Remakes 3: a macacada

Visitando rapidamente a locadora - em busca vã do tal filme Sangue Negro -, deparo-me com o devedê O Planeta dos Macacos, clássico da ficção científica dos anos 60. Filmaço. Vi no cinema, ainda garoto, mas só fui compreendê-lo, de fato, muito tempo depois, ao ver e rever em VHS, o qual possuo até hoje. Enfim, não é sobre isso que quero falar, mas o que me chama a atenção é que a capa do filme elimina qualquer tipo de surpresa em relação a seu desfecho: Charlton Heston, desolado, vê-se diante dos destroços da Estátua da Liberdade. Chega à conclusão de que o desconhecido planeta habitado por símios nada mais é que o próprio planeta Terra, antes conduzido por uma espécie irresponsável e, paradoxalmente, desumana: nós. Uma tristeza.

Pois assistindo ao planeta de Tim Burton, no qual Mark Wahlberg leva uma surra dramática de Tim Roth, chego à conclusão imediata: a idéia de criar um desfecho-surpresa pareceu-me obrigação. A do filme de 68, conduzido por Franklin J. Schafner, tem mais impacto, além de beneficiar-se do cenário paradisíaco (praia, sol, céu azul com nuvens) e da presença da deliciosa Linda Harrison, no papel de Nova, cavalgando com a elegância de uma miss - o que ela realmente foi, em Berlim, sua cidade natal. O desfecho do filme de Tim Burton causou certa estranheza. Houve decepção e muita gente não o compreendeu.

Claro que a versão de 2001 faz mais sentido, do ponto de vista tecnológico. Sim, o espectador está mais exigente e Hollywood tenta ser o mais verossímil possível, tanto na criação da parafernália eletrônica quanto ao fato de elaborar um roteiro sem fissuras. Mas a força do filme de Burton está na macacada - e não no herói astronauta. Não é apenas uma questão de maquiagem. A figura sombria e agressiva do general Thade, interpretado por Tim Roth, não possui equivalente no filme anterior. Dr. Zaius, o macaco louro do filme original, apesar de politicamente cínico, não oferece perigo real. Thade é um dos melhores vilões do cinema, pode apostar. Sim, a maquiagem ajuda, mas ponha uma máscara de macaco em mim para ver se sai alguma coisa.

Se em ambos os filmes os humanos merecem castigo - e a morte, por que não? -, no original, de 1968, existe um tácito respeito em relação àquilo de que somos capazes. Isso inclui, claro, as conquistas científicas, os avanços sociais e o tropismo para a guerra. No filme de 2001, a mensagem é clara: o ser humano inteligente tem de ser aniquilado e permitir que sobreviva implica riscos. O filme de Schafner prioriza as cenas diárias; o de Burton, para sugerir o horror, opta pelas cenas noturnas. Que melhor hora há para caçar?

Prefiro o clássico de 40 anos atrás - talvez até porque me provoque boas lembranças, mas não chego a desgostar do tom aventureiro (em alguns momentos até adolescentes) do filme de 2001. Tudo a seu tempo.

Eu & minha ignorância

Agora pela manhã, após lauto café - e ainda usufruindo da mísera folga do recesso escolar -, passo os olhos pelos jornais do dia (via web) e visito dois portais, UOL e Terra. Eis que me deparo, neste último, com o título que me chama a atenção e, claro, desperta-me a curiosidade: João Bosco e Vinícius: confira os sucessos. Em minha saudabilíssima ignorância, pensei tratar-se, de imediato, de alguma gravação inusitada - clandestina, até - do grande poeta e letrista com o extraordinário violonista mineiro, parceiro do excelente Aldir Blanc. Cheguei a imaginar, ávido, que outras magníficas composições poderiam advir dessa não menos magnífica comunhão, afinal compuseram Samba do Pouso, Rosa dos Ventos e O Mergulhador. Não, não se tratava disso. Na verdade, o portal dava destaque a uma dupla sertaneja de Mato Grosso do Sul que, orgulhosamente, apresentava seu cedê Acústico no Bar. Não é piada: isso realmente existe.

À direita do visor aparece o top 5 dos dois artistas. Destaques para Ah é? e Quero provar que te amo. É possível comprar suas músicas - além de ouvi-las - pelo portal. Por 25,06 reais o consumidor pode levar um pacote com 14 títulos, que incluem, além das citadas, Pagode em Brasília e Esse amor que me mata. Pelo jeito são conhecidos do grande público. Eu é que não entendo nada. Não, não fui ingênuo em imaginar que algum produtor (preocupado com boa música) pudesse ter garimpado outras gravações esquecidas de dois expoentes da música brasileira, como Vinícius de Moraes e João Bosco. Isso não é ingenuidade; não sou ingênuo, nem romântico, nem otimista. Na verdade, sou um ignorante. Por que você ri, João?

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Donato, go home!

João Donato é um dos grandes, ao piano. Tem pelo menos dois discos antológicos: A Bad Donato e Piano of João Donato -The New Sound of Brazil, duas obras-primas que caíram no gosto internacional e o projetaram no hemisfério norte. É um dos artistas fundamentais da Bossa Nova, ao lado de Jobim, Gilberto, Menescal, Sérgio Mendes e Vinícius. É bem recebido em todos os lugares aos quais se dirige: o público reconhece-o como um expoente, quer ouvi-lo, quer que ele interaja com a platéia, quer vê-lo sorrir e chefiar os músicos que têm o privilégio de dividir o palco com ele. Esse é João Donato, admirado por todos - menos pelo povo de Vitória, ES.

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Hoje, segunda-feira, 21, João Donato apresentou-se no projeto Vitória Bossa Nova. Estava acompanhado de Jessé Sadoc (trumpete), Ricardo Pontes (sax), Robertinho Silva (bateria) e Luiz Alves (contrabaixo). Um supertime de impressionar qualquer ouvido, mas a platéia não se impressionou. Aliás, nem deu muita bola. Era mais fácil ouvir burburinhos, gritos e conversas do que as esplêndidas performances dos músicos. Não perdoaram nem a música doméstica. O Afonso Abreu Trio abriu o show. O pianista, Pedro Alcântara, executou a melhor versão que já ouvi de Zíngaro (que muitos chamam de Retrato em Branco e Preto). Não lhe deram muita bola. Nem a ele nem aos outros dois componentes do trio, dois excepcionais instrumentistas, Marco Grijó (bateria) e o próprio Afonso (contrabaixo).

João Gilberto dizia que show tem de ser pago - e de preferência caro. O público precisa gastar para respeitar o que vai ser visto e ouvido. Shows gratuitos são para bandas de rock, não para músicos de verdade. Em parte ele tem razão. O público que lotou o antigo armazém 5, do Porto de Vitória, ignorou, de cara, Miéle - sim, o próprio, Luiz Carlos Miéle, testemunha ocular, auditiva, tátil e sentimental de tudo o que foi realizado em Bossa Nova. Falou para poucos, contou algumas ótimas passagens sobre Tim Maia, Roberto Carlos e Jorge Goulart. Foi um mestre de cerimônia de luxo. E o público nem tchuns: comportou-se como se todos aqueles que subiam no palco tivessem apenas um propósito: criar música de fundo para conversas fúteis regadas a skol e batatinhas fritas.

Sei que toda generalização é burra. Havia gente prestando atenção ao show. Muitos - como eu - foram ao centro da cidade para ver o mitológico João Donato e seu grupo. Sei que muita gente ficou satisfeita, principalmente porque conseguiu ignorar o barulho irritante que era feito pela maioria. Eu não consegui. Incomodei-me. Sou chato, eu sei. Em alguns momentos, virei-me para constatar, visualmente, o que eu só percebia por ouvidos. Vi gente de costas para o palco, em conversas animadas, flertes descompromissados, diálogos fúteis. O que significa isso? Eu sei. Esse tipo de comportamento quer dizer “Vá para casa, João Donato, e não volte. O que nós gostamos, de fato, é de Ivete, de Jota Quest, de Bruno e Marrone, de Asa de Águia. Neles prestamos atenção, com eles gastamos dinheiro.” Triste, triste.

Batman, 2008

1713

Assisti ao filme Batman - O Cavaleiro das Trevas. É bom, ágil, o ritmo das cenas é bem marcado, o finado Ledger realmente faz um Coringa pra lá de sinistro, bem diferente do charmoso Nicholson do primeiro filme, o de Tim Burton, em fins dos 80. É o que o Batman sempre foi, desde os quadrinhos da antiga Ebal até a angústia do personagem de Frank Miller: uma mistura de detetive, justiceiro, agente secreto e homem de inteligência privilegiadíssima. Por falar em Miller, daquele Batman por ele criado - com dores de consciência, amargurado, gauche, insatisfeito - só se mantém o título de cavaleiro das trevas. De resto, é o morcegão ao qual nós nos acostumamos, desde a infância, nos anos 70. Leia-se por “nós” os indivíduos entre 40 e 50 anos.

Todos estão bem no filme, até porque todos têm tempo para isso: duas horas e meia de película é tempo suficiente para que Morgan Freeman possa exercitar seu cinismo; para que Michael Caine exiba seu charme britânico; para que Gary Oldman mostre por que é um dos melhores de sua geração, e, naturalmente, para que Heath Ledger possa, num papel feito para brilhar, fazer a festa no esplendor de sua psicopatia. Ah, ia-me esquecendo: Aaron Eckhart, o Harvey Dent que se transforma em Duas Caras - vai emplacar mesmo é no próximo filme. Maggie Gyllenhaal, bela como sempre, poderia ser mais bem aproveitada, mas não decepciona. E Christian Bale, o cruzado da capa? Até ele - canastra em alto grau - está bem, principalmente quando mascarado, mostrando que pode ser tão apavorante quanto os facínoras que persegue.

As tomadas aéreas - muitas - dialogam com os quadrinhos originais, sugerindo os topos das construções nas quais Batman se localizava, para guardar Gothan. E o Bruce Wayne convence mais do que seus antecessores: com a tecnologia a seu serviço, torna-se mais seguro, sabe que vencer é uma questão de tempo. E reserva até algo de humano, já que é capaz de amar e sofrer.

Uma dica para Hollywood: o filho do comissário Gordon é um lourinho fã do Batman. Parece compreendê-lo (quando toda a cidade mostra o contrário) em sua cruzada justiceira. Não seria, alguns anos depois, um Robin perfeito? 

Nem tu, futebol?

Terminei de ler Futebol ao Sol e à Sombra, do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano, famoso pelo clássico político As Veias Abertas da América Latina. Galeano é um apaixonado pelo futebol, esporte sobre o qual discorre com propriedade, desde as gloriosas campanhas da Celeste Olímpica - seleção de seu país - a craques que há pouco deixaram os gramados, como Romário. É reverente com Garrincha, Pelé, Maradona, Cruijff, Di Stefano e Obdulio Varela, o Negro Jefe, que resolveu, segundo um dos textos do livro, tomar porres nos bares cariocas após seu time ter transformado o Maracanã num mausoléu silencioso, em 1950.

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Mas não é sobre o livro, especificamente, que quero falar. A intelligentsia brasileira, que deveria aprender com Galeano (mas não aprende), esnoba o futebol como tema artístico. Aceita-o como jornalismo e como espetáculo visual, mas como fonte de boa literatura, como trama, enredo e mote - não. Que grande romance há sobre futebol? Nenhum. Uma breve narrativa até vai: Rubem Fonseca escreveu Abril, no Rio, 1970, modesto conto exposto na coletânea Feliz Ano Novo. Drummond fez poemas falando de ícones do ludopédio - incluindo os craques da vitoriosa seleção de 1970; João Cabral enalteceu Ademir da Guia, craque palmeirense, num poema.
 
Certo, certo: na crônica é possível ir mais longe? Vejamos: Nelson Rodrigues e seu irmão Mário, João Saldanha, Armando Nogueira, Ruy Castro. Quem mais? É interessante - para não dizer contraditório - perceber como um esporte que desperta tanta comoção possa ser solenemente esnobado por escritores, pintores, cineastas. E olhe que estes últimos até tentaram: os documentários Garrincha, a alegria do povo, de Joaquim Pedro de Andrade, Pelé Eterno, de Aníbal Massaini, e os dois Boleiros, ambos de Ugo Giorgetti, são exemplos que me vêm, de imediato. Há outros, mas isso não minimiza o desprezo que a “grande arte” brasileira nutre pelo seu esporte mais popular.
 
Há, naturalmente, o segmento biografia, que, cada vez mais, apresenta aos brasileiros quem foram seus heróis em campo: Eu sou Pelé, de Benedito Ruy Barbosa; A Estrela Solitária, de Ruy Castro; Minha Bola, Minha Vida, de Nilton Santos, e outros títulos menores. Mas é pouco, muito pouco para um país que se orgulha (exageradamente, claro) de representar o futebol no mundo. E biografia - com exceções - não é literatura.

Será que transformar esportes mais elitizados - tênis, automobilismo, voleibol - em literatura não é o sonho dos escritores brasileiros? Um romance (ou conto, novela) que tenha como pano de fundo pit stops ou paisagens de Wimbledon não seria mais a cara do Brasil? É possível, afinal o que desejamos mais do que a “civilização”? Levante a mão quem não quer ser sueco.

365 dias de blog: agradecimento

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Há categorias para a vaidade ou ela é uma só, mas ao mesmo tempo variável em forma, som e conteúdo? Não importa. Ai daquele que, tentando camuflar-se, afirma e reafirma que um blog não é um espelho para a própria vaidade. Ou seja: é o reflexo recauchutado de si mesmo. Após a assunção, digo a que venho: são 365 dias, 298 postagens, mais de 56 mil visitas: muitas críticas, muitos elogios, puxões de orelha, erros e acertos, concordâncias, discordâncias, sugestões, pitacos, correções. Assim se faz um blog. Ou melhor, assim se faz o IPSIS LITTERIS. Eu, como editor-chefe supremo e único, agradeço a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, participam dessa empreitada. Sem vocês, nada seria possível.

Valeu, mesmo.

Grijó

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