuldades em discussões e discursos; me emociono facilmente e, se antigamente os bons argumentos acabavam me chegando tarde, comumente quando já em retirada, na situação atual talvez eles nunca aparecessem. Não tenho pressa, alguém diria que tenho todo o tempo do mundo; espero tê-lo ao menos para organizar meus pensamentos. Não tenho expectativas de que aquilo que vou contar agora tenha grande repercussão em ti, mas gostaria que soubesses. Minha história começa lá por 1963, durante minha adolescência.
Li num livro qualquer uma frase em que o autor dizia que não tivera adolescência, que passara da infância diretamente para a inexperiência adulta. Parece ter sido o meu caso. Apaixonei-me por Ricardo quando tinha 15 anos. Ignoro o que ele, um estudante universitário nove anos mais velho, teria visto numa tapada como eu. Está bem, diziam que eu era bonita, mas era só. Em nosso mundo da Avenida João Pessoa, ele era o vizinho desconhecido, o que entrava e saía de seu apartamento de solteiro pouco menos que cumprimentando os outros moradores. Eu o via raras vezes, apesar de passar horas conversando com os amigos, sentada na escadaria de entrada do edifício ao lado, onde morava. Ele não tinha nada de especial; entre nós, seu apelido era o “cara dos discos”, pois quase sempre carregava alguns deles, junto com uns cadernos não muito grossos, que depois soube serem partituras, e uma caixa de violino. Um dia, eu estava comprando sorvete no bar perto de casa quando ele entrou e puxou conversa comigo. Não acreditei que qualquer tipo de amizade pudesse prosperar entre eu e um homem adulto e, toda sorridente, caminhei com ele até do edifício dele, pensando no que os outros diriam daqueles cem metros de conversa. Mas ninguém vira o que para mim fora uma lisonja e fui obrigada a anunciar deselegantemente a epopéia a minhas amigas: eu falara com o “cara dos discos”, ele se chamava Ricardo e era músico, violinista. Houve algumas referências sobre sua profissão e sobre como os discos que ele levava seriam ruins. Sentindo que nosso encontro não aumentaria nem prejudicaria minha reputação, acrescentei, também sem sucesso, que ele era fazia um mestrado na Universidade.
Como por mágica, passei a vê-lo quase todos os dias. E sempre conversávamos. Às vezes, conjeturava se era a minha vaidade o que fazia alongar excessivamente nossos diálogos ou se era Ricardo quem desejava minha companhia. Eu não tinha objetivos. Ele estava muito distante de meu ideal de adolescente e me parecia algo entre o não desejado e o inatingível. Um dia, mostrou-me alguns discos de que não lembro e estendeu-me um de Sonatas para Viola da Gamba e Cravo, de Bach. Deu-me vontade de não aceitar o disco, pois viera acompanhado da frase “Este eu não ouço tanto”, o que denunciava sua opinião sobre minha importância em seu mundo. Porém, minha enorme vontade de agradar impediu-me qualquer negativa. Assim, com toda a dedicação, ouvi pela primeira vez aquele emaranhado de notas, sem saber nada sobre as leis que regiam o que me parecia um novelo inextricável e menos ainda o motivo pelo qual uma música tinha várias partes, umas rápidas e outras lentas, que eram mais chatas que as primeiras. Porém, uma hora depois, já tinha pesquisado e entendido que o que chamava de partes eram movimentos e que uma música, ou obra, era formada por vários movimentos, sendo que os rápidos eram “Allegros” ou “Vivaces” e os lentos “Adágios”. Com toda esta bagagem cultural e tendo descoberto que Bach nascera em 1685, ouvi com mais simpatia o disco emprestado.
Dois dias depois, Ricardo surpreendeu-me ao perguntar direta e seriamente o que eu achara do disco. Disse que tinha gostado e ele me prometeu outros. Estávamos ficando amigos. Ele perguntava e parecia interessar-se por meus assuntos de estudante secundarista e eu lhe retribuía ouvindo seus discos e comentando-os a meu modo. Depois de tantos encontros, eu já o achava legal, às vezes bonito e era natural que eu o visse como uma possibilidade de namorado. Meus amigos viam-nos e, principalmente as amigas, também conversavam com ele, mas eu escondia o fato de acompanhá-lo diariamente até o Instituto de Música da Universidade - uma longa caminhada – e que ele perguntara sobre os horários de saída de colégio, pergunta que fingi não ouvir.
Na verdade, creio que me aproximei por vaidade, e esta transformou-se lentamente em atração física, curiosamente misturada a intuição de que havia naquele rapaz com a barba por fazer a possibilidade de ser salva de uma vida familiar e futuro vulgares. O rosto de Ricardo carregava em si objetivos, concentração e interesses em coisas que não diziam respeito a meu cotidiano: ele ensinava-me sobre música, cinema e leituras, trazia um outra esfera para mim. Contava-me também sobre sua angústia: a Sonata Nº 2 para violino solo de Bach. Quando chegou seu violino novo - que depois mostrou-se quase igual àquele que seu pai lhe dera -, permaneceu semanas ensaiando-a em casa, afastado de todos. Sim, de todos, porém eu era recebida. Minhas visitas não eram de forma alguma assexuadas, mas eram inteiramente sem contato físico. Minha primeira cerveja e copo de vinho foram ali. Ríamos muito, eu tinha evidente admiração por ele e tal sentimento apenas aumentou quando soube afinal o motivo de tanto esforço: ele estava preparando-se para uma audição em Roma que poderia dar-lhe uma bolsa de estudos. Uma semana antes da viagem, ele me beijou apaixonadamente. Na hora, a novidade deu-me vontade de rir, como se estivesse participando de uma coisa para a qual estivesse muito despreparada, mas por nada desistiria, ainda mais tendo à frente uma longa separação. Foram dias em que fiquei mais em sua casa do que na de meus pais. Deixei de ir às aulas no turno da tarde para ficar abraçada a ele sob as cobertas. Meus amigos logo desconfiaram do cara dos discos. Naquela altura, creio que nos amávamos muito.
Ela desliga o gravador e fecha os olhos para dormir.
Freud: pensador do político
quinta-feira, 16 de outubro de 2008.: interlúdio :.
quinta-feira, 16 de outubro de 2008Não que vá tornar-se um hábito - mas trago outra postagem dupla. Fazendo algumas indicações para um amigo, ontem, encontrei dois álbuns seguidamente pedidos por aqui, e que ainda não haviam achado sua brecha. Pago a dívida e falo pouco. Afinal, são dois clássicos brilhantes e populares. Aproveitem.
Bill Evans Trio - Sunday at the Village Vanguard (128)
“Had Bud Powell and Bill Evans not existed, Jazz would have had to invent them.”
– C. M. Bailey
• Gravado ao vivo no Village Vanguard, NY, 25/06/1961.
• Um dos melhores discos de jazz feitos ao vivo, de acordo com qualquer prancheta crítica.
• LaFaro é considerado um “pai” para os baixistas de jazz, por seu estilo libertário, improvisador. Morreu num acidente de carro dez dias depois desta gravação, aos 25 anos.
Bill Evans: piano
Scott LaFaro: bass
Paul Motian: drums
Produzido por Orrin Keepnews para a Riverside
download - 77MB
01 Gloria’s Step [take 2] (LaFaro) 6′09
02 My Man’s Gone Now (Gershwin) 6′21
03 Solar (Davis) 8′52
04 Alice in Wonderland [take 2] (Fain) 8′34
05 All of You [take 2] (Porter) 8′17
06 Jade Visions [take 2] (LaFaro) 3′44
_bonus tracks
07 Gloria’s Step [take 3] 6′54
08 Alice in Wonderland [take 1] 6′59
09 All of You [take 3] 8′08
10 Jade Visions [take 1] 4′16
The Dave Brubeck Quartet - Time Out (vbr)
“It doesn’t just sound sophisticated - it really is sophisticated music, which lends itself to cerebral appreciation, yet never stops swinging.” — Steve Huey
• Gravado em três sessões, entre junho e agosto de 1959.
• O título do álbum se refere aos andamentos inusitados para o jazz, que Dave tanto gostava e que fizeram seu nome. Blue Rondo começa em 9/8, Take Five é em 5/4, as duas últimas em 6/4. No entanto, Paul Desmond tende a levar seus solos para o 4/4 - o que, na verdade, é a explicação ‘matemática’ para a citação logo acima.
• Foi espinafrado pela crítica em seu lançamento. (Engraçado como a crítica norte-americana detestava qualquer mudança em seu feijão-com-bop.) Grandes coisas: vendeu como água. “Time Out” foi número 2 da parada Billboard, e Take Five talvez seja o tema de jazz mais conhecido em todo mundo.
Dave Brubeck: piano
Paul Desmond: alto saxophone
Eugene Wright: double bass
Joe Morello: drums
Produzido por Teo Macero para a Columbia
download - 56MB
01 Blue Rondo a la Turk (Brubeck) 6′44
02 Strange Meadow Lark (Brubeck) 7′22
03 Take Five (Desmond) 5′24
04 Three to Get Ready (Brubeck) 5′24
05 Kathy’s Waltz (Brubeck) 4′48
06 Everybody’s Jumpin’ (Brubeck) 4′23
07 Pick up Sticks (Brubeck) 4′16
Boa audição!
Blue Dog





