O Pensador Selvagem  |  Blogs  |  Busca

TUMBU

Publicado em 30/05/2007, às 05:12, por Marconi Leal


Tumbu

Sei que vocês, leitores de pouca fé no empreendimento humano, não acreditavam, mas graças a Deus ainda existem no mundo editoras que investem no talento e, mais importante, não têm pena de desperdiçar dinheiro em vão.

Fato é que, porque Santo Homero dos Editores Desassisados me guarda, chego a este meu sexto livro. Razão bastante para que Vossas Senhorias privilegiem o momento, clicando na figura acima e adquirindo o mesmo.

Afinal de contas, se é bem verdade que não sei escrever e os senhores tampouco sabem ler, o caso é que o livro dá um belo suporte para copos. Além disso, como bons católicos, todos sabem perfeitamente que quem dá aos pobres, empresta e adeus.

Aproveito a oportunidade para anunciar que este blog voltará às atividades na próxima segunda-feira. Isso, se cada um dos senhores comprar pelo menos um exemplar da obra, claro…

BRAVO, FORTE, FILHO DO NORTE (5)

Publicado em 29/05/2007, às 03:47, por Marconi Leal


Bravo5

Liguei a esteira na estonteante velocidade de um centímetro por semana e passei nada menos que duzentos e quarenta segundos andando sobre ela, sem descanso. E parei, não pelo princípio de ataque cardíaco ou pelo derrame que sentia se aproximar, mas simplesmente porque, homem consciencioso, quis salvar algumas vidas. Afinal, com os shorts apertados que estava usando, minha descendência corria perigo.

Em seguida — e aqui faço uma relação de minhas proezas para calar os caluniosos — fiz, em série, dois abdominais, um peitoral, meio supino e meio dorsal, sem outra pausa senão aquela absolutamente necessária para recolher o meu queixo do chão.

Chegando àquele ponto, vislumbrei a glória e disse de mim para comigo que havia alcançado o momento que separa os triunfadores dos demais homens, aquele instante fugaz em que se decide o destino de um indivíduo, aquela fração de segundo em que o tempo fica imóvel e, no meu caso particular, em que os músculos começam a saltar descontroladamente, como se o cristão tivesse acabado de receber a Pomba-Gira.

Assim, contive meu coração, que teimava em querer sair pela boca, expliquei aos pulmões que, afinal de contas, o oxigênio não é assim tão importante e, com alguma dificuldade, administrei os sintomas do Parkinson que atacava meus membros, tratando de convencer meus doloridos pés a andarem até a barra — coisa que consegui em cerca de dez minutos.

Ali chegando, concentrei-me como um ninja e, de um salto, agarrei-me aos ferros. Então, fiz força. Usei de toda a energia que ainda me restava. Prometi ajudar os pobres e nunca mais roubar o ceguinho que esmola aqui perto de casa.

Ao final de exaustivas tentativas, senti que meu corpo se arqueava. Redobrei os esforços. Suava em abundância, mas subia, aos poucos, devagar. E eis que aconteceu…

Soltei um pum tão barulhento, caros companheiros, que julgo ter abalado as paredes do local. Creiam-me, não foi baixo. E, mais do que isso: foi daqueles que se arrastam prolongadamente, indefinidamente, como um motor de barco.

Eu mesmo me assustei com a explosão inesperada. E, apalermado, larguei a barra e me estabaquei no chão.

Mas logo me levantei e, tonto, mancando de uma perna, com o rosto inchado, os braços inutilizados, saí de fininho do lugar e retornei para casa, correndo tanto quanto era possível a um aleijado.

Cá chegando, sentindo dores excruciantes pelo corpo e vergonhas dilacerantes na consciência, enfiei-me na cama — de onde só pretendo me levantar no Natal de 2010.

Daqui, dito essas palavras para a minha mulher digitar — já que, neófito, não aprendi ainda a teclar com o nariz —, e digo a vocês, camaradas de infortúnio: de agora em diante, academia, para mim, nem a de letras.

BRAVO, FORTE, FILHO DO NORTE (4)

Publicado em 28/05/2007, às 03:46, por Marconi Leal


Bravo4

Entrei na sala e me apresentei a Rosicléia, a qual, se não pertencia ao astro de onde provinha o outro professor, certamente nascera no mesmo sistema planetário. Só que, feminina, era um pouco mais larga, um tantinho mais alta e tinha mais pêlos no rosto. Ou isso, ou possuía ascendência teuto-portuguesa, não sei.

Entreguei trêmulo o papel a ela, que estava atrás de um balcão, sentada na cadeira de um modo meigo que me fez lembrar o Charles Bronson. Ao me ver, Rosi entortou com candura os cantos da boca, mostrando caninos que, sem dúvida, foram a fonte de inspiração de Bram Stoker. E, afagando com modos singelos a ponta do buço, levantou-se e começou a me mostrar o ambiente.

Vocês, leitores preconceituosos, hão de pensar que a academia de ginástica não é local apropriado para a cultura e a especulação metafísica. Pois digo que estão enganados, ignaros companheiros.

Eu, por exemplo, ao olhar para aquela gente se exercitar arduamente, empurrando ferros com a ferocidade com que Santiago foi ter aos mouros, digo a vocês que imediatamente me dei conta da total falta de sentido da existência. E me convenci de que Sartre não teria escrito “O Ser e o Nada” se, em algum ponto de sua vida, não houvesse tentado a malhação.

Quanto à cultura, seus maledicentes, fiquem sabendo que conheci um sujeito lá que é fazendeiro e possui logo duas: uma de feijão e outra de mandioca. Sem falar de uma moça que já havia lido todas as páginas amarelas de um exemplar de Veja de 1983. E de um garoto que, sabendo de cor a maioria das letras da Kelly Key, caminha a passos largos para, quando menos, fazer crônicas poéticas no Jornal Nacional.

Desinformados que os senhores são, caso também tenham em mente que na academia o repertório musical é dos piores, fiquem cientes de que nunca na minha vida escutei um som tão agradável quanto aquele que lá ouvi, entre o final de uma música e o começo de outra. Um silêncio magnífico, que nem aquele famoso surdo de Bonn seria capaz de reproduzir.

Tudo isso observei enquanto Rosi me apontava as belas máquinas de inspiração huxleyana. Após o quê, gentil e delicada, cuspiu de lado sutilmente e me ordenou que me alongasse antes de iniciar os exercícios. Em seguida, afastou-se e retornou ao seu lugar, ajeitando, cheia de sensualidade, a cueca dentro da calça de malha.

Pus-me a me alongar e a me benzer, pedindo forças a São Balalão da Coxa Tripartida para encarar os aparelhos. E, sem dúvida, teria ficado ali pelo menos mais dois dias, ganhando algum tempo, se não houvesse concluído que a altura de 1,80m à qual cheguei ao final do alongamento fosse suficientemente boa.

Depreendi, assim, ser hora de mostrar meus afamados dotes de atleta. E, com o sentimento do homem que tem um dever a cumprir, com a segurança dos grandes, como César, Alexandre, Napoleão e ACM Neto, me dirigi cerimoniosamente aos halteres, desejoso de dirimir de uma vez qualquer dúvida que pudesse ainda subsistir com relação a minha imensa e inesgotável capacidade física.

Digo aos descrentes e biltres de torpe natureza, que me desincumbi da tarefa com denodo, apanhando não um, mas logo dois halteres, e não de meio, como seria de esperar, mas de um quilo cada, e me pus a levantá-los com destemor.

Ao final de três levantamentos, com quinze minutos de intervalo entre eles, achei que era hora de me arriscar mais. Então, patriota que sou, ingeri dois litros de água, em homenagem ao Amazonas, e caminhei imperterritamente até a esteira ergométrica, sentindo a ambição dos vencedores, o orgulho dos bravos, o poder dos livres e um formigamento nos braços.

BRAVO, FORTE, FILHO DO NORTE (3)

Publicado em 27/05/2007, às 03:45, por Marconi Leal


Bravo3

A última vez que havia flexionado um músculo tinha sido para cortá-lo em pedaços e atirá-lo no feijão, juntamente com outras carnes bovinas. Da mesma forma, havia levado minha mão ao solo apenas uma vez nesta década e, ainda assim, para apanhar uma cédula de cinqüenta reais — o que me rendeu uma dor na coluna e me deixou uma semana de cama, mais paralisado que o cabelo da Tônia Carrero.

Foi com essa hercúlea disposição que me agachei e, heroicamente, iniciei minha contagem:

— U… hu… huu… um! — falei, emocionado, ao fim de meia hora.

E é certo que, voluntarioso, teria chegado naquele mesmo dia ao “dois” e, quiçá, ao “três” se, provavelmente por puro romantismo, meus braços não tivessem se recusado a sustentar meu peso, deixando que desse um violento beijo de língua no chão.

Ao tentar me levantar, logo percebi que o motim dos braços havia se transformado em revolução e que, se bem os membros do meu corpo não estivessem dispostos a derrubar a Bastilha, ao menos a bacia e o fêmur haviam saído do lugar. Em suma, não conseguia me mexer.

Vendo meu desespero, minhas contrações de dor e que meu rosto imóvel tinha o belo colorido da fase azul de Picasso, o professor perguntou, em pânico:

— Quer que eu chame um médico?
— Ão ecisa — falei. — Asta amar os ombeiros.

Mas tanto não foi necessário. Com alguma paciência, muito jeito, certo cuidado e a ajuda de um macaco hidráulico, dentro em pouco ele me pôs novamente de pé — relativamente zarolho e maravilhado por ver tantas estrelas às três horas da tarde.
Então, espalmou a mão à frente do meu rosto e perguntou:

— Consegue ver quantos dedos tem aqui?
— Claro que não. Você tá de sapato, ora essa! — falei indignado, sem conseguir levantar a cabeça, com uma postura corporal semelhante à do Mestre dos Magos.

Ele me trouxe um copo d’água, me fez sentar numa cadeira e, após me dar uns tapas nas costas, voltei a respirar. Uma vez recuperado e sendo, por natureza, persistente, aproveitei para retomar os exercícios: corri para a porta, com a intenção de voltar o mais rápido possível para casa.

Ia já atravessando o umbral, quando o oitavo passageiro me puxou pela manga da camisa.

— É por ali — disse, apontando para um corredor.
— O Paraíso? — perguntei.
— Você já pode fazer os exercícios — continuou ele, sério. — Fale com a Rosicléia. Ela vai explicar tudo direitinho. Bem-vindo!

Achei admirável que, sendo ele recém-chegado à galáxia, as boas-vindas fossem dadas a mim. E, mais ainda, que houvesse se referido a exercícios, quando acabara de comprovar que seria mais fácil ensinar regras gramaticais ao Lula que me fazer elevar os cotovelos à altura da orelha.

No entanto, como o esforço para absorver oxigênio estivesse atrapalhando meu raciocínio que, de natural, já não é dos mais aguçados, me pus a andar na direção que ele havia indicado, sem prestar atenção a coisa alguma, a não ser à harmônica melodia que meus ossos produziam ao estalar.

E foi assim, intimorato, que entrei naquela que mais tarde apelidaria de Sala Torquemada, destinada à malhação.

BRAVO, FORTE, FILHO DO NORTE (2)

Publicado em 26/05/2007, às 03:43, por Marconi Leal


Bravo2

O mais perto que havia chegado da malhação até aquele dia tinha sido dar uns cascudos num Judas no Sábado de Aleluia. Mas, entrando na masmorra, digo, no recinto destinado aos exercícios, pude sentir, de cara, os efeitos benéficos do lugar: ao pagar a matrícula, meu bolso ficou, imediatamente, pelo menos duzentos gramas mais magro.

Em seguida, algo misterioso aconteceu. E eu, que nunca acreditei na existência de alienígenas, preferindo confiar apenas em seres palpáveis, como o Papai Noel, o Coelhinho da Páscoa e o Paulo Maluf — eu, dizia, fui abduzido para uma pequena sala cheia de aparelhos esquisitos.

Ali, um humanóide de dois metros de altura, três de largura e cinco de profundidade apertou meu corpo com tenazes e objetos de procedência desconhecida, segundo disse, para verificar meu índice de gordura — nomenclatura essa de difícil compreensão para os terráqueos, mas certamente de grande utilidade no lugar de onde ele veio.

— Seu índice é muito alto! — falou espantado, ao final de meia hora de inspeção.
— E olha que eu nem me exercito muito — disse eu, sorrindo com orgulho.

Dada a obstupefação da anabolizada criatura, achei que ela havia finalmente encontrado o que procurava e, agradecida, me levaria a seu planeta, juntamente com alguns CDs do Latino, como prova do que de pior a humanidade tinha sido capaz de produzir.

Mas, ao que parece, não a deixei muito satisfeita, pois resolveu me punir, exigindo que eu fizesse flexões de braço, polichinelos e outras acrobacias que estiolariam as bailarinas de Degas.

— Professor, até acho o espetáculo interessante, mas não participo do Cirque du Soleil — fiz questão de esclarecer.
Porém, o indivíduo estava irredutível.
— É pra testar sua resistência — insistiu.
— Minha resistência é total, professor. Não consigo fazer isso — obtemperei.

Ele suspirou, impaciente. Sem outro recurso, me joguei no chão e tentei me dedicar à maldita flexão de braço, xingando Deus, toda a Santíssima Trindade, cinco ou seis anjos, um querubim e o FHC. Este último, só para não perder o costume.

BRAVO, FORTE, FILHO DO NORTE (1)

Publicado em 25/05/2007, às 03:40, por Marconi Leal


Bravo1

Nunca fui um fã da atividade física. Considero, por exemplo, o levantamento de romances russos o maior esforço que sou capaz de realizar. Tampouco a coordenação motora é o meu forte. Gesticulando, apresento uma desenvoltura de causar vergonha ao Stephen Hawking.

No entanto, ao contrário do que minha capacidade de raciocínio dá a entender, não sou mais criança — prova disso é que tenho alguns cabelos brancos, artrite, lordose e um diploma de datilografia. Então, achei que era hora de movimentar o corpo e, como não tenho uma cama vibratória, resolvi fazer ginástica.

É bem verdade que, homem dilúcido e aprecatado, não me apresso no período que transcorre entre a tomada da decisão e a realização do intento, e estava disposto a esperar tranqüilamente que passasse o tempo de vida de uma tartaruga ou de um integrante da ABL antes de executar a árdua tarefa.

Mas, por pressão da minha mulher, que estava cansada de me fazer respiração boca a boca toda vez que eu tentava amarrar os sapatos, decidi me matricular numa dessas academias.

Quanto a mim, teria preferido formas mais práticas de tortura, como assistir a filmes iranianos ou ler um livro do José Sarney. Porém, como gosto de agradar a minha amada e, principalmente, não sou muito chegado a apanhar com rolo de massa, decidi enfrentar a empreitada.

Preciso esclarecer que “academia”, para mim, sempre foi a de Platão, já que na minha época, ao menos lá no Recife, gastar horas levantando ferro, quando não era uma atividade sexual, levava o sugestivo nome de “fazer máquina Pólo” — certamente uma referência às agruras da vida na Antártida. Mas, ao contrário da situação deficitária de minha conta corrente, os tempos mudam. E só nos resta adaptarmo-nos a eles.

Pensando dessa forma foi que coloquei impavidamente um short de malha, enfiei com brio a camisa regata por dentro dele, calcei orgulhoso um tênis dois números acima do meu e, ligeiramente assemelhado ao Pato Donald, me pus a caminho do sacrifício, mais miserável que um personagem de Zola.

No percurso até a academia, que fica a duas quadras de casa, ia pensando comigo que a vida não era justa e, pior, que o meu short era, e muito, pois o peguei emprestado de minha cônjuge, o que me dava a angustiante sensação de estar sendo evirado a cada passo.

No entanto, homem acostumado a enfrentar ingentes desafios, não desisti, e alcancei bravamente o meu destino.

NO ESCRITÓRIO DE PATENTES

Publicado em 24/05/2007, às 06:06, por Marconi Leal


Patentes

INVENTOR: Bom dia. Pra registrar idéias é aqui?
FUNCIONÁRIO: (descontraidíssimo) Não tenho a menor idéia. Ha, ha, ha! Essa foi ótima.
INVENTOR: (seriíssimo) Ahn?
FUNCIONÁRIO: Desculpe. É a falta de alguém pra dialogar. A última idéia que registraram por aqui foi a corrupção no Brasil. Ha, ha!
INVENTOR: ???
FUNCIONÁRIO: (limpando a garganta) Perdão. Em que posso ajudar? Vejo que o senhor tem uma pasta recheada aí, não?
INVENTOR: Ah, são projetos.
FUNCIONÁRIO: Posso ver?
INVENTOR: Pois não. (sacando um papel desenhado da pasta) Esse aqui é o primeiro. Trata-se de um dispositivo para impedir que a água da chuva nos molhe, olha aqui. Tem esse cabo e um aparato de tecido em cima, esticado por pequenas varetas. Quando a gente aperta nesse botão, o…
FUNCIONÁRIO: O senhor tá brincando?
INVENTOR: Como?
FUNCIONÁRIO: Meu senhor, isso que o senhor inventou é um guarda-chuva!
INVENTOR: Desculpe, mas o nome do invento é repele-água. Eu mesmo…
FUNCIONÁRIO: Amigo, isso aqui é um guarda-chuva. Deve existir desde que Roma invadiu a Bretanha!
INVENTOR: Olha, não me leve a mal, não, mas quando o senhor inventar alguma coisa, o senhor chama de guarda-chuva, tudo bem? Por ora eu prefiro esse nome. (para si) Guarda-chuva, puf! (para o funcionário) Bom, aqui, temos esse outro… Vê esse plano circular? Pois muito bem, colocam-se dois desses na vertical e uma barra como eixo, entende? Daí, então, o que é que temos?
FUNCIONÁRIO: A roda?
INVENTOR: Não, trata-se do Mecanismo Para Rolagem de Objetos ou MEPRO, para os íntimos. Isso aqui vai provocar uma verdadeira revolução no mundo, acredite. Imagine que, com este meu invento, não será mais preciso empurrar ou carregar as coisas, mas simplesmente…
FUNCIONÁRIO: Vem cá. Tu tá me tirando, ô cara? É pegadinha?
INVENTOR: Como?
FUNCIONÁRIO: Tu quer me fazer de palhaço, rapaz? Eu tô perdendo a cabeça contigo!
INVENTOR: Ah, por falar em perder a cabeça, olha aí. (apontando para mais um desenho) Tcharan! Que acha?
FUNCIONÁRIO: Nossa! Um aparato para cobrir a cabeça?
INVENTOR: Puxa! Como o senhor adivinhou?
FUNCIONÁRIO: Intuição. Quem sabe o senhor não o batiza de “chapéu”?
INVENTOR: Não, prefiro…
FUNCIONÁRIO: (vermelho de raiva) Sai daqui, rapá! Sai daqui agora ou eu vou tomar uma atitude!
INVENTOR: Como?
FUNCIONÁRIO: Tá surdo? Sai ou eu não me responsabilizo! Tu tá me fazendo perder tempo!
INVENTOR: Estava! Porque, olha aqui… uhm-hum! (apontando para outro desenho) Com este pequeno aparelhinho, o senhor será capaz de contar segundos, minutos e até horas inteiras. Não acredita, né? Veja, isso aqui se chama ponteiro e…
FUNCIONÁRIO: (apanhando um copo de água de cima do guichê e atirando na cara do inventor) Eu avisei, não avisei?!
INVENTOR: (olhando para o funcionário, indignado) Mas o que significa isso?
FUNCIONÁRIO: MEPEL. Mecanismo Para Expulsar Loucos. Gostou?
INVENTOR: (pulando o guichê e se atracando com o funcionário) Safado! Você roubou minha idéia!

PALÍNDROMO

Publicado em 23/05/2007, às 03:56, por Marconi Leal


Palindromo

- A culpa é sua. Você leva tudo ao pé da letra, Olegário.
- Letra não tem pé, Ana Lana.
- Viu? É isso o que eu tô dizendo.
- Não, você tá dizendo que letra tem pé. Eu é que…
- O que quero dizer é que você leva tudo no denotativo, Olegário.
- Epa! Aí, não, hein! Denotativo em que mamãe passou talquinho…
- Presta atenção, Olegário, pelo menos uma vez na vida. Você tem que entender uma coisa simples. Muitas vezes as palavras têm duplo sentido, compreende?
- Palíndromo.
- O quê?
- Quando a gente pode ler uma palavra ou uma expressão nos dois sentidos: da direita pra esquerda ou da esquerda pra direita. Por exemplo…
- Olegário!
- Não, Olegário não é um palíndromo, Ana Lana.
- Não, animal!
- Lâmina.
- Como é que é?
- Lâmina, animal. Um palíndromo perfeito.
- Olegário! Não é disso que eu to falando! Vê se entende. As coisas, Olegário, elas têm sentido figurado e não apenas o lato, percebe?
- Obecrepeuqoralc!… Digo, claro que percebo!
- Ah, é? E por que agora há pouco, quando a Carla Regina, cansada de ouvir tuas brincadeirinhas sem graça, te pediu um tempo, tu imediatamente, muito sério, ligou o cronômetro do relógio, Olegário?
- Como é que eu ia saber? Ela não se explica! Você sabe perfeitamente que eu não domino essas expressões novas.
- Nova, Olegário? Essa expressão é mais velha que o Cid Moreira!
- Mentira. É uma expressão, no máximo, do século XX. E o Cid Moreira…
- Eu tô usando uma hipérbole, Olegário! Hipérbole! É lógico que a expressão não é mais velha que o Cid Moreira. Nada é mais velho que o Cid Moreira, Olegário. Deus, talvez. Agora, o fato é que, em função da sua cretinice, a Carla Regina perdeu definitivamente a paciência. E achei muito bem-feito que ela tenha te dado aquele tapão no rosto!
- Com hipérbole ou no sentido figurado?
- No sentido lato mesmo, Olegário! Achei ótimo. Só assim tu aprende. Como é que pode, Jesus, a pessoa ter nascido tão sem noção?
- Deus me livre. Isso é até pecado, Ana Lena.
- Como?
- Eu disse que é até pecado isso de falar que Jesus nasceu sem noção.
- Jesu… não… Ah, deixa pra lá, Olegário. Vamo embora da festa que é o melhor que a gente faz. Chega de vexame por hoje. Vem. Vamo esticar as pernas.
- Tudo bem.
- Olegário! O que é isso?! Levanta desse chão, Olegário! Não basta o que você já fez? Quer me matar de vergonha fazendo alongamento no meio da sala?!
- Ué, não foi você que di…
- Vem! Agora! Vamo! Em casa a gente discute. E de fininho, por favor, que eu não quero me despedir de ninguém. É incrível. Contando, ninguém acredita. O homem parece que vive no mundo da lua. Podia dar aula disso!… E então, não vai dizer nada?
- Aula da lua… Belo palíndromo!

PELA IMEDIATA LEGALIZAÇÃO DOS ENTREGADORES DE PROPINA

Publicado em 22/05/2007, às 07:34, por Marconi Leal


Navalha

Ao contrário de vocês, leitores pessimistas e de má vontade, sempre utilizei este espaço para reafirmar minha fé inabalável no Brasil, o qual, como objeto da minha crença, só perde para a mula-sem-cabeça e o Paulo Maluf.

(E antes que algum descrente queira insinuar que o citado animal folclórico não existe, convido-o a dirimir suas dúvidas ao ouvir qualquer comentário da Sandra Annenberg no Jornal Hoje.)

Apesar do achincalhe da malta ignava, sempre defendi ser este um país que premia os indivíduos de acordo com seus méritos. Sendo o principal deles, por exemplo, o mérito de ter um amigo influente.

Mais do que isso, deixei claro confiar na capacidade empreendedora de nossos cidadãos e na ética inquebrantável de nossos empresários que, ao contrário do que querem insinuar alguns vadios, sempre praticaram a corrupção dentro da lei e no sentido do bem coletivo. Ou alguém, por acaso, ainda duvida que família é coletivo de parente?

Isso para não falarmos, por óbvia, na correção férrea de nossos homens públicos que, em termos de hombridade, só perdem mesmo para a de Platão que, como todos sabem, era um pouco mais larga e lhe rendeu até o apelido.

Homens públicos estes cuja integridade, ousaria mesmo dizer, está em seus genes e cujo compromisso popular é cultivado desde o berço, uma vez que são, todos eles, também filhos de mulheres públicas.

Pois eis que agora, mais uma vez, nosso povo dá mostras de sua inventividade ao criar a figura imprescindível, em nossa pátria, do entregador de propinas - como acaba de revelar a PF no bojo da Operação Navalha.

Pergunto a vocês, derrotistas: há quantos séculos nossa máquina estatal se vê emperrada, muitas vezes, pela simples falta dos 10% por fora que façam andar a papelada?

E aquela multa de trânsito, levada inadvertidamente, só porque não tínhamos um trocado na carteira? Quantos deputados não acordam no meio da noite, com crise de abstinência, sem um número a que possam ligar para ser socorridos?

Ora, uma vez registrada a profissão, o entregador de propina solucionará todos esses problemas, destravando a burocracia e propiciando finalmente o crescimento econômico de que tanto necessitamos.

E o melhor é que, imagino, na esteira da genial criação, surgirão idéias ainda mais notáveis como, por exemplo, a do tíquete-propina, do passe-propina e do auxílio-propina, que facilitarão enormemente as relações entre as esferas publica e privada em território brasileiro.

Sonho mesmo com o dia em que, após anos de aprimoramento, o Estado estará apto a implantar a bolsa-propina para os excluídos das mamatas governamentais.

E então, sempre progredindo, talvez no futuro cheguemos ao ápice desse processo revolucionário: cunharemos a Propina Nova, única moeda no mundo cuja impressão será ilimitada, pois terá como lastro tão-somente a sem-vergonhice nacional.

VIGIAS (UM DIÁLOGO SWIFTIANO)

Publicado em 21/05/2007, às 07:26, por Marconi Leal


Vigias

- Não acho um trabalho digno. Au. É aviltante. Au-au. Deviam colocar homens pra fazer isso.
- Pra vigiar nossas casas?
- Claro. Au. Por que nós temos que sofrer feito gente, quando podemos usar seres inferiores no serviço?
- Creio que o amigo ficou hidrófobo. Colocar animais como os humanos pra tomar conta de nossas famílias seria cometer cachorricídio. São seres sem o mínimo senso moral, au-au.
- E por acaso é preciso senso moral pra se vigiar uma casa, agora? Au-au-au. Coloca-se uma coleira neles, joga-se lá um pedaço de hambúrguer, um pouco de dinheiro numa vasilha e pronto.
- São seres muito violentos, cidadão. Será que você não vê que eles vivem em guerra o tempo todo?
- Então! Por isso mesmo. Au. Duvido que algum assaltante tentasse entrar em lugar protegido por tipos iguais a ele. Além do mais, só seriam soltos à noite, o resto do tempo nós os manteríamos em jaulas, e pronto.
- Já vi muitos desses bichos fugirem de celas. Não têm o intelecto desenvolvido, mas são engenhosos. Au-au. Quando se trata de esperteza, alguns deles chegam mesmo próximo da do macaco.
- Quanto exagero! Eles são bípedes, senhor Moreira! Bípedes! E não estou dizendo que os quero pra animais de estimação, não. Pra isso temos espécies mais bonitas e inteligentes, como a anta e o jumento. Acho apenas que devemos usar o potencial de cada um em seu todo: papagaios pra imitar, falcões pra voar, seres humanos pra matar, ludibriar, trair… Essas coisas.
- Tudo bem. Digamos que a gente fosse usar humanos pra segurança, certo? Me diga: como seria feito o treinamento dos homens de guarda?
- Nada mais simples. É uma manada que obedece com a maior facilidade. Veja os da raça brasileira, por exemplo. Vivem no pior dos mundos e, no entanto, são mais passivos que uma vaca.
- Peraí, mas além de empregar seres humanos, o senhor ainda por cima quer usar vira-latas?
- Qual o problema? São mais baratos, se reproduzem aos montes e ainda conseguem fazer malabarismos com uma bola, nas horas vagas, pra nos divertir.
- Você se esquece que, como os demais humanos, eles também são muito pouco confiáveis. Se o assaltante tentasse subornar o vigia, facilmente entraria na residência.
- Au. Não tinha pensado nisso.
- Pois é. Isso pra não falar nos horríveis sons que eles emitem. Au-au.
- Sons? Que sons?
- Nunca ouviu quando eles se põem a guinchar? Não sei exatamente o significado, mas parece ter relação com o ato sexual, au. São sons desconexos, algo como: “hojéfestanomeuapê”, “arerêrroquecomvocê”, “meuamorécanibal” e outros.
- Nossa, mas isso é insuportável! Au-au-au.
- Tem mais. Não escutam direito, não sabem babar muito bem e são tão toscos que crêem que foram feitos à semelhança de Deus!
- Não acredito! Deus? Sem pêlos, sem cauda? Com nariz? Ha, ha, ha!
- Exatamente. Au. E o pior é que…
- Não vai me dizer que eles não têm pulga?
- Pior, muito pior.
- Péra lá. Au-au. Você já tá me descrevendo uma fera, terrível em todos os aspectos. O que pode existir de pior nessas criaturas?
- A longevidade. Em alguns casos, podem atingir cerca de 100 anos!

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