COMPREI UMA BICICLETA ERGOMÉTRICA (CAPÍTULO 4)
Possuindo uma paciência comparável à de um lama depois de dois baseados e uma serenidade de irritar o senador Suplicy, logo percebi que meu embate com a bicicleta ergométrica se daria na base da inteligência. Ou seja, a máquina tinha tudo para vencer por W.O.
No entanto, sou brasileiro e não desisto nunca antes do assaltante me apontar a arma. Parti, portanto, para a empreitada com a determinação de um parlamentar fugindo do trabalho.
E digo a vocês, companheiros, que se Roma caiu um dia, isso se deve exclusivamente ao fato de que o Império era cercado por muralhas e não, como seria mais razoável, por fileiras de bicicletas ergométricas desmontadas.
Outrossim, não tenho dúvidas de que o exército espartano teria sofrido uma vergonhosa derrota - e hoje, em vez de silogismo, gramática, retórica e outras tolices, estaríamos aprendendo coisas mais úteis a nosso atual estágio civilizatório, como decepar cabeças e esfolar adversários -, caso os medos, em vez de exímios cavaleiros, fossem excelentes montadores de bicicletas.
Porque a verdade, senhores, é que é mais fácil produzir uma fusão atômica ou mesmo fazer algo mais complexo, como convencer um brasileiro a respeitar uma fila, do que conseguir colocar no lugar as peças de uma dessas solertes traquitanas.
Seja como for, comecei o embate de maneira amistosa, condescendente, tratando minha êmula como se fosse um ser inanimado e sem consciência. No entanto, perdi inteiramente a classe após uma hora de tentativas frustradas, ao perceber que a fedífraga máquina queria me transformar no presidente da República.
Eis que em minhas manobras, acabei por perder parte de um dedo da mão enganchado num pedal e, além disso, tive a dicção prejudicada por um pequeno corte na língua, fruto de uma tentativa madura de revidar o golpe de um parafuso com uma mordida.
Desesperado, pronunciei em voz alta várias frases com os verbos “haver” e “fazer” pra ver se acertava a concordância. E, antes que começasse a pensar que nunca tinha enfrentado situação mais difícil “neste país”, passei a uma abordagem mais racional do problema: chutando e esmurrando o material desmontado à minha frente.
- Que é isso, meu Deus! Você enlouqueceu?
- Não atrapalha, mulher, que eu tô ganhando!
- Ganhando o quê, Marconi? Hematomas?
- Tu não entende nada de psicologia, mulher.
- Isso é um objeto, Marconi. Não pensa!
- E daí? O Bush também não. Mas olha como tá o Iraque…
(TERMINA QUARTA-FEIRA)









