Bartleby, o escrivão ( parte 2)
( Continuação do post Bartleby, o escrivão)
Bartleby não sai do escritório, pára inclusive de fazer cópias, é demitido mas acha melhor não sair dali, e fica olhando a parede, parado, achando melhor não. O personagem transforma-se na negação completa de qualquer vontade, uma criatura que escolhe não escolher mais nada, que “acha melhor não”. Nada sabemos sobre Bartleby, um personagem inteiro obscuro, indiscernível, indeterminado, que desafia qualquer esclarecimento. Deleuze, em seu ensaio sobre Bartleby ( Bartleby, ou a fórmula), escreve que, em Bartleby, “é a vida que justifica. Ela não precisa ser justificada”. Bartleby é “um personagem vazio, que conserva seu mistério até o fim”. Bartleby é um persnagem que escolhe não escolher, não há um ato de vontade em sua fórmula, mas sim a negação absoluta de qualquer vontade. Bartlebynão tem nem uma figura de um Pai, que o induza a fazer coisas, que lhe diga assim que isso pode, isso não pode, faça isso, não faça aquilo; nem uma figura de Mãe, que lhe dê proteção e aconchego. O advogado, narrador, vê, e apesar de sentir simpatia por essa figura, de achar até em certo momento que sua função na vida é cuidar de Bartleby, como uma espécie de redenção, acba por sacrificá-lo em nome da Lei. Acabamos sendo, nós leitores e o advogado, testemunhas de um outro, e o vemos cair em desgraça.
No entanto, a ausência de resposta e argumentos possíveis em relação à fórmula de Bartleby (acho melhor não…) acabam por revelar também o vazio do mundo que o rodeia. “A imperfeição das leis, a mediocridade das criaturas, o mundo como máscara” ( Deleuze) A negação de Bartleby gera, a sua volta, um vazio e uma melancolia. Desestrutura o funcionamento do escritório, acaba por incomodar e alterar inclusive os outros funcionários, que se apropriam também da fórmula. O advogado acaba por mudar de escritório, já que Bartleby inclusive recusa-se a sair, a pegar seu dinheiro da demissão, e assim por diante. Os novos ocupantes acabam por mandá-lo para um asilo de loucos, onde torna-se o “homem calado”, que recusa-se a comer, a fazer qualquer coisa, achando melhor não. O advogado vai visitá-lo:
Encolhido de um modo estranho na base do muro, com os joelhos levantados e deitado de lado com a cabeça enconstada nas pedras frias, estava Bartleby, abandonado. Mas não se mexia. Parei; aproximei-me; inclinei-me sobre ele e vi que seus olho sturvos estavam abertos; mas, parecia dormir profundamente. Algo fez com que eu o tocasse. Peguei na sua mão, quando senti um tremor subindo pelos meus braços e me dscendo pela espinha até os pés. O rosto redondo do homem do rango me observou naquele instante.
“o almoço dele está pronto. Ele não vai almoçar de novo? Ou ele vive sem comer? “
“Vive sem comer” , disse eu , e fechei os olhos.
” Ei, ele está dormindo, não é? “
” Com os reis e conselheiros”, murmurei.
Esse personagem sem história, sem razões, esse personagem que fita a parede, em pé, calado, que estrutura-se no vazio, na ausência de vontades, toma toda nossa atenção e simpatia, e incomoda profundamente, como todo bom personagem deve fazer. Os alunos ficaram melancólicos, mas gostaram do Bartleby, de certa maneira identificaram-se com ele, e ao mesmo tempo temeram-no. Porque há um Bartleby dentro de cada um, um dia, uma hora, bate uma vontade de ficar parado, olhando para a parede.
O livro termina contando-nos que no passado, segundo um boato, Bartleby havia sido funcionário da repartição de Cartas Mortas. As cartas que não chegam ao seu destino, nem são devolvidas ao remetente, que ficam no correio, com seus conteúdos, e são examinadas e depois jogadas ao fogo. Cabia a Bartleby separá-las, e o narrador imagina Bartleby fazendo seu ofício:
“Por vezes entre os papéis dobrados, o funcionário lívido encontrava um anel - o dedo ao qual estava destinado talvez estivesse apodrecendo na sepultura - ; algum dinheiro, enviado pro caridade - aquele que teria sido ajudado talvez já não estivesse sentindo fome; um perdão para os que morreram em desespero; esperança para os que morreram sem nada esperar; notícias boas para os que morreram sufocados por calamidades insuportáveis. Com recados de vida, essas cartas aceleram a morte.
Ah Bartleby! Ah, a humanidade!”
Então começamos a conversar sobre o que são essas cartas mortas. O narrador imagina cartas de vida, anel, dinheiro, perdão, esperança, notícias boas. Cartas que encerram promessas, possibilidades, futuro. Cartas que encerram sementes de continuidade, de possibilidades de desejos. E que não chegam aos seus destinos, não acontecem de fato, permanecem sementes nunca desabrochadas, nunca vividas, acabando por acelerar a morte.
Talvez a própria vida de Bartleby tivesse se transformado numa espécie de carta morta. Pois toda vida é uma promessa, todos os dias encerram em si possibilidades de encontros, felicidades, tristezas, vivências, transformação. Basta ser aberto pelo outro, chegar ao seu remetente, ser lido,transformar e ser transformado ( pois aquilo que é lido também é transformado pelo seu leitor) . Bartleby não pode ser lido. Não pode ser aberto, não pôde ser transformado, nem por apelos, nem pela Lei. É como se ele revelasse, ao achar melhor não, o quão fechadas são tantas vidas que nunca chegam a acontecer de fato, letras nunca transformadas, nunca digeridas, nunca abertas. Existências sem sentidos, que acabam por aniquilar qualquer vontade.
Nessa semana, todos acompanharam o desaparecimento das duas garotas de fugiram de casa, querendo ir para longe, numa vontade de aventura e experiência, de fuga, talvez de descoberta de sentido para a vida, talvez por uma ausência de sentido de suas vidas atuais. Uma dessas meninas foi minha aluna por dois anos, na sétima e na oitava série. Ano passado, ao se formar no ginásio, ela escreveu uma carta para mim, agradecendo nosso encontro e convívio, carta que inclusive publiquei aqui no blog, pois ela pediu que fosse publicada. Em uma parte da carta, ela dizia assim:
Ultimamente eu tenho pensado muito (como se isso não ocorresse sempre) no que eu seria daqui a uns anos, e este ano que já está acabando foi muito bom pra eu analisar e avaliar as coisas e aprender tantas outras, e com você e “acabei” aprendendo realmente muito, e não foi um aprendizado qualquer, foram coisas importantes, e dentre as minhas opções de futuro acho que eu sempre acabava me espelhando em alguém, ou por influências de convivência, conversas e coisas do gênero, e não sei se você se lembra, mas num dos dias do rancho eu me lembro que você disse que ser professora era o seu jeito de ajudar o mundo, de tentar transformá-lo em algo melhor, e dentro de mim também há este mesmo desejo de ajudar o mundo, e nessas minhas perguntas sobre o meu futuro ás vezes chego a conclusão de querer ser professora como você e os meus outros, mas de português mesmo, pois mesmo tendo esses lado “chato” de gramática (desculpa) e tal, tem um lado mais profundo que desenvolve o aluno, que pode até chegar a ajudá-lo, a se encontrar e tal, e só queria te contar que você despertou este lado humano-professor em mim, e que mesmo não tendo acabado ainda eu vou sentir falta da sua presença nos meus dias escolares, obrigada.
Eu achei que “lado humano-professor” foi uma das coisas mais lindas que li nos últimos tempos.
Há, na carta, um desejo grande de uma vida com sentido e troca, uma vida que não seja uma carta morta, uma vida com projeto e futuro. Estávamos todos muito tocados e emocionados com o desaparecimento das duas. Quando dei a última aula sobre Bartleby, elas ainda não haviam sido encontradas, agora foram, e estão bem.
A leitura que eu faço dessa procura de aventura é que houve um acho melhor não. Não continuar vivendo dentro desse mundo escolar, familiar, sei lá, tantas vezes sem sentido, sem pai nem mãe, sem vida e, aparentemente, sem possibilidades. Sumiram, sem explicações ou aviso.
Todos os meus alunos conhecem alguém deprimido, alguns conhecem pessoas que se suicidaram, todos estão muito confusos, procurando um lugar, uma possibilidade de vida feliz e realizada, procurando encontros, procurando a possibilidade de uma existência onde possam não simplesmente copiar documentos burocráticos, mas serem escritores verdadeiros, sinceros e criativos de suas vidas. Serem donos de suas narrativas e poderem preencher cada dia com sentido e emoção. Todos como pessoas querem encontrar quem osleia, os abra, querem receber também cartas vivas, querem chegar ao outro, aos outros, com surpresas e promessas. Que os caminhos não precisem ser tão perigosos é tudo o que eu fico querendo. E quero também que eles possam criar, e escrever uma vida onde achamos melhor sim.
junho 13th, 2008 às 10:38
Linda carta da tua aluna e muito boa abordagem ao perturbador Bartleby.
junho 13th, 2008 às 12:17
Lulu,
Tua abordagem é fantástica. Parábens.
Ler o que você escreve é sempre um deleite.
beijo.
miranda
junho 13th, 2008 às 15:05
Lulu, adoro quando vc fala sobre os livros lidos ocm os alunos…dá vontade de ler e de ser sua aluna…rs
Adoto tb seus textos, e esse é especialmente tocante.
Obrigada.
Beijo
Renata
junho 14th, 2008 às 22:25
Nada melhor que ler teus posts quando o Bartleby que levamos dentro está grande demais…. Obrigado por ajudar a nos desBartlebyzar um pouco. Beijao,
JOnas.
junho 19th, 2008 às 18:56
Já estive por aqui algumas vezes, e gostei. Lembro de um texto, um reencontro de dois ex (casados, namorados ou amantes?), que tinha uma realidade, uma escrita fina. Esse texto também tem essa força de articulação, é bem interessante. Gostei muito. Blog excelente.
julho 2nd, 2008 às 12:42
Oi LULU!
tão lindo esse teu texto, me fez até chorar sabia? ando emotiva demais esses dias…pois é, chato sair de casa, né? ter filho adolescente é uma barra, mas não te grile não com esse tipo de problema, é como tesão, querida: dá e passa! rrrs ontem a minha filha entrou maus e foi direto pro quarto dela. senti que o grilo dela era fumo. então eu falei prá ela “filhinha, fume mas não durma. se já acabou do bom , então fume tabaco mas não não durma tá?” aí ela falou “mãe, num acabou não, ainda tem, quer?” aí eu fiquei na maior dúvida do tipo quero ou não quero? rrsss a bacurinha falou mais forte e eu fiz que fui e não fui mas acabei fondo… me entreguei na maior tesão!!!. rrrss
bjjões!!!
julho 7th, 2008 às 16:02
Ganhei este livro da minha irmã, há uns dois anos. Acho que li em 30 minutos e é realmente um livro muito legal e que infelizmente pouca gente conhece.
Beijo
Delícia o teu texto.