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	<title>Para Ler Sem Olhar</title>
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	<pubDate>Sat, 06 Sep 2008 15:14:35 +0000</pubDate>
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		<title>A sublime impotência de não ter palavras</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Sep 2008 17:15:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Viana</dc:creator>
		
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Alguns anos atrás, nem sei quantos, uma imagem me marcou a ferro. É claro, sim, que muitas imagens me marcaram na vida. Mas esse caso me convenceu de que deve haver um compartimento específico e muito íntimo na memória, em que só caiba a lembrança de uma única fotografia. É lá que ficou guardada essa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR"><img class="alignnone" title="Mont Saint-Michel visto à noite com exposição prolongada" src="http://farm4.static.flickr.com/3195/2830303887_d2ac6595b5.jpg?v=0" alt="" width="500" height="314" /></p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Alguns anos atrás, nem sei quantos, uma imagem me marcou a ferro. É claro, sim, que muitas imagens me marcaram na vida. Mas esse caso me convenceu de que deve haver um compartimento específico e muito íntimo na memória, em que só caiba a lembrança de uma única fotografia. É lá que ficou guardada essa imagem que jamais esqueci. Mas se minha hipótese estiver furada e esse tal compartimento não existir, então não sei como foi acontecer. Uma dessas coisas, suponho, que se dão por mágica.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Era uma paisagem. Tomada do alto, provavelmente de um helicóptero. À direita, uma planície retalhada em grandes quadrados, verdes e de um amarelo acinzentado. À esquerda, o mar, numa baía rasa e arenosa, onde o curso das marés desenhava volutas aqui e ali cintilantes de sol. Ao centro, uma ilha redonda, um volume de pedra isolado entre dois ambientes aflitivamente planos, como a recusa extensa ao achatamento do horizonte.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR"><img class="alignnone" title="Mont Saint-Michel visto à distância, da estrada, Normandia, França" src="http://farm4.static.flickr.com/3139/2831139176_1a83a69842.jpg?v=0" alt="" width="500" height="295" /></p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Já um belo canto do planeta, certamente. Mas não particularmente memorável, sem o dedo do homem. Os medievais, em seu raciocínio transcendental, entenderam que aquela não era uma ilha qualquer. Só podia ser um canto que Deus queria mais próximo de si, para erguê-lo assim, sozinho, perdido na baía. Era evidente que deveriam construir ali um mosteiro, e assim procederam. Depois, deram-se conta de que não só estavam mais perto de Deus lá no alto, como estavam muito bem protegidos contra os vikings, a atacar cá debaixo. As obras foram expandidas. Muralhas, paredes, uma vila de pedra. A igrejinha do mosteiro, em poucos séculos, se fez catedral exuberante.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Eis o <em>Mont Saint-Michel</em>, a imagem agarrada à minha lembrança. Eu só queria descobrir onde ficava e como chegar. Quando desembarquei no aeroporto <em>Charles de Gaulle</em>, assim que o funcionário da imigração liberou minha entrada, ataquei: &#8220;por onde é o <em>Mont Saint-Michel</em><span style="font-style: normal;">? Mas ele não estava no auge de seu humor e se limitou a indicar com a mão: &#8220;por ali&#8221;, e me dispensou.</span></p>
<p><img class="alignnone" title="Pedras amareladas do mosteiro do Mont Saint-Michel com a baía ao fundo" src="http://farm4.static.flickr.com/3176/2831151742_410b57592c.jpg?v=0" alt="Pedras amareladas do mosteiro do Mont Saint-Michel com a baía ao fundo" width="500" height="332" /></p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR">Como é possível que tenha demorado tanto? Verifiquei as linhas de trem, era longe. Excursões são organizadas tendo em vista o americano médio; eu posso ser médio, mas não sou americano. Fora de questão alugar carro ou ir a pé. No verão, os hotéis, pousadas e albergues seriam caros, se tivessem vaga. Resumindo, meu maior objetivo turístico parecia além do alcance.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR">Mas, já diz o grande hino, quem espera sempre alcança. Junta-se um grupo de bravos guerreiros para a batalha. Uns mais bravos que outros, claro, mas que seja: partimos. Com um pouco de conversa mole, consegue-se um carro. Mapa na mão, enfrentamos a selvageria do bulevar periférico, onde as leis do trânsito são invertidas (acontece muito na França), e chegamos à auto-estrada, com um suspiro coletivo de alívio. Normandia, aguarde-nos.</p>
<p><img class="alignnone" title="Guarnição do Mont-Saint Michel com o rio ao fundo, maré baixa começando a subir" src="http://farm4.static.flickr.com/3026/2831151620_16c6bf3f71.jpg?v=0" alt="Guarnição do Mont-Saint Michel com o rio ao fundo, maré baixa começando a subir" width="500" height="332" /></p>
<blockquote>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR">* * *</p>
</blockquote>
<p><img class="alignnone" title="Chegada ao Mont Saint-Michel com o céu completamente azul" src="http://farm4.static.flickr.com/3169/2830303943_29226c1b48.jpg?v=0" alt="Chegada ao Mont Saint-Michel com o céu completamente azul" width="500" height="361" /></p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR">Enchi este texto de detalhes desnecessários. Reconheço e admito que foi intencional. O que há é que existem aquelas sensações que podem ser descritas e aquelas que não podem. Certas coisas só se experimentam, só se vivem. Muitas vezes passei por isso. Desde o princípio, sabia que passaria novamente no <em>Mont Saint</em>-<em>Michel</em>. Felizmente, parece sempre ser possível contornar a insuficiência da expressão com alguns truques: metáforas, imagens, ritmos. Tomam-se desvios de linguagem, na esperança de transmitir tal e qual uma perturbação do espírito. É ilusório, claro. O espírito não tem tradução verbal, no máximo efeitos análogos, que é o que tentam conseguir os poetas e, com ambição infinitamente menor, os cronistas.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR">Desta vez, bastou me aproximar da costa normanda para saber que não seria possível. À distância, já divisava as pedras escuras do mosteiro ilhado, e fui tomando a consciência de que se consumara o divórcio entre palavra e sensação. Sinédoques, aliterações, catacreses, não haveria recurso ardiloso de manipulação do leitor que fosse eficaz. Por uns instantes, me senti impotente. Depois, reconheci a bênção que me era dada pelos monges. A alegria que não se compartilha é egoísta, por certo, mas a que não se pode compartilhar é sublime. Pois bem, a visita ao <em>Mont Saint</em>-<em>Michel</em> foi desses momentos sublimes e tão raros, no que termino sem mais palavra.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 510px"><img title="Mont Saint-Michel em perspectiva com a baía e o estuário do rio à noite" src="http://farm4.static.flickr.com/3197/2830304031_6f845a2673.jpg?v=0" alt="Mont Saint-Michel em perspectiva com a baía à noite" width="500" height="375" /><p class="wp-caption-text"> </p></div>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR">
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR"><em>PS: Já que as palavras não servirão, resolvi fechar o ciclo. O Mont Saint-Michel entrou em minha vida através de uma fotografia. Pois bem, que então saia pela mesma porta.</em></p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR"><img class="alignnone" title="Belo pôr-do-sol no cantinho do Mont Saint-Michel, exposição prolongada" src="http://farm4.static.flickr.com/3059/2830304113_ecb91bd8c7.jpg?v=0" alt="" width="500" height="305" /></p>
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		<title>É o queira ou não queira</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Sep 2008 13:57:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Viana</dc:creator>
		
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Sabe Deus as coisas em que eu estaria pensando, se não pensasse tanto nas estações. Pelo visto, na hora de me atribuir uma personalidade, alguém cometeu um engano infeliz. A cabeça que estava reservada para mim deve andar apertando o crânio de algum desses muitos homens do campo que invejam a rotação acelerada das cidades [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR"><img class="alignnone" title="Parede em Paris com foto de árvore sem folhas" src="http://farm4.static.flickr.com/3085/2820855111_40cd86ab4e.jpg?v=0" alt="" width="390" height="500" /></p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Sabe Deus as coisas em que eu estaria pensando, se não pensasse tanto nas estações. Pelo visto, na hora de me atribuir uma personalidade, alguém cometeu um engano infeliz. A cabeça que estava reservada para mim deve andar apertando o crânio de algum desses muitos homens do campo que invejam a rotação acelerada das cidades e se perdem em devaneios de asfalto. Pois eu, que jamais vivi em cidade que fosse menos do que enorme, fui dotado com a vocação deslocada de caminhar a esmo pelo espaço vazio. Plantações, prados, veredas.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">A que se soma essa coisa com as estações. Não só pelo ciclo, pela passagem do tempo, mas pela fisionomia que se imprime nas paisagens, por imposição, sem recurso, de um planeta que anda em círculos. E pela adaptação calma dos viventes, reféns de uma natureza que os precede em muito. Na falta dos horizontes vastos, recorro às ruas, às margens dos rios, aos parques recortados da virulência imobiliária. É pouco, mas é o que há.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Por muito tempo, quis me considerar uma alma, como eu dizia, &#8220;do verão&#8221;. Pelos dias mais claros, ligeiramente no Brasil, dramaticamente aqui. Porque sou um amante da luz, embora me sinta mais vivo nas madrugadas. Também, ao menos em parte, pelo calor, que quando extremo me pareceu sempre um flagelo mais suportável do que o frio.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Meu partidarismo estival era tão intransigente que eu antagonizava até com Tom Jobim. Sim, o próprio, confesso. Como ousa, maestro, associar o fim do verão, com aquelas enxurradas medonhas, a uma promessa de vida no coração? Para mim, as águas de março marcavam era o início dos tempos de lã, escuridão e resfriados. Evidente que, como sempre, eu estava errado. Simplesmente não entendia o principal, quase óbvio, cego de convicção.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">A esperança de que fala a canção nada tem a ver com os meses seguintes. Não exprime qualquer alívio com o fim da fornalha. Como pude não perceber o sentimento difuso, involuntário, produzido ao pé da garganta, uma esperança de vida sem quê nem porquê! A doce satisfação do estio que vai se encerrando ignora, mesmo nas terras mais inóspitas, as projeções para o futuro. Vão secar as folhas, vão cair, mas o espírito nem se lembra.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Não são os mais belos do ano, título reservado à eclosão súbita da primavera, em abril. Mas os dias finais do verão produzem, e isso é uma certeza, o ar mais carregado de vibrações. São ondas de emissor impreciso, talvez o próprio sol, talvez a terra já cansada do sol, talvez as árvores e as pessoas sorvendo os últimos raios que vão descer neste ano. Seja o que for, essas são as duas semanas mais agradáveis que há.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Acontece que o final do verão, nesta metade do mundo, não chega em março, mas em princípios de setembro. São esses dias de agora, em que as famílias voltam das férias e as crianças reencontram colegas e carrascos na sala de aula. É pouco tempo, duas semanas no máximo. Há que aproveitá-las, nos intervalos das enrolações burocráticas que alguém, gerações atrás, resolveu grampear nesta época, acredito que por recalque.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR"><img class="alignnone" title="Gente idosa aproveitando a vida a dançar à beira do Sena" src="http://farm4.static.flickr.com/3034/2821707130_b466cd85f7.jpg?v=0" alt="" width="500" height="500" /></p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Eis o espírito com que vou redescobrindo a cidade. Nem é preciso esforço, dou logo com um sem-número de detalhes saborosos, efêmeros como cada estágio da vida. É assombroso, por exemplo, como a cor das fachadas muda de um mês para o seguinte. Eu bem queria apertar a mão de Monet, que abriu nossos olhos para cada variação de luz que incide sobre o entorno, sobre os alicerces de nossa vida! O alaranjado nas pedras de Notre-Dame, ontem, não era como o azul esmaecido de novembro. Mesmo as fagulhas de entardecer, que balouçam nas marolas a cada barco que passa, como em qualquer outro mês, agora cintilam em tom mais pungente. Ainda prata, mas um prateado diferente, esse que está aí, vejo, vivencio, mas não ouso descrever.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Se eu vivesse no campo, em outros tempos, certamente não acharia poético o brilho das marolas. Sem dúvida, estaria ocupado com a colheita, cortando lenha para garantir o inverno, separando a ração dos animais. Fora de questão, essa história de caminhar pela cidade em busca de um verão que já se foi. Não faria o menor sentido correr atrás das estações. Elas pesariam sobre mim, inescapáveis, sem interesse pelas minhas preferências.</p>
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		<title>Anátema</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Aug 2008 16:12:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Viana</dc:creator>
		
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Imagine esta circunstância sobrenatural: se aproxima de você uma entidade misteriosa, digamos, um anjo, e lhe estende umas folhas de papel. Você toma o volume e se põe a ler. Tem uma certa dificuldade em entender o que está escrito, mas aos poucos vai juntando os cacos para decifrar o documento. São as linhas gerais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone" title="O Anjo Exterminador" src="http://farm4.static.flickr.com/3249/2805517267_ddaf536a97.jpg?v=0" alt="" width="500" height="375" /></p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Imagine esta circunstância sobrenatural: se aproxima de você uma entidade misteriosa, digamos, um anjo, e lhe estende umas folhas de papel. Você toma o volume e se põe a ler. Tem uma certa dificuldade em entender o que está escrito, mas aos poucos vai juntando os cacos para decifrar o documento. São as linhas gerais de uma personalidade. Meia dúzia de frases explicativas, um diagrama das leis que regem o sistema de convicções, uma tabela com o índice de respeito aos princípios, um gráfico com a taxa de desvio da norma (auto-imposta) e, ao final, o histórico das reorientações de conduta, organizado em tópicos.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Você chega ao termo da última página. Leu tudo, porque não quer ser desrespeitoso com um enviado dos céus, mas não entende por que lhe entregaram um relatório tão detalhado sobre a alma de algum desconhecido. Uma pessoa que, coitada, recebe impulsos e sofre influências de todos os lados, respeita mas critica tudo em que jamais acreditou, deseja o que despreza, desconhece o que quer, faz perguntas a si própria e se perde nelas, sem que a resposta ao menos seja de seu interesse. Um espírito que age segundo certezas perdidas no inconsciente, enquanto as idéias que profere mal tocam suas emoções, mas não entende por que continua comendo quando quer emagrecer, por que entra em brigas quando bebe, por que não consegue largar o emprego e partir para aquele safári na África.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Não que a mente dos outros seja desinteressante, mas, convenhamos, você pensa: quanta indiscrição!</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Confuso, mas ainda em deferência ao ser de pura razão que tem à sua frente, você ousa lhe perguntar o que é aquilo. No tom mais suave que consegue, é claro. O anjo sorri, como sempre sorriem os anjos, a crer nos relatos, e responde: és tu, cabra. Impossível, você pensa. Mas emudece. O anjo repousa o sorriso, que não seria de bom tom sorrir tendo à frente um mortal perplexo. Confere se não há mais questões e, finda a missão, parte em silêncio. Os anjos, bem se sabe, dizem somente o necessário. Está no manual.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">E você segue no mesmo lugar, sentado ao meio-fio, melhor lugar possível para se entregar ao exame de um material tão perturbador. Aquilo ali é o esclarecimento de todo o seu ser, trazido por um enviado de Deus, mas não tem jeito de você se reconhecer na papelada. Vem a aflição. Um aperto. Será verdade? É, ora, porque tem de ser. Mas como, cadê, nada ali parece bater, é um disparate. Talvez o tal anjo seja um gênio maligno, destacado para enganá-lo. Talvez seja um sonho. Aquele não é você, você que se conhece, você que vive à sua própria volta o dia inteiro. Nas linhas, aqui e ali, um ponto que coincide, nada de mais. Uma idéia do passado, mas que já foi. Manias difíceis de sufocar, mas superadas eventualmente.  Pensamentos repetidos e vícios de linguagem que, no fundo, é verdade, você tem, pensando melhor.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Detalhes, detalhes, se desse para contar com eles, a vida seria impossível. E, no entanto, são eles que começam a se encaixar. E mesmo assim, é bastante aleatório. Uma coisa que virou outra, a metamorfose de uma crença, a fusão de um par de sonhos, o abandono involuntário de um trajeto. O que está aqui, na primeira página, bate bem com uma passagem da penúltima. Juntos, os dois trechos explicam um terceiro, perdido nas notas de rodapé. Uma frase que não tem sentido, ah, mas tem, é só reler em seguida a esta outra, que também parecia não dizer nada. Cáspite! Você não se conhece.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Nos anexos, trechos inteiros de pensamentos, desses em que você se perde durante as caminhadas no calçadão. Que escândalo: no mesmo dia, pior, na mesma manhã, você fez a descoberta da escalação ideal para o seu time. Mas são escalações diferentes, e você nem percebeu. Mas como nenhuma delas coincidiu com a do técnico, não houve problema em considerá-lo um incapaz, principalmente depois da derrota contra um time mais fraco. Consta também uma paixão fulminante pela responsável do atendimento, já esquecida, e um tanto improvável. Como se apaixonar por aquela mulher desprezível, sem graça, artificial, interesseira, carreirista e acima do peso? Só pode ser mentira. No entanto, está ali e ponto final. Como também está a vez em que você votou contra seu grupo, traidor, só de birra. E o episódio da doença fingida, para não passar por covarde diante de um lutador mais forte, mais treinado e, ainda por cima, desleal.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Raio de anjo! Por que essa tortura? Você azeda, se revolta, levanta de um salto, determinado a esquecer que tudo isso aconteceu, acordar do pesadelo, tocar sua vida. Que os deuses, seja lá quem forem, saibam que você é humano, é imperfeito, tem o direito de mudar e cometer deslizes, cair em contradição, mentir sem querer, ser honesto mas sucumbir a tentações. E que não venham lhe causar amargura e angústia de novo, à toa desse jeito! Dado o recado, você parte, batendo os pés. Mas, veja só, não rasga o documento, não atira no lixo o resumo de sua vida, não queima seu passado impresso. Leva-o na mão, enrolado como um diploma, até chegar em casa e se atirar no sofá.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><strong>* * *</strong></p>
</blockquote>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Sei de pelo menos um psicólogo que vai ler este texto. E ele há de exclamar diante da tela: céus, o rapaz está fazendo uma auto-análise em público! E já que vou ser desmascarado de qualquer forma, então admito, não tem jeito, é mesmo algo assim. Pelo menos, tive o bom senso de esconder as idéias debaixo de uma alegoria, soterradas pela metáfora. Digo isso para provar que não pirei, nem andei experimentando substâncias pesadas <a href="diegoviana.opensadorselvagem.org/oito-coisas-e-eu-defunto/" target="_blank">antes do tempo</a>.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Por outro lado, se não recebi a visita de anjo nenhum (ainda bem), recebi um comentário de um texto muito antigo, vindo de um desconhecido. Se não me entregaram uma folha de papel, mil perdões, é uma metáfora ordinária para a tela do computador. Se não estava escrita minha vida inteira, estava, sim, uma fração de um eu que deixei escapar, que ficou para trás enquanto eu tinha olhos, braços e pernas voltados só para novos eus desconhecidos. Ganhei deste lado, perdi daquele. Deixei de ser idêntico a mim mesmo.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Que importa, é o que acontece com todos. Muda-se tanto, que não dá mais nem para identificar um eu original com quem se poderia ser idêntico daí por diante. Mas é terrível ser confrontado com a encarnação de uma parte do próprio espírito (e é precisamente isso que um texto é). Outro estilo, outro tom, outro tema. Quase, poderíamos dizer, outro autor.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Daí advém toda sorte de questionamentos. Esquecemos os ganhos, damos atenção demais às perdas e nos deixamos asfixiar pela nostalgia de qualquer coisa de muito indefinida. A pergunta vem sem ser chamada: o que quero de mim, para mim, como mim, é aquilo ou é isto? Ou seria ainda uma terceira coisa? Por que não posso manter aquele ritmo, aquele estilo, aquela mente, e apenas enriquecê-la com esta?</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Nada fácil ser fiel a si próprio! Em meus devaneios, desvio o foco para este blog. Relendo seu título, penso no que me motivou a batizá-lo assim. Foi há dois anos. Que nome teria o blog se fosse começado hoje? &#8220;Para ler sem olhar&#8221; é que não seria, pensei, numa tristeza inopinada. Tenho olhado tanto para aquilo que leio&#8230; Seria de um cinismo repulsivo renomear este espaço tal e qual. A leveza que me pautava, implodi-a. Quis ganhar musculatura, ganhei foi peso. Estrangulei o último lirismo que sobrevivia nesta prosa e deformei a tal ponto meus parágrafos que quem me conheceu naqueles tempos, hoje atravessaria sem um relance o meu caminho.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Maldito anjo desconhecido, que se meteu a exumar idéias que enterrei sei lá onde. Você me paralisou, roubou meu fôlego e meu apetite. Não posso nem desejar sua morte, seu imortal, mas posso me recusar a encarar as verdades que me trouxe. Se, pela marcha fatal da vida, me é vetado falar como me apetece, meu protesto será o silêncio embirrado.</p>
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		<title>Os olhos são sempre irresistíveis</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Aug 2008 14:30:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Viana</dc:creator>
		
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As armas da tirania também podem ser as armas da arte, é o que diz. Em sua guerra, ele nunca mostra o rosto e assina com iniciais: JR. Esconde os olhos debaixo do capuz, porque sua visão foi trocada por uma lente de 28 milímetros, projetada a partir da câmera que ele empunha como um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter" title="Morro da Providência, Rio de Janeiro, com intervenção do artista JR" src="http://www.womenareheroes.be/images/photos/action/br/FINALSHOT_JEUDInight2.jpg" alt="" width="692" height="462" /></p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">As armas da tirania também podem ser as armas da arte, é o que diz. Em sua guerra, ele nunca mostra o rosto e assina com iniciais: <a title="Página do artista JR" href="http://jr-art.net/" onclick="javascript:pageTracker._trackPageview('/outbound/article/http://jr-art.net/');" target="_blank">JR</a>. Esconde os olhos debaixo do capuz, porque sua visão foi trocada por uma lente de 28 milímetros, projetada a partir da câmera que ele empunha como um fuzil. Como uma sentinela de fronteira, o fotógrafo aponta seu aparelho para o rosto da vítima, à queima-roupa. Mas, em vez de lhe estilhaçar o crânio, ele registra sua vida. E, por que não uma licença poética, duplica sua alma.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">O princípio é muito simples. Não há forma tão magnética para os olhos humanos quanto outro par de olhos humanos. Corresponder a um olhar é um gesto reflexo, o mais forte de todos. O consciente pode obrigar a mão a não escapar de uma fogueira, mas é impotente contra o empuxo das pupilas atentas. Os artistas sabem disso. Já o sabia muito bem o primeiro que aprendeu a desenhar um rosto humano. Hoje, na infinita cobiça pelas almas e bolsos, os publicitários abusam do efeito arrasador do contato visual. Em seu tempo, os deuses é que foram representados com olhos imensos. O próprio sol era entendido como olho faiscante e implacável, divindade flamejante. Já a lua se lia como um olho de mãe, aquele que apascenta, tão tranqüilo que leva um mês em piscar e reabrir.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Quando dois rostos se fitam, abre-se um canal definitivo que qualquer mensagem pode atravessar. Os sinceros, os sedutores, os carismáticos, são seres que dominam a potência do próprio olhar. Os tíbios, ao contrário, só têm pupilas a oferecer. Naturalmente, a política e a propaganda compreenderam logo o canhão semiótico que tinham entre os dedos. Com as técnicas de impressão do último século, não foi difícil levar ao paroxismo o mais insidioso estratagema de comunicação. Nas ditaduras, nas democracias, nos cartazes publicitários, grandes efígies fotográficas impuseram pensamentos e concepções de mundo, sugeriram atitudes e escolhas, exigiram sacrifícios e gastos. Diante do busto gigantesco do líder e da estrela, até o espírito mais indócil baixa os olhos e se curva em assentimento. Ao risco de asfixiar a civilização.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR"><img class="aligncenter" title="Jovens do morro da Providência, subvertendo o conceito de movimento" src="http://jr-art.net/images/photos/JR_MAURICIO_HORA_PROVIDENCIA_braquage.jpg" alt="" width="692" height="460" /></p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Por outro lado, quando há cegueira, quando as palavras são incapazes de provar sua verdade e as mãos que poderiam construir só se empregam em estraçalhar, algum caminho para a trégua deve ser escavado. A qualquer custo, a visão precisa ser restabelecida, a lógica tem de assumir seu trono, os dedos devem aprender a suturar e dar consolo. Felizmente, a humanidade é a prova maior de que para cada força há uma outra, proporcional e inversa, como aprendemos com Isaac Newton. E a força mais poderosa que temos, creia-me, é a arte.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR"><img class="aligncenter" title="Jovens da periferia de Paris subvertem o conceito de violência" src="http://jr-art.net/images/photos/BRAQUAGEFINAL2.jpg" alt="" width="690" height="461" /></p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Eis a missão que JR estipulou para si próprio, com seu fuzil fotográfico. Restabelecer a lucidez no mundo: o rapaz é ambicioso. Começou como todo artista engajado, retratava a juventude da periferia de Paris, as <em>cités</em> habitadas por franceses negros, morenos, asiáticos, muçulmanos, filhos de brava gente que veio para ceder sua força à economia da metrópole. E vieram de longe, em geral países que já passaram pela humilhação de ser colônias. Os retratados são uma geração que muda a cara e a tez do país.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">E nada aconteceu. Que resposta ele poderia esperar? O centro conhece bem as figuras de suas periferias. Vigia-os, contrata-os, gosta até de ouvir e dançar à sua música com temas de revolta, gravadas em estúdios de última geração à beira do Sena. Fotografias de jovens suburbanos são muito valorizadas nas galerias da <em>Rive Gauche</em><span style="font-style: normal;">, a cujos <em>vernissages</em> comparecem <em>madames</em> e <em>mademoiselles</em> encantadas pelas feições hostis, calças largas e bonés de basquete. Excelente forma de se ver reconhecido pelo circuito, mas não é provável que mude o mundo.</span></p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR"><img class="alignnone" title="Limpeza do muro, fora fotografia" src="http://jr-art.net/images/photos/karsher2.jpg" alt="" width="692" height="461" /></p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR">Até que ele entendeu o princípio. O magnetismo do olhar, a empatia do rosto, a reprodução quase infinita de imagens digitais. E, principalmente, o poder de imprimir cópias enormes, gigantescas, que interditem ao espectador a hipótese de evitar o contato. Seu museu, ou antes sua galeria, seria a rua, que ele mesmo define como &#8220;a maior do mundo&#8221;. Esse foi o estilo que o artista escolheu para trabalhar e lutar.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR">As primeiras ofensivas de sua objetiva de 28 milímetros tiveram lugar aqui mesmo em Paris. Os mesmos jovens já fotografados nas poses tradicionais apareceram em esgares e grimaças, registradas de uma distância que não chegava a meio palmo. Ampliadas, as imagens foram afixadas em muros, lixeiras, paredes, calçadas. A reação do público foi imediata. Casais e executivos interrompiam suas marchas diante dos olhos enormes, escancarados em preto-e-branco, em posições em geral engraçadas, muitas vezes ridículas. Olhos que não expressavam ódio, nem humilhação. Expressavam quotidiano, algo em princípio idêntico ao que todas aquelas pessoas viviam naquele mesmo instante, mas tornado diferente por alguma causa que, de repente, perdeu o sentido.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR">O mais curioso, e que poderia levantar um debate interminável, mas ainda assim interessante, foi a intervenção da polícia. Os zelosos protetores da ordem, fiéis a seu dever, fizeram cumprir uma lei de 1888 que proíbe qualquer fixação de cartazes nas vias públicas. Foi uma medida para evitar os manifestos políticos que se multiplicavam à época. Em qualquer parede mais propícia, lê-se o aviso de proibição, com a data e tudo. O artista, bem se vê, infringiu a lei. O que, aliás, explica o pseudônimo. Assim, em poucas horas os serviços de limpeza pública haviam esfregado dali os faces distorcidas dos adolescentes vizinhos.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR"><img class="aligncenter" title="Sacerdotes das três grandes religiões monoteístas" src="http://jr-art.net/images/photos/JR_tryptique.jpg" alt="" width="692" height="461" /></p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR">Não faz mal, o recado foi ouvido. O passo seguinte foi o maior investimento do artista até então. Na companhia de um outro fotógrafo, de nome &#8220;Marco&#8221;, JR decidiu que deveria se dedicar a nada menos do que a paz entre <a href="http://www.face2faceproject.com/" onclick="javascript:pageTracker._trackPageview('/outbound/article/http://www.face2faceproject.com/');" target="_blank">palestinos e israelenses</a>. Descambaram-se os dois para a Faixa de Gaza, conversaram com gente de ambos os lados, de várias profissões, todas as idades. Convenceram-nos a se deixar fotografar. De ambos os lados do muro vergonhoso que divide os povos que, no sangue, praticamente são o mesmo, fizeram colar centenas de reproduções, algumas com alguns metros de altura.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR"><img class="aligncenter" title="Muro da Palestina com cartazes colados" src="http://www.face2faceproject.com/images/photos/thumb/3/tn_IMG_0263.jpg" alt="" width="450" height="300" /></p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR">A idéia era obrigar os dois campos a encarar um ao outro. Promover a descoberta do dia-a-dia, abaixo dos helicópteros e acima dos fuzis, composto de cabeleireiros, taxistas e garis, em cada lado da parede de concreto. Revelou-se, nesse segundo laboratório, a verdade perturbadora de que é ali, nesses endereços quase idênticos, e não nos palácios, casernas e quartéis-generais, que reinam o medo, a miséria, as mortes, as famílias destruídas. Uma intenção nobre, sem dúvida, mesmo se é expressa no vídeo no mais peculiar discurso vazio francês.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR"><a href="http://www.dailymotion.com/video/x1bsn0_face-2-face-trailer-by-jr-and-marco_creation" onclick="javascript:pageTracker._trackPageview('/outbound/article/http://www.dailymotion.com/video/x1bsn0_face-2-face-trailer-by-jr-and-marco_creation');">Vídeo do projeto Face2Face, de JR e Marco</a></p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR">O êxito foi ainda maior do que a iniciativa parisiense. Não derrubou, ainda pelo menos, o muro em que os cartazes foram colados, mas atravessou fronteiras mesmo assim. Outro dia, topei com um gigantesco rabino rechonchudo e estrábico em Genebra, recostado na parede lateral de uma casa de ópera. Também sei de cartazes que foram transplantados para cidades americanas e asiáticas. Seja como for, o fotógrafo foi incentivado a prosseguir, e prosseguiu. Foi como se tivesse aberto um mapa-múndi e espetado alfinetes nos recantos da pobreza e do conflito. Não deve ser surpresa para ninguém que um dos primeiros lugares escolhidos foi o Brasil.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR">O artista esteve nas duas maiores cidades do país. Em São Paulo, não sei por que razão, realizou imagens bastante convencionais, embora boas, nas bocadas do centro, no alto dos arranha-céus e nas comunidades do Capão Redondo. No Rio, em compensação, ele compôs também uma obra de arte descomunal, que já figura entre as que mais me causaram impacto.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR"><img class="aligncenter" title="Barraco do Morro da Providência com intervenção de artista e não político" src="http://www.womenareheroes.be/images/photos/action/br/Fri-Sel-001.jpg" alt="" width="692" height="461" /></p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR">Um parêntese: tento ao máximo ler os jornais brasileiros, isto é, suas versões em linha. Tanto os do Rio quanto os de São Paulo, sendo que o JB, esse que há tempos deixou de ser ele mesmo, é o único que publica gratuitamente os fac-símiles de suas páginas do papel. São páginas, aliás, muito mal redigidas, coalhadas de erros de informação e de português, mas vou fazer o quê, é minha única maneira de ter a perspectiva de uma folha diagramada. Em resumo, posso ter passado por cima de alguma nota sobre a instalação, mas é improvável. Triste foi ter de ler sobre o assunto no blog de um filósofo americano.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR">As imagens dispensam comentários. Grandes pares de olhos que recobrem fachadas inteiras do morro da Providência. Figuras em preto-e-branco que espiam as centenas de milhares de pessoas a circular pela presidente Vargas, pela Central, pela Gamboa, numa poesia agressiva do contato involuntário. A uma distância que vai da avenida ao cume, aparecem as rugas, as expressões, os vincos de cansaço e dor de indivíduos anônimos e até então invisíveis. Nos poucos retratos de rostos inteiros, é fácil notar a tensão dos músculos que não sabem se podem abrir um sorriso ou se deveriam manter o siso. Centenas de moradores da Providência cederam suas casas para o fotógrafo. Dezenas cederam suas faces. Na maioria, mulheres que perderam parentes nas disputas do tráfico.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR"><img class="aligncenter" title="Rosto da mulher na escadaria" src="http://www.womenareheroes.be/images/photos/action/br/collage_escalier-8.jpg" alt="" width="750" height="500" /></p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR">Como são belas as reproduções da paisagem, o morro tomado por barracos antigos, em geral tão opacos, cinzentos e tristes, agora salpicado de rostos humanos, olhos abertos, lábios, dentes, mãos. Uma prova intuitiva de que tudo poderia ser diferente, a cidade poderia ser uma, não existe razão para que uma metade seja invisível e a outra tente tornar-se invisível, escondida atrás das proteções estéreis. Os rancores, bem se vê, são uma tolice nossa, herdada de outros tempos. Não cabem mais numa sociedade que pretende enriquecer por inteiro e ter uma posição significativa no mundo. Há que superá-los.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR">Mas algo assim exigiria sacrifícios que talvez não estejamos dispostos a fazer. O trabalho de JR foi realizado no início deste mês, é provável que ainda esteja exposto, mas as poucas matérias que encontrei sobre o assunto nos jornais são retrancas secundárias das reportagens sobre o caso &#8220;Cimento Social&#8221; e a confusão que envolve Marcelo Crivella, exército e os traficantes de sempre. Posso estar enganado, mas não tenho forças para chegar a outra conclusão: mais vale comentar o mesmo de sempre; por que não fazer o mesmo de sempre!; vamos então manter o mesmo de sempre.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm; font-style: normal;" lang="pt-BR">Enquanto isso, o anônimo e encapuzado JR segue com seu trabalho ao redor do mundo. No projeto <a href="http://28millimetres.com/women/" onclick="javascript:pageTracker._trackPageview('/outbound/article/http://28millimetres.com/women/');" target="_blank">&#8220;Mulheres são heroínas&#8221;</a>, já passou por Serra Leoa, África do Sul (Soweto, em Johannesburg), Libéria, Sudão, Quênia. Sempre com a câmera à queima-roupa, fuzilando a sensibilidade dos passantes com a arte. E sempre, claro, rebentando a timidez no contato dos olhos humanos.</p>
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		<title>A saudar Iemanjá</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Aug 2008 00:38:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Viana</dc:creator>
		
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Mais uma jangada saiu pro mar. Vai navegando nela, provavelmente a assoviar uma de suas próprias canções, o homem que cantou a Bahia e as baianas. Cantou Doralice e Dora, rainha do frevo e do maracatu. Cantou Rosa, com a rosa no cabelo e o olhar de moça prosa. Cantou Marina, morena Marina, que ousou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone" title="Dorival Caymmi deitado no sofá" src="http://farm3.static.flickr.com/2161/2769601778_36a899e187.jpg?v=0" alt="" width="500" height="406" /></p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Mais uma jangada saiu pro mar. Vai navegando nela, provavelmente a assoviar uma de suas próprias canções, o homem que cantou a Bahia e as baianas. Cantou Doralice e Dora, rainha do frevo e do maracatu. Cantou Rosa, com a rosa no cabelo e o olhar de moça prosa. Cantou Marina, morena Marina, que ousou se pintar, ela que já é bonita com o que Deus lhe deu. Vai sumindo no horizonte a jangada do trovador Caymmi. Vai se despedindo de seus personagens, os trabalhadores do litoral, curtidos pelo sol. E quando a jangada voltar só, é porque, como ele mesmo já disse, o mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Com ele, aprendemos sobre o canoeiro que joga a rede no mar, puxa a corda, colhe a rede. Com ele, aprendemos que quem não tem balangandãs não vai ao Bonfim, e olha que quem vai ao Bonfim nunca mais quer voltar. Aprendemos também que o pescador tem dois amores: o bem da terra, o bem do mar. O bem da terra é aquela que fica na beira da praia, que chora e faz que não chora quando ele sai. O bem do mar é o mar, que carrega nas ondas pra ele pescar. Em poucas palavras, aprendemos que tudo na Bahia faz a gente querer bem.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Dorival, depois de muito matutar em sua rede, concluiu que era hora de levantar e partir para uma outra Maracangalha, de uniforme branco e chapéu de palha, para encontrar Anália e os velhos amigos, Tom Jobim, Jorge Amado, Vinícius de Moraes. Alguém, depois de tanto esperar, deve ter cobrado. &#8220;Ei, Dorival! Deixa de lado essa pose e vem pro samba! Vem sambar, que o pessoal está cansado de esperar!&#8221; E ele, que não é ruim da cabeça, nem doente do pé, levanta e vai, copo na mão e o corpo mole, que é assim que o samba deixa a gente. Ora, quando se dança, todo mundo bole, é ou não é?</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Tudo isso, então, por saudade dos amigos. Ah, insensato coração! Mas se ter saudade é ter algum defeito, como em outros tempos Dorival teve da Bahia, então que lhe reservem o direito de ter alguém com quem se confessar. Se confessar e conversar, claro, sobre as sacadas dos sobrados da velha São Salvador, com as lembranças de donzelas de outros tempos, e tudo mais que há naquela terra, o vatapá, o mugunzá, o caruru. Realmente, a Bahia tem um jeito que nenhuma terra tem.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Muita gente quis conhecer a areia e a morena de Itapoã, mas voltou decepcionado. Eu mesmo ardia de curiosidade pela lagoa escura do Abaeté e fiz muxoxo diante de um lago urbano perfeitamente normal, arrodeado de areia não tão branca, nada branca. Na minha estultície, demorei a entender o óbvio. Que não é aquela a Itapoã de tantas saudades, nem o Abaeté onde lavadeiras se benzem ao ouvir a zoada do batucajé. Como a Pasárgada de Bandeira, as paisagens de Dorival Caymmi não são referências geográficas, mas poéticas. Não existem sobre a terra, só no vento dos versos e em nenhum outro lugar. Melhor assim, claro. Muito melhor assim.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Foram precisos 93 anos para apagar a voz límpida, de clareza ímpar, grave como poucas, enorme desafio para os operadores de som do último século. Da boca que emitia as vibrações intermináveis, mas suaves, vinha sempre também o sorriso amistoso de quem está de bem com a vida, não teria por que não estar. Era alguém que sabia dos momentos na vida em que, se a noite é de lua, a vontade é contar mentira e se espreguiçar. Dorival Caymmi nasceu pequenininho, como todo mundo nasceu, depois tornou-se o porta-voz de uma Bahia que deixa saudades em seus filhos. E de trabalhadores que se arriscavam no mar, enquanto suas negas rezavam pra ter bom tempo e faziam suas caminhas perfumadas de alecrim.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">As composições de Dorival tinham um despojamento calculado que associamos normalmente à Bossa Nova. Não à toa, claro. Foi um dos primeiros autores a merecer gravações na batida inovadora de seu quase conterrâneo e também gênio, João Gilberto. A música corria com tanta força no sangue desse baiano pacífico da cabeleira branca, que jorrou em notas sobre toda a descendência. Eis aí a dinastia formada e firme, tantos bons músicos, Dori, Nana, Danilo.</p>
<p style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR">Está certo o compositor, é impossível estacionar aqui para sempre. Muita coisa boa, muita coisa a fazer, a aproveitar, a cantar, pois é. Mas não há bem que não se acabe. Assim adormece esse homem que nunca precisou dormir pra sonhar, porque não há sonho mais lindo do que a sua terra. Foi assim que mais uma incelença entrou no paraíso. Adeus, mestre, adeus. Até o dia do juízo. E que descanse bem, porque é doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar.</p>
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