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MAIS TUMBU (AGORA CORRETO!)

Publicado em 29/06/2007, às 18:56, por Marconi Leal


Tumbupb

Para variar, vocês, leitores descrentes e de pouca capacidade analítica, duvidavam. Mas não Adelaide, que é um anjo de pessoa, além de, ao contrário de vocês, dominar as regras do bom português. (E não, quando falo em bom português não estou falando em ninguém que trabalhe em botequim.)

Confiram portanto no Primeira Fonte (entrem na seção “Feira do Autor” no menu do lado esquerdo e, em seguida, no pé da página, no link “É Coisa Nossa”) a bela resenha que ela escreveu sobre o meu Tumbu e morram de inveja, seu detratores.

Por fim, vou logo avisando que, a partir da próxima segunda-feira, este blog voltará a ser publicado diariamente, como nos velhos tempos. Isso, se eu não estiver mentindo, claro.

***
(Eu sei, eu sei, eu tinha dito quarta-feira. Mas, o que é que se pode fazer? Ao contrário dos senhores, eu trabalho. Segunda-feira, volto, prometo. E se estiver mentindo, que seja obrigado a ler um exemplar de Veja inteirinho. Obs.: já ajeitei o link para o texto da Adelaide. Confiram.)

NA GRÉCIA ANTIGA

Publicado em 27/06/2007, às 03:02, por Marconi Leal


Prometeus

— Nevermore! Nevermore!
— Quer parar?
— Que foi? Não gosta de Poe?
— Gosto. Não gosto é de anacronismo. Será que você não percebe que a América nem foi descoberta ainda? Além do mais, você não é um corvo!
— Você e seu perfeccionismo. Todo metido a intelectual. Não é à toa que te prenderam aí. Tudo bem, troco de poeta. Que tal um pouco de poesia brasileira do século XXI?
— Não, pelo amor de Zeus! Volte a comer meu fígado, eu imploro!
— Relaxa, bicho. Se solta. Se a gente vai passar a eternidade juntos, o
melhor é quebrar o gelo. A culpa não é minha de você tá aí.
— Não, a culpa é do Montesquieu, que não nasceu ainda. Se houvesse separação dos poderes, eu exigiria a anulação do julgamento.
— Também, que idéia! Dar a razão aos homens! Pff! Se ao menos tivesse dado a razão a outros animais de maior aptidão, como a lesma ou o ouriço.
— E daí? Grande coisa! Dei a razão aos homens e eles nunca usaram. Pior foi Pandora, que abriu aquela bolsa e liberou a dor, o sofrimento, a velhice, a miséria, a música sertaneja e o telemarketing. E nem por isso mereceu o meu castigo… Ai! Isso aí é meu pâncreas, pô!
— Foi maus. Mas é que tá difícil de distinguir o teu fígado aqui. Tá tão escondidinho, meio deteriorado…
— Ah, isso é por conta da pouca água.
— Pouca água no fígado?
— Pouca água no vinho. Ai, que saudade dos bacanais! E pensar que nunca mais vou poder curtir um efebo…
— Não faz assim, bicho. Eu não posso ver um personagem mitológico chorando que choro também. O que é que eu posso fazer pra te ajudar?
— Bom, pra começo de conversa… QUE TAL SE VOCÊ PARASSE DE BICAR O MEU PINTO?!!
— Ops, me distraí.
— Urubu!
— Não xinga, hein. Tô tentando te ajudar e é assim que você me trata? Já sei! Quer que eu te cante uma musiquinha?
— Boa. Eu te acompanho batendo palmas!
— Puxa, pra que tanto sarcasmo? Você é muito amargo, bicho. Deviam ter te condenado a perder o baço, isso sim.
— Rapaz, vou te contar, passar a eternidade acorrentado, tendo o fígado comido, tudo bem. Agora, ter a companhia de um urubu falante é que são elas.
— Abutre! Eu sou um abutre!
— Tem certeza? Tô começando a achar que tu é um papagaio…
— Eu só queria deixar a nossa convivência mais agradável, como entre todo torturador e torturado…
— Relação agradável entre torturador e torturado? Vê-se logo que você nunca casou. Vem cá, por que é que tu não dá uma volta por aí, vai encher o saco do Sísifo, por exemplo, hein?
— Chega! Nunca fui tão humilhado. Fiz de tudo pra ser teu amigo, bicho. Agora, agüenta!
— Ah, é? Vai fazer o quê? Se queixar ao hierofante? Hein? Olha pra mim. Você por acaso acha que algo pior pode me acontecer? É cada… Não! Por favor! Pára! Ha, ha, ha! Não! Hu, hu! Tudo menos isso! Cosquinha no sovaco, não!

LAUGHING BLOGGER AWARD

Publicado em 25/06/2007, às 05:20, por Marconi Leal


Laughing

Numa clara demonstração de que são homens sem preconceitos bobos, meus amigos Cláudio e Marco resolveram dar o selo para mim, com a condição de que também eu o desse a mais cinco.

— Não dói? — perguntei, aflito.

Ao que eles me tranqüilizaram:

— Só depois dos quatro primeiros.

Em sendo assim, me enchi de coragem e, agradecendo a deferência para comigo, passo o selo adiante aos abaixo listados, a quem aconselho também dá-lo para mais cinco blogueiros que façam rir.

Afinal, só se deve dar o selo àqueles que nos fazem rir. Caso contrário, já vira união civil.

E, antes que me esqueça, o selo é este aqui:

Laughingblogger

Aos indicados.

FRANCIEL

Trata-se de um grande admirador de ACM, que vem sofrendo muito ultimamente com a internação do pobre senador baiano. Sofrimento só dirimido ante o fato de que seu também grande ídolo, Chico Buarque, a quem chama carinhosamente de Fanho, continua firme e forte.

CABAMACHO

Homem de prosódia doce e desprovida de termos de baixo calão, o Cabamacho foi um seminarista exemplar, só tendo abandonado a Igreja por discordar da liberalização promovida pelo Concílio Vaticano II. Atualmente, dedica-se a decorar os 10 mandamentos do bom cristão no trânsito, lançado por Bento XVI.

SERBÃO

Quando vivo, Serbão era grande entusiasta de Caetano Veloso. Não propriamente por sua vocação musical, mas sim pela verborréia inteligente e a modéstia do compositor. Agora que morreu, Serbão deixou muitas saudades, sobretudo em seus inúmeros credores, além de uma ridícula pensão para a viúva.

HIPOPÓTAMO ZENO

Zeno, Pinto e cia. fazem um blog que, se fosse de direita, teria muito witticism e várias referências eruditas. Pena que, sendo um veículo vendido ao movimento comunista internacional, como bem notou o arguto Reinaldo Azevedo, o HZ não passa de um blog engraçadinho.

TOCA DO ENERGÚMENO

Apesar de — segundo se propala no Rio Grande do Sul — ter o pinto pequeno, mau hálito, chulé, raros cabelos, grande barriga, ser alcoólatra, ex-cafetão desempregado, inculto, pouco inteligente, corrupto, viciado em cocaína, morar com a mãe, bater em mulher, coçar o saco em público e tirar meleca do nariz com o dedo mindinho, o Energúmeno até que me faz rir, muito de vez em quando, se estou de bom humor.

DAS VANTAGENS E DESVANTAGENS DE SE CRIAR UMA HEROÍNA DE TELENOVELA EM CASA

Publicado em 22/06/2007, às 03:32, por Marconi Leal


Tvset

Segundo sociólogos, antropólogos e outros acadêmicos de ego um pouco menor, a humanidade pode ser dividida em três grandes grupos, de acordo com o seu caráter: as pessoas de bom coração, as pessoas que fingem ter bom coração e as heroínas de telenovela. Sendo que, das três, as heroínas de telenovela são as únicas que não soltam pum.

É bem verdade que a literatura especializada registra que no México, em 1984, houve uma heroína de telenovela que soltou um pum. Mas esta, apesar de estar sozinha em casa, imediatamente caiu fulminada por uma crise de má consciência que a levou à morte. Ou isso, ou foi uma infecção intestinal causada por aquela tortilla estragada, não se sabe ao certo.

O fato é que as heroínas de telenovela jamais acordam com o cabelo despenteado, não têm mau hálito nem, sendo de raça, soltam pêlos. E são as criaturas mais dóceis e pacíficas do mundo, desde que seus donos jamais inventem de tocar em sua maquiagem, claro. Ocasião em que as heroínas de telenovela podem se tornar mais belicosas que um diplomata americano.

Há registros de uma heroína de telenovela que, na Venezuela, em 1992, teve parte do seu blush borrado por um desavisado. Depois de sofrer um brutal ataque, o pobre homem jamais conseguiu voltar a sincronizar a fala com a articulação da boca e está condenado pelo resto dos seus dias a parecer uma dublagem do SBT. Sem dúvida, um gênero de crueldade jamais visto, nem mesmo no teatro grego.

Quanto à heroína de telenovela, fugiu de seu cativeiro — uma incubadora de heroínas de telenovela da RCTV — e nunca mais foi vista. De acordo com relatos de populares, ainda hoje, em noites de lua cheia, pode-se ouvir pelas ruas de Caracas uma voz feminina cantando lugubremente a música-tema de Maria do Bairro, entrecortada por longos suspiros.

Há também quem acredite que, após o episódio, a jovem cortou os cabelos, ganhou alguns quilos, não usa mais saltos, só se veste de vermelho e, ao final de alguns anos, virou presidente do país. Mas isso, evidentemente, não passam de lendas urbanas difundidas pela mídia de direita.

Voltando ao campo científico, o que se pode afirmar, com certeza, é que as heroínas de telenovela são criaturas resistentes, que sobrevivem até mesmo nos ambientes mais inóspitos, como o horário nobre da televisão. Talvez por sua origem: afinal, nasceram no vácuo, dentro da cabeça dos autores de TV.

Em suma, por tudo o que acima ficou dito, pode-se afirmar em relação às heroínas de telenovela que elas reúnem inúmeras qualidades e suplantam por larga margem todos os outros bichinhos de estimação atualmente disponíveis no mercado, com exceção talvez das modelos de passarela e dos lêmures.

Possuem, porém, uma pequena desvantagem: por desconhecerem o sexo, não são boas para a procriação. Assemelhando-se, nesse aspecto, aos pit bulls, quando castrados. Mas perdendo, em termos de prazer proporcionado ao dono, para o pastor alemão. Desde que este tenha as unhas aparadas, óbvio.

APÓLOGO

Publicado em 21/06/2007, às 02:59, por Marconi Leal


Rat

— Não acredito! E o que foi que ele disse?
— Ah, ele caminhou até onde eu tava, se virou pra mim e… Ele tava com aquela coceira, aquela coceira que dá na bunda, por conta do… Como é mesmo o nome daquilo?
— Furico?
— Não, o bichinho.
— Bichinho? O meu, eu chamo de furico.
— Não, o bichinho que motiva a coceira, cara. Aquele…
— Bichinho que dá coceira no furico… Pinto?
— Não, tem um nomezinho engraçado, assim… Óqui… óxi…
— Ah! É… Oxímoro!
— Não, se fosse oxímoro, a coceira não coçava. É parecido…
— Oxítona!
— Uf! A coceira é na oxítona, mas a palavra é proparoxítona.
— Oxiopia?
— Não, o olho do c… não enxerga tão bem assim.
— Oxidulado!
— Nesse caso, só se ele fosse um CDF, né? Além do mais, oxidulado é paroxítona. A coceira é oxi… oxi alguma coisa, rapaz… Bom, deixa pra lá, depois eu me lembro. O caso é que ele tava com esse oxi não sei das quantas aí e tava se coçando com um… Como é mesmo que chama o pau do japonês?
— Pequeno.
— O talher do japonês, aquele pauzinho de comer, mermão! É orra… orra…
— Meu!
— Muito engraçado.
— Orraio que o parta!
— Ha, ha, ha. Enfim, não lembro agora. Ele chegou se coçando com o pauzinho, veja você que nojeira. Do lado dele tava aquele irmão dele, lembra? Aquele… o… aquele que tem nome de general americano.
— Electric.
— O general herói da Segunda Guerra, cara, que era chamado de “Old Blood and Guts”. Aquele que tem até nome parecido com nome de ave…
— General Chicken!
— Não. Patton. Qual era mesmo o primeiro nome do general Patton?
— Você por acaso acha que eu batizei o general Patton?
— Pô, cara, é o mesmo prenome daquela escritora francesa…
— Simone.
— Não, a amante do compositor clássico… O que tem nome de bebida…
— Uiscóvski.
— Não, cara, Chopin. Ah, deixa, deixa pra lá. Chega! Não vou te contar mais nada!
— Tudo isso porque eu não tenho cultura?
— Tudo isso porque você não tem iniciativa! Eu faço de tudo e você nem liga!
— Faz de tudo? Como assim?
— Será que não percebeu que esse papo todo era só uma desculpa, que eu tava te dando bola?
— Por favor, volta aqui! Não faz isso!
— Já fiz, Mouse, já fiz! (sai)
— Volta! Só agora me dei conta! Dessa vez eu te aperto, Hiperlink!

ESTOU PARANDO DE FUMAR (5)

Publicado em 19/06/2007, às 04:19, por Marconi Leal


Fumar5

O efeito dos adesivos e dos chicletes acabou dentro de algumas horas, o que me fez cair numa depressão tão profunda quanto a de Raskolnikov. A ponto de ter baixado a coleção completa de Lupicínio Rodrigues pela internet para escutar, acompanhado do excelente vinho Sangue de Boi, safra 2005.

Por sorte, minha mulher tinha trazido da farmácia um estoque suficiente para me abastecer em caso de uma guerra nuclear, de maneira que logo me muni de mais alguns pacotes, chegando a compreender pela primeira vez, em sua inteireza, o que Rimbaud buscava para o desregramento de todos os sentidos: uma boa dose de nicotina.

Assim, durante cinco dias, com muita luta, não toquei absolutamente em nenhum cigarro. E me livrei do vício do fumo de maneira exemplar, substituindo-o por algo muito mais saudável: o vício de chicletes e adesivos de nicotina.

Quando sentia uma falta muito grande de fumaça, seguia recomendações médicas e descia de manhã para dar uma boa caminhada embaixo do prédio. Sempre aproveitando o momento em que um morador ligava o carro para me abaixar e dar uma boa cafungada no escapamento do automóvel. E, claro, desenvolvi o bom hábito de cheirar isqueiros ou, em momentos de maior tensão, beber o seu fluido.

Espírito empreendedor e inventivo, tentei ainda alguns substitutos ao fino que satisfaz, desenvolvendo um cigarro artesanal a partir da rúcula enrolada em tufos de alface ou do palmito recheado com couve. Projeto que não foi adiante devido, única e exclusivamente, à falta de incentivo do governo, da estreita visão do empresariado nacional e das queimaduras de segundo grau que tive nos dedos.

A partir do sexto dia, já percebia que minha saúde estava cem por cento melhor. Meus dentes pareciam mais brancos, meu hálito, ótimo, e digo mesmo que me sentia com um humor de sambista. Mais precisamente, do Jamelão.

Abro aqui um parêntesis para dizer a vocês que o preconceito é algo terrível. Imaginem que, nesse tempo, meus próprios amigos e familiares se afastaram de mim. Só porque, quando falavam comigo a respeito de qualquer coisa, eu sempre respondia a eles com uma leve tentativa de lhes arrancar o nariz a dentadas.

Sim, estava um pouco irritadiço e com os nervos descontrolados, mas nada muito grave. Afinal, convenhamos, quem é que nunca na vida tentou atirar a bicicleta ergométrica pela janela? Ou nunca chorou copiosamente ao assistir a um episódio especialmente emocionante de Chaves?

O certo é que, lá pelo décimo dia, já tinha gasto o dinheiro do mês inteiro com adesivos e chicletes, que já não faziam mais efeito. E me divertia com novos passatempos, que me distraíam do antigo hábito de fumar: meter a cabeça na parede, esmurrar portas e janelas, rasgar fronhas de travesseiros, fazer xixi no teto do banheiro etc.

Até que uma bela tarde, após ter passado o dia inteiro me dedicando a jogar futebol na sala, usando um balde de alumínio como bola e, dessa maneira, quebrado inadvertidamente um dos vasos de planta que formavam a baliza —, minha mulher se ajoelhou diante de mim, chorosa, e me pediu pelo amor do Nosso Senhor Jesus Cristo e em nome da nossa vida em comum que eu voltasse a fumar.

Como sou um homem de princípios, mas muito sensível à instituição do casamento e à fé, saí-me com uma decisão que foi um meio-termo. A partir de então, passei a fumar apenas quando bebo.
Assim, tudo se normalizou. Tornei a sorrir, meu organismo voltou a funcionar normalmente. E a boa notícia é que, já a partir da próxima semana, começarei meu tratamento contra o alcoolismo.

ESTOU PARANDO DE FUMAR (4)

Publicado em 18/06/2007, às 04:17, por Marconi Leal


Fumar4

Devidamente embalado para presente, apanhei então quatro caixinhas de chiclete de nicotina, abri-as e enfiei aquilo tudo na boca, o que me levou a meditar profundamente sobre o surpreendente nível de desenvolvimento a que chegou a tecnologia de nosso tempo, os avanços indescritíveis da civilização ocidental e a espantosa capacidade criadora do engenho humano.

Afinal de contas, ainda hoje me pergunto, abobado: mas meu Deus do céu, como é que os nossos cientistas conseguiram produzir algo mastigável a partir, tão-somente, do cocô de uma vaca? Porque, pelo sabor da goma de mascar, sem dúvida esta foi a matéria-prima utilizada em sua produção.

No entanto, como o carpete da sala fosse a última coisa que restava em casa minimamente assemelhada a comida, resignei-me, vesti minha roupa e voltei ao sofá, mascando os tabletes, fingindo não ouvir as risadinhas abafadas do maço de cigarros e sentindo uma imensa dificuldade para andar.

Isso porque um dos adesivos, que originalmente deveria ser colocado na virilha — talvez por vingança, talvez por um certo interesse em astronomia —, minha mulher acabou por colá-lo entre a coxa e partes flácidas, cabeludas e algo baloiçantes do meu corpo, de maneira que cada movimento das pernas provocava um puxão que me levava a um instrutivo passeio pela Via-Láctea.

Mas, por fim, consegui sentar-me e fiquei ali sem fazer nada nem pensar em coisa alguma. Ou seja, assistindo à televisão. E não sei bem se foi o programa da Luciana Gimenez ou se foi o efeito da nicotina no meu sangue, mas a verdade é que, em cerca de vinte minutos e através de um processo taumatúrgico ainda não catalogado, de repente me vi transformado no senador Eduardo Suplicy: estava absolutamente relaxado, não conseguia articular direito as palavras, tinha o raciocínio lento e uma irrefreável vontade de cantar “Blowin’ in the Wind”.

— Você tá bem? — perguntou minha mulher, meia hora depois, ao perceber que me contorcia, às gargalhadas, debruçado sobre o chão.
— As formigas, mulher… Ha! ha! ha! Ui! Eu morro…
— Ahn?
— As… as form… Hi! hi! hi! Ai, Jesus! As formig… formi… Quá, quá, quá!
— Qual o problema das formigas?
— Elas… elas… Hu! hu! hai! Ai! Antenas! He! he! hi!
— Quê?
— Antenas, mulher…
— Mas do que é que você tá falando?
— As formigas, elas têm antenas. Ha! ha! ha! Antenas! Hu! hu! Não é hilário?

Ela não achou. Aliás, pouco dada ao humor e a novas descobertas, nem ao menos sorriu quando eu, me estourando de rir, desvelei que a porta tinha trinco, o interruptor acendia a luz, a geladeira esfriava e tantas outras coisas igualmente risíveis e interessantes do gênero.

— Tu comeu maconha, foi? Vou te levar de volta pro hospital! — reagiu.

Mas, não lhe dei ouvidos. E só parei de gargalhar muito tempo depois. Quando, em minha científica atividade investigativa, descobri mais um fato curioso: que, sim, é possível levar choque ao enfiar a língua na tomada.

ESTOU PARANDO DE FUMAR (3)

Publicado em 17/06/2007, às 04:16, por Marconi Leal


Fumar3

Aos fumantes que me lêem e que, sendo acometidos qualquer dia destes de uma súbita enfermidade mental, decidam assim, de repente, parar de fumar, aconselho antes de mais nada a compra de correntes de ferro de tamanho razoável e bons cadeados.

Munidos então dos petrechos necessários, amarrem a geladeira, lacrem os armários de comida e joguem as chaves fora. Importante: resistam à tentação de comer as chaves. Mais importante: se engolirem as chaves, resistam à tentação de recuperá-las mais tarde.

Digo isso porque, não tendo obedecido a tão assazonado procedimento, em minha sanha devoradora, após saciar-me com uma caixa de fósforos inteira e papar, de sobremesa, o fundo de cinco canetas Bic, atirei-me contra a geladeira e os armários mais bravo que mil saldunes, ingerindo os alimentos de acordo com o profundo critério nutricional de Obelix.

A verdade é que, parcimonioso, separei os alimentos em duas categorias: quase tudo e o resto. De entrada, comi quase tudo. Em seguida, o prato principal. E informo aos senhores, pessoas pouco estudadas e nada afeitas às iguarias da nouvelle cuisine, que descobri combinações culinárias perfeitas e jamais testadas antes, como la crème de feijón geladô à la mayonnaise avec presunt, cebolá et banane.

E muitos outros pratos ainda teria inventado, para glória da culinária pátria e engrandecimento do meu Recife natal, se em cerca de duas horas, mais daninho que um gafanhoto egípcio, não houvesse feito passar através do meu esôfago tudo quanto havia dentro de casa para se comer — cabendo, evidentemente, nessa classificação, duas tampinhas de ketchup, seis caroços de azeitona e um pequeno tupperware.

Acabara de descobrir as delícias do picolé de carne crua congelada, quando minha mulher entrou na cozinha, em desespero:

— Cadê o meu bonsai?
— Ué? Sei lá de bonsai! Bonsai!
— Pelo amor de Deus, Marconi, não me diga que você comeu o meu bonsai! O meu bonsai tava aqui, em cima da pia!
— Um verdinho?… Com jeitão de brócolis?… Um cheirinho assim de ervas?… Algo crocante?…
— Chega! Vou acabar com isso agora!
E, falando assim, saiu de casa, furiosa como a Rainha da Noite, voltando minutos depois com uma sacola de farmácia cheia de pacotes de adesivos e chicletes de nicotina.
— Tó. Vê se agora tu resolve o teu problema — ordenou, me passando a sacola.
— Eu não vou usar isso! — protestei.
— Ah, vai! — decidiu.

E eu que, a exemplo do bom Quincas Borba em seus áureos tempos, sou louco mas ainda não perdi totalmente a lucidez, não discuti com minha amada consorte.

Enérgica, ela então me fez tirar a roupa e saiu colando adesivos por todo o meu corpo. Quando acabou, eu parecia uma caixa de Sedex.

ESTOU PARANDO DE FUMAR (2)

Publicado em 16/06/2007, às 04:14, por Marconi Leal


Fumar2

Como disse um grande sábio, o maior problema de parar de fumar é que a gente não pode fumar um cigarro para passar a tensão que a falta do cigarro provoca. E eu sou uma pessoa ligeiramente tensa. Tanto que só consigo relaxar e dormir após ler algo leve e divertido, como a “Crítica da Razão Pura” de Kant, por exemplo.

Mas, profundo conhecedor da milenar cultura brâmane, domino razoavelmente as técnicas da meditação: esvaziar a mente, não pensar em nada, deixar a cabeça oca. Ou seja, fingir que é a Narcisa Tamborindeguy. E foi isso o que me salvou durante a minha primeira hora de provação sem nicotina.

Tão-logo voltei do hospital, pus-me na posição da jaca (posto que, com a barriga que desenvolvi nos últimos tempos e minha fantástica elasticidade, só conseguiria ficar na posição do lótus com a ajuda de um guindaste e, infelizmente, nós não possuímos automóvel em casa), respirei fundo e iniciei a meditação macunaímica, uma variante que desenvolvi e em que, para maior comodidade, o asceta fica com um olho aberto e outro fechado.

De cima da mesa, o maço de cigarros me olhava sorrateiro e, certamente municiado pelos pérfidos ditos do espelho, juro que o ouvi cantar baixinho: “Free, sempre Free, eu sou Free demais”. Fingi que não era comigo. Ele insistiu:

— Uhm! Que fedor de oxigênio!

Continuei firme, repetindo o meu mantra: “a mercadoria é um fetiche, a mercadoria é um fetiche”.

E digo a vocês, com orgulho, meus caros camaradas, que passei incólume por aqueles primeiros sessenta minutos: sentindo os pulmões funcionarem a pleno vapor, uma sensível melhora no olfato, maior ânimo, boa disposição e uma enorme saudade das unhas das mãos.

Quando acabei de roer as unhas do pé e começava a arrancar tufos de pêlos das canelas com os dentes, vi que aquilo não podia continuar e, voltando a mim, parti para algo mais racional: comer palitos de fósforo. Aconselho os da Fiat Lux. São mais maleáveis e desmancham melhor ao contato da saliva. O maço de cigarros gargalhava.

Vencidas quatro horas de abstinência, eu já estava plenamente convicto de que a grande inspiração de Stevenson para escrever o Mr. Hyde havia sido parar de fumar e, ainda que agnóstico, já rezava a Deus com toda a devoção para que a menstruação viesse logo, pois tinha certeza de que estava com TPM.

Desenvolvi, aliás, durante esse período, uma tese que deixo aqui como incomensurável contribuição ao desenvolvimento do estudo da História: fosse o exército cartaginês composto apenas de ex-fumantes, estaríamos aprendendo a língua púnica até hoje nos colégios.

Quanto a mim, estava num tal estado de nervos que seria capaz de enfrentar um batalhão de espartanos usando apenas um canivete suíço. E ainda dava duas orelhas de vantagem.

ESTOU PARANDO DE FUMAR (1)

Publicado em 15/06/2007, às 04:11, por Marconi Leal


Fumar1

Pessoa com notório domínio sobre si e que, quando coloca uma coisa na cabeça, ninguém tira — estão aí meu dermatologista e sua luta vã contra a minha seborréia que não me deixam mentir —, decidi parar de fumar, mostrando assim para o meu corpo, de maneira definitiva, que só há uma pessoa no mundo capaz de mandar nele: minha mulher.

Tomei a sábia decisão há alguns meses, quando tive um acesso de asma tão violento que fez com que me sentisse um peixe no Rio dos Sinos. E não apenas pela luta para encontrar oxigênio, mas também pela compleição pálida e o olhar sensual de Naná Vasconcelos que adquiri.

Resoluto, logo após aquele incidente, que me levou ao hospital, arfando mais do que o Paulo Ricardo ao cantar música romântica, resolvi ter um grave diálogo diante do espelho:

— Vou parar de fumar — disse firme para ele que, cético, assobiava o Trenzinho Caipira.
— De novo? — riu o espelho, sarcástico e, provocador, passou a trautear o tema de Casablanca.
— Agora é sério.
— Sei. E volta quando?
— Tô falando que é sério. Por que você tá agindo assim?
— Puro reflexo.
— Mas pra que essa cara?
— É a única que você me oferece.
— Você podia ser mais compreensivo.
— E você podia perder uns quilinhos. Já viu como tá gordo?

.
Aqui ele começou a assobiar “Olha o passo do elefantinho”, sub-repticiamente.
.
— Estúpido! — reagi.
— !odipútsE — falou ele por fim, encerrando a discussão.

Depois desta altercação, decidi imediatamente fazer três coisas. Primeiro, jamais me rebaixar novamente e conversar com um móvel — exceção feita, talvez, à televisão, e ainda assim só para xingar o Carlos Nascimento. Segundo, parar de fumar, custasse o que custasse. Terceiro: perder uns quilinhos, pois o canalha do espelho estava certo.

Comecei pelo mais difícil que, no meu caso, era evitar falar com seres inanimados. Mas a decisão foi por água abaixo quando um exemplar do Aurélio caiu de cima da prateleira do quarto sobre o dedo mínimo do meu pé esquerdo, o que me obrigou a xingar a ascendência completa do ilustre dicionarista, usando palavrões em ordem alfabética e seguindo as normas da ABNT.

Para ganhar tempo, parti então para a segunda alternativa, que era emagrecer. Mas desisti, após dez dias de hercúleos esforços, ao perceber que a única maneira de perder peso seria amputando uma das pernas. E como deixei de ser fã do Roberto Carlos desde a música das gordinhas, abdiquei do plano.Restou então parar de fumar. Reuni, assim, todas as minhas forças e me entreguei de corpo e alma a este novo vício.

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