NINGUÉM SEGURA A JUVENTUDE DO BRASIL (CONVERSA TELEFÔNICA NO ANO DOIS MIL DUZENTOS E ALDOUS HUXLEY)
— Não me diga que o Pedro veio com aquela história de amor de novo?
— Não, que nada. Ele já esqueceu isso. Depois de todos esses anos, vir falar de um relacionamento baseado em sentimentos era demais pra mim! Ele agora tá é com mania de casamento.
— Casamento? Que é isso?
— Não sei, mas deve envolver algum tipo de prática sexual heterodoxa, como enfiar o pênis na vagina ou coisa parecida.
— Eca!
— Pois é. Andei vendo sobre o assunto. A coisa envolve até um ritual medieval, com um sujeito chamado patre ou padre, uma coisa assim.
— Ah, então é um ménage. Menos mal.
— Não, não, parece que o padre é só pra oficializar a coisa em nome de um tal de Beus.
— E quem é esse? O amante do homem ou da mulher?
— Nada. Amante é coisa proibida nisso de casar.
— Não!
— Sim. Esse Beus, diz que é uma entidade sobrenatural em que os antigos acreditavam. Sei lá.
— Que nem o Estado quando existia?
— Mais poderoso.
— Que nem o Antônio Ermírio então?
— Talvez. Mas não sei se era um ser eterno como ele, acho que não. O Pedro é que entende direito dessas coisas. Agora ele resolveu estudar filosofia e literatura.
— Isso é como falar português pra mim. Que danado é filosofia e letratura, Matilde?
— Literatura. Aí cê me pegou. Só sei que eram umas disciplinas da antiga faculdade de Humanas.
— Nunca ouvi falar dessa faculdade. Ficava perto da Uninove?
— Ah, não sei. Aliás, por que que a gente tá falando disso? Te liguei pra dizer que a Lucinha tá ficando.
— Mentira! Também, cá pra nós, já não era sem tempo. Ela já tá com o quê? Sete anos?
— Seis. Ontem eles vieram fazer sexo aqui em casa.
— E aí? Você aprovou o rapaz?
— Você não vai acreditar! Sabe quem é ele? O Otonielson Jr.!
— Otonielson Jr.? O compositor? Aquele que fez aquela música: “A, B, C”? (cantando) “A, B, C. C, B, A. A,C, B. B, A, C”…
— Ele mesmo! Tá estourando nas paradas de sucesso e tem sido muito elogiado pelos críticos da APCA depois que compôs a primeira música com um único acorde da história.
— Aquela que faz tum-tam-tem?
— Não, ele não é compositor clássico, Regina. A música faz “tum”. Só “tum”. Um “tum” lindo, por sinal. Ai, tô tão orguhosa da Lucinha, nem te falo!
— Eu imagino. Que se pode esperar de nossas filhas senão que transem com um sujeito rico e famoso? Eu é que não dou sorte. A Ana Amélia só fica com gente de estudo.
— Mas eu também tô meio nervosa. Não sei se é um relacionamento desses duradouros, que chegam a uma, até duas semanas, sabe?
— Mas por quê?
— Ah, o nível dele é muito alto pra Lucinha.
— Financeiro?
— Intelectual. Imagine que ele acabou de completar dez anos e já tem um vocabulário de trinta e cinco palavras!
— Nossa! Deve ter um QI de 50 pontos, então.
— No mínimo.
— É, menina. Essa juventude de hoje é fogo…









