
Ver música é experimentar a sinestesia - ou seja, é misturar sensações. É como tatear o sabor de uma fruta ou ouvir as cores de um objeto no espaço. No fim das contas, é metáfora sensorial, coisa comum em literatura, e que o cineasta Alan Parker soube, como poucos em sua profissão, levar às telas. Parker fez Fama (1980), Pink Floyd - The Wall (1982), The Commitments (1991) e Evita (1996). Dos quatro, apenas um - Evita - é musical de verdade, quase clássico, com o festival de canastrice protagonizado por Madonna e Antonio Banderas nos papéis principais.
The Wall é delírio em estado puro, e merece uma postagem só dele. Fama é um filme delicioso sobre música, dança, teatro: a academia nova-iorquina desprovida de convenções rígidas, mas com regras básicas. As cenas de rua são declarações de amor à liberdade e à arte. E The Commitments? Revi, há poucos dias, num canal pago, esse ótimo exemplo de que é possível fazer um filme sobre marginalidade musical sem recorrer a melancólicos estereótipos que terminam por transformar em coitadinhos os músicos independentes. Pois nessa película os músicos iniciantes - ainda amadores, portanto - sabem que o sucesso vem embrulhado com arame farpado. A vida de músico é dura.
O filme homenageia os irlandeses de periferia: operários e suas famílias, gente que não crê na música como ganha-pão. Exceção feita, claro, para os jovens advindos dessas famílias, que se consideram tão marginais quanto é marginal a música que produzem: o soul. Lá pelas tantas, um personagem diz que “os irlandeses são os negros da Europa”. O grupo (impagável) de músicos tem fascínio pela música de James Brown - e leve-se em conta aí também a performance de palco, com toda a elasticidade do grande soulman - e por Wilson Pickett que, aparentemente, faz ponta no filme.

É um filme imperdível mais pelas cenas dos ensaios da banda do que pela execução das músicas em seu produto final. Das inevitáveis batalhas ególatras ao trompetista veterano que papa as garotas da trupe. A trilha é dividida em dois discos esplêndidos: The Commitments vols.1 e 2, e só. Destaques para a poderosa voz de Andrew Strong em Mustang Sally, Take me to the River, Mr. Pitiful, In the Midnight Hour e Try a Little Terderness. E menção honrosa para os sopros de Johnny Murphy, no trompete, e Félim Gormley, no sax. E, claro, as backing vocals, que são um caso à parte. Se você não viu, veja. E, para não perder a sinestesia, sinta Mustang Sally, clicando aqui.