
Já perguntei por Rick Wakeman e por Joe Cocker (duas figuras que fazem falta) e cujo trabalho - acima da média - foi destaque durante os anos 70. Já fui chamado de saudosista, de velho, de setentista, como se três décadas atrás tivessem a distância temporal da Idade Média. Sim, assumo que toda a minha formação musical vem dos anos 70. Foi a partir da segunda metade dessa década - eu aos 15, 16 - que descobri o jazz, o rock progressivo, as big bands e a boa MPB. Foi nessa época, 1977 (mais precisamente), que ouvi Alucinação, disco de Belchior que se tornou clássico. Ok, ok. Duas coisas precisam ser ditas: a primeira: Belchior não era um cantor de grandes recursos vocais. Bem, nem todos nascem Lúcio Alves, Milton Nascimento ou Nelson Gonçalves. Segundo: a palavra Belchior é pronunciada como “Agenor” e “Claudionor”, e não como “suor” e “pior”. Estamos conversados.
Concordo: os discos setentistas de Belchior - A Palo Seco (74), Alucinação (76), Coração Selvagem (77), Todos os Sentidos (78) e Era uma Vez Um Homem e Seu Tempo (79) - são preciosidades em que brilham composições esplêndidas como “Hora do Almoço”, “Paralelas”, “A Palo Seco”, “Como Nossos Pais”, “Divina Comédia Humana”, “Galos, Noites e Quintais”, “Pequeno Perfil de um Cidadão Comum”, “Coração Selvagem”, “Todo Sujo de Batom”, “Apenas um Rapaz Latino-americano” e algumas outras que merecem menção mas desisto de enumerá-las. Belchior era um trovador único, bem à frente daquela rapaziada que povoou a MPB com o nome de Pessoal do Ceará.
Costuma-se falar que Belchior cantava mal. Fala-se o mesmo de Chico Buarque. É um erro. Ambos são afinados e suas vozes são incrivelmente melodiosas, quando necessário. São vozes de pouco alcance, é verdade, mas, no caso de Belchior, ele é o melhor intérprete de suas canções de frases longas, que mal cabem na melodia. E olhe que a intérprete que o projetou foi Elis Regina. Não sei por onde anda. Há alguns anos, encontrei-o num restaurante, em Vitória. Fui até ele, como tiete, e agradeci, com poucas palavras, por algumas composições. Não havia muito o que dizer, e o local era inadequado. As pessoas sabem por que vão a restaurantes: querem comer e beber, apenas.
Não gosto muito dos discos feitos nas décadas de 80 e 90, embora os possua - mas pouco ouço. Seu disco em espanhol, Eldorado, em companhia de Eduardo Larbanois e Mario Carrero, é duro de engolir. Tudo bem: ninguém é perfeito. Realmente não sei por onde anda, mas se Belchior quiser afastar-se dos palcos e dos estúdios, pode fazê-lo. Em paz. Ou até voltar à medicina, curso que abandonou em nome da música. Quem sabe?
Aí vai a discografia.
Belchior - Como nossos pais