O Pensador Selvagem  |  Blogs  |  Busca

PREFIXOS QUE CAEM NA BOCA DO POVO

Publicado em 31/08/2007, às 05:57, por Marconi Leal


Para

— E então, doutor?
— Bem, nós fizemos o que pudemos, mas…
— Não, não, por tudo o que há de mais sagrado, doutor, não me diga que o Aurélio está morto!
— Não, não morreu.
— Graças a Deus!
— Mas, infelizmente, ficou paravivo…

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— E aí, bicho? Fala!
— Bom, aí nós finalmente ficamos sozinhos.
— E rolou?
— Quase.
— Putz! Isso quer dizer o quê?
— Parassexo.

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— Como é que é? Não tenho direito à restituição?
— Tecnicamente, não.
— Quer dizer que quarenta por cento de tudo o que eu ganhei esse ano ficou pro governo?
— Uhm-hum, tecnicamente.
— Mas isso é um assalto!
— A senhora me desculpe, mas o termo técnico é pararroubo.

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— Então, Vossa Senhoria admite que esteve no escritório do ministro?
— Algumas vezes, Excelência. Apenas para fazermos sexo ou pra eu usar a escova de dente dele. Mas não o conheço pessoalmente.
— E a depoente quer que esta comissão acredite que isso é verdade?
— Sim, é a mais pura paraverdade, Excelência.

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— Maurício…
— Sim?
— Eu preciso te contar uma coisa.
— Que foi, mulher? Que cara é essa? Diz logo!
— Você precisa ser forte, Maurício.
— Ai, meu Pai, fala de uma vez, tô ficando preocupado!
— A verdade é que… (suspira) Maurício, o Ricardinho é teu parafilho!

BEST-SELLERS (2)

Publicado em 30/08/2007, às 08:15, por Marconi Leal


Bestsellers2

— Olha aí, Veronika decidiu morrer.
— Putz! Será que a gente pode fazer alguma coisa pra ajudar?
— Comprar cicuta.

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— Restaram quantos?
— Segundo dizem, só o porteiro e o José Sarney.
— O José Sarney saiu vivo?
— Uhm-hum.
— Maldito Jô Soares!

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— Lançaram uma segunda edição de “Casais Inteligentes Enriquecem Juntos”.
— Ha! E se chama como?
— “Casais Inteligentes não Lêem Esse Tipo de Livro.”

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— Vou numa expedição.
— Pra onde?
— Pra Cidade do Sol.
— De férias?
— Nada, a trabalho… Procurar sinais de vida inteligente.

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— Sabia que mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer.
— Que foi?
— O caçador de pipas.
— Que é que tem?
— Morreu eletrocutado.

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— Me contaram o segredo.
— A mim também.
— Desse jeito, vão contar pra todo mundo, não vai ter mais segredo.
— Ainda bem.

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— Pegaram o ladrão?
— Pegaram, acabei de receber a notícia.
— E o queijo?
— Meio mordido, mas ainda dá pra comer.
— Que bom. O sujeito tá preso?
— Não, furto famélico. Mas o autor pegou pena de morte.

BEST-SELLERS

Publicado em 28/08/2007, às 03:36, por Marconi Leal


Bestsellers

— Não acredito! Arrancaram as tripas dele?
— Arrancaram.
— Quem fez uma barbaridade dessa?
— Um anarquista, parece.
— Que crueldade! Pra que arrancar as tripas do monge, meu Deus?
— Pra enforcar o executivo.

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— Mas isso é uma piada!
— Que foi que houve?
— A lei da atração.
— Que é que tem?
— Acaba de ser revogada…

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— Ha, ha! Essa foi ótima!
— Que foi que tás rindo sozinho aí?
— Não tem aquele cara que transformava suor em ouro?
— Tem.
— Lê aqui: morreu de desidratação!

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— Mentira!
— Sério. Juro por Deus.
— Duvido, ele não faria isso.
— Tô falando…
— Tá, tudo bem. Então me diga: quando Nietzsche chorou?
— Parece que foi lendo um best-seller que lançaram aí com o nome dele, não sei.

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— Tá ligado no guardião de memórias?
— Claro, claro.
— Pois então, não é que o cara tá com Alzheimer, rapaz?

DOMINGO NO IBIRAPUERA

Publicado em 27/08/2007, às 03:07, por Marconi Leal


Culturando

Caros patriotas, a crônica de hoje está lá no Culturando.com, o único site brasileiro inteiramente voltado para pessoas como eu, financeiramente prejudicadas, uma vez que traz toda a programação gratuita ou a preços populares desta esquisita cidade de São Paulo.

Passem por lá e confiram “Domingo no Ibirapuera”, com enredo que se passa nessa que é a primeira praia sem mar de todo o Hemisfério Sul, da América, num claro instante. Será? Impávido que nem Muhammad Ali. Será que eu… Desculpem. É que esse Caetano arrepia los pelos de mi culo.

Leiam aqui, por obséquio. E passem bem. Ou não.

DIÁLOGOS GREGOS

Publicado em 24/08/2007, às 06:05, por Marconi Leal


Dialogos

— Ela me trocou por um medo besta.
— As mulheres são assim mesmo, covardes.
— Covardes?
— É, cheias de temores tolos.
— Que se danem os temores, rapaz. Eu não queria era ser trocado por um persa!

……………………………….

— Aquele cara já foi Safo.
— Pois pra mim ele nunca passou de uma toupeira.
— Não, não, já foi Safo, a poetisa.
— Pô, cara, lá vem você com esse papo de transmigração das almas de novo!

……………………………….

— Que cara é essa? Por que cê tá assim, Eurípides?
— Bicho, não queira nem saber. Minha vida é uma tragédia!

……………………………….

— Isso são horas? Meia-noite e você na rua, pelos banquetes da vida! Pode me dizer ao menos onde é que o senhor estava?
— Zó zei… hic… que nada zei, Jantipa.

……………………………….

— Dá pra apagar a luz?
— Não.
— Por Zeus! Eu quero dormir!
— Psss. Tô à procura de um homem virtuoso, mulher.

……………………………….

— Muito bem, pessoal, são milhares contra milhares. Quem conseguir pegar a mulher primeiro, vence.
— Então, é isso aí. Que vença o melhor.
— Digo o mesmo. Só mais uma coisa: não vale flechada por trás.
— Combinado.

……………………………….

— Uhm… Que ombros largos!
— Você ainda não viu nada, neném.
— Ai, gostoso! Sou toda tua!
— Tira essa roupa que eu vou te levar do mundo sensível ao inteligível, já, já!

……………………………….

Era virgem, não é mais.
— Perdeu a virgindade?
— E a vida.
— Ué, mas quem comeu ela, afinal?
— O Minotauro…

CLÁSSICO DOS CLÁSSICOS

Publicado em 23/08/2007, às 06:28, por Marconi Leal


Greciatroia

— Muito bem, Homero, estamos aqui com o arqueiro da equipe de Tróia, Heitor. E então, Heitor, os troianos estão preparados para o embate?
— Olha, Heródoto, é aquela coisa, a guerra é uma caixinha de Pandora de surpresas e, se Zeus quiser, nós vamos derrotar os aquivos de grevas bem-feitas.
— Então vocês acham que ganham a pelada?
— Com certeza. Se Zeus, Afrodite e Apolo quiserem e a de olhos glaucos, Atena, e Poseidon não atrapalharem, a pelada vai ficar com meu irmão, Páris.
— Você arriscaria um placar?
— Veja bem, se nós sairmos na frente nos primeiros cinco anos, acho que vamos para o intervalo com uma boa vantagem. Os gregos tão muito confiantes, mas acho que eles vão cair do cavalo.
— Obrigado, Heitor. É com você Xenofonte!
— Bem, Heródoto, eu estou ao lado do principal atacante a carregar o escudo dos aquivos de grevas bem-feitas, Aquiles. Aquiles, parece que houve desentendimentos entre você e a comissão técnica, você teria discutido com o treinador Agamenon. É verdade?
— Bom, Xeno, eu acho que esse é um assunto extracampo de batalha. O importante é que a equipe tá imbuída e determinada e todos os holocaustos foram feitos.
— Você está plenamente recuperado da contusão?
— Cem por cento. O calcanhar não será problema.
— E o jogo? Vai ser complicado, não?
— Com certeza. O professor Príamo armou muito bem a defesa troiana. Acho que vai ser muito difícil atravessar a muralha adversária. Mas com fé em Zeus e Hera, e o apoio da de olhos glaucos, Atena, acho que a gente pode penetrar no flanco adversário e sair daqui com a loura da vitória.
— É isso aí, Homero, confiança total do lado grego!
— Ok, vocês ouviram aí o trabalho do Heródoto e do Xenofonte. Lembramos sempre que essa transmissão é um oferecimento dos Elmos Leônidas. Não tente tapar o sol com uma chuva de flechas: só Leônidas fabrica os melhores elmos do mercado. Inseguro diante dos medos? Os Elmos Leônidas são a solução. Agora também com filial na Trácia. Muito bem, está tudo preparado para o início do certame. E aí, Sócrates, o que é que você espera do conflito de logo mais?
— Boa noite Homero, boa noite amigos. É, Homero, eu acho que a questão fundamental a ser respondida aqui, hoje e desde sempre, é a seguinte: o que é “conflito”?
— Como? Que você quer dizer? Falo do embate de logo mais.
— E o que seria um embate?
— Ora, o conflito, o choque entre os dois times, é a esse embate que me refiro, Sócrates.
— Veja que você usou três termos para designar uma mesma circunstância: “conflito”, “choque” e “embate”. Agora me responda: usam-se três nomes para designar uma romã?
— Não, claro que não. Uma romã é uma romã.
— E um cacho de uvas é um cacho de uvas apenas e não é denominado de nenhuma outra forma? Ou podemos chamar um cacho de uvas de cacho de azeitonas ou cacho de pêssegos?
— Não, um cacho de uvas é um cacho de uvas, por Zeus!
— Da mesma maneira, há dois vocábulos para nomear uma amora ou para indicar uma tâmara?
— Claro que não.
— Então você diria que é certo designarmos um mesmo…
— Muito bem, vocês ouviram aí o Sócrates, que anda meio cético quanto aos rumos da partida. E você, Aristóteles? Qual a sua expectativa?
— Trata-se de um embate importantíssimo, mas ainda não arriscaria fazer uma análise metódica. O fato é que quem perder vai para o Hades mais cedo. Olha aí, Homero, foram feitas as libações. Começou a partida.
— Ok, amigos do mundo pagão, comeeeeça a partida! Lá vão os… os… Quem é que tá atacando, hein? Musas! Cadê as musas? Chamem as musas aí pra mim! Por Zeus, alguém me ajude! Eu não enxergo!

HOSPITAL DE LETRAS

Publicado em 22/08/2007, às 03:08, por Marconi Leal


Hospital

— Tá vendo aquele ali de saída? Acaba de se recuperar de um profundo surto de Clarice Lispector. Passou dois meses escrevendo só frases interrompidas pelo meio, palavras jogadas no período ao acaso, frustradas tentativas de fazer prosa poética…
— Coitado. E se curou como?
— Classicoterapia. Autores greco-romanos de duas em duas horas.
— E aquele ali, meu Deus?
— O de ombros caídos?
— É. Como ele tem as costas tortas!
— De tanto carregar palavras-valise. Vê o que está ao seu lado, no banco?
— Qual? O que tá dando banana e cuspindo no enfermeiro?
— Sim. Apanhou uma hilstite aguda. A cada três palavras, agora, emenda um palavrão.
— Nossa! Esse aqui parece popular, hein? Por que é que tem tanta gente ao redor dele com gravador na mão?
— Ah, é que o pobre sofre de cortazarianismo crônico. O que ele diz pode ser entendido de vários modos: de trás pra frente, eliminando-se frases, decompondo-se outras. Então os residentes vão gravando a conversa pra poder enten…
— Ai, meu Deus! Qu-que… que… é isso?
— Bem, aí se trata de um caso típico de doença de Borges.
— Ma-mas esses… esses pêlos? E esses…
— Chifres. É isso mesmo. Ele pensa que é o Minotauro. Opa, cuidado!
— Qu-que foi? Ele morde?
— Só se você entrar no labirinto. Os atacados pela moléstia acham que são faunos, semideuses, deputados honestos e outras criaturas mitológicas. Mês passado havia um de diagnose mais difícil. Achava que era um livro.
— Livro?
— De areia, ainda por cima.
— Morreu?
— Morreu num acidente. Caiu no chão e se desfez. Veja ali, aquele outro.
— Não acredito! Ele tá voando!
— Ué, nunca viu? Uma juliverneção relativamente passageira. Em cinco anos estará curado.
— Mas como?
— A gente faz o doente cursar Administração ou Direito e o excesso de imaginação e criatividade é estancado.
— Não me fale nada! Aquele lá que tá com os pés e as mãos no chão, zurrando e desferindo coices, sofre de esopismo ou lobatismo, não é? Deve imaginar que é o próprio Burro Falante!
— Não, não. Aquele ali acha que é escritor brasileiro do século 21 mesmo. E então, satisfeito?
— Puxa vida, muito obrigado por me permitir a visita, professor. Agora, só mais uma coisa que me intriga. Não olhe agora, não, mas… Esse daqui, ó, à direita. Desde que a gente chegou, ele tá de pé, parado, num canto da ala. Todo mundo sentado, apenas ele não senta, de jeito nenhum. E tem um monte de cadeira vazia!
— Ah, aí é mais delicado… Ele não é interno, é um visitante.
— E não senta por quê?
— Err… (constrangido, sussurrando) Mal de Wilde.

REGRA NÚMERO UM

Publicado em 21/08/2007, às 04:00, por Marconi Leal


Regraum

— Você é como a lua, amor.
— Gorda?
— Não. Clara e…
— Fria.
— Não, não.
— Você me acha pálida?
— Não!
— Então, acha que eu uso muito pó, só pode.
— Nada disso!
— Sou frívola, sem gravidade?
— Não, não, mas é claro que não.
— Minha pele é esburacada?
— Esquece. Jamais deveria ter te comparado à lua, foi uma indelicadeza minha. Você mais se parece com o sol.
— Cheeeia de estrias…
— Nããão! Tem luz própria e…
— Vivo dando voltas por aí?
— De jeito nenhum! Esquece o sol. Bobagem minha. Você… você é um cometa.
— Sabia! É a minha bunda, né? Muito grande.
— Bun… Não é nada disso, querida. Você é um cometa, porque…
— Posso causar grandes estragos, eu sei.
— Que é isso! O cometa é um astro de muita beleza, considerável grandeza e…
— Você nunca tinha reclamado de minha altura antes…
— Como? Eu… nunc… Não, não, pelo amor de Deus, não se trata disso! Me desculpa, não fica assim, bobagem minha. Não vou te comparar a nada mais no céu, tudo bem?
— Por quê? Você acha que eu não mereço?
— Claro que merece, mas é que… Tá, já sei. Você é como uma chuva refrescante na primavera, que tal?
— Como água, portanto: incolor, insípida e inodora.
— Não! Refrescante e…
— Passageira, fugaz, um evento sem maior importância.
— Meu amor, não é nada disso! Como poderia dizer que você é inodora?
— Tinha certeza que você ia fazer isso, mais cedo ou mais tarde.
— Isso? Isso o quê?
— Passar na minha cara, com ironia, que eu transpiro quando fico nervosa.
— Quê? Ora, só tava tentando…
— Dizer que não me ama mais. Suspeitava que todo esse preâmbulo era pra isso. Pois muito bem, saiba que…
— Não é verdade! Meu bem, minha querida, eu te amo! Te amo muito! Te amo mais do que você mesma se ama, se isso é possível!
— Então não tenho auto-estima, agora? Ou, pelo contrário, você acha que eu sou uma ególatra?
— Chega! Pára! Esquece, esquece tudo o que eu disse. E me perdoa. Não fiz por querer, mas sei que a culpa foi minha. Violei a regra número um de nosso casamento.
— Carinho, respeito mútuo e atenção?
— Não, evitar analogias quando você tá de TPM.

DEVOLUÇÃO

Publicado em 20/08/2007, às 04:59, por Marconi Leal


Devolucao

— Pois não, em que podemos ir estar ajudando o senhor?
— É uma devolução, minha filha.
— Qual o seu nome, senhor, para eu poder estar registrando a sua queixa?
— Bom, aí depende. A senhora é católica ou protestante?
— Como, senhor? Eu não vou poder estar lhe fornecendo essa resposta, senhor.
— Tá, tá. Bota aí Tinhoso Cafute.
— O senhor tem o número de assinante, senhor?
— Número de ass…? Minha filha, eu sou da concorrência, você acha que eu seria assinante?
— Tudo bem, senhor. Então o senhor poderia estar me fornecendo o número do seu RG?
— Dois.
— Como?
— Dois.
— Dois, dois… Pode continuar, senhor.
— Dois, já disse.
— Dois, dois, dois? E qual estaria sendo o resto, senhor?
— Só o número dois, um dígito, minha querida!
— Senhor, esse RG, segundo o sistema, vai estar sendo inexistente.
— Claro, coisa dos tempos que correm. O sistema é laico. Ninguém mais dá bola pro velho e bom maniqueísmo.
— Como, senhor? O senhor poderia estar me fornecendo o órgão emissor?
— Órgão emissor? Emissor de quê? Se for de gases intestinais, não posso estar fornecendo a ninguém, não! Sou macho, tá me ouvindo? Macho!
— Desculpe, senhor, mas eu não tô estando entendendo. O senhor poderia estar repetindo?
— Olha, querida, eu pensei que tinha conseguido inventar o cúmulo da crueldade com meus caldeirões ferventes, enxofre, correntes e tal, mas vejo que vocês criaram suplício muito maior com essa coisa de telemarketing. Parabéns. Agora, por favor, será que eu posso falar com São Pedro ou algum outro santo?
— Um minuto, senhor. Eu vou estar transferindo o senhor para o setor responsável. (música de espera)
— Transfe… Não! Für Elise de novo, não, pelo amor d’Aquele Sujeito! Por… Droga, droga, maldito Beethoven! Bater nos ouvidos foi pouco! Eu devia ter feito o pai furar os olhos dele!
(dez minutos depois) Alô?
— Alô!
— Departamento de Hagiografia e Angelologia. Com quem eu vou estar falando?
— Você eu não sei, minha filha, agora eu vou estar falando com São Pedro, São Paulo ou algum outro superior seu, caso contrário vou mandar uma praga que vai afetar sua descendência até o último zigoto, tá me ouvindo?
— Desculpe, senhor, mas para rogar praga contra atendente não é conosco, vou estar transferindo o senhor para o setor responsável. (música de espera)
— Nãããão! Ai, não acredito que tô escutando essa música pela décima oitava vez! Meu Barbudo! Será possível que eles não têm Wagner ou algum outro compositor anti-semita?!
(vinte minutos depois, gravação) Você está no setor de Insulto, Injúria e Praguejamento. Para soltar um palavrão relativo à vida sexual dissoluta de uma de nossas atendentes, disque 1. Para insultar sua genitora no que tange à infidelidade conjugal, disque 2. Para emitir turpilóquio que atinja a honra de seu pai, disque 3. Para fazê-la passar uma hora escutando a versão traduzida de uma música da Britney Spears interpretada pela Alcione, disque 4. Para xingar o Beethoven ou a Elise que o inspirou, disque 5. Ou aguarde, rezando cem ave-marias e cinqüenta pais-nossos com bastante fé, que, se Deus quiser, uma de nossas funcionárias irá atendê-lo.
— Ah, vá pro anjo que a carregue! (desliga) Isso é um verdadeiro céu! Se a gente tenta o telefone, não consegue falar com ninguém. Se manda e-mail, eles vendem nosso cadastro e a gente começa a receber spam com ofertas de hóstias, cintos de castidade, cilícios etc. Não dá! Assim vou mesmo acabar tendo que ficar com o ACM!

A COVA

Publicado em 17/08/2007, às 03:03, por Marconi Leal


Acova

— Que é que tu tá olhando pra mim assim?
— Eu? Nada!
— Como nada? Há duas horas tu tá aí, olhando pra alguma coisa no meu rosto, nem me deixa ler o jornal direito! Que foi que houve?
— Não, não, é só que…
— O quê?
— Bom, eu nunca tinha reparado nessa… esse… Você sempre teve essa covinha no queixo?
— Não, fiz ontem. Cavei com uma chave de fenda.
— Sério?
— Claro que não, né? Sempre tive uma cova no queixo! Tá maluca?
— Tem certeza?
— Olha, pra falar a verdade, eu tô meio em dúvida. Afinal, são só cinqüenta anos que eu me olho diariamente no espelho, de maneira que posso estar me confundindo um pouco.
— Não, tudo bem. Eu me lembro que você tinha uma cova. Mas essa daí é a sua mesmo?
— Peraí… Ah! Meu Deus, como eu sou idiota!
— Que foi?
— Agora é que eu me lembrei!
— Fala! Que foi?
— É que ontem o vizinho tava precisando de um umbigo sobressalente e, pra ser gentil, eu acabei emprestando o meu. Em troca, ele me deixou a cova de queixo dele. Foi isso. Tá explicado.
— Eu tô falando sério. Mesmo. Não me lembro dessa cova no teu queixo. Pelo menos, não assim.
— É, não sei. Talvez seja uma cova perdida. Ou órfã. Outro dia até vi uma campanha tocante na TV sobre a adoção de covas de queixo. Cê sabe que a maioria das pessoas só aceita adotar uma cova cônica ou cúbica, sem estrias, e deixam as covas irregulares e enrugadas para trás? Um absurdo!
— Pode ironizar à vontade. Mas o certo é que eu… Posso tocar?
— Com cuidado, faz favor. Elas às vezes ficam agressivas. Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de cinco por cento das internações por perda de dedo são motivadas pelas covas de queixo assassinas.
— Estranho… Ela era mesmo exatamente assim?
— Não, não. Como toda cova de queixo, ela iniciou a carreira como um simples poro. Com o tempo, ascendeu a cravo e, subindo na hierarquia dos orifícios, após árduo trabalho, chegou a cova de bochecha e, finalmente, a cova de queixo. Mas o sonho dela é mesmo chegar a ser um c…
— Epa, olha os modos! Não se pode mais manter uma conversa adulta nessa casa? Olha, podia jurar que mês passado isso… essa… esse… a cova não tava aí. Ela sempre se localizou nesse exato ponto?
— Claro que não. Você nunca ouviu falar das correntes migratórias das covas de queixo? No inverno elas retornam às coxas, onde nasceram, para fugir do frio. Vem cá, por que é que tu tá fazendo essa cara de nojo, hein?
— Eu? Cara? Não, nada… Nojo? Uhm-uhm. (após alguns minutos em silêncio) Olha, Cova, digo, olha, Augusto, eu andei pensando e… acho que a gente precisa dar um tempo no casamento.
(baixa o jornal, impaciente) Jesus Cristo! Tudo isso por conta de uma cova, Joana?
— Hoje uma cova, amanhã uma amante. Não dá. Não posso mais confiar em você.

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