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COMPREI UMA BICICLETA ERGOMÉTRICA (CAPÍTULO 4)

Publicado em 30/04/2007, às 06:00, por Marconi Leal


Fitness Pro

Possuindo uma paciência comparável à de um lama depois de dois baseados e uma serenidade de irritar o senador Suplicy, logo percebi que meu embate com a bicicleta ergométrica se daria na base da inteligência. Ou seja, a máquina tinha tudo para vencer por W.O.

No entanto, sou brasileiro e não desisto nunca antes do assaltante me apontar a arma. Parti, portanto, para a empreitada com a determinação de um parlamentar fugindo do trabalho.

E digo a vocês, companheiros, que se Roma caiu um dia, isso se deve exclusivamente ao fato de que o Império era cercado por muralhas e não, como seria mais razoável, por fileiras de bicicletas ergométricas desmontadas.

Outrossim, não tenho dúvidas de que o exército espartano teria sofrido uma vergonhosa derrota - e hoje, em vez de silogismo, gramática, retórica e outras tolices, estaríamos aprendendo coisas mais úteis a nosso atual estágio civilizatório, como decepar cabeças e esfolar adversários -, caso os medos, em vez de exímios cavaleiros, fossem excelentes montadores de bicicletas.

Porque a verdade, senhores, é que é mais fácil produzir uma fusão atômica ou mesmo fazer algo mais complexo, como convencer um brasileiro a respeitar uma fila, do que conseguir colocar no lugar as peças de uma dessas solertes traquitanas.

Seja como for, comecei o embate de maneira amistosa, condescendente, tratando minha êmula como se fosse um ser inanimado e sem consciência. No entanto, perdi inteiramente a classe após uma hora de tentativas frustradas, ao perceber que a fedífraga máquina queria me transformar no presidente da República.

Eis que em minhas manobras, acabei por perder parte de um dedo da mão enganchado num pedal e, além disso, tive a dicção prejudicada por um pequeno corte na língua, fruto de uma tentativa madura de revidar o golpe de um parafuso com uma mordida.

Desesperado, pronunciei em voz alta várias frases com os verbos “haver” e “fazer” pra ver se acertava a concordância. E, antes que começasse a pensar que nunca tinha enfrentado situação mais difícil “neste país”, passei a uma abordagem mais racional do problema: chutando e esmurrando o material desmontado à minha frente.

- Que é isso, meu Deus! Você enlouqueceu?
- Não atrapalha, mulher, que eu tô ganhando!
- Ganhando o quê, Marconi? Hematomas?
- Tu não entende nada de psicologia, mulher.
- Isso é um objeto, Marconi. Não pensa!
- E daí? O Bush também não. Mas olha como tá o Iraque…

(TERMINA QUARTA-FEIRA)

COMPREI UMA BICICLETA ERGOMÉTRICA (CAPÍTULO 3)

Publicado em 24/04/2007, às 05:54, por Marconi Leal


Bike

Minha penúltima experiência com montagem tinha sido uma tentativa, ainda na infância, de subir num touro mecânico. Depois disso, só houve mais uma: a do médico que me atendeu no hospital, horas depois, e tentou repor meu fêmur no lugar.

Tenho tal coordenação motora que, para mim, montar um Lego sempre se provou uma atividade de nível de dificuldade semelhante ao de convencer uma alemã a raspar o sovaco.

E o Cubo Mágico, segundo meu conceito, é o epítome do que o ser humano conseguiu produzir de mais difícil em termos de exercício mental. Comparável apenas, nesse sentido, à tentativa de entender os motivos que levam alguém a assistir ao Domingão do Faustão.

Aliás, meu conhecimento de utensílios domésticos é tão profundo que, até recentemente, acreditava ser a chave de boca apenas um golpe de autodefesa utilizado pela comunidade gay de São Francisco.

Chave inglesa, por sua vez, pensava tratar-se de um artefato para fechar portas que se abriam para a direita, em vez de para a esquerda. E chave de fenda, evidentemente, um poético eufemismo para pênis.

Não me perguntem, portanto, o que imaginava ser uma arruela.

Mas, como já disse certa feita, jamais precisei desse tipo de conhecimento alienígena e ultra-especializado, pois aqui em casa esse gênero mais leve de serviço, como armar camas, arrastar guarda-roupas e carregar as compras do supermercado é minha mulher quem faz, ficando eu com coisas mais complexas e viris, como trocar a fronha dos travesseiros e limpar o vaso sanitário.

Porém, naquele dia, minha consorte resolveu não se dedicar a trabalho tão especificamente feminino como o da montagem da bicicleta ergométrica. E ainda fez pouco caso de mim:

- Isso daí é tão simples quanto aqueles brinquedinhos de encaixar, quadrado no quadrado, retângulo no retângulo, círculo no círculo etc.
- Falar é fácil. Tu acha que eu repeti o jardim duas vezes por quê?
- Qualquer criança monta isso, Marconi.
- Mulher, eu fui uma criança traumatizada.
- Também, com a mãe que tu tem…

E foi assim, após esse instrutivo diálogo, que eu apanhei os petrechos necessários e me pus edipianamente a tentar decifrar os mecanismos daquela máquina infernal, mais desesperançado que a merencória cachorra Baleia.

(CONTINUA AMANHÃ)

COMPREI UMA BICICLETA ERGOMÉTRICA (CAPÍTULO 2)

Publicado em 23/04/2007, às 03:56, por Marconi Leal


Elephant Bike

Ao comprar a bicicleta, pensava que estaria me livrando do principal problema que vinha afetando a minha saúde nas últimas semanas: as reiteradas e infindáveis reclamações da minha mulher.

E, sendo mais inocente que a religiosa de Diderot, imaginava que a dificuldade, no que tangia à bicicleta ergométrica, se resumiria a enfrentar as pedaladas diárias. Eis que tenho tanta aptidão para o esforço físico quanto um concretista para escrever poemas.

Em todo o caso, achava que me desincumbiria da tarefa com relativa facilidade. Afinal, sou brasileiro há 32 anos. E, como todos sabem, a bicicleta ergométrica é igual ao Estado nacional: muito cara, não sai do canto e serve apenas para cansar o usuário. Já estava, portanto, habituado.

No entanto, logo percebi o meu engano e me dei conta de que, se as pessoas chegam a perder calorias no trato com este infernal aparelho - que, a exemplo de um discurso do FHC, não leva a lugar algum -, isso se deve única e exclusivamente ao fato de que ele vem desmontado.

- Ué? E cadê os montadores? – falei, olhando para a caixa fechada que os entregadores, com um sorriso sarcástico e após fitar minha barriga, deixaram na sala.
- Pelo preço que a gente pagou, tu ainda queria que eles montassem? – retrucou minha mulher, algo impaciente.
- Pelo preço que a gente pagou, o mínimo que eu esperava era que eles montassem e pedalassem as primeiras trinta horas. Então, cadê o botão?
- Que botão?
- O que a gente aperta e a bicicleta se automonta.

Sem dizer absolutamente nada, ela pôs uma cara tão simpática quanto a de um samurai com prisão de ventre e me apontou a caixa de ferramentas. Demorei a entender o que estava insinuando, por três razões:

Primeiro, porque, como comprova a ciência, o álcool destrói nossa capacidade de raciocínio. Segundo, porque o manuseio de ferramentas é algo tão simples para mim como a leitura de “Ulysses” em tradução alemã. E terceiro, porque… Bom, terceiro, não me lembro, afinal o álcool também acaba com a memória e a concentração.

(CONTINUA AMANHÃ)

COMPREI UMA BICICLETA ERGOMÉTRICA

Publicado em 18/04/2007, às 06:29, por Marconi Leal


Bicicleta


Todos estão josé-serra de saber que dinheiro aqui em casa é coisa mais rara do que crítica a administração tucana nos jornais. No que dependesse da gente, a onça-pintada da cédula de R$ 50 já estaria extinta há muito ou, quando menos, poderia ser substituída por algum bicho mais raro, como a ararinha-azul ou um advogado honesto.

A carência de arame tem nos deixado em tal estado, por esses dias, que Bergman nos arranca gargalhadas infindáveis. Comparada à nossa, a liquidez do semi-árido nordestino sarapantaria Noé.

Em suma, a situação anda tão segurança-pública que meus credores, ultimamente, têm colocado mais fé na canonização do diabo - que, como todos sabem, pode até ser uma péssima pessoa, mas segue estritamente as leis de mercado - do que em receber algum numerário da minha parte.

No entanto, cerca de um mês atrás, na falta de alguém mais confiável, como um curandeiro ou uma cartomante, consultei um médico e este me informou, algo assustado, que do jeito que a coisa ia, se colesterol fosse esporte, eu pegaria índice para o Pan.

- Você é muito sedentário - arrematou.

Não tenho o hábito de freqüentar consultórios médicos. Quando quero ser enganado, prefiro votar em deputado federal. Achei, portanto, que o doutor fazia um elogio. Afinal, convenhamos, estava orgulhoso da minha posição: o ser humano levou milênios para sair do nomadismo.

Só me dei conta de que se tratava de uma reprimenda quando ele me mostrou os exames, onde se via que as taxas menos altas ganhavam todas da Selic e, no entanto, o risco-Marconi batia recordes históricos de alta.

O que, afinal de contas e do ponto de vista filosófico, teve o seu lado bom, pois me levou a refletir que, ao menos em parte, Comte estava equivocado. Ficou provado que a sociedade não reproduz um organismo humano.

- Viu? Eu disse que cê precisava andar – falou minha mulher, tão-logo deixamos a sala do médico, com uma expressão tão cândida quanto a de Caribde.
- E tu acha que eu vou da sala pra cozinha como? Voando?
- Andar, Marconi, durante meia hora, num passo firme. No mesmo trote.
- Gostei.
- Da idéia? Não acredito!
- Não, dessa maneira mais gentil de tu me chamar de cavalo.
- Não sei o que custa andar meia hora. Cê por acaso já andou pra saber?
- Sei perfeitamente quanto custa. De ônibus, R$ 2,30 e de metrô…
- Chega. Agora é sério. É fazer exercício físico ou morrer. Qual você prefere?

E foi assim, após as amorosas palavras da minha cônjuge e dos pedidos gentis de Cleodonte, apelido carinhoso que dei ao rolo de massa daqui de casa, que resolvi usar nossas últimas economias e comprar uma bicicleta ergométrica. Mas só porque, dividida em várias prestações, ela sairia muito mais barata que uma injeção letal.

(Eu sei, eu sei, eu disse que continuava a crônica hoje, companheiros. Mas o fato é que, ao contrário do que minha conta bancária pode dar a entender, eu trabalho e, ultimamente, o tenho feito como um mouro. Pior, como um soldado americano combatendo os mouros. Com a diferença de que, por sorte, a única coisa minha que tem estourado até agora é o xeque, digo, o cheque especial. Em sendo assim, postarei a continuação do texto na segunda-feira. Prometo. Podem confiar. Cleodonte garante.)

FLÓFI

Publicado em 17/04/2007, às 06:04, por Marconi Leal


Flofi

Não sei qual a relação de vocês com animais de estimação, amáveis leitores. No que diz respeito a mim, medroso, o mais próximo que me permito chegar de seres irracionais é ler as colunas que eles escrevem na Folha de São Paulo.

Não é que não goste de cachorros e gatos. Até como churrasquinho aqui na esquina de casa, às vezes. E, no que tange a animais um pouco maiores, convivo em plena harmonia com o meu cunhado.

Mas, talvez por ter sido criado por minha mãe, para quem o chiuaua é uma violenta criatura da floresta, não tenho assim muita intimidade com mamíferos que não sejam de nossa espécie — exceção feita aos advogados.

Isso, evidentemente, se as ditas criaturas não vierem devidamente assadas e em postas numa bandeja e, de preferência, acompanhadas com batatas. Não passando de intrigas de caluniosos os relatos de que mantive relações bíblicas com cabras e galinhas na adolescência. Juro, a minha lordose não provém disso.

A verdade é que nunca entendi exatamente o objetivo de se manter em casa um ser que anda de um lado a outro, balançando o rabo, soltando guinchos e fazendo cocô dentro de sapatos. Ora, quando quero ver espetáculo parecido, assisto à TV Senado.

No entanto, minha mulher ama os animais — prova maior disso é que estamos casados já há quase um ano. E, como nossa vizinha fosse viajar, ofereceu-se toda serelepe para tomar conta de seu gato e o trouxe aqui para casa. Mas, minha consorte precisou sair há pouco e, nesse caso, adivinhem quem ficou tomando conta do bichano?

Assim que me vi a sós com Flófi (sim, é este o nome do miser… digo, do bichinho), fiz o que todo o mundo faz ao entrar em contato com felinos: calcei luvas, tapei o nariz e apertei sua pata, me mostrando amigável. No entanto, a não ser que o modo usual dos gatos cumprimentarem os humanos seja dar-lhes unhadas no nariz e tentar morder os seus dedos, creio que Flófi não simpatizou muito comigo.

Ainda assim, tendo cursado o Instituto Rio Branco, me propus a fazer amizade. Procurei leite na geladeira para colocar num prato para ele e, não encontrando, pus um pouco de Coca-Cola Light numa vasilha.

Escolha equivocada. Dali a alguns minutos, Flófi passou a emitir flatos na mesma freqüência com que Balzac escrevia livros. E o que é pior, assustado, girava em torno de si, mais perdido que Cabral na calmaria.

Vendo o gato correr de uma parede a outra feito o Coelho Ricochete, fiquei um pouco preocupado. E, numa evidente demonstração de boa vontade, para acalmá-lo, levei-o nos braços para tomar banho.

Ora, não entendo de gatos, portanto não sabia que este era francês — coisa que só percebi quando, às portas do banheiro, deu um salto magistral, escalou o meu rosto, furando meu olho com suas delicadas patinhas e, em pânico, voou por cima da minha cabeça, arrancando-me um chumaço de cabelos.

Gritei, urrei de dor, mais desesperado que Hécuba, e a minha primeira reação foi perseguir o filho da…. digo, o belo felídeo para, no mínimo, arrancar o rabo dele a dentadas, mas ele continuava a lançar violentos puns pelo espaço e eu temi a asfixia.

Então estou aqui, com uma compleição muito parecida com a de Camões, um princípio de calva e, como tenho alergia, uma asma que nem a produção de oxigênio de uma floresta tropical de médio porte seria capaz de aplacar.

Agora, um novo problema surgiu. E, como minha mulher ainda não voltou, gostaria de perguntar a vocês: alguém aí, por acaso, sabe como tirar cocô de dentro de um sapato?

ASSALTO

Publicado em 16/04/2007, às 05:49, por Marconi Leal


200px Great Train Robbery Still

- Alô? Quem tá falando?
- É o ladrão.
- Desculpe, não queria falar com o dono do banco. Tem algum funcionário aí?
- Não, os funcionário tá tudo como refém.
- Eu entendo. Trabalham quatorze horas por dia, ganham um salário ridículo, vivem levando esporro, mas não pedem demissão porque não encontram outro emprego, né? Vida difícil. Mas será que eu não poderia dar uma palavrinha com um deles?
- Impossível. Eles tá amordaçado.
- Foi o que pensei. Gestão moderna, né? Se fizerem qualquer crítica, vão pro olho da rua. Não haverá, então, algum chefe por aí?
- Claro que, não, meu amigo. Quanta inguinorância! O chefe tá na cadeia, que é um lugar mais seguro pra se comandar um assalto.
- Bom… Sabe o que que é? Eu tenho uma conta…
- Tamo levando tudo, ô bacana. O saldo da tua conta é zero.
- Não, isso eu já sabia. Eu sou professor. O que eu queria mesmo era uma informação sobre juro.
- Companheiro, eu sou um ladrão pé-de-chinelo. Meu negócio é pequeno. Assalto a banco, vez ou outra um seqüestro. Pra saber de juro é melhor tu ligar pra Brasília.
- Sei, sei. O senhor tá na informalidade, né? Também, com o preço que tão cobrando por um voto hoje em dia… Mas, será que não podia fazer um favor pra mim? É que eu atrasei o pagamento do cartão e queria saber quanto vou pagar de taxa.
- Tu tá pensando que eu tô brincando? Isso é um assalto!
- Longe de mim. Que é um assalto, eu sei perfeitamente. Mas queria saber o número preciso. Seis por cento, sete por cento?
- Eu acho que tu não tá entendendo, ô mané. Sou assaltante. Trabalho na base da intimidação e da chantagem, saca?
- Ah, já tava esperando. Vai querer vender um seguro de vida ou um título de capitalização, né?
- Não… Eu… Peraí, bacana, que hoje eu tô bonzinho e vou quebrar o teu galho. (um minuto depois) Alô? O sujeito aqui tá dizendo que é oito por cento ao mês.
- Puxa, que incrível!
- Tu achava que era menos?
- Não, achava que era isso mesmo. Tô impressionado é que, pela primeira vez na vida, consegui obter uma informação de uma empresa prestadora de serviço, pelo telefone, em menos de meia hora e sem ouvir Für Elise.
- Quer saber? Fui com a tua cara. Dei umas bordoadas no gerente e ele falou que vai te dar um desconto. Só vai te cobrar quatro por cento, tá ligado?
- Não acredito! E eu não vou ter que comprar nenhum produto do banco?
- Nadinha. Tá acertado.
- Muito obrigado, meu senhor. Nunca fui tratado dessa…
- Ih, sujou! (tiros, gritos) A polícia!
- Polícia? Que polícia? Alô? Alô?
- (sinal de ocupado)
- Alô?… Droga! Maldito Estado. Sempre intervindo nas relações entre homens de bem!

SENSIBILIDADE

Publicado em 15/04/2007, às 06:07, por Marconi Leal


Sensibilidade

— Isso são horas, Alcides? Então você me sai pra beber e chega uma hora dessas quando… Ai! Ai, meu Deus!
— Que foi? Por que tu tá subindo no sofá?
— Isso daí, Alcides! O que… o que é isso… que… que tu tá carregando numa coleira?
— “Isso”, não. Mais respeito. O nome dele é Astrogildo.
— Um porco, Alcides? Tu chega em casa embriagado, de madrugada, e ainda traz um porco pela coleira?
— Ué? Tu não gosta tanto de animal?
— Gosto de gato, cachorro, hamster e um pouco de você, Alcides. Mas um porco? Eu devo tá sonhando…
— Qual o problema do porco?
— O problema é que ele não tá dentro da feijoada!
— Um bichinho tão dócil… É praticamente um cachorro.
— Sem dúvida. Sobretudo se a gente estivesse em Chernobyl. Tu perdeu completamente o senso do ridículo?
— Tá vendo aí, Astrogildo? A gente tenta agradar e é o que recebe. Tu não vivia dizendo que queria um animalzinho de estimação? Tu não adora bicho?
— Adoro, Alcides. Mas detesto futebol. Que é que eu vou fazer em casa com uma mascote do Palmeiras?
— O Astrogildo não é um porco qualquer, mulher. Ele curte Pink Floyd e abana o rabo quando declamam Baudelaire. Se bem que ele prefere Verlaine. Pela musicalidade. Né, Astrô? Gute, gute, gu!
— Alcides, você vai sair com esse bicho daqui agora! Agora, tá ouvindo? Onde é que tu conseguiu essa… essa coisa?
— Rifa. Sortearam lá na repartição. Queriam fazer churrasco, mas eu não deixei. Me apeguei ao bichinho. Ele não é a cara do Diogo Mainardi? Gute, gute, gu!
— A cara, eu não sei. O espírito, certamente. Ai, não chega perto! Sai com esse bicho daqui! Sai!
— Não, mulher. Rolou um lance, saca? Identificação. O Astrogildo também teve uma infância sofrida. Imagine você que ele perdeu a mãe quando era bebê, atropelada por um caminhão de gás. O pobre até hoje não pode ouvir Für Elise que solta guinchos…
— Tua mãe ainda tá viva, Alcides.
— Eu sei, mas também não posso escutar Beethoven que fico todo sensível. Além do mais, ele foi sodomizado por um rottweiler na adolescência. Por isso é meio assim, melancólico. Olha a carinha dele. Não tem aquele jeitão depressivo dos existencialistas franceses? Gute, gute, gu!
— Tem, tem. Se fosse zarolho, era a cara do Sartre. Agora, me escuta, vou falar devagar pra ser mais didática: TIRA… ESSE… PORCO… DAQUI… AGORA!
— Já te disse que o Astrô não é um porco comum, mulher. É um artista. Quando a gente assobia o Réquiem, ele se faz de morto. Quer ver?
— NÃO!!!
— É um sofredor. É um… É…
— O que é isso, Alcides? Ai, meu Deus do céu, o Alcides tá chorando por causa de um porco!
— Você não entende, mulher. Você é uma insensível!
— Eu… Bom… Eu… Tá, tá, tudo bem! Que é que se vai fazer? Hoje esse porco pode ficar aqui em casa. Mas só hoje, tá ouvindo? E pára de chorar!
— Jura?…
— Pode.
— No nosso quarto?
— No quarto de empregada, Alcides! No quarto de empregada. E vê se tranca bem aquela porta.
— Ah, aí não dá, mulher.
— Não, é? E por quê?
— O Astrô sofre de claustrofobia.

VEGETARIANISMO

Publicado em 14/04/2007, às 03:09, por Marconi Leal


Vegetarianismo

Sempre que me perguntam qual livro mais marcou minha vida, digo que foi a lista telefônica de 1978. Primeiro, porque é um livro em tudo parecido com uma romance russo. Senão pela qualidade, ao menos no número de personagens e na grossura.

E depois, porque ela caiu na minha cabeça de uma altura de quatro metros quando eu tinha três anos, o que sem dúvida me deixou com várias seqüelas, como podem constatar todos aqueles que me lêem. Dentre as quais, gostaria de citar uma leve tendência a me esconder debaixo do sofá quando o telefone toca e certa propensão a gritar “Bingo!”, quando alguém me dá o número do seu celular. Enfim, nada muito grave.

Mas outro livro que me marcou muito ou, quando menos, o meu estômago, foi “Sidarta”. Após lê-lo, bem no início da adolescência — fase da vida em que usamos tanto de racionalidade e bom senso quanto o Departamento de Defesa americano —, resolvi parar de comer carne.

Falei “estômago” porque a dieta do vegetariano, como se sabe, é bastante ampla. Pode-se comer soja, verdura, verdura, soja e, se sentir muita fome e para desenjoar um pouco, é permitido ao indivíduo, às vezes, ingerir um pouco de soja e verdura também.

Só depois que passei a comer soja numa quantidade razoável foi que desvendei o grande mistério da levitação. Afinal de contas, a quantidade de gases que a fermentação do dito grão provoca seria capaz de fazer subir pelos ares até um elefante, quanto mais um faquir. Isso, se o animal conseguisse ficar na posição do lótus, claro.

Sem dúvida esta é a maior razão por que o incenso é tão popular na Índia. De outra forma, seria impossível respirar no país.

Também naquela época entendi perfeitamente o motivo por que os grandes mestres do Oriente têm sempre olhos saltados e tanta leveza no caminhar. É fome. Digo a vocês que a paz interior é um produto direto da falta de alimentação.

E a meditação, em conseqüência, é propiciada pelo constante contato com o mau hálito do esfomeado guru. O que é bastante educativo e producente. Afinal, a certa altura o sujeito pensa: “Ou eu atinjo o nirvana de uma vez ou vou ter que ficar sentindo esse bafo pelo resto da vida”.

Após seis meses me alimentando de maneira mais precária que um personagem de “As Vinhas da Ira”, minha fase vegetariana acabou, um belo dia, quando fui a um churrasco com a turma do colégio.

Ali, enquanto um grupo de amigos se divertia com picanhas, maminhas e congêneres, eu comia um pedaço da samambaia da dona da casa, com um pouco de sal e azeite.

A certa altura, no entanto, ouvi um ruído estranho e, ao mirar a mesa, me dei conta de que uma chuleta me chamava, olhando de soslaio, com um sorriso de deboche. Acintosa, queria discutir comigo a “Poética” de Aristóteles e o “Fédon” de Platão.

— Não me provoca que eu sou pré-socrático — pedi.

Ela não se fez de rogada:

— Você não passa de um cristão!

Atraquei-me com o pedaço de carne mais encarniçado que um deputado sobre verba do orçamento. A luta foi árdua, mas em cerca de trinta segundos de dialética, derrotei a despeitada.

Ela ainda desceu pela minha garganta defendendo a transmigração das almas. Mas, usando da maiêutica, arrematei o diálogo com um triunfante arroto. Em seguida, encarei um fileira de corações e por aí segui: cupim, alcatra, costela etc. Sobretudo etc.

Assim, dei adeus definitivamente ao vegetarianismo. E, a partir daquele dia, redescobri os prazeres da boa mesa, o sabor dos alimentos, a variedade de comidas, a dor de barriga e a intoxicação alimentar.

TPM

Publicado em 13/04/2007, às 04:42, por Marconi Leal


Tpm

Eu admito que a guerra é uma calamidade e que a fome e a miséria são aberrações sem tamanho. Tudo bem. Mas acho que a ONU deve começar a considerar seriamente, entre os flagelos que perturbam a humanidade e tiram a paz do mundo, a TPM.

Não sei exatamente qual a relação dos leitores com a supracitada. Falo dos leitores porque, evidentemente, são os mais afetados por ela, sendo as mulheres apenas um meio através do qual o dia estará irremediavelmente perdido.

Quanto a mim, me esforço por ser compreensivo. É certo que a minha sensibilidade fica um tanto ou quanto prejudicada quando estou tentando desviar de vasos e porta-retratos atirados contra mim, mas procuro não perder a serenidade. E, assim, cometo um erro fundamental em se tratando de TPM: busco o diálogo.

Se alguém já tentou argumentar com uma mulher de TPM, pode ter a exata dimensão da tolice que isso representa. Uma mulher de TPM joga por terra toda a dialética hegeliana com um simples esgar e, sorrindo sarcasticamente, desmonta uma por uma as categorias kantianas, além de um ou outro móvel que esteja ao alcance de sua mão.

Ficar calado tampouco funciona. O silêncio é uma aberrante confissão de culpa, ainda que você não tenha a mínima idéia do motivo de sua condenação e, muito menos, do porquê de sua coleção de CDs estar dentro da privada, juntamente com aquele livro de Poe que você estava relendo e os restos digeridos da feijoada de ontem.

Que fazer, então? Talvez o mais sábio seja tratar o problema como uma catástrofe natural de menor porte, como a avalanche, o furacão ou o tsunami. E esperar, calmamente, que as forças de resgate cheguem. Após quatro ou cinco dias.

MENDIGO

Publicado em 12/04/2007, às 05:34, por Marconi Leal


Vobeggar

- Dá uma consciência social aí, tio.
- Tem não.
- Só uma consciência social, tio.
- Tem não, menino, já le disse.
- Por favor. Eu tô morrendo de avareza.
- Avareza nada! Tu tá chei de piedade, que eu seio.
- É avareza, tio, eu juro.
- Que avareza o quê! Pensa que eu num tô sentino esse bafo de piedade?
- Eu juro, tio, é avareza. Meu pai é juiz, minha mãe trabalha em ministério. Eu cresci em berço de ouro, tio, queimando índio, fazendo racha…
- Tá pensano que me engana? Eu posso de num ter apego material, mas num sou trouxa, moleque. Sei muitcho bem quando vejo arguém da elite responsave. Tu deve até de trabaiá em ONG e contribuir pro Greenpeace…
- Não é, não, tio. Pro senhor é fácil falar, vive aí na esquina, vestindo farrapo, com esse saco imundo nas costas, cheio de piolho, comendo do ruim e do pior. Mas eu nunca tive amor ao próximo. É verdade.
- Meu fio, outro dia mermo eu vi uma reportage na televisão, mostrano menino rico em carro importado, ingualzinho esse que você tá dirigino aí, fazendo se passar por gente insensive, sem compaixão, e era tudo mentira. Todos eles tava se dedicano a aiguma causa pelo bem da humanidade. Acelera, passa marcha. O sinal já abriu.
- Mas no meu caso é verdade, tio. Eu não tenho consciência social nenhuma. Venho de uma família de 400 anos de Brasil. Tem usineiro, banqueiro, barão de indústria paulista… Nunca soube o que era pobreza, tio. Me ajude.
- Num tenho, meu fio, já le falei. Se tivesse, le dava. A última consciência social que eu tinha dei prum deputado que passou aqui dez minuto atrai. Tava usano carro chapa-branca pra serviço particulá e carregava uma mala cheia de dinheiro público desviado. Dava pra ver que tava necessitado. Mas você?
- Olha aqui, tio, minha declaração de IR. Quer ler? Veja, por exemplo, se aí tá declarado esse carro? Não tá. Também não tenho nenhum imóvel listado aqui. E olha que eu tenho apartamento em todas as ruas do Banco Imobiliário.
- Isso é farso, meu fio. A coisa mais fáci do mundo é encontrar documento farso pra comprovar as corrupção de arguém. Por causo disso que esse país num vai pra frente. Todo mundo trabaia com honestidade e pratica filantropia. Agora chega. Vamo. Circulano. Fecha o vrido elétrio e vai embora.
- Mas, mas, tio… Por favor, se eu chegar em casa sem consciência social a minha mãe não vai brigar comigo de novo.
- Passa, moleque. Vê se encontra outro indiota pra tentá enganá. Anda.
- (dando partida) Eu sou egoísta! Eu juro!
- Vai, vai embora. (para si) Eitcha, que esse povo num aprende mermo! Num se pode mais nem viver na misera, em paz, nessa cidade!

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