Para mim, a vida é um grande mistério. Tudo que aprendi na escola desaprendi rapidamente. Não sei como o telefone funciona, não sei como os aviões voam, não sei como o que digito aqui aparece aí, na tela da casa de vocês. Não sei a fórmula de báskara, não sei porque às vezes fico gripada, às vezes não.  Não sei como nem porque as pessoas nascem e morrem, não sei como as abelhas se comunicam. Não sei como algumas pessoas dirigem a vida inteira e nunca nem riscam nem um milímetro de seus carros, nunca se perdem, nunca esquecem onde estacionaram.  Não sei como as pessoas vivem, queria entrar em cada casa de cada janela que olho, e ficar ali, vendo. Não sei como alguns vivem sem nunca experimentar a alegria de uma quinta feira livre, o amor, a liberdade, sem experimentar o abismo, a coragem. Não sei como o leiteiro faz para acordar todos os dias às cinco da manhã, ou talvez ainda mais cedo, e entregar o leite todos os dias na casa do pessoal. Não sei como é a vida do jornaleiro da minha esquina, não sei como funciona o coração dos homens. Não sei porque de repente criam-se ódios, porque problemas inexistentes ficam grandes, não sei porque meu cabelo às vezes acorda bom, às vezes acorda sem jeito ou solução. Não sei porque às vezes sonho sem parar, às vezes não. Não sei o que sonhei ontem. Não sei como funcionam os afetos, as memórias, não sei porque às vezes quero sair, às vezes não. Não sei porque aquela mulher mantém-se linda e fresca, no calor das seis da tarde, bem no meio do ônibus lotado. Ali, no ônibus, não sei para onde vai tanta gente, e o que cada um vai fazer, e o que cada um pensa, e quais as aflições e as alegrias de cada um. Não sei como funciona a lei da gravidade, não entendo esse negócio de velocidade da luz, se eu tivesse um irmão gêmeo e ele viajasse na velocidade da luz, e voltasse, eu estaria velha, ele novo, não sei, não entendo. Não sei como as pessoas aguentam cada coisa que as pessoas aguentam, não sei como nosso destino se constrói. Não sei porque de algumas pessoas quero logo ficar amiga e saber da vida inteira, enquanto outras me parecem insuportáveis.    Tudo é um grande mistério, que eu olho com interesse e toda a curiosidade do meu corpo e do meu ser. Não sei como as coisas funcionam, e não preciso saber, eu gosto desse mundo sem lógica e sem sentido.  Eu gosto da surpresa da vida.Eu olho para os mistérios da vida como uma criança fascinada, que vê a árvore e fica repetindo: árvore, árvore, árvore. E vê o cão, e fica repetindo e apontando o milagre da vida que é aquela existência canina: cão, cão, cão. E ri, e quando cobre os olhos é como se desaparecesse, e brinca de se esconder e ri quando se acha: achou!E ri. Que venham  os mistérios,  que venha o que eu não domino nem entendo.Não sei como nem porque o amor nasce de repente, vai crescendo e criando forças e quando a gente vê está tomada e quer viver aquilo, junto, como se fosse para sempre, e não sei porque às vezes é para sempre, mesmo que dure segundos, e às vezes não era nada, não é nada, passou. Eu não sei como funciona o amor, como ele nasce, como ele cresce. Eu não sei o que acontece depois, se depois depois houvesse, quando se trata de amor. Eu não sei como funciona o amor, mas eu sei amar.

Venha a vida inteira, venham.

venha o  amor. meu grande e maior mistério, o amor.