Mangueira seu cenário é uma beleza
De madrugada, o diálogo que ninguém escutou.
- Me levar? Como assim, me levar? Não vai me levar coisa nenhuma.
- Desculpe, Seu Bispo, temos que ir.
Seu Bispo não quis saber. Fechou a cara e cruzou os braços. Turrão daquele jeito, ninguém poderia obrigá-lo a fazer o que não quisesse. Aliás, todo mundo sempre soube disso.
Só que dever é dever.
- Vamos, Seu Bispo, está na hora.
- Você me respeite. Eu sou pai de família. Tenho noventa e cinco anos e não sou obrigado a ouvir desaforo!
E Seu Bispo enterrou o queixo no peito, franziu o cenho, afundou os ombros no travesseiro verde-claro que as enfermeiras vinham trocar a cada manhã.
Quietos ficaram, imóveis, os interlocutores. O impasse era um triunfo para o velho orgulhoso, mesmo na doença, mesmo preso ao leito da clínica. As carnes negras do rosto, mais que cansadas, lhe caíam pelas bochechas. Por baixo, ele tentava disfarçar um sorriso. Mais uma vez, seu famoso mau humor haveria de prevalecer.
De pé, paciente como são os de sua estirpe, o belo anjo negro se contentava em ser o último a encarar os lábios que sorriam. Aquela magnífica boca que, durante tantas décadas, preenchera o ar dos salões onde casais dançavam de rostos colados, e depois fora animar as multidões na avenida, a voz encorpada pairando acima dos três mil tambores.
Pois a voz soou de repente, imperativa e irresistível:
- E vai me levar pra onde?
Um pouco intimidado, apesar de imortal, o anjo só respondeu apontando para o alto.
- Pro céu? Mas não vou.
- Seu Bispo…
- Que papo é esse? Obrigado se vocês lá em cima pensam que eu sou uma boa pessoa, mas não vou. Fico por aqui mesmo.
- Olha, infelizmente não é possível…
- Aqui, que não é possível! Uma hora, estou com uns probleminhas no rim, na bacia, derrame, coisa e tal. Na outra, já vem neguinho querendo me levar pro céu. Vê se pode…
Tudo isso, José Clementino dizia ainda com os braços cruzados, a papada negra esparramada sobre a camisa branca, a cara amarrada.
- Não, não.
O anjo adocicou ainda mais a voz. Aquele não era qualquer mortal, era alguém que, chegando ao céu, receberia no mesmo instante um lugar de destaque entre santos e orixás.
Nada de ferir seus sentimentos.
- Desculpe, Seu Bispo, eu não posso esperar mais…
- Quer parar de me chamar assim? Ninguém nunca me chama assim!
- … Seu Jamelão, estão esperando o senhor para puxar uns sambinhas em homenagem a seu Angenor e seu Natal.
A explicação teve efeito contrário ao desejado pelo anjo. Uma falha inaceitável, para um ser eterno e que sabe de tudo. Jamelão quase rolou para fora do leito. Explodiu, abriu os braços, berrou com uma força difícil de conceber em um homem tão velho e tão fragilizado.
- Quantas vezes vou ter que falar? Eu não sou puxador de samba! Puxador é maconheiro ou ladrão de carro!
Desorientado, o anjo tentou contemporizar. Levou as mãos aos ombros do cantor e o empurrou de volta para o travesseiro, com toda sua delicadeza de anjo.
- É que, lá em cima, está todo mundo com saudades do senhor. Cartola, Paulo da Portela, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, todo mundo quer ouvir a sua voz. Estão preparando uma roda lá em cima, com vista para a Mangueira e o Rio. O senhor sabe, Seu Jamelão, a cidade, vista assim do alto, mais parece um céu no chão…
O cantor já parecia mais calmo. Talvez fosse o esforço que o cansasse, ou a lembrança dos amigos.
- E os daqui, seu Jamelão, ainda vão poder escutar os seus discos.
Jamelão fechou os olhos. Sua respiração era um fio, a expressão no rosto era tranqüila, nada parecida com a cara de poucos amigos quase tão célebre quanto a voz enorme.
- Vem comigo, dá a mão, vem…
Ao amanhecer deste sábado, o Brasil soube que Jamelão não era mais.