Reencontro
Reencontramo-nos para um almoço. Primeiro era um café, pois não sabíamos direito como nos comportaríamos, sentiríamos. Eu tinha correspondências para entregar para ele, coisas de banco, um livro que havia chegado. E afinal éramos amigos, havíamos nos separado sem brigas, fôramos tão íntimos por tantos anos… por que não? Sim, vamos nos encontrar, tomar um café. Na padaria perto de casa, aquela em que íamos sempre. Não fiquei ansiosa nem nervosa, fiquei contente.
Encontramo-nos, um beijo burocrático. Ele está bem, bonito,bem vestido. Eu também estou bem, mais magra, roupa de ginástica.
-é estranho estar aqui com você…
- sim. é estranho.
Há uma intimidade indelével, e um amor e um carinho que não se apagam e que logo falam mais forte que o desconforto. Pedi um chopp. Ousada, sempre fui mais ousada, fui falando:
- Como você está? Tá namorando, né? eu sei.
Sorrio. Eu sabia, encontramo-nos na rua augusta, ele de mãos dadas com a namorada nova. Aquilo sim foi ruim. Na fila do cinema, minutos mais tarde, mal refeita do espanto, caíam lágrimas involuntárias dos meus olhos, mas depois passou.
-Quando meu pai ficou doente e você quis se aproximar eu te afastei… desculpa, viu? deve ter sido difícil para você, mas eu precisava viver aquilo sozinha, sentir de fato que eu estava sozinha, era importante ficar afastada.
- eu sei. Foi duro. É estranho, e um pouco ruim, não fazer mais parte da sua família. É muito estranho pensar que se isso tivesse acontecido seis meses antes, eu estaria dormindo no hospital, com você.
- eu sei. É estranho.
- eu gosto das coisas definidas, e não tem uma definição para o que eu sou agora em relação a sua família.
- é. é estranho demais.
- Eu estou aprendendo a gostar de viver sozinho.
- Eu também.
- ainda tenho dificuldade em me entregar, me abrir para as pessoas.
- eu também.
Começamos a conversar sobre nossa história, ele , num guardanapo, fez para mim a cronologia das nossas vidas, porque eu tenho dificuldades em lembrar datas e organizar a sucessão de eventos na minha memória. Carinho. Risos, saudades.
- Você insistiu para ficar comigo, né? foi insistente…
- é , lu. você não queria namorar de jeito nenhum. Fui insistente mesmo. Acabamos casados por dez anos. E antes, namoramos dois anos e meio.
- Nossa… Tanto tempo… eu era tão complicada nessa época. Chorava a todo instante, tinha pesadelos… Você aguentou cada barra…
- Valeu a pena, lu.
Sorrimos. Agradeci em silêncio.
- Eu gostaria que alguém fosse insistente assim desse jeito comigo, agora…
e me peguei emocionada, cheia de lágrimas nos olhos.
- É claro que vai ser, lu. você é o máximo. - sorri, - sim, acho que sim.
- Olha, - falei - o seu livro… do seu doutorado… ele vai ser publicado?
- sim, estou fazendo a revisão.
- olha… pode mudar a dedicatória, viu? Eu entendo, não tem problema se você quiser tirar a dedicatória a mim.
- Não, lu. Esse livro é seu também, ele não existiria se não fosse por você.
- é… conversamos tanto sobre ele, né?
- é. Engraçado, ele é dedicado a três pessoas, você , meu irmão ( o irmão dele, mais novo, morreu no ano de 2000), e meu orientador. Duas das pessoas estão mortas, agora.
- Eu não morri!
- Eu sei… mas você já não existe mais daquele jeito na minha vida.
Choramos. os dois. De carinho, afeto e luto por nós mesmos, pelo que fomos e não somos mais.
- sabe? nós somos muito, muito privilegiados.- falei, procurando quebrar a meancolia que tomava a mesa.
- é. tivemos muita sorte em nos termos, em termos vivido nosso casamento, em termos nos encontrado.
- fomos muito felizes, né?
- é.
- mas eu acho que nós tínhamos que nos separar. Havia acabado, íamos acabar nos odiando.
- eu acho também. e… somos dois partidões, né?
- é. Daqui a uma semana fará seis meses que nos separamos.
- parece uma vida.
- é.
Conversamos mais, dos amigos, das casas, dos projetos, dos amores, das coisas.
- vamos?
- vamos. vamos nos ver mais.
- sim.
- Você quer ir visitar os gatos?
-Acho que não… é estranho, visitar os gatos.
-é.
-beijo.
- beijo.
e a vida continua. O amor fica, mas se transforma.
cada um no seu caminho, por aquele dia, por todos os dias que vivemos, pelos dias que virão.
uma sensação boa e doída, ao mesmo tempo.
Cheguei em casa e dormi, e sonhei com um novo amor.
abril 24th, 2008 às 22:50
Fico muito feliz por você.
abril 24th, 2008 às 23:04
Oi Lulu,
Sou uma das suas leitoras/admiradoras quietinhas, mas esse post foi demais para mim, me fez querer quebrar o silencio e vencer a timidez. Desculpe a falta de acentuacao, o teclado nao esta configurado para portugues.
Seu post lindo me fez chorar, Lulu. O meu primeiro re-encontro oficial com meu ex foi tambem numa padaria. Eu me lembro do gosto das lagrimas engolidas atrapalhando o gosto do cafe e de como doeu estar ali na frente daquela pessoa que foi tanto por tanto tempo mas que tinha, por varios motivos, se transformado em um quase estranho. Nao tivemos a sorte de um final tranquilo; isso e uma bencao, Lulu. Infelizmente para mim, o que sobrou para ele do que vivemos foi magoa e ressentimento. Fico feliz que com voces nao vai ser assim, ainda que demore um pouco para nao doer mais e para que as lagrimas nao se manifestem. Como diria o Lulu Santos, “ainda vai levar um tempo…”
Um abraco
Raquel
abril 25th, 2008 às 6:19
Amiga, vocês dois são pessoas muito especiais!
Saudades e beijo!
abril 25th, 2008 às 11:15
Oi Lulu! Tudo bem? Bacana o texto, aliás o teu blog é muito bom. Também comecei um blog por esses dias sobre assuntos do universo feminino. Posso te incluir nos meus links favoritos?
Beijo.
abril 26th, 2008 às 9:18
Interessante. Muito.
Só uma vez participei de algo tão civilizado. Claro que não foi com minha ex…
Beijo.
abril 27th, 2008 às 14:38
Fiquei emocionada……. fico aqui pensando no que você realmente sentiu a cada frase…. cada olhar……
Espero que depois você tenha ficado bem!
Bjssss
abril 27th, 2008 às 22:14
É bom quando conseguimos acabar assim, antes do ódio e do ressentimento.
Mas é raro… vocês são realmente privilegiados. Ou muito sábios!
Um beijo
Ana
abril 28th, 2008 às 14:16
Lulu,
Emocionante. Passei por algo assim a poucos dias. Você sabe, vou me casar novamente e tive que encontrar minha ex para entregar algumas coisas dela que ficaram comigo.
Sabe, chegeui a conclusão que quando se amou e quando o que se passou juntos valeu a pena, a emoção vem sempre acompanhada de uma alegriazinha bem la no fundinho da alma por rever quem a quem demos tanto afeto (e também recebemos).
Mas ao contrário de você não resisti e fui visitar a Brenda nossa cachorra. Contudo, concordo com você: É muito estranho…
Beijo
Miranda
abril 28th, 2008 às 18:29
Impossivel, nao se deixar tocar e emocionar…
com tamanha sinceridade e sentimento nas suas palavras.
Soh quem jah passou por um desses momentos sabe o tamanho q fica o coracao, de dor, de amor, de sentimentos tao contraditorios.
Saber ter essa tamanha cordialidade, sem cair tao facilmente nos momentos de remorsos, e resentimentos.. E ainda sem querer encontrar uma explicacao pra o inexplicavel: o fim de um amor, que na verdade como disse nunca acaba se transforma!
Isso eh MESMO RESPEITAVEL!
BJOS E PARABENS!
abril 29th, 2008 às 0:58
Lelé.
eu sei.
saudades da gente, viu?
Raquel,
obrigada por sair do seu silêncio e vir me dizer palavras assim tão generosas. Sabe que o tempo tá ajudando bastante? Um beijo,
Lu
Patricia,
sua sumida! aparece!
Milton,
vc é um leitor muito generoso. Obrigada. Por tudo, viu?
Laura,
depois, log depois, me deu uma tristeza. mas aí mais depois ainda eu fiquei bem sim.:-) beijos!
Av,
fiquei pensando sobre seu comentário e a resposta a ele está no post seguinte. A nossa vida a gente inventa e cria, e dá, sim, para criar coisas boas no caminho. Não é não?
Miranda, é exatamente isso. Fico super feliz pelo seu casório, por você.
Um beijo.
Aime,
ah… sei lá. Obrigada mesmo, respeitável é ser sempre verdadeiro, verdadeira. Tenho buscado cada vez mais isso. espero que consiga cada vez mais isso.
Vocês todos me fazem muito bem.
obrigada mesmo.
maio 2nd, 2008 às 1:02
Invejo esta tua capacidade de se abrir tanto neste espaço. Eu não conseguiria. Tenho certos pudores bestas. Você tem mais coragem.
maio 2nd, 2008 às 21:38
lindo isso.
maio 13th, 2008 às 0:14
eh, olhando desse jeito ateh parece gostoso reencontrar um grande amor…
maio 20th, 2008 às 20:21
Bom, faz um tempão que não apareço aqui! E cai justo neste post! Não precisa dizer que me lasquei de chorar, né?! Pois é! Vc sabe bem porque!
Amo vc!
beijos
junho 9th, 2008 às 22:04
Parece um filme…
Vocês realmente são abençoados.
Nunca vivi um grande amor, soa meio triste até… : (