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Um Fígado para Roberto Bolaño (II)

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Roberto Bolano 2E então, após sua morte, os livros de Bolaño começaram a vender cada vez mais. Há muito Bolaño nos blogs de língua espanhola e Os Detetives Selvagens e Estrella Distante são os preferidos de meus colegas. Alguns deles traçam linhas de continuidade e conexões entre Os Detetives e O Jogo da Amarelinha de Julio Cortázar ou Adán Buenosayres de Leopoldo Marechal e falam não apenas das qualidades literárias de Bolaño, mas de suas obsessões como a eterna busca de personagens perdidas, amores e cidades. Li Os Detetives Selvagens este ano, mas como li O Jogo há mais de 30 anos, não consigo estabelecer tais conexões, apesar de não ignorar que qualquer livro que contenha 50 ou mais narradores deve alguma coisa à Cortázar…

Santificado hoje e diabólico ontem, Bolaño se comprazia em fustigar seus inimigos literários. Ele os depreciava de frente, não obedecendo aos habituais salamaleques. Sobre Isabel Allende disparou: “Digo calmamente que Allende é má escritora. Para qualificá-la como escritora, uso de certa indulgência, pois nem isso ela é”. Isabel respondeu: “Dei uma olhada a dois de seus livros e eles me entediaram profundamente”. Até aí, tudo normal. A novidade é que, quando Bolaño morreu, Allende seguiu firme: “Não o lamento. É uma pessoa que nunca disse nada de bom a respeito de alguém. O fato de estar morto não o faz melhor. Era um senhor bem desagradável”. Isabel Allende foi bastante exagerada ao escrever que seu conterrâneo nunca disse nada de bom sobre alguém.

“Skármeta é um personagem televisivo. Sou incapaz de ler qualquer um de seus livros. Sua prosa me vira o estômago”, torpedeou Bolaño. O colombiano Fernando Vallejo respondeu pelo colega afirmando que a prosa de Bolaño é demasiadamente simples, plana, elementar, do tipo “Eu, Tarzan; tu, Jane”.

Bolaño teve problemas também com Diamela Eltit. Eu, Milton, os acho tremendamente cômicos… Ela o convidou para um jantar em sua casa. OK. Só que depois, ele publicou uma impiedosa crítica a um livro de sua anfitriã e aproveitou para fazer referências à péssima gastronomia produzida pela autora, dando detalhes. “Este é um tema sobre que prefiro não tocar. O que se passou foi algo absurdo e hipertrofiado. Bolaño morreu e eu prefiro não dizer nada a respeito”.

Bolaño deu também tiros que alcançaram o Brasil, atingindo Nélida Piñon e Paulo Coelho…

Hace poco, Nélida Piñon, celebrada novelista brasileña y serial killer de lectores, dijo que Paulo Coelho, una especie de Barbusse e Anatole France en versión telenovela de brujos cariocas, debía ingresar en la Academia brasileña, puesto que había llevado el idioma brasileño a todos los rincones del mundo. Como si el “idioma brasileño” fuera una ciencia infusa, capaz de soportar (sobreviver a) cualquier traducción, o como si los sufridos lectores del metro de Tokio supieran portugués. Además, ¿qué es eso de “idioma brasileño”? Idea tan desmesurada como si habláramos del idioma canadiense o australiano o boliviano.

Javier Cercas, autor de Soldados de Salamina, romance onde Bolaño é personagem, sustenta que há dois tipos de lendas em torno de Bolaño. Uma que foi construída pelos leitores e fãs e outra criada pelo próprio autor, voluntária e involuntariamente. Diz Cercas que ambas não se ajustam à realidade, mas que a de Bolaño é, em certo sentido, “mais real que a realidade” e que a outra é uma quase mentira ou uma mentira com elementos de verdade. O escritor espanhol enumera fatos em favor de uma construção mítica em torno de seu amigo: morreu jovem; morreu no melhor momento de sua carreira; morreu e foi recebido pela de braços abertos pela tendência que os meios literários possuem de falar bem dos mortos (com fartas cotas de hipocrisia — exceto Allende, claro). “A história da literatura está cheia de exemplos de canonização após uma morte prematura. Mas o que acho assombroso é que o mesmo homem que escreveu A Pista de Gelo, escreveria 3 anos depois Estrella Distante e seis anos depois Os Detetives Selvagens. É estupefaciente que, entre 1996 e 2003, ano de sua morte, ele tenha evoluído e escrito tanto!”.

Eu me pergunto se Bolaño sobreviverá a isto. Hoje, a única pergunta que cabe é se Bolaño é genial ou extraordinário. A última entrevista concedida por Bolaño foi para Mônica Maristain, da Playboy mexicana; ela perguntou: “O que você diz daqueles que pensam que Os Detetives Selvagens é o melhor romance mexicano de todos os tempos?”. Ele respondeu: “Dizem isto de pena. Me vêem decaído e desmaiando em praça pública e não lhes ocorre nada melhor do que uma mentira piedosa, que é o mais indicado nesses casos. Não é pecado fazer isso”.

Graças a boa relação existente entre o editor Jorge Herralde (Anagrama) e a família de Bolaño, chegaram às livrarias em 2007 textos que formaram mais dois livros: El Secreto Del Mal e La Universidad Desconocida. Também chegou um livro de poemas: Los Perros Românticos. Jorge Herralde foi amigo, editor e promotor da obra de Bolaño. E hoje é mais: é quem garante a subsistência de sua mulher e filhas, cuidando para que os direitos autorais cheguem a elas. Cumpre o que prometeu ao escritor antes de sua morte. É, repito, um amigo.

(continua com comentários sobre obras de Roberto Bolaño)

Fontes consultadas: Livros de Bolaño, Caderno de Cultura do Clarín de 22/09/2007 e blogs argentinos.

Este é o novo Secretário de Desenvolvimento do RS

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Secretario De Desenvolvimento Marcio Biolchi
O nome do fofuxo é Márcio Biolchi (à esquerda na foto).

Foto roubada do Diário Gauche, só para variar.

E, abaixo, um roubo do Dialógico que exprime um problema sob uma ótica visceral-realista (já que estamos em tempos de Bolaño por aqui):

K Presidios

Franz Peter Schubert (1797-1828) - Piano Sonata in B Flat, D. 960, Fantasia in C, D. 760, Wanderer

quarta-feira, 30 de julho de 2008

FDP Bach resolveu dar uma chance aos brendelianos, como ele, e está postando duas obras de Schubert com o grande Alfred Brendel. Creio que muita gente não consegue acompanhar a polêmica Pollini-Schubert-Brendel simplesmente pelo fato de não ter tido acesso a esta gravação. Então, para resolver este problema, eis a dupla tão aclamada, Brendel/Schubert. Talvez este seja o início da postagem desta coleção. Ainda não decidi.
São duas obras aqui postadas. Uma delas é a sonata favorita de muita gente que conheço, inclusive do próprio mano PQP e da nossa querida Clara Schumann. É a Sonata D. 960, numa interpretação considerada por muitos definitiva. A ouvi 5 vezes seguidas hoje de manhã, enquanto preparava aula. A outra obra, é a excepcional Fantasia D. 760, “Wanderer”, também interpretada por um Brendel inspiradíssimo. Enfim, uma gravação obrigatória para os schubertmaníacos.

Gostar de uma ou outra versão é algo pessoal. E pessoalmente minha versão favorita para esta sonata ainda é com o grande Wilhelm Kempff, talvez o grande schubertiano deste século. Mas não pretendo polemizar com meu irmão PQP, nem com minha colega brendeliana de carteirinha, Clara Schumann. PQP continua com sua predileção por Pollini, e Clara continua com seu brendelzinho (suspiros). E a Terra não deixará de rodar por causa disso.

Franz Peter Schubert (1797-1828) - Piano Sonata in B Flat, D. 960, Fantasia in C, D. 760, “Wanderer”

01 Piano Sonata in B Flat, D. 960 - 1 - Molto moderato
02 Piano Sonata in B Flat, D. 960 - 2 - Andante sostenuto
03  Piano Sonata in B Flat, D. 960 - 3 - Scherzo (Allegro vivace con delicatezza
04  Piano Sonata in B Flat, D. 960 - 4 - Allegro, ma non troppo
05 Fantasia in C, D. 760, Wanderer - Allegro con fuoco, ma non troppo
06 Fantasia in C, D. 760, Wanderer - Adagio
07 Fantasia in C, D. 760, Wanderer - Presto
08 Fantasia in C, D. 760, Wanderer - Allegro

Alfred Brendel - Piano

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Harmonia Mundi - 50 years of music exploration - CD 6 de 29

quarta-feira, 30 de julho de 2008

A série de motetos isorítmicos do grande Guillaume Dufay não forma um ciclo homogêneo. Cada um deles foi composto como “peça de circunstância”, às vezes com intervalos de muitos anos. Então, os treze motetos, que aqui são apresentados em ordem cronológica, servem para demonstrar a evolução de Dufay ao longo dos vinte anos que separam a composição do primeiro e do último. Se os primeiros são estritamente matemáticos e góticos; os últimos são muito mais majestosos e tranqüilos. Em 1440, Dufay concluiu que a isoritmia não tinha futuro num mundo onde a expressão individual ganhava mais e mais espaço e tratou de aproximar os textos da melodia, tornando sua música a mais humanística de sua época. Foi um grande gênio que preparou o caminho de saída das formas medievais para a polifonia dos anos seguintes. Esses motetos são o ápice de uma arte que depois foi desenvolvida por Machaut e Dunstable.

CD 6: Intégrale des Motets isorythmiques - Guillaume Dufay

1. Vasilissa Ergo Gaude, A Voix, 1420
2. O Sancte Sebastiane - O Martyr Sebastiane/O Quan Mira, A 4 Voix, C.1437
3. O Gemma, Lux Et Speculum - Sacer Pastor Barensium/A Voix, C.1434
4. Apostolo Glorioso/Cum Tua Doctrina Andreas, Christi Famulus, A 6 Voix, 1426
5. Rite Majorem Jacobus - Artibus Summis Miseri, A 5 Voix, 1426-27
6. Ecclesie Militantis - Sanctorium Arbitrio Bella Canunt Gentes, A 5 Voix 1431
7. Balsamus Et Munda Cera, A 4 Voix,1431
8. Supremum Est Mortalibus, a 4 Voix,1436
9. Nuper Rosarum Flores, a 4 Voix, 1436
10. Salve Flos Tusce Gentis - Vos Nunc, Etrusce Iubar, A 4 Voix,1435-36
11. Magnanime Gentes Laudes - Nexus Amicie Musa, A 3 Voix, 1446
12. Fulgens Tubar Ecclesiae Dei - Puerpera, Pura Parens, A 4 Voix, 1446
13. Moribus Et Genere - Virgo, Virga Virens, A 4 Voix, Annes, ? 1446

Huelgas-Ensemble
Paul Van Nevel, conductor

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Um Fígado para Roberto Bolaño (I)

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Roberto Bolano 1

Alguns o vêem como o sucessor de Borges e Cortázar, outros como um autor intranscendente e plano, porém, indiferente a quaisquer avaliações, segue engrossando o culto a Roberto Bolaño na América de língua espanhola.

Ícone chileno, mexicano, argentino e espanhol, ele tem multiplicado seus leitores de forma permanente e os que o lêem parecem ser tomados pelo vírus de tal forma que passam logo ao estado de fãs e seguidores. Para nós, brasileiros, é estranho que um autor de alta qualidade seja incensado pelo grande público; afinal, estamos sob uma vaga de ignorância tão grande que é bastante desconfortável saber que os grafiteiros destes países costumam escrever nos muros das cidades: “¡Un hígado para Bolaño!”. Aqui, Paulo Coelho, Marcelino Freire e Bruna Surfistinha; logo ali, atravessando a fronteira, Roberto Bolaño.

Além da América espanhola, ele está sendo traduzido com sucesso para a Europa e Estados Unidos. Busca-se mais contos, romances e poemas do autor cujas cinzas foram jogadas por sua mulher e filhas no Mediterrâneo em 2003.

Bolaño era chileno, mas se reconhecia como “autor latino-americano”. É compreensível: teve vida breve, nasceu em 1953, viveu largas temporadas no México e na Espanha — o golpe de Pinochet, por exemplo, aconteceu quando morava com sua família no México — e sua morte ocorreu em Barcelona.

Enrique Villa-Matas diz que a morte de Bolaño fechou uma vida destinada a tornar-se uma lenda. Ele está certo e é por este fato que estou escrevendo a série de quatro artigos que começo aqui. Minha motivação é a de comprovar que talento, coragem, idealismo e loucura, características tão raras na era do politicamente correto e do incontroverso, são absolutamente necessárias à arte.

Sua morte prematura aos 50 anos — enquanto esperava, em Barcelona, um fígado para transplante — foi o último ato da formação de um mito para o qual Bolaño contribuiu de forma direta. Morreu em 14 de julho de 2003 no hospital Valle de Hebrón. Passou 10 dias em coma por complicações hepáticas enquanto esperava em vão. Deixou textos para publicação póstuma e outros inconclusos. Estava preocupado com o futuro de sua mulher e das filhas. Entre os papéis deixados havia os cinco grandes textos que deveriam – e formaram - o estupendo romance 2666, que gira em torno de um escritor desaparecido (Benno von Archimboldi) e onde há cenas que descrevem o horror dos feminicídios em Ciudad Juárez, onde as mulheres parecem ser caça.

Mas voltemos à biografia do autor.

Roberto Bolaño nasceu em Santiago do Chile em 1953. Com 13 anos, mudou-se com sua família para a Cidade do México. Ali, praticamente morava dentro da Biblioteca Pública. Permanecia tanto tempo lendo que, pasmem, não terminou a escola média nem entrou para a universidade. Curiosamente, hoje existe a cátedra Roberto Bolaño na Universidade Diego Portales de Santiago… Em 1973, caiu Salvador Allende e Roberto retornou ao Chile de carona, com a intenção de unir-se à resistência contra a ditadura que se instalava. Foi preso. Salvou-se graças a um amigo, ex-colega de colégio, então já milico, que o reconheceu e conseguiu liberá-lo. Ano depois, diria que não falava sobre política pois “os que detém o poder, ainda que por pouco tempo, não sabem nada de literatura”. Porém, a literatura ocupa-se do político e Bolaño viria a escrever o brilhantíssimo, premiado e inteiramente político Noturno do Chile.

Em seu regresso ao México, juntamente com o poeta Mario Santiago Papasquiaro –- a inspiração para a criação do personagem de Ulises Lima, o amigo de Arturo Belano do romance Os Detetives Selvagens — fundou o movimento poético infra-realista que se opôs dissonante e ferozmente aos principais pilares da literatura mexicana, representada especialmente por Octavio Paz.

“Poderíamos dizer que o infra-realismo o moldou como escritor e romancista, mas também o México teve importância nesta transformação. Ela amava o México noturno, o México das ruas e dos cafés, a fala cotidiana e seu indiscutível humor desencantado. Não é casual que seus dois maiores romances – Os Detetives Selvagens e 2666, sejam centrados no México”, escreveu o escritor Juan Villoro.

Anos depois emigrou para a Espanha, onde já vivia sua mãe. Colheu uvas em alguns verões, trabalhou como vigilante noturno em Castelldefels, foi balconista de armazém, lavador de pratos, faxineiro de hotel, estivador, lixeiro e recepcionista até tornar-se escritor em tempo integral.

Como todo apaixonado por literatura, também foi um hábil ladrão de livros, quando não tinha dinheiro para pagar por eles. (Tal fato, que destaco em parágrafo especial, talvez sirva de atenuante para os articulistas de vida pregressa plena de roubos nunca descobertos…).

(continua)

Fontes consultadas: Livros de Bolaño e o Caderno de Cultura do Clarín de 22/09/2007.

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) - CD 4 de 10 - Piano Concertos nº 15, K. 450, e nº 16, K. 451.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Mozart / Immerseel, a saga continua. O volume 4 traz os concertos de nº 15 e o de nº 16, outras duas peças tradicionais do repertório pianístico.
Sempre se distinguindo pela leitura que faz destas peças, Immerseel nos traz mais momentos de puro deleite, tocando dum Mozart de altíssimo nível. Não há como não se emocionar com sua leitura. o Conjunto Anima Eterna também é de primeiríssima linha, e a parceria com seu diretor/solista também funciona direitinho.
E o que parecia impossível, aconteceu: A Channel Classics, gravadora desta integral, lançou a coleção com um novo layout, e por um preço tentador, 72 dólares. Mas existem ainda volumes, possivelmente ainda da edição anterior, a incríveis U$ 47,52. Muito barato, para um material de altíssima qualidade.

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) - Piano Concertos nº 15, K. 450, e nº 16, K. 451.

1. Concerto for Piano no 15 in B flat major, K 450: 1st movement, Allegro
2. Concerto for Piano no 15 in B flat major, K 450: 2nd movement, Andante
3. Concerto for Piano no 15 in B flat major, K 450: 3rd movement, Allegro
4. Concerto for Piano no 16 in D major, K 451: 1st movement, Allegro assai
5. Concerto for Piano no 16 in D major, K 451: 2nd movement, Andante
6. Concerto for Piano no 16 in D major, K 451: 3rd movement, Rondo

Jos van Immerseel - Piano e Conductor
Anima Eterna

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O seu, FDP Bach

J.S. Bach (1685-1750) - Obras para Órgão com Elisa Freixo

terça-feira, 29 de julho de 2008

Elisa FreixoMuitas vezes a gente cruza com autênticos mensageiros de Bach. O caso da mineira Elisa Freixo é dos mais maravilhosos. Organista, cravista e professora de música, Elisa ministra cursos com os nomes muito agradáveis como “‘A Paixão segundo São Mateus’, audição e análise da obra”. Este curso — ocorreu no primeiro semestre — durou 3 meses, todas as segundas-feiras, das 19h45 às 21h30, em Belo Horizonte. (Suspiro… Por que não é gaúcha?) Ao ouvir Elisa, percebemos claramente que estamos não apenas diante de uma grande solista como de uma pessoa que ama o que faz. Não lembro quem me enviou este CD pelo Orkut na época em que publicávamos aqui a Obra Completa para Órgão com Helmut Walcha, também não sei onde se vende e não encontrei maiores referências, mas agradeço muitíssimo. Pesquisando sobre Elisa Freixo, encontrei sua casa em Ouro Preto e uma explicação de quem publicou a foto, um certo Públio Athayde:

Casa De Elisa FreixoCasa da Elisa Freixo. Nesta casa, de sua residência, a famosa organista e musicista recebe grupos para récitas de cravo e outros instrumentos de teclado antigos. A professora se apresenta em concertos semanais também na Sé de Mariana, cujo órgão histórico e raríssimo é a grande estrela. Além do mais, Elisa é autora de livros sobre Órgãos Históricos no Brasil, como este e este. Ou seja, mereceria ser santificada por seu trabalho, mas é quase anônima em nosso país. No CD que posto, Elisa nos dá belas interpretações da notável Trio-Sonata Nº 1, da lindíssima Pastorale e da esplêndida Partita Sei gegrüsset, Jesu gütig, minha obra preferida dentre tudo o que Bach escreveu para o órgão.

Ouçam o CD. É muito bom e raro.

J.S. Bach - Obras para Órgão

01 BWV0525_Trio-Sonata Nro 1
02 BWV0537_Prelúdio e Fuga em c
03 BWV0543_Prelúdio e Fuga em a
04 BWV0545_Prelúdio e Fuga em C
05 BWV0590_Pastoral em F
06 BWV0596_Concerto em d
07 BWV0768_Partita ‘Sei gegrüsset, Jesu gütig’

Elisa Freixo, Órgão Ahrend Porrentruy ,Suiça

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Os Incendiários

terça-feira, 29 de julho de 2008

Alguém comentou numa entrevista — acredito que tenha sido Vitor Ramil — que, na sua casa, pegava-se uma lata de goiabada vazia, levava-se ao banheiro, enchia-se de álcool, riscava-se um pau de fósforo e pronto, tínhamos aquecimento para nosso banho. Vitor cresceu em Pelotas, eu em Porto Alegre, somos de mesma geração, ambos de cidades geladas durante o inverno e, bem, o fato é que nossas famílias utilizavam o mesmo recurso. Há razões científicas para a escolha da lata de goiabada: ela tem o formato de um disco, sua abertura é maior.

Lembro-me perfeitamente que às vezes a lata estava meio carcomida, mas que eu, com menos de sete anos, providenciava o álcool, o fósforo e tocava fogo. Muitas vezes havia álcool pelo chão, o qual era esterilizado pelo fogo que logo apagava. O mais apavorante é que no canto do banheiro em que eu (e todos nós) fazia (fazíamos) o foguinho havia toalhas e a porta de saída do banheiro. Incrível, as toalhas ficavam aquecidas, mas o espaço entre as línguas de fogo e suas pontas era suficiente para não carbonizá-las. Lembro — vejam só que interessante — que a porta ficava quente… Ou seja, as toalhas poderiam queimar se eu não as levantasse adequadamente, a porta poderia queimar se eu não afastasse direitinho a lata e ainda havia a possibilidade de eu esquecer de trancar a porta e alguém entrar, inevitavelmente dando um peteleco na latinha, que voaria com seu inflamado conteúdo.

A noite passada sonhei que tinha uns 14 anos e entrava no banheiro da casa de meus pais para tomar banho. Estava um frio de matar e resolvi descascar uma na banheira. A masturbação, sabemos, aquece. Antes, tinha pegado uma garrafa de álcool e posto fogo na latinha rasa. Então minha irmã entrou com tudo no banheiro jogou o aparato pelos ares. As paredes do banheiro ficaram cheias de gotas de fogo, o chão era puro fogo azul e ela começou a resolver a coisa tirando um cesto de madeira cheio de roupas que havia em nosso apartamento (o tal cesto era uma coisa verdadeiramente medonha, provavelmente obra de meu avô). É natural que uma mulher, em meio a uma catástrofe que poderia explodir o edifício, pense primeiramente em salvar as roupas. Eu fiquei protegido dentro da banheira, puto comigo mesmo por ter fechado a porta sem trancar e escondendo o pau duro atrás da cortina, enquanto via a porta pegar fogo e a empregada berrar “tô sentindo um cheiro de queimado; o que vocês estão aprontando?”.

Acordei rindo, pois era um incêndio perfeitamente controlável e estava fascinado por ter me lembrado do tal cesto onde jogava minhas roupas cheias do barro esportivo das praças que nos cercavam. Fiquei imaginando se deixaria algum de meus filhos fazer um incêndio controlado no banheiro. Nunca! Tenho certeza que se matariam! Eu sei que muitas vezes tocava fogo na lata com as mãos molhadas de álcool e, se elas pegavam fogo, eu as abanava e fim. Só tirava a roupa depois, com o ambiente aquecido. Enquanto isso, ficava sentado na privada fechada, aguardando o calor tomar conta do aposento. É que os chuveiros elétricos daquela época eram uma porcaria; hoje eu tomo um banho-maria, porém, em minha adolescência tinha que ficar bem embaixo das gotas mais quentes, senão morria de frio. Isso depois de provocar um incêndio e de me masturbar, claro. Só aos 20 anos mudamo-nos para uma casa com uma coisa maravilhosa: um aquecedor à gás.

Minha mãe chamava-me de incendiário por gostar de brincar com velas. Até hoje gosto de acender lareiras e churrasqueiras. Explosão e fogo é comigo, mas é tudo controlado… Ainda bem que acabou aquela onde de álcool em gel. O líquido é muito melhor. Não é, Ira?

Durante esta segunda-feira, perguntei a várias pessoas se suas famílias faziam o mesmo. Todas riam de minhas lembranças. Cheguei à conclusão que isso era comum, principalmente no interior do estado — minha mãe é de Cruz Alta. Imaginem o número de incêndios e de gente que saiu correndo nu de um banheiro em chamas em nossa província. Não adianta, o inverno sempre foi mais divertido que o verão.

Normal Fogo Jose Lopes

DIAS MELHORES VIRÃO. E SE NÃO VIEREM A GENTE MANDA BUSCAR

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Rembrandt Auladeanatomia

Após dias de um obscurantismo medieval, eis que todos os problemas foram resolvidos, inclusive os de espinhela caída e brochitude prolongada.

Sorriam. Numa fusão só vista antes quando da compra da Budweiser pela InBev, este blog agora pode ser acessado digitando-se qualquer um dos endereços abaixo:

www.marconileal.com

www.marconileal.blogspot.com

www.marconileal.opensadorselvagem.org

www.opensadorselvagem.org/blog/marconileal/

Todos os caminhos levam ao Senhor, que, no caso, sou Eu mesmo. Está tudo funcionando tão perfeitamente que desconfio ter alguma coisa errada.

Seja como for, aguardem, pois me vejo prestes a terminar trabalhos obsedantes os quais, informo, seriam capazes de deixar o Chico Xavier cabeludo de preocupação e em breve voltarei a atualizar estas páginas.

Aos desconfiados de sempre, lembro que nada é impossível. E a maior prova disso é que a Dercy Gonçalves, recentemente, morreu.

Aproveito para denunciar que desocupados sórdidos, pérfidos e insidiosos andam escrevendo aleivosias a meu respeito. Ou talvez escrevam sentados, não sei. Confiram aqui.

Harmonia Mundi - 50 years of music exploration - CD 5 de 29

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Um CD estupendo, talvez o melhor que já postamos de música antiga. Começa com uma emocionante e devota melopéia dos bizantinos, seguindo com cantos da igreja de Roma que surpreendentemente não diferem muito dos anteriores. Nem em estilo, nem em qualidade. Saímos do sacro para entrar no mezzo-secular de La Comtessa de Dia (pois seu assunto são as Cruzadas), esplendidamente interpretada pelo Clemencic Consort. A luta do mezzo-Carnaval contra a Quaresma segue com a religiosa Laudes & Vêpres pour la fête de sainte Ursule. Absolutamente necessário para os admiradores da música antiga.

Harmonia Mundi - 50 years of music exploration - CD 5

Chant Bizantin - Anonymous
1. Priere De Marie-Madeleine
Sister Marie Keyrouz, soprano

Chants de l`église de Roma - Messe de saint Marcel - Anonymous
2. Introitus: Statuit Ei Dominus
3. Graduale: Inveni David Servum Meum - Verset: Nichil Proficiet
4. Alleluia - Versets: Disposui Testamentum. Inveni David
5. Offertorium : Veritas Mea - Versets: Posui Adiutorium - Misericordia Mea
6. Communio : Domine Quinque Talenta Tradidisti Michi
Ensemble Organum / Marcel Pérès, conductor

La musique des troubadours
La Contessa de Dia
7. Vida. Recitant
8. A Chantar. (Soprano, Viele, Tympanon, Rubebe, Tambour)
Clemencic Consort / René Clemencic, conductor

Hildegard von Bingen (1098-1179)
Laudes & Vêpres pour la fête de sainte Ursule
Laudes

9. Antienne: Stadium Divinitatis
10. Psaume 92: Dominus Regnavit/Studium Divinitatis
11. Benedicamus Domino
Vêpres
12. Chapitre: Domine Deus Meus
13. Chant Responsorial: Mirabilis Dues
14. Hynne: Cum Vox Sanguinis
15. Antienne: O Rubor Sanguinis
16. Cantique: Magnificat Anima Mea/O Rubor Sanguinis
17. Hymne: Te Lucis Ante Terminum
18. Benedicamus Domino
Anonymous 4

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A Dupla Explosiva ( Watch Out, We’re Mad / Altrimenti ci arrabbiamo, 1974 )

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Qualquer dia largo tudo e confesso que este é meu filme favorito de todos os tempos.
Obra prima.

Existe música inteligente e música burra?

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Existe música inteligente e música burra? Fiz esta pergunta ontem para a Claudia, que me respondeu:

– Não. Existe música cerebral e música emocional. Às vezes, alguns compositores conseguem juntar as duas coisas.

Claudia não é trouxa. Trata-se de uma contumaz ouvinte de ópera que está sendo pouco a pouco “domada” ou dobrada por meu amor à música erudita instrumental. Não faço isto por maldade, é que ouço enorme quantidade de música em casa. Quanto à pergunta respondida por ela, concordo com a resposta, mas é notável a insistência com que os musicólogos referem-se à inteligência que há na música do húngaro Béla Bártok. (Agora que todos leram Budapeste, de Chico Buarque, não preciso mais explicar como se pronuncia o nome deste compositor de decantada inteligência musical.)

Por que toco neste assunto? É que ontem, ao vir para casa ouvindo a Rádio da Universidade, comecei a notar algo de muito engenhoso, de muito cerebral na Sonata para dois pianos e percussão de Béla Bartók. Isto é, penso ter entrado novamente em contato de primeiro grau com a tal “inteligência”, mas não consigo caracterizar o que é, nem onde exatamente ela está. Mas o que aquelas pessoas que se arvoram de especialistas dizem?

Abri dois livros e lá está:

1. Otto Maria Carpeaux, em Uma Nova História da Música: “O Quarteto Nº 3 é… uma obra-prima de profunda inteligência musical e de expressionismo algo violento…”

2. Michèle Reverdy, em História da Música Ocidental, não usa o termo “inteligência”, mas ressalta a exatidão matemática, o rigor formal e sabemos com o que estamos nos deparando quando ele diz: “Em 1936, Bartók compôs o que é sem dúvida sua obra-prima: A Música para cordas, percussão e celesta, onde encontramos, ampliados, todos elementos de sua linguagem. As estruturas da obra estabelecem-se segundo as leis da seção áurea e da série áurea mais simples, dita ´Seqüência de Fibonacci´ “.

Mais (ainda Michèle Reverdy): “A ´Seção áurea´ é uma medida que se utiliza em todas as artes, mais particularmente na pintura e na arquitetura. Como ela representa uma proporção perfeita, o pintor, músico ou arquiteto situam as linhas de força de suas obras no ponto dado pela seção áurea. No caso de Bartók, essa utilização é inteiramente consciente, com uma precisão calculada quase no nível da semicolcheia.”

A explicação começa bem, mas não chega ao ponto de explicar com clareza como tal “perfeição” seria apreendida pelo ouvinte. Mas, dentro deste critério escorregadio, arriscaria dizer que Bartók e Bach foram compositores inteligentíssimos e equilibrados, além de terem sido comprovadamente pessoas com grande capacidade intelectual. Mas o que dizer de Bruckner? Bruckner era considerado uma pessoa burríssima, mas sua obra é muito complexa. Já Haydn era um simplório de melodias irresistíveis, enquanto que Rossini inventava melodias tão irresistíveis quanto às de Haydn, e foi também o maior dos frasistas da música erudita; portanto, para burro não servia. (Por exemplo: “Wagner têm alguns trintas segundos brilhantes, mas estes são sempre seguidos de terríveis meias-horas”.)

O melhor mesmo é que vocês confiram as música do húngaro e dêem sua opinião. Sua obra é imensa, destaco estas:

- Música para cordas, percussão e celesta: a campeã da Bartók. Foi utilizada na trilha sonora de O Iluminado, de Stanley Kubrick.
- Concerto para orquestra: o nome é este mesmo, não fiquei maluco. Os instrumentos da orquestra são tratados como solistas.
- Concerto Nº 3 para piano e orquestra: composto antes de morrer com a finalidade de acrescentar uma obra inédita ao repertório de sua esposa Ditta. Uma obra espantosa, criada com amor e medo.
- Allegro Barbaro para piano solo: que sofreu plágio escancarado do grupo de rock progressivo Emerson, Lake & Palmer.
- Concerto Nº 2 para violino e orquestra.
- Sonata para dois pianos e percussão.
- Suíte de danças para orquestra e
- Uma experiência divertida e surpreendente: ouvir os últimos Quartetos de Beethoven e emendá-los diretamente com os 6 Quartetos de Bartók. Vocês verão que estes dão continuidade àqueles. Como escreve Jean Massin, eles possuem a mesma força, a mesma nobreza, o mesmo espírito no tratamento dos instrumentos. Vale a pena! Só não faça isto num dia só, pois todo o processo deve durar mais de 6 horas.