Enciclopédia & Mulheres: Quadrinhos

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Já escrevi sobre o assunto que nunca se esgota. Dois assuntos, na verdade: mulheres e quadrinhos. Acabei de comprar, via web, e por uma bagatela (já que de segunda mão, mas em ótimo estado), a Encyclopédie de la Bande Dessinée Érotique, de Henri Fillipini, que reúne quase 500 personagens de quadrinhos picantíssimos. A Aphrodite, de Manara; Carlotta, Erma Jaguar e Lola, de Varenne; Valentina e Bianca, de Crepax, Druuna, de Serpieri. Todas lá, expostas em mais de 2.500 verbetes (em francês) para deleite dos iniciados. A editora é La Musardine, especializada no assunto erotismo/publicações. Já passou da hora de isso vir à tona das livrarias brasileiras. Demanda há.

Henri Filippini navega por esse mar enciclopédico de quadrinhos, erotismo, tramas, desenhos, histórias. É um incansável aventureiro, no melhor sentido que o termo possui, além de ser um apaixonado pelo assunto. Seu trabalho de maior fôlego é o definitivo Dictionnaire Encyclopédique des Héros et Auteurs de BD (3 volumes), compreendendo animação, western, humor, policial, mangá, ficção-científica, erotismo, super-heróis e história. Ao final de cada volume, uma biografia dos autores citados. Absolutamente essencial para quem curte o gênero. Eis o link, para quem tem grana de sobra.

E agora, "seu" Jorge?

Livro+de+jorge+mado

Jorge Amado terá sua obra relançada pela Cia. das Letras. Acho justo, justíssimo. É um contador de histórias da melhor qualidade, embora a crítica - afeita aos exibicionismos estruturais e às pequenas malandragens da pós-modernidade - tenha por ele certo desprezo. Não tem a tarimba lingüística de um Roa Bastos nem o charme de um Carpentier, mas é inegável que soube, como poucos, aproximar-se do que chamamos literatura popular (na melhor acepção que essa expressão possa ter). Tudo o que criou vem do povo, e isso é visto, por muitos, como defeito, como algo negativo pelo qual a intelligentsia tem repulsa.

Jorge Amado foi muito lido durante os anos 60 e 70. Comunista - e por isso mesmo -, foi divulgado durante a Guerra Fria sem sequer participar dela. Não só ele. O chileno Neruda entrou nessa também, e sua poesia tornou-se obrigatória nas escolas da antiga Cortina de Ferro. Jorge Amado beneficiou-se, mas isso não desmerece seus textos. Claro que sua literatura biográfica - Os Subterrâneos da Liberdade e O Cavaleiro da Esperança - é panfletária, direcionada, discutível (não do ponto de vista estilístico), mas o tom socialista de Capitães da Areia, de Jubiabá e do excelente Tenda dos Milagres é estampado de forma, se não sutil, ao menos digna, sem doutrinações ou dogmatismos.

 Leio que sua obra, relançada, virá acompanhada de boa publicidade. Chico Buarque, José Saramago e Rubem Fonseca, três gigantes nos quadros da Cia. das Letras, entraram no jogo. Dê uma checada. A pergunta é: Jorge Amado, um histórico campeão de vendas, ainda precisa disso? Claro que sim. Está praticamente esquecido, eclipsado por livros de auto-ajuda, por invasões de Cabul e arredores, pelo brilho discutível de Paulo Coelho e pelos autores de telenovelas e minisséries, que consideram suas histórias regionalizadas demais. E há, naturalmente, o maior dos motivos: lê-se cada vez menos neste país, a que Jorge Amado, em seu primeiro livro, chamou de O País do Carnaval. O Brasil é realmente uma festa, seu Jorge. Resta saber se o senhor ainda participa dela.

Por onde anda Belchior?

 Belchior1

Já perguntei por Rick Wakeman e por Joe Cocker (duas figuras que fazem falta) e cujo trabalho - acima da média - foi destaque durante os anos 70. Já fui chamado de saudosista, de velho, de setentista, como se três décadas atrás tivessem a distância temporal da Idade Média. Sim, assumo que toda a minha formação musical vem dos anos 70. Foi a partir da segunda metade dessa década - eu aos 15, 16 - que descobri o jazz, o rock progressivo, as big bands e a boa MPB. Foi nessa época, 1977 (mais precisamente), que ouvi Alucinação, disco de Belchior que se tornou clássico. Ok, ok. Duas coisas precisam ser ditas: a primeira: Belchior não era um cantor de grandes recursos vocais. Bem, nem todos nascem Lúcio Alves, Milton Nascimento ou Nelson Gonçalves. Segundo: a palavra Belchior é pronunciada como “Agenor” e “Claudionor”, e não como “suor” e “pior”. Estamos conversados.

Concordo: os discos setentistas de Belchior - A Palo Seco (74), Alucinação (76), Coração Selvagem (77), Todos os Sentidos (78) e Era uma Vez Um Homem e Seu Tempo (79) - são preciosidades em que brilham composições esplêndidas como “Hora do Almoço”, “Paralelas”, “A Palo Seco”, “Como Nossos Pais”, “Divina Comédia Humana”, “Galos, Noites e Quintais”, “Pequeno Perfil de um Cidadão Comum”, “Coração Selvagem”, “Todo Sujo de Batom”, “Apenas um Rapaz Latino-americano” e algumas outras que merecem menção mas desisto de enumerá-las. Belchior era um trovador único, bem à frente daquela rapaziada que povoou a MPB com o nome de Pessoal do Ceará.

Costuma-se falar que Belchior cantava mal. Fala-se o mesmo de Chico Buarque. É um erro. Ambos são afinados e suas vozes são incrivelmente melodiosas, quando necessário. São vozes de pouco alcance, é verdade, mas, no caso de Belchior, ele é o melhor intérprete de suas canções de frases longas, que mal cabem na melodia. E olhe que a intérprete que o projetou foi Elis Regina. Não sei por onde anda. Há alguns anos, encontrei-o num restaurante, em Vitória. Fui até ele, como tiete, e agradeci, com poucas palavras, por algumas composições. Não havia muito o que dizer, e o local era inadequado. As pessoas sabem por que vão a restaurantes: querem comer e beber, apenas.

Não gosto muito dos discos feitos nas décadas de 80 e 90, embora os possua - mas pouco ouço. Seu disco em espanhol, Eldorado, em companhia de Eduardo Larbanois e Mario Carrero, é duro de engolir. Tudo bem: ninguém é perfeito. Realmente não sei por onde anda, mas se Belchior quiser afastar-se dos palcos e dos estúdios, pode fazê-lo. Em paz. Ou até voltar à medicina, curso que abandonou em nome da música. Quem sabe?

Aí vai a discografia.

Belchior - Como nossos pais

A nudez de Jimi Hendrix

Jmi Hendrix Sex Tape

Não se deve deixar os mortos em paz. Pode perguntar a qualquer médium. O mundo dos mortos deve ser chacoalhado, deve-se buscar nos ectoplasmas algo que faça sentido para nós, os vivos. E o que mais dá sentido a nossa existência do que grana? Pois é. Não deixam Jimi Hendrix em paz, perturbam-no onde quer que ele esteja, não se importando em companhia de quem. A Vivid Entertainment, uma gigante dos filmes pornôs, lança um devedê de 45 minutos intitulado Jimi Hendrix the Sex Tape, que combina alguns poucos minutos de questionáveis imagens sexuais com uma retrospectiva da carreira do músico nos últimos anos da década de 60 - mas não mostra o mais importante: a música. Bem, eu disse “mais importante” em termos, porque se alguém se interessa em ver Jimi Hendrix nu, usando apenas uma bandana e trocando carinhos com duas mulatas, sua música torna-se irrelevante. Esse voyeurismo post-mortem revela, por parte do consumidor, uma curiosidade que vai além da idolatria e que, de certa forma, banaliza a relação ídolo-fã. O que mais nos iguala do que a prática sexual? Sinceramente? As imagens do estupendo guitarrista em Woodstock ou na Ilha de Wight não valem mais do que 11 minutos de um suposto threesome de 40 anos?

Mas há boas coisas a dizer sobre Hendrix (e sobre sua música): Stephen Stills - sim, do lendário Crosby, Stills & Nash - descobriu, remexendo fitas de velhas gravações, um disco inteiro feito com Hendrix, que será lançado em breve. É o que promete Grahan Nash. No fim das contas é isto o que conta: um dinheirinho vai bem, até aquele que provém dos mortos. Nesse caso, nada contra.

A Europa? Para quê?

Victoria Brasil

Leio na Folha que o brasileiro desistiu de tentar ser europeu - ou seja: não quer a civilização, não quer ser chique, despreza a lourice escandinava e esse negócio de orgulhar-se do passado (Renascença, Iluminismo, Revoluções Francesa e Industrial etc.) é blá-blá-blá. Coisa de museu, cacoete de quem é decadente e não tem mais nada a oferecer ao mundo. A Europa já era, diz o brasileiro. Só serve aos rastaqüeras (novos-ricos). Quem tem grana de verdade quer conhecer Japão, China, Asutrália e Oriente Médio. Pode até, se sobrar uma graninha (a baixa do dólara ajuda), fazer a opção pelo exotismo de Zâmbia, Qatar, Nepal. Não pensei que viveria para ver os brasileiros esnobando suecos, franceses, ingleses, alemães, italianos, suíços, dinamarqueses.

 Antes que perguntem sobre EE.UU.: ninguém falou contra os norte-americanos, nem foram citados na matéria. O alvo é Europa (e seus museus, seu mau futebol, seu descaso com o ambiente, sua moeda opressora). Quem diria!? Desconfio que os ianques foram poupados porque Miami e o mundo de Disney ficam logo ali.

O trecho que segue é de Verissimo, LF:

És suculenta e selvagem / como uma fruta do trópico. /Eu já sequei e me resignei/ como um socialista utópico. / Tu não tens nada de mim / eu não tenho nada teu. / Tu, piniquim. Eu, ropeu.

A Senhora aos 50: exposição

Bossa10

Gosto de Bossa Nova, assim como gosto de falar dela. Gastei saliva em algumas postagens em que mencionei os grandes nomes do movimento que, neste ano, faz cinqüenta anos. Na última postagem, contrariando uma convicção, cheguei a propor o download de uma obra-prima. Falei de discos, de fotos. A reverência a essa senhora é justa, mas parece-me tardia, e um tanto marcada pela culpa. Sim, culpa. A claudicante indústria fonográfica brasileira deixava clara a opção: a música instrumental brasileira devia resumir-se ao gueto, ao grupinho intelectual, devia mostrar-se muda enquanto os festivais da canção, em fins dos 60, privilegiavam a voz e o espetáculo. Muitos grandes instrumentistas perderam-se; outros tantos saíram do país. Estava selado um destino sem volta, que desembocou no BRock e hoje faz a festa (inclusive das gravadoras) no axé, na música (?) sertaneja, no forró e outras inutilidades. Culpado por ter negligenciado a boa música, o país tenta resgatá-la. Ainda há tempo?

Dia 7 de julho, na Oca do Parque Ibirapuera, em SP, terá início uma exposição sobre a Bossa Nova. A tecnologia estará a serviço do resgate, como forma de minimizar a culpa. Vale checar: aqui. E aqui também.

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