Esse post tem uma história que talvez precise ser contada.

Ando muito muito atarefada e tinha resolvido que, por falta de tempo para dedicar-me com o afinco e a seriedade que a questão merece, não me meteria por aqui em discutir a ocupação da reitoria e a greve na USP. Do que conheço bem, sinto-me à vontade para falar com mais ligeireza, não é o caso da história da ocupação nem dos decretos , conheço um pouco, mas não BEM. Mas meus dedos começaram a coçar, tenho montes de amigos envolvidos em tudo isso, e não aguentei e postei algo meio em cima do muro, divulgando um fotolog de amigos meus.
E , claro , me pediram, com toda justeza, um posicionamento. E procurei escrever algo mais, ainda ligeiro, mas algo, porque nessa vida a gente tem mais é que dizer a que veio. E ficou do jeito que ficou, pouco informativo, muito opinativo, talvez bastante idealista.
E logo fiz mais um post, com mais links para posts e artigos bem mais interessantes e ponderados e sábios do que o quê eu dizia.
E prontamente a Meg entrou para a dança também, e em meio a um post bem interessante e ponderado, conversou generosamente comigo.
Aqui vai uma resposta, ou a continuação da conversa:

Minha querida Meg,

As coisas da vida: li seu post hoje ainda de manhã, e um dia inteiro de tarefas me aguardava. As aulas de literatura das segundas feiras, uma reunião na outra escola, outra reunião à noite, nada de tempo para sentar e escrever. Então, o resultado é que passei o dia inteiro conversando internamente com você; talvez, para ser mais justa, posto que por mais que vc seja presente, ainda não tenhamos inventado a telepatia, passei o dia inteiro conversando comigo mesma, imaginando que conversava com você.E sobre o que falei, sobre o que falamos? Ah, tantas coisas!

Falamos sobre quem mandou escrever um post sobre um assunto tão sério, assim tão intempestivamente? Falamos que deveria escrever de e sobre e na literatura, e cozinha, e momentos de mulher e vida, e aulas, escrita, e quê que foi isso, de escrever também sobre universidades e políticas? Não sei falar dessas coisas. Ou achamos que não sabemos - respondi. Mas falei que pôxa, essa é minha vida, meu ninho, uma espécie sim de lugar seguro, onde me formei e continuo sendo formada, pelo qual tenho imenso carinho, um lugar que eu acredito, o da educação pública.

Falei de como é difícil a gente se posicionar, ai quanta coragem para se expor, mas como é bom, tão bom o debate, e como eu te gosto e te respeito mais ainda, por me ter convidado ao debate, porque as idéias paradas, guardadas para nós, são tão válidas como coisa nenhuma.

E hoje, em uma das escolas em que dou aula, uma escola particular, bastante especial, pelo projeto pedagógico que tem e pela história, um professor falava que todo projeto de educação é, afinal, baseado e radicado em um projeto político, em um projeto para a sociedade, e nisso, Meg, eu acredito com todas as minhas forças. Acreditamos.

Um dos sentidos que eu construí para minha vida é o de ser professora, porque eu acho, mesmo, que sendo uma professora decente, dentro das minhas possibilidades, eu posso contribuir para, quem sabe?, um mundo um pouquinho mais decente. Um mundo do tamanho da minha aldeiazinha, que é do tamanho da minha aldeia, é verdade, mas você mesmo me falou um dia que somos da altura dos nosos sonhos, não foi assim que você disse? Então é assim que eu me criei, ao menos essa parte de mim.

E, sabe, eu cada vez acho mais importante o trabalho intelectual, o cultivo do saber pelo saber, a formação de sensibilidades para o mundo, algo sobre o qual eu falava alguns posts atrás, a possibilidade da imaginação, da observação, de se colocar no lugar do outro, e assim por diante. Achamos.

Quando entrei na graduação, em letras, quis fazer grego. Para quê? Para ler Homero e os gregos no original, só para isso, mais nada. Para quê? Para nada. Para poder ler. E isso é tão importante. Porque eu fico achando que é sempre bom que haja alguém, no mundo, que saiba ainda ler os gregos no original ( eu não sei, aprendi um pouco, lentamente, e desaprendi um monte, de maneira rápida…).
E eu não sei, no Brasil, onde mais isso é possível senão no espaço do ensino público, porque me parece que em cada vez mais lugares daqui de Pindorama o ensino vira mercadoria, o saber transforma-se em produto. E como produto, fica à serviço desse mundo que está aí. E venhamos e convenhamos, se eu e você não estamos nada bem, o mundo que está aí está bem pior, não é mesmo?
Se fossem outras as minhas habilidades, eu poderia falar que resolvi estudar física teórica, matemática de base, história antiga, sei lá. Coisas que não servem imediatamente para coisa alguma, que são conhecimento, que têm seu espaço na universidade. O fato é que um professor que é pago pela hora aula que dá, mal tem tempo de pensar, quanto mais estudar, produzir conhecimento e assim por diante.
A boa educação, ao meu ver, é uma educação sempre, na medida do possível, contra o mundo. Uma educação que provoque alguma mudança, incômodo, movimento, desconforto. Eu não vejo outro lugar onde essa educação possa ocorrer senão na esfera pública, Meg, não vejo mesmo, e talvez esteja sendo ultra romântica idealista; aceito.

As coisas são mais complicadas, eu sei, e sei eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não uma solução, e talvez eu esteja sucumbindo àquilo mesmo que eu critico. Mas estamos discutindo tudo isso agora. E até a Folha de SP, por exemplo, deu para questionar o Serra e seus decretos. Há uma discussão no ar, e isso é um mérito. A universidade está se repensando? A usp, a mastondôntica usp, está se repensando? Não sei, provavelmente não. Mas me parece que essa hisitória toda ao menos criou um zum zum zum, e isso já é tão importante.

Há aqueles que acham que esse movimento é uma espécie de canto do cisne antes da decadência final. Que a partir daqui o ensino público estadual irá ladeira abaixo, como foi o ensino público de ensino fundamental e médio. Outros, que tudo faz parte do grande processo de privatização, ou dessa nova concepção utilitarista de universidade.

Eu não sei… Eu sei, por um monte de experiência própria também, como graduanda e mestranda, que na greve, quem se ferra mesmo, é o aluno. Que na universidade nada mais pára, e que mal se nota que há uma greve, sei de tudo isso. Sei da apropriação partidária que se faz dos movimentos, sei de um monte de coisa.

Mas sei que, para mim, a mim, todo esse debate e todo esse movimento, emocinam e tocam. Porque nada dá em nada, mas e então? Fumemos nosso cachimbo na varanda, leiamos nossos livros, sejamos bons pais, boas mães, bons maridos, bons amantes? Para mim, isso não é suficiente, porque somos também animais políticos, seres públicos, mas isso eu acho que você pode explicar melhor que eu. Eu sei que fico meio triste, meio envergonhada, de não ter como, agora na minha vida, dar aulas em uma escola pública, isso é quase uma desgraça.
E que tudo isso me deprime também, não pelo movimento dos alunos, da greve, e tal, mas pela nossa pouca esperança em mudanças de fato.

Mas enfim, sei que nossa conversa fica em aberto, e que te agradeço profundamente pelo debate respeitoso.

Um beijo enorme, minha amiga, e que bom que pudemos nos encontrar.
Com toda admiração respeito e carinho,

Luana, Lulu.

e quem está acompanhando a discussão, leiam a bela resposta da Meg, a continuação do nosso diálogo, lá no sub rosa ( trata-se do comentário que está aqui, que virou post, porque tinha que virar mesmo).

Sabem que eu tô achando tudo isso bem bacana? Nada como o debate inteligente e respeitoso! :-) e vivam as amizades internéticas.