O Pensador Selvagem  |  Blogs  |  Busca

CLÍNICA DE RECUPERAÇÃO PARA POLÍTICOS

Publicado em 15/05/2008, às 03:59, por Marconi Leal


Cesare Maccari Cicero Denuncia Catilina

- Bom dia! E então, como é que estamos nos sentindo, deputado?

- Vazio. Sinto um vazio muito grande.

- Angústia?

- Não, física. Vazio nas mãos. Faz uma semana hoje que não toco ao menos numa cédula de real!

- Não seja por isso. Se for só esse o problema… Aqui, tome, eu tenho uma de dez.

- Que bom! E a senhora pode deixar aí em cima e fingir que não vê, enquanto eu subtraio ela?

- Pelo visto o senhor não tem se esforçado no tratamento, deputado. Tem lido a Ética a Nicômaco que lhe dei?

- Juro que tentei. Mas, definitivamente, não gosto de ficção, doutora. A senhora não teria alguma coisa do Mario Puzo?

- Não. Tem tomado os remédios contra compulsão?

- Compulsivamente.

- Não é o que a enfermeira me contou. Diz que o senhor tem guardado os remédios e tentado revender aos doentes da ala dos autistas, com preços superfaturados e comissão de dez por cento.

- Nego e repilo. Eu e os autistas tivemos apenas contatos de ordem pessoal. São gente boa. Gosto de conversar com eles.

- Deputado, deputado, pense no bem que o senhor vai sentir após acabar o tratamento. Passando o período de abstinência, tudo fica mais fácil. Lembre do prefeito, seu ex-colega de quarto, por exemplo…

- Ha! Pois ontem mesmo meus assessores tavam me contando que ele se transformou num pária. Tem feito licitações, não desvia dinheiro do orçamento, recusou aumento de salário e até - pasme! -respeita o percentual de investimento na saúde! Diz que dá pena ver o coitado.

- Ele apenas foi reintegrado como cidadão útil à sociedade, deputado.

- Só se foi à Sociedade Brasileira de Psiquiatria! Porque ninguém da sociedade, que eu conheça, quer mais papo com ele: nem banqueiro, nem empreiteiro, nem empresário, nem juiz, nem lobista. Segundo parece, o pobre vai acabar a vida como funcionário assalariado e honesto. Tem até pagado imposto! Argh.

- É… O seu caso é mais grave do que eu pensava. Ao que parece, a medicação não tem surtido o efeito esperado, o senhor desenvolveu uma espécie de imunidade… É de lamentar.

- (orgulhoso) Dilamentar, não. Parlamentar.

- Vou aumentar a dosagem do seu remédio. O senhor vai passar a tomar duas caixas do Ladronol, 200mg diários de Corruptil e dois comprimidos noturnos de Propinex.

- É pouco.

- O senhor sente necessidade de mais?

- Sinto. Que tal se a senhora receitasse, digamos, dez caixas? Vendo as outras oito e lhe dou o lucro de três.

- Deputado, deputado… Isso é desonestidade!

- Tudo bem. De quatro, então. Meio a meio.

- Chega. Vou mandar recolher o senhor. O senhor só tem jeito com CPI.

- Oba! Enfim um lugar onde a gente pode mentir à vontade sem maiores conseqüências.

- Centro de Profilaxia Integrado. O seu caso é pra tratamento intensivo!

- Calma, doutora. Pra tudo há um jeitinho. Será que a gente não pode fazer um acordo? A senhora já pensou num cargo no Ministério da Saúde? Pode ser secretária da minha filha!

- O que nós já conversamos sobre nepotismo?

- Mas eu sou um homem família!

- Deputado, deputado…

ABIOGÊNESE CASEIRA

Publicado em 13/05/2008, às 04:02, por Marconi Leal


Abiogenese

Entre outras revelações igualmente críveis, o Livro dos Espíritos afirma que a lua tem forma pendular e que a geração espontânea não apenas existe como será devidamente comprovada no futuro.

Ora, quanto ao formato do satélite terrestre, nada posso dizer, pois, como se sabe, moro em São Paulo, onde a lua pode até existir, mas o céu não, e não possuo um shuttle para verificar a veracidade da afirmação in loco.

Porém, homem moderno que ajuda nos afazeres domésticos sem que, para tanto, minha cônjuge precise dar mais que duas chicotadas em meu lombo a título de incentivo, não posso deixar de concordar com a segunda afirmativa, sobretudo quando estou diante de uma pilha de pratos por lavar.

Não entendo como, tendo a ciência em nosso tempo evoluído a ponto de pesquisar fenômenos extraordinários como o da vida em ambientes sem oxigênio e o de raciocínio no cérebro do Zeca Camargo, não haja despertado para a perquirição de processo tão inexplicável quanto o da multiplicação de louças sobre a pia.

Processo, por outro lado, há milênios de conhecimento de teólogos e estudiosos da religião, uma vez que, se Jesus multiplicou peixes e pães, é razoável pensar que o tenha feito também com relação aos recipientes que os continham.

Com respeito a essa hipótese há, inclusive, menção no Evangelho Apócrifo de São Limpol ao fato de, durante os 40 dias que o Senhor passou no deserto, Maria e Madalena terem ficado em Galiléia, lavando os pratos do Seu último milagre. Ocasião em que a segunda, estafada após se livrar de uma pilha particularmente volumosa, teria dito à primeira:

- Em verdade vos digo: antes Ele não tivesse me livrado do apedrejamento!

Seja como for, não possuo epígonos ou seguidores e como tenho, ainda por cima, ouvidos extremamente sensíveis a berros femininos, sou obrigado a me atracar com as louças diariamente, o que vem me permitindo observar de perto a abiogênese.

Ultimamente, por exemplo, venho me atendo a acompanhar um fenômeno típico de livros de Stephen King (e não me refiro à transformação de cocô em dinheiro): assim que termino de lavar o último prato, imediatamente, em algum outro ponto da casa, surge uma peça de talher suja. Aguerrido cientista, tomo o objeto nas mãos e me ponho a lavá-lo, ouvindo as palavras de apoio de minha amada:

- Slapt! Slapt!

Debalde (não, leitor ignorante, não lavo a louça dentro de um receptáculo de alumínio com alça), pois, ato contínuo, sem que ao menos ouça a introdução de Assim Falava Zaratustra de Strauss, surge um outro utensílio emporcalhado debaixo do nariz. O que é tanto mais incrível quando se sabe que meu nariz não é pequeno.

Tenho, assim, atravessado meus dias azafamado e entregue a tarefas tão produtivas quanto as de uma danaide. Portanto, não me culpem se o ritmo de crônicas aqui não anda dos mais constantes, ó gente sem tino para grandes descobertas! Estou empenhado em garantir o futuro do homem e a evolução da ciência.

PELA PENA DE MORTE PARA GARRAFAS DE CERVEJA

Publicado em 09/05/2008, às 02:19, por Marconi Leal


Pelaprisao

Sempre atentos aos ingentes problemas nacionais e, sobretudo, detectando maneiras precisas de combatê-los, o governo e o Congresso encontraram um jeito infalível de acabar com os acidentes nas estradas motivados por embriaguez, proibindo estabelecimentos comerciais de venderem bebidas alcoólicas às margens das BRs.

Enquanto países atrasados e lassos quanto a normas públicas utilizam do expediente bizantino de fiscalizar as rodovias e enviar para a cadeia os infratores do código, nossos legisladores e governantes, utilizando-se de um approach derridiano das leis, vão ao cerne da questão e decretam o imediato aprisionamento dos verdadeiros autores dos crimes que vitimam milhares de brasileiros anualmente: as garrafas de cerveja.

De fato, não consigo imaginar forma mais prudente de evitar acidentes de trânsito e de punir os culpados por eles. E já penso inclusive que a ação deveria se expandir a outros flagelos nacionais, como, por exemplo, os desastres aéreos e as brigas de torcida. Ora, já é tempo de fazer-se imprimir nova lei decretando o fim da utilização do trem de pouso em aeroportos e de bolas em campos de futebol, evitando assim que torcedores se matem nos estádios em função do jogo e aviões decolem, vindo eventualmente a explodir.

Isso, sem falar no bem que poderia advir do eventual impedimento da reprodução humana no país, o que garantiria de uma vez por todas a extinção de crimes hediondos como o parricídio e o infanticídio. Ou, mesmo, do fechamento de todas as empresas, nacionais e estrangeiras, impedindo-se com tal medida que milhares de pessoas saiam de casa diariamente para procurar emprego, aumentando o índice de desempregados.

Verdade seja dita, diagnóstico de causa e efeito mais beliz não se via no Ocidente desde a morte do façanhoso professor Pangloss. Sendo de estranhar que até hoje ninguém houvesse posto em prática tal idéia, cujos autores deveriam, sem dúvida, ser agraciados com o prêmio Faraó para Contenção de Calamidades.

No entanto, seres inconseqüentes que nada entendem de raciocínios cartesianos e física newtoniana, para não dizer que desconhecem inteiramente os caracteres cuneiformes de Hamurabi, certamente movidos por interesses escusos e elitistas, manifestam-se contrários à nova determinação, alegando que os moradores e comerciantes das pequenas localidades do interior serão prejudicados pela medida e que esta nada fará pela contenção dos acidentes rodoviários. Eis aí como o capitalismo pode deturpar as verdades mais simples e - por que não dizer? - apriorísticas.

Bravos e indiferentes à grita da doidarraz minoria, nossos homens públicos seguem em frente com o projeto e já prevêem, num futuro aprimoramento da lei, a construção de engradados federais de segurança máxima para segregar as garrafas de cerveja recalcitrantes do seio da sociedade ordeira e trabalhadora das garrafas PET de refrigerante, e uma mudança constitucional, estabelecendo a pena de morte para cascos reincidentes.

Fica aqui, portanto, meu aplauso a nossos dirigentes e parlamentares. E a seus detratores, meu apelo: que reconheçam o esforço produtivo e parem de fingir, de uma vez por todas, que um mais um é igual a dois. Insensatos!

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (9)

Publicado em 07/05/2008, às 02:13, por Marconi Leal


Decamps Lesingepeintre

Militância política é a arte de vestir a camisa do partido e seguir destemidamente para a luta, deixando o cérebro em casa.

*

O segredo para o casamento dar certo, em pleno século XXI, é a contratação de uma boa diarista.

*

A questão fundamental não é, propriamente, saber se existe vida após a morte, mas sim se, nela, o sujeito mantém o senso crítico.

*

Se é verdade que quando a gente tem um desejo o Universo conspira a nosso favor, devo dizer que ele é extremamente incompetente.

*

Certa vez, tentei me livrar da artificialidade da vida em sociedade e, como Thoreau, me retirar para a solidão da floresta para meditar sobre a venalidade da civilização e a ascensão, em nosso tempo, do material sobre o espiritual.

Não deu certo. Esqueci o repelente.

*

Acho, como muitos, que só o amor é capaz de mudar o mundo. Mas a R$ 200 a trepada, fica difícil.

*

Eu tento me comunicar com Ele, sim. Porém, que posso fazer se Deus está sempre off-line?

*

Há alguns anos vi uma epifania. O céu se coloriu de púrpura, o sol se expandiu e, de entre as nuvens, o anjo do Senhor surgiu, dourado, esplêndido, em toda a sua glória. Descendendo sobre mim, que me ajoelhava - extático, vertendo lágrimas de puro arrebatamento espiritual -, exortou-me, em sua voz tonitruante: “Com essa idade e ainda acreditando em anjo, rapaz?”

*

É com já dizia Dostoievski: se Deus não existe, a axé music está justificada.

AQUELA MÚSICA

Publicado em 05/05/2008, às 02:25, por Marconi Leal


Themusiclesson Peterlely

- Como é mesmo aquela música?

- Que susto! Como é que você me acorda com um berro desse no meio da noite, Arnaldo? Quer me matar? Meu Deus!

- (acendendo o abajur) Não consigo lembrar daquela música!

- Que música, Arnaldo? Jesus! Olha aí, meu coração tá acelerado!

- Aquela música, aquela que faz assim: tum, tim, tum.

- Jóia, agora que a gente eliminou todas as músicas que não fazem tum, tim, tum, restam apenas vinte e sete mil quatrocentas e doze. Me deixa dormir, Arnaldo!

- Mulher, aquela música sobre a menina e a alma dos antepassados.

- Não curto música indígena.

- Música indígena nada. Faz assim tum, tim, tum. A menina tá assustada, no escuro…

- Porque o marido dela acordou ela com um berro no meio da noite, perguntando sobre uma música?

- Será que dá pra você me ajudar? Nunca mais vou conseguir dormir se não lembrar dessa música!

- Arnaldo, com tum, tim, tum, se pode compor desde o Hino Nacional até uma obra de Unsuk Chin. Parabéns pra você leva tum-tim-tum, Arnaldo. Como é que você quer que eu adivinhe a música? Ela tem gênero, pelo menos?

- Feminino.

- Gênero musical! É funk, axé, pagode ou é música propriamente dita?

- Já disse: tum, tim, tum. Música eletrônica. Bossa nova eletrônica, pra ser mais exato.

- (cantando) “Dia de luz, festa de sol, o barquinho a deslizar, tum, tim, tum, no azul do mar…”

- Muito engraçada, você. É uma música recente. E é sobre essa infeliz, essa desgraçada dessa menina, que tá sozinha com o fantasma, parece, e…

- Fantasma? O herói?

- Não, um fantasma qualquer. Então…

- O Gasparzinho?

- Dá pra você ficar um minuto em silêncio? Juro que não dói.

- Eu pretendia ficar oito horas em silêncio, antes de você me acordar.

- Tudo bem, pode voltar a dormir. Eu fico aqui, com minha insônia, minha amnésia e um princípio de concussão…

- Ô Bunjunjunguinho! Vem, eu vou te ajudar. Afinal, o mecanismo de expansão do universo depende dessa descoberta tão importante, sem falar nas inúmeras supernovas que deixarão de existir caso ela não se concretize. Bom, você tem essa abilolada dessa menina, o fantasma, o escuro…

- Lembrei! (cantando) “Eu tenho medo do escuro, tenho medo do inseguro, dos fantasmas da minha avó”, tum, tim, tum.

- “Voz”.

- “Dos fantasmas das minhas vós”, tum, tim…

- Voz, emissão sonora, Arnaldo. “Fantasmas da minha voz”.

- Ahn… Faz sentido. Eu sempre me perguntei por que a avó dela tinha mais de uma alma. Pensei que a compositora fosse taoísta…

- Satisfeito por ter lembrado dessa genial canção? Agora, por favor, desliga o abajur e vamo dormir.

- (cantando) “Dos fantasmas da minha voz…” (Desliga o abajur e se cala, satisfeito. Vinte minutos depois, torna a ligá-lo.)

- Que foi agora, Arnaldo?

- Não consigo tirar a porcaria da música da cabeça!

CULPA

Publicado em 30/04/2008, às 02:00, por Marconi Leal


Moises Michelangelo

- Não fica assim, Almeida. Olha pra mim. Em que é que cê tá pensando?

- No Moisés.

- Ih, ih, ih, que nome esquisito pra se colocar no pinto!

- Não, Moisés, o patriarca, o que abriu o Mar Vermelho. Tô pensando nele.

- Já vi o sujeito virar religioso após calamidades, Almeida, mas depois de uma brochada é a primeira vez. Logo você, um ateu!

- Ateu, não. Já disse que, em se tratando de Deus, sou abstêmio.

- Tá, então que história é essa de Moisés? Ele é o santo protetor dos brochas, agora? Faz sentido, já que vivia levantando o cajado…

- Como você é ignorante. Moisés inventou a culpa cristã, pro seu governo. Se não fosse ele, nada disso teria acontecido.

- Olha, Almeida, eu já ouvi muita desculpa de homem quando brocha, agora culpar o pobre Moisés, que além de tudo traçava uma pagã como nenhum outro, era o que faltava,

- É a mais pura verdade. Se a gente tivesse no tempo dos romanos, eu teria feito você subir por essas paredes.

- Tomando como base o seu desempenho dessa noite, se estivéssemos nos tempos romanos a única maneira de você me fazer subir pelas paredes seria me crucificando.

- Muito engraçado da sua parte. Mas o fato é que eu me sinto culpado.

- Não deveria. Com exceção do Ziraldo, isso acontece com todo o mundo.

- Não, me sinto culpado por tá aqui com você, entende? Traindo minha mulher. E isso é culpa de Moisés. Ou, se quiser, é culpa de Deus, que esperou quarenta anos pra matar ele, diante de Jericó, quando podia ter abatido o velho antes de ele receber as tábuas da Lei, com uma intoxicação de maná, por exemplo.

- Que blasfêmia! Abraão pode ter inventado a culpa cristã, mas também foi responsável por Cristo, que ressuscitou dos mortos. Se fosse você, me apegava a Ele, pois é o tipo do milagre que seu pinto tá precisando no momento…

- Ressuscitou dos mortos, sim, mas no terceiro dia e eu só tô com dinheiro pra pagar o pernoite, de maneira que não vai ser de grande ajuda. E a questão não é essa, não é absolutamente essa. O problema é que, sem a noção de pecado, a gente teria transado numa boa.

- Duvido muito. Sem a noção de pecado, o máximo que a gente faria seria trocar uns apertos de mão e jogar baralho…

- Você entendeu perfeitamente o que eu quis dizer. O sexo na Antiguidade Clássica era livre, não era carregado.

- Espero, sinceramente, que você esteja querendo dizer com isso que à época dos gregos ainda não havia cuecas. Porque se por “sexo” você está se referindo à relação sexual, achando que ela era livre entre senhores e escravos, aconselho você a parar de ler Casa Grande & Senzala, imediatamente.

- Livre entre cidadãos livres, é claro. Não complica, Alcinda. Você sabe do que eu tô falando. O adultério não tinha toda essa carga moral.

- Ou seja, em outras palavras, você tá culpando dois mil anos de civilização por sua impotência momentânea. Não deixa de ser uma forma revolucionária de determinismo histórico. Pior, pelo que depreendo, você faria de bom grado a viagem Rio-São Paulo no lombo de um burro ou estaria se comunicando através de sinais de fumaça até hoje, em troca de uma ejaculação.

- Não é nada disso, apenas… Ih, olha aí, ele tá se animando!

- Então vem cá, vem, vamo aproveitar pra… Ué?

- Alarme falso.

- Se encolheu de novo.

- Maldito Moisés!

DE COMO PASSEI POR UMA EXPERIÊNCIA METAFÍSICA

Publicado em 28/04/2008, às 01:49, por Marconi Leal


Metafisica

Marido dedicado que ama a mulher e, sobretudo, a pele que reveste o próprio corpo, tirei o dia de ontem para montar uma estante de ferro, a qual, geniosa e leitora de Thoreau, se recusava terminantemente a ser montada, propugnando pela desobediência à engenharia civil.

Dispenso entrar em detalhes sobre a luta travada contra o pérfido móvel, posto já ser mais que conhecida minha habilidade para trabalhos manuais, digna do Stephen Hawking. Direi apenas que se Hércules executou apenas 12 trabalhos, isso se deu porque o décimo terceiro era a montagem de estantes de ferro.

Após cinco horas em trabalhos esforçado, quando finalmente, tendo passado além da Trapobana, apertei o último parafuso e recolhi a língua do chão, percebi contente que ainda me restavam cerca de vinte por cento do corpo. Já a minha alma, não encontrei em parte alguma.

Arrastei-me até a cama com o andar elegante de Hefesto e a dificuldade mesma com que um requerimento passa de setor em setor, do guichê à presidência de uma repartição pública. Uma vez no quarto, preparava-me para atirar minha insuficiência cardíaca na cama, quando vi algo tremendo debaixo do lençol. Era a minha alma.

- Min’alma, minh’alma, sai-te daí - falei, em decassílabos, como convém em diálogos com entidades imateriais.

- Socorro! Um corpo! - gritou ela, assustadiça, e cobriu-se com o lençol.

- Sou eu, minh’alma. E estou cansado. Dá pra sair?

- Nem viva.

- Quer que eu use de ignorância?

- Você é um homem sem espírito.

- Pelo menos tenho alguma substância.

- Mas não tem essência.

- Sua categoria ontológica!

- Seu aminoácido!

- É guerra?

Insultado, manquei até a biblioteca e saquei o primeiro existencialista com que topei, passando em seguida a ler em voz alta uma série de argumentos contra a efetividade do espírito e da vida após a morte. A alma tentou tapar os ouvidos, mas eles estavam comigo.

- Tudo bem, eu te dou um canto - desistiu, me cedendo espaço. - Mas, da próxima vez, vou exigir que leia Tomás de Aquino.

E foi assim que dormimos, lado a lado, eu e minh’alma, numa composição metafísica capaz de espicaçar a curiosidade de mais de um teólogo. Mormente se eu acrescentasse que minh’alma roncava, coisa que não faço por não ser polido falar mal dos ausentes.

Algo, no entanto, afirmo, tendo em vista contribuir para futuros estudos espíritas: ela não tinha dinheiro consigo. O que, creio, prova definitivamente aquilo que meus detratores não se cansam de repetir: sou um pobre de espírito.

NUNCA APROXIMAR DE ÍMÃS

Publicado em 24/04/2008, às 02:57, por Marconi Leal


Bilhete

Demorei tanto tempo para aparecer por aqui porque estava, como sói acontecer com intelectos profundos como o meu, envolvido com uma questão ontológica do mais alto significado, cuja solução poderá alterar o destino humano ou, quando menos, o de advogados e outros animais inferiores.

Ao me deparar com tal problema, fiquei intrigado como Champollion diante da Pedra da Roseta (não, ignorantes, a Pedra da Roseta não é uma composição de axé music) e, sábio amante da nossa espécie, esforcei-me por fazer algo a que, até então, não estava acostumado: raciocinar.

Eis que, faz agora duas semanas, ao comprar um bilhete do metrô deparei-me com uma inscrição de alcance místico e valor obtuso. “Nunca aproximar de ímãs”, estava escrito na parte superior do retângulo de papel. E, espírito sensível, imediatamente pressenti que era aquela uma mensagem do Cosmos para mim.

Minha segunda reação foi voltar ao guichê para comprar novo tíquete. A primeira, claro, foi recolher o queixo do chão. E qual não foi minha surpresa ao depreender que todos os bilhetes traziam a mesma frase misteriosa? “Nunca”, reparem bem, “nunca aproximar de ímãs”.

Não se tratava, portanto, de uma ordem para “não aproximar de ímãs” ou “aproximar de ímãs somente quando necessário”, ou ainda “se aproximar de ímãs você vai ver só, seu feladaputa”. Não. “Nunca”. Nunca, em toda a minha existência, eu poderia aproximar aquele pedaço de papel de um ímã. Aí está como se iniciavam os tormentos de minha mente, dignos de um Karamásov com aftas.

Voltei para casa trêmulo, decidido a desvendar a charada endereçada a mim pelo Universo e escondendo o bilhete no mais fundo do bolso, de maneira a evitar que algum ímã distraído cruzasse a sua frente, pondo em risco a vida na Terra e planetas periféricos.

Dava graças a Deus por ele ter vindo parar na minha mão e não na de algum viciado, entregue às drogas, ao álcool, ao fumo e a encostar pedaços de papel perto de pedras magnéticas. Ficava imaginando a possibilidade de o objeto cair em posse de algum malfeitor, o qual certamente ligaria para Washington, fazendo ameaças:

- Um trilhão de dólares na minha mão ou encosto o tíquete do metrô de São Paulo em um ímã e bye-bye, honey!

No entanto, vocês hão de convir comigo que a responsabilidade era atroz. Tanto poder não deveria ser entregue a um só mortal, muito menos um que ingere 150mg de venlafaxina a cada manhã.

Há quinze dias o tíquete de metrô está comigo, bem guardado dentro de uma gaveta do armário. Mas a dúvida persiste e me apavora: tenho medo de uma noite, acossado pela curiosidade como o Senhor no deserto, não resistir à tentação, pegar o bilhete e encostá-lo à maldita pedra.

Por isso, aviso: caso algum dia desses vocês, ao se olharem no espelho, repararem que têm um nariz sobressalente, ou, na rua, que o seu cachorro está com um rabo a mais, ou mesmo que a Glória Maria está dizendo coisas sensatas e coerentes na televisão, saibam que fui eu que, derrotado, aproximei o bilhete de um ímã, sem mais ligar para as trágicas conseqüências do ato.

SODOMIA, AQUI ME TENS DE REGRESSO

Publicado em 23/04/2008, às 10:05, por Marconi Leal


Aqui estou. Não disse que voltava numa quarta-feira, incréus? Donde se conclui que Deus definitivamente não existe. Amanhã tem crônica nova. Juro. E, dessa vez, quero que o diabo exista se eu estiver mentindo!

NOTA BENE

Publicado em 14/04/2008, às 02:39, por Marconi Leal


Eu sei, eu sei, semana passada não apareci por aqui, senhores. Acontece que estou com um ligeiro problema técnico. Não, minha mulher não está tendo um caso com um eletricista, tampouco com ninguém que comanda um time de futebol.

Estarei aqui amanhã, no máximo na quarta-feira. Juro. E quero que Deus exista se eu estiver mentindo!

← Anterior 01 02 03 04 05 ... 24 Próxima →