Mês de aniversário, livro novo, etc.

Neste mês - julho - o Ipsis Litteris comemora um ano de vida. Mais especificamente no dia 16. Se algo de muito especial (para bem ou para o mal) não acontecer até lá, comemorarei com agradecimentos. Sim, afinal é necessário agradecer a todos os que leram, criticaram, elogiaram, sugeriram, corrigiram. Sem leitores não há blog que agüente. Também neste mês a boa notícia. Após estendidas negociações, está em fase final de editoração o meu novo romance, Histórias Curtas para Mariana M. Sim, finalmente - dirão alguns. Incluindo eu. Eis o projeto de capa (já aceito):

Marianam

Apesar do título, não se trata de um livro de contos - e sim de um romance. Claro: o que é um romance senão várias histórias que se entrecruzam? Acredito que o livro estará nas melhores (e nas piores) livrarias do país até outubro de 2008. É só esperar.

Para saber mais sobre meus livros e quiser ler alguns de meus textos, clique aqui.

Leões à solta (em Bagdá)

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Brian Vaughan é roteirista da série Lost, a cujos capítulos nunca assisti. Sei mais ou menos a história, que contém gente perdida numa ilha. Prefiro Robinson Crusoé, às voltas com as discussões marxistas acerca da exploração do homem pelo homem. Bem, não é sobre isso que quero falar. Volto a Brian Vaughan que, nas horas vagas, produz histórias da melhor qualidade. Certa vez, ao ler num periódico inglês que, após um bombardeio, um bando de leões havia escapado de um zoo da capital iraquiana, teve a idéia que, combinada ao traço espetacular de Niko Henrichon, gerou Os Leões de Bagdá.

Imagine a destruição de uma cidade compreendida (ou não) pelo ponto de vista de leões. É mais ou menos como se colocar, em lugar deles, crianças que não compreendem atitudes insanas do mundo adulto. Sim, a discussão é essa, e poderia muito bem residir num texto literário. Aliás, Os Leões de Bagdá é quase isso. Na visão daquele que é considerado rei da selva, a perversão se instaura. Primeiro: não há selva e, se há, ela é concreta, feita de edificações que são desmanteladas pelo bombardeio. Ou seja: tudo o que vislumbram em liberdade é violência. Encarcerados, estavam mais seguros. É quase um clichê, mas a condução narrativa está longe disso. É literatura ilustrada.

Em Vitória, não!

Era de se esperar: Vitória, capital do ES, não receberá Sonny Rollins. Não me refiro, claro, a uma visita fortuita, mas a apresentações - no TIM Festival - do mais importante saxofonista vivo, que, segundo informações, vai dar as caras apenas em SP (dois shows) e no RJ. É lamentável. Em 1985, fui ao já inexistente Free Jazz Festival, e pude assistir, de cadeira consideravelmente distante, àquilo que considerei a essência do jazz: Sonny Rollins e seu sopro musculoso, a melodia levada a conseqüências últimas, uma sonoridade inequívoca (e muito pessoal) e sem rivais em sua época. Mas o grande show, à vera - e gratuito -, foi no espaço do Parque da Catacumba, com direito a uma paisagem digna dos árcades: do mirante se podia (acredito que ainda se possa) ver o Morro Dois Irmãos, a Lagoa Rodrigo de Freitas, o Cristo, a Pedra da Gávea. Aplaudi como um energúmeno.

Sonny

Certo, certo: o TIM Festival não é um evento jazzístico - pelo menos não essencialmente. Bebel Gilberto, Amy Winehouse, Björk & outras criaturas não me dizem muita coisa, mas o saxofonista Joe Lovano (a cuja apresentação não assisti) e o pianista Herbie Hancock já tocaram por aqui. Este último - veja só! - foi menos aplaudido que o violonista careteiro Yamandú Costa. Só em Vitória. Fico imaginando (uma irônica e impossível hipótese) Sonny Rollins apresentando-se após uma banda local - Casaca, por exemplo - e sendo menos ovacionado. Por esse motivo ele não vem? Só em Vitória, mesmo.

Para quem não conhece: clique aqui, aqui ou aqui.

Pelé, Massaini, Maradona, Kusturika

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O filme Pelé Eterno levou 300 mil brasileiros aos cinemas - um fiasco compensado pela venda do devedê, quase cinco vezes mais. A película foi sucesso em Londres, Paris, NY, locais que aprenderam a ver Pelé como aquilo que ele realmente é: o maior de todos os jogadores de futebol. O brasileiro contraria: diz que Garrincha foi melhor, insiste em julgar o craque por aquilo que ele faz fora dos campos. Pelé é, de fato, o que temos de insuperável.

 Mas por que falo em Pelé? Para chegar a Maradona, outro deus da bola, cuja vida foi também transformada em filme e que, quando chegar aos cinemas brasileiros, deve captar público em número semelhante a de um blockbuster norte-americano. Acredito saber por quê: o brasileiro identifica-se com a “humanidade” do esportista. Gosta de saber que ele é capaz de falhar, que está submetido a mazelas, que cede a tentações - em suma: sente-o mais próximo, e isso facilita, claro, a simpatia e, por conseguinte, gera a preferência. Claro que há os críticos racionais, capazes de ver o óbvio: Pelé foi maior, mas é bom moço, é “certinho” demais. Sim, claro: ninguém pode negar que ele foi a melhor coisa que o futebol produziu.

Document+maradona

De volta ao argentino (de quem sou fã): o cineasta Emir Kusturika, diretor do ótimo Underground, e do irregular Prometa-me, resolveu que deveria imortalizar Maradona, conectando sua imagem não somente ao futebol mas também à política, deixando - naturalmente - de lado as arruaças por conta de excessos ligados à química. Mas, em pelo menos um ponto, o documentário sobre Pelé é mais competente: mostram-se os goals, as grandes jogadas, os times em que o brasileiro jogou, as mulheres com quem se envolveu, as homenagens pelo mundo. É assim que se faz documentário: documenta-se. Nesse ponto Kusturika falhou. Diego Maradona não é fielmente documentado como futebolista, mas como personagem capaz de despertar paixões - como tantos outros por aí, seja em Nápoles, seja em Buenos Aires, onde, diferentemente de Pelé, aproxima-se do povo.

Alan Parker & the Soul Music

Commitments

Ver música é experimentar a sinestesia - ou seja, é misturar sensações. É como tatear o sabor de uma fruta ou ouvir as cores de um objeto no espaço. No fim das contas, é metáfora sensorial, coisa comum em literatura, e que o cineasta Alan Parker soube, como poucos em sua profissão, levar às telas. Parker fez Fama (1980), Pink Floyd - The Wall (1982), The Commitments (1991) e Evita (1996). Dos quatro, apenas um - Evita - é musical de verdade, quase clássico, com o festival de canastrice protagonizado por Madonna e Antonio Banderas nos papéis principais.

The Wall é delírio em estado puro, e merece uma postagem só dele. Fama é um filme delicioso sobre música, dança, teatro: a academia nova-iorquina desprovida de convenções rígidas, mas com regras básicas. As cenas de rua são declarações de amor à liberdade e à arte. E The Commitments? Revi, há poucos dias, num canal pago, esse ótimo exemplo de que é possível fazer um filme sobre marginalidade musical sem recorrer a melancólicos estereótipos que terminam por transformar em coitadinhos os músicos independentes. Pois nessa película os músicos iniciantes - ainda amadores, portanto - sabem que o sucesso vem embrulhado com arame farpado. A vida de músico é dura.

O filme homenageia os irlandeses de periferia: operários e suas famílias, gente que não crê na música como ganha-pão. Exceção feita, claro, para os jovens advindos dessas famílias, que se consideram tão marginais quanto é marginal a música que produzem: o soul. Lá pelas tantas, um personagem diz que “os irlandeses são os negros da Europa”. O grupo (impagável) de músicos tem fascínio pela música de James Brown - e leve-se em conta aí também a performance de palco, com toda a elasticidade do grande soulman - e por Wilson Pickett que, aparentemente, faz ponta no filme.

Commitments

É um filme imperdível mais pelas cenas dos ensaios da banda do que pela execução das músicas em seu produto final. Das inevitáveis batalhas ególatras ao trompetista veterano que papa as garotas da trupe. A trilha é dividida em dois discos esplêndidos: The Commitments vols.1 e 2, e só. Destaques para a poderosa voz de Andrew Strong em Mustang Sally, Take me to the River, Mr. Pitiful, In the Midnight Hour e Try a Little Terderness. E menção honrosa para os sopros de Johnny Murphy, no trompete, e Félim Gormley, no sax. E, claro, as backing vocals, que são um caso à parte. Se você não viu, veja. E, para não perder a sinestesia, sinta Mustang Sally, clicando aqui.

Uma visita a Benedetto (1922-1986)

Benedetto
Há uns bons vinte anos chegou-me às mãos um exemplar de Los Suicidas, uma novela de sentenças curtas que, de imediato, geraram-me desconfianças. Sempre desconfio de narradores que evitam conectivos de toda ordem, aqueles que contam histórias de forma pausada, de má respiração. Escritor tem de ter fôlego, como se mergulhador fosse. Mas há, claro, exceções: o norte-americano Barthelme é um. Antonio Di Benedetto, autor argentino, é outro. Leio que finalmente chegam ao Brasil, em língua pátria (nossa), os livros O Silencieiro, Mundo Animal e Outros Contos, Zama e o citado Los Suicidas. Dos quatro, confesso, conheço apenas dois, mas isso é mais do que suficiente para entender que a Argentina, em termos literários, parece ser protegida por uma entidade superior - que alguns chamam de Deus, se é que Ele é chegado às letras. Deve ser.
 
Los Suicidas é de 1968. É um texto noir, um tanto freudiano, em que um jornalista, encarregado de investigar três suicídios, volta-se para o suicídio do próprio pai. É uma narrativa aparentemente simples, um tanto melancólica, mas com passagens bem-humoradas. Na contracapa da edição castelhana, há uma menção curiosa: o texto teria densas doses autobiográficas, já que vários membros da família de Benedetto eram chegados ao suicídio.

Zama

Zama, livro de 1956, é outro papo. É um romance histórico, cujo ambiente é o Virreinato del Río de La Plata, hoje Paraguai. E é justamente dali que o personagem central - Diego de Zama, funcionário da Coroa Espanhola - quer sair, mas não consegue e a narrativa concentra-se justamente nisto: na espera, que o consome tanto física e econômica quanto moralmente. O interessante do livro (que neste momento folheio e de cuja leitura me recordo) é que Benedetto despreocupou-se com a linguagem da época ou com as descrições ambientais. O que vale é a angústia do protagonista, sua dor pela distância da família e a desesperança em relação ao mundo.

 Antonio Di Benedetto sofreu com a ditadura argentina. Em 1976 foi preso, torturado, submetido a pressões durante um ano e meio. Ao sair, refugiou-se: Espanha e EE.UU. Retornou em 1985, um ano antes de morrer, a seu país natal, a Argentina que tanto amou e da qual sempre se orgulhou, mesmo em épocas tenebrosas. Sua trajetória não é muito diferente da vida de alguns escritores brasileiros que sofreram com a opressão. Mas, no quesito literatura, é.

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