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Diário da Lulu: Diário da Lulu

Bartleby, o escrivão ( parte 2)

Publicado em 13/06/2008, às 10:17, por lulu


( Continuação do post Bartleby, o escrivão)

Bartleby não sai do escritório, pára inclusive de fazer cópias, é demitido mas acha melhor não sair dali, e fica olhando a parede, parado, achando melhor não. O personagem transforma-se na negação completa de qualquer vontade, uma criatura que escolhe não escolher mais nada, que “acha melhor não”. Nada sabemos sobre Bartleby, um personagem inteiro obscuro, indiscernível, indeterminado, que desafia qualquer esclarecimento. Deleuze, em seu ensaio sobre Bartleby ( Bartleby, ou a fórmula), escreve que, em Bartleby, “é a vida que justifica. Ela não precisa ser justificada”. Bartleby é “um personagem vazio, que conserva seu mistério até o fim”. Bartleby é um persnagem que escolhe não escolher, não há um ato de vontade em sua fórmula, mas sim a negação absoluta de qualquer vontade. Bartlebynão tem nem uma figura de um Pai, que o induza a fazer coisas, que lhe diga assim que isso pode, isso não pode, faça isso, não faça aquilo; nem uma figura de Mãe, que lhe dê proteção e aconchego. O advogado, narrador, vê, e apesar de sentir simpatia por essa figura, de achar até em certo momento que sua função na vida é cuidar de Bartleby, como uma espécie de redenção, acba por sacrificá-lo em nome da Lei. Acabamos sendo, nós leitores e o advogado, testemunhas de um outro, e o vemos cair em desgraça.

No entanto, a ausência de resposta e argumentos possíveis em relação à fórmula de Bartleby (acho melhor não…) acabam por revelar também o vazio do mundo que o rodeia. “A imperfeição das leis, a mediocridade das criaturas, o mundo como máscara” ( Deleuze) A negação de Bartleby gera, a sua volta, um vazio e uma melancolia. Desestrutura o funcionamento do escritório, acaba por incomodar e alterar inclusive os outros funcionários, que se apropriam também da fórmula. O advogado acaba por mudar de escritório, já que Bartleby inclusive recusa-se a sair, a pegar seu dinheiro da demissão, e assim por diante. Os novos ocupantes acabam por mandá-lo para um asilo de loucos, onde torna-se o “homem calado”, que recusa-se a comer, a fazer qualquer coisa, achando melhor não. O advogado vai visitá-lo:

Encolhido de um modo estranho na base do muro, com os joelhos levantados e deitado de lado com a cabeça enconstada nas pedras frias, estava Bartleby, abandonado. Mas não se mexia. Parei; aproximei-me; inclinei-me sobre ele e vi que seus olho sturvos estavam abertos; mas, parecia dormir profundamente. Algo fez com que eu o tocasse. Peguei na sua mão, quando senti um tremor subindo pelos meus braços e me dscendo pela espinha até os pés. O rosto redondo do homem do rango me observou naquele instante.

o almoço dele está pronto. Ele não vai almoçar de novo? Ou ele vive sem comer? “

Vive sem comer” , disse eu , e fechei os olhos.

” Ei, ele está dormindo, não é? “

” Com os reis e conselheiros”, murmurei.

Esse personagem sem história, sem razões, esse personagem que fita a parede, em pé, calado, que estrutura-se no vazio, na ausência de vontades, toma toda nossa atenção e simpatia, e incomoda profundamente, como todo bom personagem deve fazer. Os alunos ficaram melancólicos, mas gostaram do Bartleby, de certa maneira identificaram-se com ele, e ao mesmo tempo temeram-no. Porque há um Bartleby dentro de cada um, um dia, uma hora, bate uma vontade de ficar parado, olhando para a parede.

O livro termina contando-nos que no passado, segundo um boato, Bartleby havia sido funcionário da repartição de Cartas Mortas. As cartas que não chegam ao seu destino, nem são devolvidas ao remetente, que ficam no correio, com seus conteúdos, e são examinadas e depois jogadas ao fogo. Cabia a Bartleby separá-las, e o narrador imagina Bartleby fazendo seu ofício:

Por vezes entre os papéis dobrados, o funcionário lívido encontrava um anel - o dedo ao qual estava destinado talvez estivesse apodrecendo na sepultura - ; algum dinheiro, enviado pro caridade - aquele que teria sido ajudado talvez já não estivesse sentindo fome; um perdão para os que morreram em desespero; esperança para os que morreram sem nada esperar; notícias boas para os que morreram sufocados por calamidades insuportáveis. Com recados de vida, essas cartas aceleram a morte.

Ah Bartleby! Ah, a humanidade!

Então começamos a conversar sobre o que são essas cartas mortas. O narrador imagina cartas de vida, anel, dinheiro, perdão, esperança, notícias boas. Cartas que encerram promessas, possibilidades, futuro. Cartas que encerram sementes de continuidade, de possibilidades de desejos. E que não chegam aos seus destinos, não acontecem de fato, permanecem sementes nunca desabrochadas, nunca vividas, acabando por acelerar a morte.

Talvez a própria vida de Bartleby tivesse se transformado numa espécie de carta morta. Pois toda vida é uma promessa, todos os dias encerram em si possibilidades de encontros, felicidades, tristezas, vivências, transformação. Basta ser aberto pelo outro, chegar ao seu remetente, ser lido,transformar e ser transformado ( pois aquilo que é lido também é transformado pelo seu leitor) . Bartleby não pode ser lido. Não pode ser aberto, não pôde ser transformado, nem por apelos, nem pela Lei. É como se ele revelasse, ao achar melhor não, o quão fechadas são tantas vidas que nunca chegam a acontecer de fato, letras nunca transformadas, nunca digeridas, nunca abertas. Existências sem sentidos, que acabam por aniquilar qualquer vontade.

Nessa semana, todos acompanharam o desaparecimento das duas garotas de fugiram de casa, querendo ir para longe, numa vontade de aventura e experiência, de fuga, talvez de descoberta de sentido para a vida, talvez por uma ausência de sentido de suas vidas atuais. Uma dessas meninas foi minha aluna por dois anos, na sétima e na oitava série. Ano passado, ao se formar no ginásio, ela escreveu uma carta para mim, agradecendo nosso encontro e convívio, carta que inclusive publiquei aqui no blog, pois ela pediu que fosse publicada. Em uma parte da carta, ela dizia assim:

Ultimamente eu tenho pensado muito (como se isso não ocorresse sempre) no que eu seria daqui a uns anos, e este ano que já está acabando foi muito bom pra eu analisar e avaliar as coisas e aprender tantas outras, e com você e “acabei” aprendendo realmente muito, e não foi um aprendizado qualquer, foram coisas importantes, e dentre as minhas opções de futuro acho que eu sempre acabava me espelhando em alguém, ou por influências de convivência, conversas e coisas do gênero, e não sei se você se lembra, mas num dos dias do rancho eu me lembro que você disse que ser professora era o seu jeito de ajudar o mundo, de tentar transformá-lo em algo melhor, e dentro de mim também há este mesmo desejo de ajudar o mundo, e nessas minhas perguntas sobre o meu futuro ás vezes chego a conclusão de querer ser professora como você e os meus outros, mas de português mesmo, pois mesmo tendo esses lado “chato” de gramática (desculpa) e tal, tem um lado mais profundo que desenvolve o aluno, que pode até chegar a ajudá-lo, a se encontrar e tal, e só queria te contar que você despertou este lado humano-professor em mim, e que mesmo não tendo acabado ainda eu vou sentir falta da sua presença nos meus dias escolares, obrigada.

Eu achei que “lado humano-professor” foi uma das coisas mais lindas que li nos últimos tempos.

Há, na carta, um desejo grande de uma vida com sentido e troca, uma vida que não seja uma carta morta, uma vida com projeto e futuro. Estávamos todos muito tocados e emocionados com o desaparecimento das duas. Quando dei a última aula sobre Bartleby, elas ainda não haviam sido encontradas, agora foram, e estão bem.

A leitura que eu faço dessa procura de aventura é que houve um acho melhor não. Não continuar vivendo dentro desse mundo escolar, familiar, sei lá, tantas vezes sem sentido, sem pai nem mãe, sem vida e, aparentemente, sem possibilidades. Sumiram, sem explicações ou aviso.

Todos os meus alunos conhecem alguém deprimido, alguns conhecem pessoas que se suicidaram, todos estão muito confusos, procurando um lugar, uma possibilidade de vida feliz e realizada, procurando encontros, procurando a possibilidade de uma existência onde possam não simplesmente copiar documentos burocráticos, mas serem escritores verdadeiros, sinceros e criativos de suas vidas. Serem donos de suas narrativas e poderem preencher cada dia com sentido e emoção. Todos como pessoas querem encontrar quem osleia, os abra, querem receber também cartas vivas, querem chegar ao outro, aos outros, com surpresas e promessas. Que os caminhos não precisem ser tão perigosos é tudo o que eu fico querendo. E quero também que eles possam criar, e escrever uma vida onde achamos melhor sim.

Bartleby, o escrivão

Publicado em 12/06/2008, às 07:59, por lulu


Estou lendo com a oitava série Bartleby, O escrivão, de Melville.

É sempre difícil escolher o que ler com os alunos, sempre uma aposta. Uns livros dão certo, outros são um fracasso total. Às vezes, uma turma ama Capitães da Areia, e outra detesta. Não sei bem ainda o que faz um livro funcionar ou não, e sempre penso e repenso as leituras que faço com meus alunos.

Uma síntese do que eu penso sobre isso pode ser lida aqui, uma espécie de manifesto sobre os direitos do aluno leitor, com sete reivindicações. Se há interesse pelo assunto, recomendo sem nenhuma modéstia a leitura:


1)O aluno não precisa gostar do livro lido.
Inclusive, é livre para odiá-lo.

2)Ao aluno deve ser oferecido sempre o que há de melhor na literatura universal, passando por todos os gêneros.
3)A literatura não é objeto santificado, sagrado nem de culto máximo.
4)Livros inteligentes devem ser tratados com inteligência.
5)Se o aluno não lê nada, mas nada mesmo, é porque, provavelmente, não sabe ler.
6)Os alunos têm direito a excelentes bibliotecas e a livros baratos.
7)Os alunos têm direito a professores ultra bem remunerados e com tempo para dedicarem-se a eles.

De qualquer maneira, com a oitava série, como já falei, decidi ler Bartleby. O grande critério é, afinal, livros que eu amo, que me colocam fora do meu lugar usual, e que eu acho, por alguma razão às vezes bem misteriosa, que os alunos vão curtir.

A história de Bartleby é bem simples e incrível:

um escrivão um dia é contratado para trabalhar numa firma de advocacia como copista, Bartleby assim é descrito pelo narrador:

Ainda vejo sua figura: levemente arrumado, lamentavelmente respeitável, extremamente desamparado! Era Bartleby. “

(…)

No início Bartleby cumpre as expectativas de seu chefe, aplica-se com afinco no trabalho, embora haja já um tom de tensão: trabalha incansavelmente, mas sem alegria.

” No início Bartleby escrevia muito. Como se estivesse faminto por ter algo para copiar, parecia se empanturrar com meus documentos. Não havia pausa para digestão. Trabalhava dia e noite, copiando à luz natural e à luz de velas. Eu teria ficado empolgado com sua dedicação se ele trabalhasse com alegria. Mas escrevia em silêncio, com apatia, mecanicamente.”

E não deixa de ser irônico um chefe que queira de seus trabalhadores alegria e empolgação.

Então eu vou explicando para meus alunos aquilo que aprendi com meus professores: que na literatura, aquela boa para valer, não importa tanto a historinha, mas sim o  como a historinha é contada, e que devemos prestar atenção sempre nas palavras escolhidas, na maneira como elas se organizam na construção do texto.

É maravilhosa a descrição de Bartleby, primeiro como aspirante a um trabalho ( e há poucas situações mais terríveis como a da entrevista para o emprego)
levemente arrumado, lamentavelmente respeitável, extremamente desamparado!

As duas qualidades que poderiam ser positivas na sua caracterização não se sustentam pois vêm precedidas de advérbios que lhe tiram toda força e dignidade. Levemente arrumado é pior que desarrumado, é como o arrumadinho, ou a moça simpática que na verdade é feia e pronto. Lamentavelmente respeitável então chega a ser lindo, o advérbio reitira toda a respeitabilidade de alguém que a sustenta assim, de maneira lamentável. E, por fim, extremamente desamparado, e esse parece ser o funcinário ideal.

E o novo funcionário começa a trabalhar, num escritório érido, atrás de um biombo, com a vista para um muro de tijolos. O  ofício assemelha-se a uma refeição onde as letras são engolidas compulsivamente, sem pausa ou espaço para digestão. Não há pausa para a fruição ou apreciação daquilo que é ingerido,  o próprio ofício ( copista de documentos burocráticos) fecha as portas para que uma marca pessoal qualquer fique ali impressa, ou mesmo para que aquele que copia possa de fato alimentar-se do conteúdo copiado. A cópia não permite a digestão, já que a digestão significa  apropriação e  transformação daquilo que foi ingerido. Assim, Bartleby empaturra-se de letras copiadas, sem significado ou conteúdo, e trabalha vorazmente, suspenso no nada.

Então eu comecei a conversar com meus alunos sobre esse negócio de trabalho. E há trabalhos que permitem a digestão, e há aqueles que não a permitem. Eu contei para eles que ficava muito contente porque meu trabalho, com eles, era cheio de conteúdo e de significado e volta e meia eu parava para digerir e pensar e criar,e suava e suo muito para deixar minha marca naquilo que faço.

E aí eles começaram a conversar sobre escola, e eles próprios se identificaram com Bartleby. Porque eles trabalham muito na escola, quase nunca em silêncio, é verdade, mas muitas vezes com apatia e mecanicamente. E eu falei para eles que justamente o que dava sentido ao meu estar lá era tentar desmontar um pouco esse sistema, que a escola, como qualquer instituição, acaba funcionando de maneira a retirar das coisas vividas seu sentido, e que a literatura e a  escrita deviam ser vividas como vidas inteiras e significativas, e não como uma tarefa a ser feita de maneira apática e mecânica.

E mais: que havia por aí muita gente vivendo com apatia e mecanicamente, sem ver sentidoem coisa alguma, e que o mundo do trabalho, das obrigações, das aparências acaba criando isso, que é preciso muita coragem para dar sempre, todos os dias, um significado à existência, e principalmente a coragem primeira de ser fiel aos próprios desejos e sonhos.

e um aluno perguntou:

- mas quem não faz o que quer? Todo mundo faz o que quer!

E vários responderam:

-  não… minha mãe não faz o que quer. Meu pai sente que abandonou seus sonhos… Minha madrasta é infeliz… Minha irmã não sabe o que quer…

E então voltamos à Bartleby, nosso personagem,  procurando empanturrar-se vorazmente com letras sem interesse ou conteúdo. Um copista, como são tantos na vida. “Lamentavelmente respeitável, extremamente desesperado.”

Logo chega o  momento em que o advogado, patrão de Bartleby e narrador da história ( o que confere à toda narrativa toda uma ambiguidade, trata-se daqueles narradores de quem se deve desconfiar profundamente, de quem não compraríamos um carro usado, por exemplo) pede que Bartleby confira com ele uma cópia que fez.

É claro que uma parte indispensável do trabalho do escrivão é verificar se sua cópia está correta, palavra por palavra. Quando há dois ou mais escrivães num escritório, eles se ajudam nessa verificação, um lendo a cópia e o outro, o original. É uma tarefa muito cansativa, monótona e desanimadora. Posso compreender que essa seria uma tarefa intolerável para pessoas mais vivazes. “

Então o patrão chama seu empregado para cumprir a tarefa, e ouve, atônito, a resposta:

- acho melhor não. ( em inglês; I would prefer not to. A tradução proposta na edição que estamos usando não é de todo feliz, pois I would prefer not to carrega uma estranheza, um formalismo não usual que na fórmula acho melhor não , se perde) 

O maravilhoso é que a resposta de Bartleby desconcerta totalmente o advogado, que perde as palavras e a ação, atônito. Novamente, alguns dias depois, pede-se que Bartleby confira as cópias, e novamente o ecrivão recusa-se. O advogado procura entender a recsa de Bartleby, mas não há explicações, a não ser o  I would prefer not to.

E é bem interessante isso. E é legal dar aula de literatura para adolescentes porque a gente pode falar e conversar sobre o óbvio e o simples sem culpa e sem precisar travestir a conversa com grandes conceitos e citações.

Então a gente começou a conversar sobre esse negócio de obrigações, e as coisas que cada um de nós gostaria de simplesmente parar de fazer. Sem explicações, interpretações, justificativas ou análises simbólicas. Uma menina falou que gostaria de parar de falar com a família, outra, que gostaria de parar de falar e de ouvir. Um falou que gostaria de parar de ser gentil com quem não gosta. Um gostaria de parar de ir para a escola, outra falou que gostaria de parar de assistir as aulas das matérias que não gosta. Outro gostaria de parar de assistir todas as aulas, gostaria de ir para a escola e ficar só conversando. Outra gostaria de parar de ser orgulhosa, outra gostaria de parar de ser preguiçosa. E eles fizeram uma redação, o tema era um personagem criado por eles que um dia, simplesmente, pára de fazer algo que lhe é esperado.

A história progride assim, num crescendo, Bartleby cada vez mais achando melhor não .

( continua amanhã)

quando as histórias terminam?

Publicado em 04/06/2008, às 11:01, por lulu


Algumas histórias terminam quando começam outras. Algumas histórias terminam abruptamente, de repente, sem nenhum aviso. Para o outro já vinha terminando faz tempo mas um ali não percebeu. Há ainda aquelas histórias que terminam porque simplesmente tornam-se impossíveis, insustentáveis, insuportáveis. Outras terminam aos poucos, vão definhando e de repente são dois estranhos vivendo juntos. Outras ainda terminam sem que nem se perceba, outras terminam com muita conversa. Mas sempre é estranho, muito estranho, o término de uma história de amor. E sempre, de alguma maneira, é uma grande surpresa, e desencanto também.

Porque quando a gente está com alguém de verdade, por algum tempo, para o mal ou para o bem, a gente se mistura com a outra pessoa. A outra pessoa possibilita e sustenta a nossa existência, a gente fica querendo ser melhor por ela, ser inteiro por ela, ser. A gente quer ligar e contar nosso dia inteiro, os acontecimentos mínimos, vive uma coisa legal e quer partilhar, porque parece até às vezes que é através do outro em nós que a vida acontece. A gente cria um carinho enorme, sabe todos os traços do outro, conhece as cicatrizes e as vergonhazinhas do outro, conhece as manias, como o outro acorda, como faz quando fica bravo ou triste, e fica mal quando o outro está mal. A gente vive e ajuda quem ama, badala, cuida, e é cuidado. Faz juntos planos para o futuro, e fica feliz com tantas possibilidades de vida feliz. E se espanta diariamente com o milagre que é o encontro de duas pessoas apaixonadas. A gente se orgulha, de ter uma história assim. Alguns casais grudam mais, outros menos, mas de qualquer maneira uma parte de nós está ali, no outro, e é bom.

E então algumas histórias, algumas vezes, terminam. Ou vão diminuindo aos poucos. Abrem-se espaços para outras histórias, ou a gente fica simplesmente querendo viver a nossa história sozinho um pouco. Ou o outro já parece não guardar mais surpresas, ou o outro não desperta mais os desejos de outrora. Ou o outro se distancia e de repente já não é mais seu, sei lá. Ou parece que mudamos muito. Os andamentos tornam-se diferentes, os planos se desviam já não andam mais juntos e todo aquele futuro parece que deixa de fazer sentido. A gente sabe que de algum jeito a história terminou, mas o tempo de aceitação, de vivência do luto, quase nunca é o mesmo da separação em si.

Quando eu me separei, já conversava há meses com meu marido sobre nosso casamento. Lutei, lutamos muito para que nossa história continuasse. Porque nos amávamos, nos queríamos bem, e a percepção e aceitação de que nossa história havia acabado era tão dura e pouco verossímil quanto o término em si. E uma das maiores dores era a saudade do nosso futuro, que não existia mais daquele jeito como sonháramos tanto.

E demorou muito tempo para que soubéssemos quem éramos, um sem o outro. Que soubéssemos como é que se faz para viver sem as pequenas coisinhas legais do nosso dia-a-dia, sem o colo do outro, como é que faz para dormir sozinho, para ser sem o outro.

Quando eu saí de casa, nos ligávamos todos os dias. Eu queria saber se ele tinha dormido bem, se tinha se alimentado, se estava sendo cuidado pelos amigos, como é que ele estava. Ele me ligava para saber se eu tinha comido bem, se estava ligando para os amigos, se tinha dormido bem, como é que eu estava. Ligava para perguntar coisas dele, eu ligava para saber coisas de mim. Ficamos mais de um mês assim, até que percebemos que para nos separarmos de verdade precisávamos ficar um tempo separados de verdade, sem nos falar, sem nos ver.

Ele começou outras histórias, eu vivi uma série de historinhas. Até que um dia andava na rua e o vi de mãos dadas com outra mulher. Estávamos separados, separadíssimos, mas eu não consegui deixar de chorar e sofrer um pouco. O enterro da nossa história aconteceu muitas vezes, sucessivamente. Ali foi um deles. Depois fui me acostumando. Depois nos encontramos, seis meses depois, e quem lê o blog com frequência já sabe como foi belo e importante o nosso reencontro.

Ontem ele me ligou, contando que havia lido o post continua valendo. E que tinha ficado muito feliz por mim. “Você não ficou triste, enciumado? ” eu perguntei. “Não.” ele disse. Gosto muito de você, eu quero muito que você seja feliz. E eu me emocionei e contei para ele que andava insegura, e ele falou que eu ligasse, chamasse, gritasse, quando precisasse de ajuda ou simplesmente de um amigo para conversar. E eu ri, e ele falou: “você acha estranho isso , né? ” um pouco, eu falei, mas sim, falei, somos amigos. Somos fundamentais um para o outro, e nosso amor continua ali, transformado, mas presente. Estamos ali, atentos um pelo outro, porque nos gostamos muito. è estranho, mas a vida é inteira estranha.

A pessoa com quem estou agora diz que se orgulha muito da maneira como meu casamento terminou. Que é importante terminarmos bem, finalizarmos bem as histórias das nossas vidas. Nem sempre isso é possível, como já estou adulta e velha, tenho muitos amigos que se separaram, já estão na segunda ou terceira história, e guardam mágoas e desencantos profundos das histórias que terminaram. Nem sempre é possível, terminar bem, mas é importante tentar, por carinho e respeito ao outro, que foi e de alguma maneira sempre continua sendo tão importante para nós.

E às vezes , nessa nossa idade adulta e velha, o outro com quem a gente está também tem suas histórias para terminar, finalizar, transformar. É muito difícil, lidar com as histórias dos outros. Às vezes há filhos, disputas judiciais, mágoas, mal entendidos. Estar e abraçar uma nova pessoa na nossa vida é também abraçar e topar viver junto as suas histórias passadas e às vezes ainda presentes. Não adianta querer que elas sumam, até porque elas fazem parte do nosso amor, dessa pessoa com a qual de repente a gente quer fazer uma história nova. Acho que isso é uma espécie de maturidade, e generosidade, e também um ato de amor. Reconhecer que cada um tem uma história, que cada história tem seu tempo, e que o tempo de finalização e transformação das histórias é muito difícil, um tempo que requer tempo.

Eu espero. E estou junto. Porque parece que sim.

continua valendo

Publicado em 31/05/2008, às 00:43, por lulu


Então parece assim que às vezes a vida passa, e a gente fica assim tanto tempo sem nem dar bola para os nossos amigos, leitores, conhecidos, desconhecidos, aquela meia dúzia que quer saber afinal de contas o que anda acontecendo com a lulu, ou não, simplesmente gosta de ler o que acontece aqui pelo diário e meio que se acostumaram, sei lá,  e sabem? eu tinha me decidido que ia começar os posts já anunciando logo o assunto, para que os muito ocupados lessem logo as primeiras linhas e já soubessem quem quando onde e como , e não consigo. As manchetes que me perdoem, mas não ter a mínima idéia de onde vou chegar é fundamental. Pelo menos, às vezes.

Porque às vezes a gente não sabe. Porque às vezes nosso pai vai lá e meio que adoece de novo, nada de grave, mas alguma coisa, mas nada que permita assim nenhuma síncope nem nada. Um talvez, que já é o suficiente para ressuscitar essas páginas por aqui tão esquecidas, as pobres.

gente, então vou contar: a lulu está meio que assim namorando. E é chavão. é até meio chato e é definitivamente um grande descerviço à literatura ( ai meus sais de modéstia ) mas quando eu estou assim meio que feliz ( porque falar de felicidade inteira é quase um pecado) escrever não é assim mais tão, tão fundamental. Sim meus leitores, não tenho escrito por plenitude, e falta de tempo também, mas uma coisa tem a ver com a outra.

e sei que muitos querem  e talvez estejam mesmo morrendo de vontade e curiosidade de saber afinal o que aconteceu, quem quando onde e como, mas aí vem essa coisa de também de repente não querer contar, porque algumas coisas da vida são da alçada dos particulares, que a gente deixa para a gente, e basta contar por aqui que parece que sim. Parece que sim.

e então queria dizer que a aventura da vida continua valendo. e que por enquanto é isso. e só. e tanto.

Todo mundo tem uma história

Publicado em 11/05/2008, às 01:39, por lulu


Todo mundo tem uma história. Todo mundo já foi feliz, e depois triste, depois feliz de novo, depois triste e depois, feliz de novo.

Todo mundo já teve um vizinho chato, todo mundo já caiu no chão, todo mundo já fez besteira. Todo mundo já perdeu, e já ganhou algo também. Todo mundo tem uma história, que lhe marcou por querer ou sem que se quisesse. Todo mundo já sofreu, e riu também. Todo mundo já dançou até ficar tonto, e já perdeu a vergonha e  já  sentiu toda vergonha do mundo. Todo mundo já brigou com a família, todo mundo já teve que pedir desculpas, todo mundo já teve coragem, e se acovardou também. Todo mundo tem uma história todo mundo quer ser feliz, todo mundo quer alguma coisa, todo mundo tem algo para dar e tirar. Todo mundo tem uma história, mas às vezes, de vez em quando,  parece não haver quem queira ou possa chegar perto, e ouvir a história da gente, aquela única, ali, bem quando a gente precisava, contar toda nossa história, para alguém bem específico, que tivesse uma história única  para contar também. Todo mundo tem uma história, e toda história tem seu tempo, de acontecimento, duração, gestação. Como é difícil, às vezes, andar no passo do tempo das histórias, e aceitar seu ritmo. Como às vezes dá medo, o caminho das histórias.

Um grande mistério

Publicado em 03/05/2008, às 13:12, por lulu


Para mim, a vida é um grande mistério. Tudo que aprendi na escola desaprendi rapidamente. Não sei como o telefone funciona, não sei como os aviões voam, não sei como o que digito aqui aparece aí, na tela da casa de vocês. Não sei a fórmula de báskara, não sei porque às vezes fico gripada, às vezes não.  Não sei como nem porque as pessoas nascem e morrem, não sei como as abelhas se comunicam. Não sei como algumas pessoas dirigem a vida inteira e nunca nem riscam nem um milímetro de seus carros, nunca se perdem, nunca esquecem onde estacionaram.  Não sei como as pessoas vivem, queria entrar em cada casa de cada janela que olho, e ficar ali, vendo. Não sei como alguns vivem sem nunca experimentar a alegria de uma quinta feira livre, o amor, a liberdade, sem experimentar o abismo, a coragem. Não sei como o leiteiro faz para acordar todos os dias às cinco da manhã, ou talvez ainda mais cedo, e entregar o leite todos os dias na casa do pessoal. Não sei como é a vida do jornaleiro da minha esquina, não sei como funciona o coração dos homens. Não sei porque de repente criam-se ódios, porque problemas inexistentes ficam grandes, não sei porque meu cabelo às vezes acorda bom, às vezes acorda sem jeito ou solução. Não sei porque às vezes sonho sem parar, às vezes não. Não sei o que sonhei ontem. Não sei como funcionam os afetos, as memórias, não sei porque às vezes quero sair, às vezes não. Não sei porque aquela mulher mantém-se linda e fresca, no calor das seis da tarde, bem no meio do ônibus lotado. Ali, no ônibus, não sei para onde vai tanta gente, e o que cada um vai fazer, e o que cada um pensa, e quais as aflições e as alegrias de cada um. Não sei como funciona a lei da gravidade, não entendo esse negócio de velocidade da luz, se eu tivesse um irmão gêmeo e ele viajasse na velocidade da luz, e voltasse, eu estaria velha, ele novo, não sei, não entendo. Não sei como as pessoas aguentam cada coisa que as pessoas aguentam, não sei como nosso destino se constrói. Não sei porque de algumas pessoas quero logo ficar amiga e saber da vida inteira, enquanto outras me parecem insuportáveis.    Tudo é um grande mistério, que eu olho com interesse e toda a curiosidade do meu corpo e do meu ser. Não sei como as coisas funcionam, e não preciso saber, eu gosto desse mundo sem lógica e sem sentido.  Eu gosto da surpresa da vida.Eu olho para os mistérios da vida como uma criança fascinada, que vê a árvore e fica repetindo: árvore, árvore, árvore. E vê o cão, e fica repetindo e apontando o milagre da vida que é aquela existência canina: cão, cão, cão. E ri, e quando cobre os olhos é como se desaparecesse, e brinca de se esconder e ri quando se acha: achou!E ri. Que venham  os mistérios,  que venha o que eu não domino nem entendo.Não sei como nem porque o amor nasce de repente, vai crescendo e criando forças e quando a gente vê está tomada e quer viver aquilo, junto, como se fosse para sempre, e não sei porque às vezes é para sempre, mesmo que dure segundos, e às vezes não era nada, não é nada, passou. Eu não sei como funciona o amor, como ele nasce, como ele cresce. Eu não sei o que acontece depois, se depois depois houvesse, quando se trata de amor. Eu não sei como funciona o amor, mas eu sei amar.

Venha a vida inteira, venham.

venha o  amor. meu grande e maior mistério, o amor.

verdade ou mentira?

Publicado em 27/04/2008, às 23:54, por lulu


quando eu tinha uns dezesseis anos, fui passar um dia na casa de uma amiga, a Lelé, que vem aqui sempre e comenta. Depois do dia, ela comentou assim:

- Lu…minha mãe, quando você foi embora, disse: nossa, sua amiga Lulu vive dentro de um romance, né?

eu não sei ainda hoje se isso foi uma crítica ou um elogio, mas eu lembro que fiquei um pouco envaidecida à época. Pensei assim que era mesmo uma personagem de literatura, uma heroína de romance B, ou sei lá. Que vivia minha vida como se a escrevesse.

Nesses tempos de separada deparei-me com uma série de situações onde não sabia ao certo se o que haviam me dito era verdade ou mentira, se o que eu estava imaginando era da minha cabeça ou existia de verdade. Querem saber? Não importa.

Na literatura não importa se o que acontece lá tem correspondência no mundo real. Na literatura pode-se criar um personagem impossível, uma situação impossível, basta ter coerência interna, ser convincente dentro do universo criado na obra, e pronto.

Toda hora, quando leio com meus alunos, ouço uma espécie de crítica, às vezes até meio revoltada:

-mas isso não pode acontecer na vida! Na vida não existe um cavaleiro inexistente, na vida não existem cronópios nem famas, na vida não existe um fidalgo  que endoidou e lutou contra moinhos de vento.

Eu até gosto quando ouço isso, porque aí posso sorrir e dizer, como quem revela um grande segredo:

- sabe? por isso que a literatura é legal. Porque as regras da literatura são interiores a ela mesma. Se estiver bem escrito, se for coerente e compreensível para o leitor,  um escritor pode criar o mundo e as personagens que quiser. Pode falar de pessoas que vivem em Marte, pode falar de uma ida ao inferno, purgatório e paraíso, pode falar de um assassino bom, de um operário que estuda filosofia alemã.

O critério da verdade na literatura está dentro dela mesma, é isso que é verossimilhança, a literatura não precisa ser uma réplica do mundo tal como ele é, ela cria mundos e vidas, e por isso que a literatura é legal, por isso que ela pode ser subversiva, porque ela permite criações, permite-nos imaginar e viver o impossível, permite-nos a verdade de uma mentira bem contada e sincera, permite-nos imaginar e viver além das regras da vida desse mundo, e quando isso é possível, parece-me que ganhamos até uma liberdade e mesmo uma capacidade de sonho e mudança. Outras realidades. Belas e verdadeiras como somente a boa ficção pode ser.

Se eu vivo num romance é porque acredito na narrativa que crio para  a minha vida. Acredito na beleza da vida, na possibilidade de subversão das regras do mundo, na criação. Acredito nas verdades inventadas, e vou construindo minha história, poética, louca mas muito, muito verossímil. Contando, tem gente que nem acredita, e isso é o mais lindo ( e divertido) de tudo.  Uma vida bem vivida é também uma vida elaborada, narrada, recriada, repetida. Acho que talvez eu viva mesmo num romance, acho que isso pode me trazer complicações, desligamentos, um certo otimismo pessoal desmedido, um certo ar trágico desnecessário, uma vontade de sempre criar, um certo sentimento constante de desligamento e mesmo desconforto. Não importa. Que as cores da literatura entrem pela minha janela. Realmente, de fato, não vejo muita diferença, e além disso, acho que, na verdade, de literatura eu entendo mais do que de vida.
E eu gosto da idéia de viver como se fôra uma arte.

Gosto bastante.

Reencontro

Publicado em 24/04/2008, às 22:07, por lulu


Reencontramo-nos para um almoço. Primeiro era um café, pois não sabíamos direito como nos comportaríamos, sentiríamos. Eu tinha correspondências para entregar para ele, coisas de banco, um livro que havia chegado. E afinal éramos amigos, havíamos nos separado sem brigas, fôramos tão íntimos por tantos anos… por que não? Sim, vamos nos encontrar, tomar um café. Na padaria perto de casa, aquela em que íamos sempre. Não fiquei ansiosa nem nervosa, fiquei contente.

Encontramo-nos, um beijo burocrático. Ele está bem, bonito,bem vestido. Eu também estou bem, mais magra, roupa de ginástica.

-é estranho estar aqui com você…

- sim. é estranho.

Há uma intimidade indelével, e um amor e um carinho que não se apagam e que logo falam mais forte que o desconforto. Pedi um chopp. Ousada, sempre fui mais ousada,  fui falando:

- Como você está? Tá namorando, né? eu sei.

Sorrio. Eu sabia, encontramo-nos na rua augusta, ele de mãos dadas com a namorada nova. Aquilo sim foi ruim. Na fila do cinema, minutos mais tarde, mal refeita do espanto, caíam lágrimas involuntárias dos meus olhos, mas depois passou.

-Quando meu pai ficou doente e você quis se aproximar eu te afastei… desculpa, viu? deve ter sido difícil para você, mas eu precisava viver aquilo sozinha, sentir de fato que eu estava sozinha, era importante ficar afastada.

- eu sei. Foi duro. É estranho, e um pouco ruim, não fazer mais parte da sua família. É muito estranho pensar que se isso tivesse acontecido seis meses antes, eu estaria dormindo no hospital, com você.

- eu sei. É estranho.

- eu gosto das coisas definidas, e não tem uma definição para o que eu sou agora em relação a sua família.

- é. é estranho demais.

- Eu estou aprendendo a gostar de viver sozinho.

- Eu também.

- ainda tenho dificuldade em me entregar, me abrir para as pessoas.

- eu também.

Começamos a conversar sobre nossa história, ele , num guardanapo, fez para mim a cronologia das nossas vidas, porque eu tenho dificuldades em lembrar datas e organizar a sucessão de eventos na minha memória. Carinho. Risos, saudades.
- Você insistiu para ficar comigo, né? foi insistente…

- é , lu. você não queria namorar de jeito nenhum. Fui insistente mesmo. Acabamos casados por dez anos. E antes, namoramos dois anos e meio.

- Nossa… Tanto tempo… eu era tão complicada nessa época. Chorava a todo instante, tinha pesadelos… Você aguentou cada barra…

- Valeu a pena, lu.

Sorrimos. Agradeci em silêncio.

- Eu gostaria que alguém fosse insistente assim desse jeito comigo, agora…

e me peguei emocionada, cheia de lágrimas nos olhos.

- É claro que vai ser, lu. você é o máximo. - sorri, - sim, acho que sim.

- Olha, - falei - o seu livro… do seu doutorado… ele vai ser publicado?

- sim, estou fazendo a revisão.

- olha… pode mudar a dedicatória, viu? Eu entendo, não tem problema se você quiser tirar a dedicatória a mim.

- Não, lu. Esse livro é seu também, ele não existiria se não fosse por você.

- é… conversamos tanto sobre ele, né?

- é. Engraçado, ele é dedicado a três pessoas, você , meu irmão ( o irmão dele, mais novo,  morreu no ano de 2000), e meu orientador. Duas das pessoas estão mortas, agora.

- Eu não morri!

- Eu sei… mas você já não existe mais  daquele jeito na minha vida.

Choramos. os dois. De carinho, afeto e luto por nós mesmos, pelo que fomos e não somos mais.

-  sabe? nós somos muito, muito privilegiados.- falei, procurando quebrar a meancolia que tomava a mesa.

- é. tivemos muita sorte em nos termos, em termos vivido nosso casamento, em termos nos encontrado.

- fomos muito felizes, né?

- é.

- mas eu acho que nós tínhamos que nos separar. Havia acabado, íamos acabar nos odiando.

- eu acho também. e… somos dois partidões, né?

- é.  Daqui a uma semana fará seis meses que nos separamos.

- parece uma vida.

- é.

Conversamos mais, dos amigos, das casas, dos projetos, dos amores, das coisas.

- vamos?

- vamos.  vamos nos ver mais.

- sim.

- Você quer ir visitar os gatos?
-Acho que não… é estranho, visitar os gatos.

-é.

-beijo.

- beijo.

e a vida continua. O amor fica, mas se transforma.

cada um no seu caminho, por aquele dia, por todos os dias que vivemos, pelos dias que virão.

uma sensação boa e doída, ao mesmo tempo.

Cheguei em casa e dormi, e sonhei com um novo amor.

roubada em são paulo, madrid...

Publicado em 22/04/2008, às 20:51, por lulu


E com todo orgulho, o diário da lulu apresenta um continho escrito pela ilustríssima e excelente Brigitte, que passeia por aqui, deixando sempre comentários antológicos. Um relato de uma noite em São Paulo, com roubadas e encontros, que foi inclusive até bem divertida e gostosa:

Um “déjà vu” ao vivo

 

Na noite passada tive uma daquelas experiências que não têm explicação racional, ou tem? Vou contar e vcs me digam, por favor, o acham que aconteceu.

 

Saímos, eu e Lulu, em busca da noite, como ela diz, “beber um pouco e ver se rola de encontrar quem não ficou de vir”. Demos com a cara na porta do restaurante que escolhemos, mas logo à frente havia outro, mais simples mas também do gosto das duas. Pra melhorar, estavam lá uns amigos da Lulu bebendo cerveja numa “mesa de pista”, como diria meu pai.

Resolvemos enfrentar o constrangimento de atrapalhar os caras que estavam levando um papo filosófico-transcendental. Dissemos “olá, vcs por aqui?”  puxamos duas cadeiras, sentamos e entramos no assunto, mudamos de assunto, enturmamos.

 
Foi então que eu percebi alguma coisa: aquele lugar me lembrava uma situação que vivi… um bar no centro de Madrid, onde tive minha bolsa furtada das costas da cadeira numa tarde de domingo há dois anos atrás. Eu sempre penduro a bolsa na cadeira, com tudo dentro, apesar de todos dizerem para a gente não fazer isso (nem pendurar, nem levar tudo na bolsa). Mas isso não interessa agora… Mas desta vez não pendurei a bolsa, deixei no colo, coloquei no meio das pernas, no chão entre os pés. Comentei que aquele lugar me lembrava o bar onde me levaram a bolsa em Madrid, mas ninguém ligou. Devem ter pensado: “iiiihh, paranóóóica! Aqui só tem gente boa”.

 
Comemos, bebemos, filosofamos, e recebemos mensagem de amigas que estavam em outro bar na vila madalena. Decidimos seguir em frente, eu e lulu, e abandonar os rapazes para nos reunirmos às amigas…partimos. beijos, tchau, até mais….

 
Depois de mais de uma hora mudando de bares, porque era domingo véspera de feriado e todos os bares fechavam cedo, decidimos voltar lá. Quem sabe eles ainda estão filosofando?

 
Chegamos, e que coisa! Estavam em pé, preocupados, agitados, “roubaram a bolsa de uma amiga que chegou depois que vcs saíram!” Ela sentou-se na cadeira que deixamos… ninguém viu o ladrão, exatamente como aconteceu comigo em Madrid.

 A coisa não saiu da minha cabeça o dia todo. Será que eu senti que ia acontecer? Mas essas coisas não existem!  Ou será que os ambientes propícios a essas situações são semelhantes em todo o mundo?

 Só sei que em 25 anos de São Paulo nunca pegaram minha bolsa pendurada na cadeira, a primeira vez em Madrid e foi um saco….e por alguma razão eu percebi que ia acontecer alí de novo.

 Sempre confiei mais na sociologia do que na tal intuição, mas desta vez estou sem resposta…

O tempo e as coisas

Publicado em 20/04/2008, às 21:22, por lulu


Com toda a minha complicadeza eu sou uma pessoa simples.

Aprendi a não mentir, principalmente para mim mesma, e ser fiel aos meus desejos. E meus desejos são cada vez mais simples:

quero morar onde moro e quero os alunos que tenho. Quero ler bons livros, quero ouvir música, quero dançar cada vez mais e melhor, quero ver bons filmes, que me façam rir, sentir medinho, torcer e chorar.

Quero cozinhar para as pessoas que amo, receber meus amigos em casa, quero fazer amor, quero ter amores.

Quero dormir quando tenho sono, comer quando tenho fome e poder ficar quieta quando não tenho vontade de falar.

Quero ligar e contar tudo do meu dia, nos mínimos detalhes, quando tenho vontade de ligar e contar tudo do meu dia, nos mínimos detalhes.

Quero o meu corpo cada vez mais alongado e forte, quero sentir-me inteira.

Quero ter tranquilidade e leveza na vida, e não me angustiar com o que não tem solução.

Quero andar pelas cidades, observar as pessoas, as janelas das casas das pessoas, as roupas das pessoas e ouvir suas conversas. Quero toda a minha elegância. Quero me arrumar muito, quero ver,  ser vista. Quero ter a coragem de pagar para ver, e quero de graça também.
Quero ver meus alunos crescendo.

Quero que as pessoas que eu amo saibam disso, mesmo que às vezes eu suma e fique muito tempo sem aparecer nem falar de mim ou saber delas, quero que as pessoas que eu amo saibam disso e sintam uma segurança no mundo por causa disso.

Quero falar sozinha na rua e sorrir sem nem perceber.

Quero que me descubram e explorem cada parte do meu corpo, com fascínio, humor, prazer e adoração.

Quero viver cada vez mais simples, conversar e estar com pessoas inteligentes e livres, adorar a chuva e o sol, a noite e o dia, o vento e a calmaria. Quero sentir os cheiros do mundo, da chuva, da grama molhada, do pão quente, do café, da comida no forno, do suor do corpo amado. Quero fechar os olhos e respirar fundo. Tomar café da manhã e demorar-me duas horas no processo de começar o dia. Quero sentir o gosto da comida que como, e desmanchar-me na bebida que bebo. Quero criar e ser criada, imaginar e ser imagnada, sonhar muito, e ser sonhada. Viver muito, junto e só, múltipla e inteira.

Quero poder viver bem junto ao meu tempo, e ser dona das coisas, mesmo que elas não caibam no dia, quero que minha vida me pertença e que ninguém tenha nada com isso, a não ser que eu tenha aberto a porta, para a pessoa entrar.

Poucas coisas, cada vez menos coisas, e cada vez melhores. Quero ser simples, quero ser o que sou, hoje, agora. Quero. Quero muito.

  e querer liberta

Em tempo:

o Alex Castro terminou de postar um texto que escreveu sobre racismo e ser da raça certa. Ele diz que escreveu junto comigo, mas na verdade eu colaborei, palpitei, contribuí com alguma coisa mas o texto é dele. Trata-se de um dos melhores textos não acadêmicos sobre racismo e preconceito que eu já li. Como o blog do Alex é muito lido, os comentários proliferaram, e são um capítulo à parte, alguns estarrecedores, que simplesmente ilustram à perfeição o que é dito no texto sobre racismo e preconceito. A leitura é obrigatória, vá, leia e reflita. O texto foi publicado aos poucos, deixo todos os links aqui. Imperdível para quem acha que vale a pena o tempo gasto com reflexão sobre o mundo.

Leia todos os posts dessa série:

Usos do Nego
Quem Sabe da Ofensa é o Ofendido
Ser da Raça Certa I: Você É da Raça Certa?
Ser da Raça Certa II: 100% Branco
Ser da Raça Certa III: De que Cor É o Personagem?
Ser da Raça Certa IV: O Critério Eli