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NO CORREDOR

Publicado em 29/11/2007, às 02:37, por Marconi Leal


Corredor

— Ai, meu pé!
— Você diz isso por preconceito.
— Como? Você pisou no meu pé, Armina!
— Tudo bem. Mas precisava reagir desse jeito?
— Você preferia que eu dissesse “uh”, por acaso? Uh, continua doendo! Foi bem no ded…
— Não é o “ai”, Botero, é a maneira como você fala.
— Que é que você disse? Ai, digo, uh, essa agora foi…
— Eu disse que esse seu “ai” tá carregado de preconceito sexual.
— Se tem uma coisa contra a qual não tenho preconceito é sexo, Armina. Pelo contrário, gosto muito. Você é que às vezes…
— Preconceito contra o sexo! Machismo! Você é contra o meu sexo!
— Se é o que eu prefiro!
— Olha a brincadeira. Tô falando sério. Através desse seu “ai” se vê toda a sua misoginia.
— Duvido.
— Pois saiba que é verdade.
— Não, duvido que você saiba o significado de misoginia.
— Isso, brinca, vai brincando.
— Armina, pelo amor de Deus, Armina, eu não acredito que você… Essa agora, a pessoa inferir uma série de… Pfff.
— Olha aí!
— Ahn?
— Esse seu “pfff”, Botero. É disso que venho falando. Dessa sua dificuldade para aceitar o outro.
— Que outro? Fala, Armina! Tem alguma coisa que você quer me contar?
— O outro, a alternativa, Botero. Isso tem tudo a ver com a sua criação.
— Não bota a mãe no meio que eu boto no meio da sua.
— Quanta maturidade!
— Tudo bem, Armina, prometo que da próxima vez eu uso uma interjeição nova no lugar de “pfff”. Quem sabe “splectpei” ou coisa do tipo. Agora, por favor, será que eu posso passar pra cozinha pra pegar gelo e evitar que meu dedão fique igual ao busto do Marco Maciel? Puxa!
— Incrível.
— Que foi, agora? O “puxa”? Vai implicar com meu “puxa”? Vai me dizer o quê? Que ele demonstra todo o meu desprezo pelos manetas?
— Seu desprezo pelo diferente, Botero.
— Entendo. Já você tem amor ao igual, né? Por exemplo, quer que meu dedão fique igual ao joelho. Será que dá pra sair da frente?
— Sinceramente.
— Putz!
— Olha aí!
— Sai.
— Não.
— Armina, eu… Uaia! Uaia! Você pisou no meu dedão de novo!
— Uaia, não, hein? Uaia, não!

LUTA DE CLASSES NA VILA MADALENA

Publicado em 28/11/2007, às 02:33, por Marconi Leal


Correggio MadalenaA crônica de hoje se encontra no Culturando.com, site que tem toda a programação gratuita ou a preços marconianos de São Paulo. Para lê-la, clique aqui.

Para não lê-la, clique aqui. Ou aguarde na linha dizendo Für Elise bem alto que um dos nossos funcionários irá atendê-lo.

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (7)

Publicado em 27/11/2007, às 02:11, por Marconi Leal


Subpensamento7
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Tudo bem que na República de Platão não havia poetas. Mas também não havia jornalistas.

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Lulistas e antilulistas têm pelo menos uma coisa em comum: a fé.

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O Ministério Público é a salvação da pátria. Desde que persiga apenas nossos inimigos.

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Como assim não dou amor ao próximo? Por acaso você conhece alguém que esteja mais perto de mim do que eu mesmo, minha filha?
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Existe apenas um tipo mais americano que o próprio estadunidense: o brasileiro em férias nos Estados Unidos.

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Se fosse você teria mais cuidado comigo, beibe. Sabe com quem está falando? Eu sofro de complexo de inferioridade!

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Se não entender uma obra, chame o artista de “gênio”. É mais fácil. Você não passa vexame e o autor sempre acredita.

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Se tem uma passagem bíblica com que não posso concordar é aquela que afirma estarem salvos os pobres de espírito. Não caberia tanta gente no Céu.
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Dize com quem andas e te direi: “Grande coisa!”

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O mundo é habitado por três tipos de pessoas: as que fazem amizades ou inimizades por razões ideológicas, as que assumem ideologias em função de amizades ou inimizades e as adultas.

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A exemplo do papa, só aceito o aborto se for espontâneo. Ninguém deve forçar a mãe a ir à clínica sem que ela queira.
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O MITO DA CRIAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DE UM PETISTA

Publicado em 26/11/2007, às 04:20, por Marconi Leal


Marx

No princípio era a mais-valia e Marx disse:

— Que la assemblée soit!

Porque vinha numa péssima tradução francesa. E ninguém entendeu, já que o lumpemproletariado estava falando muito alto e poucos dominavam o idioma.

E Marx impacientou-se:

— Ach! Hágase la cita, carajo!

E todos correram ao dicionário português-espanhol, mas a consulta demorou um pouco, pois houve alguma discussão sobre se a ordem alfabética deveria ser respeitada ou segui-la seria um passo neoliberal.

Ao que Marx gritou:

— Fiat lux! Fiat lux!

E lhe trouxeram uma caixa de fósforos.

E Marx suspirou e catou dois piolhos da barba para se acalmar. E em seguida, no escuro mesmo, fez uma parede. E separou uma parede da outra e ambas do teto. E, após alguma deliberação, fez o sindicato e achou bom. E foi este o milésimo primeiro dia da criação.

— Agorra, o luiz, porrr favorrr.

E lhe trouxeram o Lula. E Lula disse:

— Nunca antes na história desse país.

E Marx irritou-se:

— O luiz, apertem o interruptorr porr amorr de… do… Light! Turn the light on! Now! I’m loosing my opium of the people!

E fizeram circular uma ata de presença. E houve assinaturas. E após alguma exposição de argumentos, finalmente se fez uma segunda ata. E houve novas assinaturas. E a Comissão Encarregada de Julgar a Validade das Rubricas procedeu a algum debate, depois do qual iniciou conversações tendo em vista estabelecer regras claras para o exame daquelas. Comprovada a autenticidade das mesmas, fez-se uma ata. E após alguma troca de idéias, fez-se uma segunda ata corroborando a primeira. E os membros da Comissão Imbuída da Tarefa de Validação das Assinaturas da Comissão Encarregada de Julgar a Validade das Rubricas procederam a alguma excogitação. E lavrou-se uma ata. E a Comissão com a Atribuição de Revalidação das Assinaturas da Comissão Encarregada da Validação das Assinaturas da Comissão Encarregada de Julgar a Validade das Rubricas se reuniu. E foi este o bilionésimo segundo dia da criação.

E Marx, para conter a raiva, deu dois cascudos em Engels. E depois, desistindo de vez do homem, criou o marxismo vulgar. E para puni-lo por sua insubmissão, fez a língua presa e acrescentou mais quinhentas páginas a “O Capital”.

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LUGAR COMUM (TEXTO FEITO SOB MEDIDA PARA SER COPIADO, COLADO E ENVIADO POR E-MAIL COM ASSINATURA DO VERISSIMO)

Publicado em 22/11/2007, às 12:08, por Marconi Leal


Lugarcomum

Astafânio Carlos sempre foi uma figura tão macavenca que, ao nascer, em vez de chorar, ele olhou para o médico e ameaçou:

— Se tocar em mim, recorro ao Estatuto da Criança e do Adolescente, hein?

No colégio, enquanto todos os meninos seguravam a bolinha de gude entre o indicador e o polegar, ele a atirava pressionando o mínimo da mão esquerda sobre o médio da direita, e gritava:

— Curucucu, curucucu!

No futebol, rolava no chão às gargalhadas ao ver seu time perder um gol.

Mais tarde, quando passou no vestibular para o bacharelado em Espinografia Retrativa Infotérmica, os colegas de faculdade sofreram para convencê-lo de que deixariam de sair com ele caso continuasse a tomar cerveja na palma das mãos e, principalmente, a comer o tira-gosto lançando a língua diretamente no prato.

— Posso usar os cotovelos? — apelou.

Ao contrário dos outros, Astafânio Carlos aprendeu a tocar violão. Quando pediam Legião Urbana, atacava de Villa-Lobos, tendo sido expulso mais de uma vez pelo próprio dono do bar ao executar uma modinha que ficou popularmente conhecida na universidade como “Garçom, a Conta”.

Nas rodas de literatura, jamais elogiou os russos, nunca disse que Borges era um gênio. Não compunha poesia alternativa, seus olhos não brilhavam quando falava de Kafka. Em matéria de mulher, preferia as feias. No que tange à política, acreditava que a melhor forma de governo era a ditadura democrática de centro.

Aos vinte e cinco anos de idade, Astafânio Carlos tinha um emprego de controlador de freqüência espermatogênica em eqüinos malhados e nenhum amigo. Nunca afirmava nada sem que os estranhos ao redor discordassem veementemente ou fizessem a pior cara de Jefferson Péres.

Àquela época Astafânio Carlos que, diferentemente de todo o mundo, nunca lera “Vou-me embora pra Pasárgada”, começou a elaborar sua única obra, aquilo com que conseguiu, segundo vejo, justificar sua existência: uma antiutopia intitulada “Lugar Comum”.

No conto, Astafânio Carlos trata de uma sociedade no futuro onde as pessoas estariam separadas por um abismo eterno, pois só possuíam um dos hemisférios cerebrais (excetuando-se as louras, que tinham os dois).

Em Lugar Comum, por exemplo, a opinião do grupo A era a de que Hugo Chávez representava, como ditador, grande ameaça à democracia. O grupo B discordava, afirmando ser Chávez um iluminado, verdadeiro redentor da Terra. (O grupo C era composto pelas louras, mas nunca se soube sua opinião, porque elas na hora da pesquisa estavam no motel.)

As divergências continuavam: o grupo A dizia do grupo B que se compunha inteiramente de burrões irremediáveis. O grupo B, por sua vez, opinava que os componentes do grupo A não passavam de exploradores vendidos ao sistema (não fica claro, na narrativa, se o autor se referia ao Windows ou ao Linux).

Ideologia, para o grupo A, era uma doença exclusiva do grupo B e substituía o raciocínio. Já para o grupo B, a ausência de ideologia significava, pelo contrário, incapacidade de enxergar a realidade.

Essas e outras incoerências estavam em “Lugar Comum”, opúsculo de lauda e meia que não fez o menor sucesso entre crítica e público, mas que na minha opinião tem lá os seus méritos, ainda que peque pela inverossimilhança.

Seja como for, encerro dizendo que Astafânio Carlos colocou o ponto final no conto no dia mesmo de sua morte, aos 32 anos, quando tentava, usando apenas uma touca creme e por pura diversão, subir as Cataratas do Iguaçu.

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Astafânio Carlos nunca foi bom no nado de costas.
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GERUNDISMO

Publicado em 21/11/2007, às 02:01, por Marconi Leal


Telefone

— Boas tardes. Com quem poderia ter o prazer de estar a falar neste aprazível lar? E já me adianto a pedir perdão pela péssima e involuntária rima. Encontrar-se-á o dono da residência nela, hodiernamente?
— Quê?
— Pergunto se Vossa Senhoria acaso não saberia dizer-me se há alguém na habitação?
— Que habitação?
— Esta em que vos encontrais. Seria Vossa Senhoria o proprietário dela ou pertence a outrem tal prerrogativa?
— Depende. A senhora é da Receita?
— Não, porém, se me permite um rasteiro jeu de mot, como dizem os franceses, ou pun, caso Vossa Senhoria seja anglófila: possuo a receita para vosso sucesso. Isto, posto ser Vossa Senhoria o pater familias. Estou certa? É a Vossa Senhoria que procuro?
— Não, eu não sou o Rui Barbosa. A senhora pode me dizer do que se trata, hein?
— Dir-lhe-ei, caso me informe ser Vossa Senhoria possuidora do predicado correto.
— Olha, digo a Vossa Portuguescência que faz vinte anos que deixei o colégio, de maneira que não sei se o predicado tá correto. Ainda mais que Vossa Gramaticância colocou a frase na ordem inversa. Nunca fui bom de passiva, modéstia à parte. Sem falar que a oração é coordenada.
— Subordinada adverbial condicional, se me permite. Mas Vossa Senhoria não precisa exaltar-se. Agradar-me-ia saber tão-somente se habita esta casa.
— Aha! “Esta” se refere à mais próxima, logo a senhora está falando da sua casa. Se eu responder “sim”, a senhora dirá que estou errado, porque não moro na sua casa e sim na minha. O certo então seria que usasse “essa”. Então respondo: “não”. Uhu! Botei pra lascar. Gramática é comigo, minha filha. De quanto é o prêmio?
— Infiro do que diz ser Vossa Senhoria cabeça da família. Informo-lhe, portanto: o prêmio são uma casa ou dois carros. Vossa Senhoria escolhe.
— Peraê. Essa eu vou ter que pensar. O prêmio “são” uma casa ou dois carros… Onde tá a casca de banana? No “ou”. Se o “ou” tem sentido de “e”… Mas não, o “ou” aí conota alternativa. “O prêmio é uma casa” seria o correto. Acertei?
— Creio ter Vossa Senhoria acertado. Estivesse em vosso lugar e minha escolha seria a mesma: uma casa, um lar antes de tudo. Depois haveríamos de dar conta do como nos transportar. Não é vero?
— Não, é Luiz, a seu dispor.
— Pois muito bem, senhor Luiz, para encurtarmos esta pálrea…
— Epa, minha pálrea, não! Se o preço pra ter a casa é esse, eu…
— Não, senhor Luiz, perdoe-me. Falo pálrea não no sentido de logomaquia ou bocagem, mas exclusivamente no de… como posso dizer-lho?
— Sei lá. Bocage, eu até conheço, um ou dois versos. Agora, desse tal de Logomaquia nunca ouvi falar. É espanhol?
— Cavaco.
— Cavaco? Como assim? Nasceu na Caváquia?
— Não, senhor Luiz, digo para encurtarmos o cavaco, a conversação… Enfim, para encurtá-la, digo que o senhor terá o prêmio de uma casa, ao final de breves cinco anos aplicando na Poupança Setentrional-Sul do Banco Austral do Norte, o único que sabe sempre onde você está.
— Aaaahhh… Agora entendi. A senhora é operadora de telemarketing!
— Prefiro “televendedora”. Conserva a origem greco-romana e…
— Pra cima de mim? Operadora de telemarketing? Ha! Cadê o gerúndio? E o “do qual” fora de lugar? E os erros de concordância? Conta outra, minha querida!
— Na verdade, senhor Luiz, temos passado por um longo processo cognitivo e…
— Desculpe, minha filha. Não caio nessa. Isso pra mim é golpe. Você quer meus dados bancários. Se ao menos cometesse um gerundismo! Não, não. Passar bem. (desliga)
(para si) Epf… Os pessoal tá ficando cada vez mais esperto hoje em dia. Do qual, de agora em diante, vou ter de tá adotando outro plano.

QUEM MANDOU O MEU QUEIJO?

Publicado em 20/11/2007, às 03:05, por Marconi Leal


Queijo

Senhores, este blog, apesar de não ser um deputado, é republicano e tem a consciência negra, de modo que só estaremos voltando às atividades amanhã, 21/11.
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Dia que a partir de 2008 também será considerado feriado, ao menos municipal, posto que o ingresiástico Franciel Carlos Magalhães estará nesta serrista cidade.

Por hoje, leiam a excelente crônica de um queijo anunciado, em que meu amigo Galvão narra suas peripécias para enviar-me um coalho desde a progressista Valença, BA.

E agora vou-me embora pois, como já dizia aquela tradução francesa do Novo Testamento, nem só de queijo vive o homem. Preciso alimentar minha má-consciência.

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Até amanhã.

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (6)

Publicado em 13/11/2007, às 02:10, por Marconi Leal


Subpensamento6

O crítico literário é o único bípede autotrófico de óculos de que se tem notícia: alimenta-se do próprio ego. Seu habitat artificial são as mesas de discussão, as noites de autógrafo e outros ambientes inóspitos. Tem o corpo dividido em língua, tronco e membros.

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Que nós temos ínfima importância nos planos divinos e possuímos a única missão de reproduzir, eu sei. O que me deixa indignado é que Deus faz tão pouco caso da nossa espécie que nem ao menos se digna a explicar por quê.

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O único mérito da sociologia, a meu ver, foi ter impulsionado o comércio de boinas.

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O diabo não é páreo para Deus. Trata-se de uma criatura ainda muito humanizada. Em termos de mal absoluto, aposto mais nos vilões de telenovela.

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Deus está em tudo, é verdade. Mas confesso que gosto mais d’Ele quando vem em cápsulas de 20 mg de fluoxetina.

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Não é que Deus não exista. Você é que jejuou pouco.

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Sou agnóstico, com alguma — pouca — propensão à crença. Isso, se a televisão estiver desligada.

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Não tenho aptidão ou habilidade para coisa alguma. Qualquer dia, em nome da sobrevivência, serei forçado a abraçar a carreira de artista plástico.

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O mínimo que se espera numa relação é reciprocidade. Eu até acreditava em Deus. Mas que posso fazer se ele é ateu com relação a mim?

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (5)

Publicado em 12/11/2007, às 03:14, por Marconi Leal


Subpensamento5

Concordamos inteiramente com a tendência da crítica especializada a achar que o humor, em literatura, é algo menor. Eu, Plauto, Shakespeare e Cervantes.

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A maior prova de que Orfeu não existe sou eu cantando.

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O Brasil já teve o ciclo da cana, do café, do ouro e da borracha. O único que permanece é o ciclo vicioso.

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Apesar de pródiga em inventar tragédias e crueldades, nem mesmo a mitologia greco-romana chegou a projetar o cúmulo da tortura e o abismo do tédio que são passar uma hora numa fila de banco apinhada de gente, no verão, sem ar-condicionado, escutando Jorge Vercilo.

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Para ser arrogante, o sujeito ao menos precisa ser inteligente. Não existe nada esteticamente mais deplorável do que um burro esnobe. À exceção, talvez, de um burro sem dentes.

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Faça uma boa ação. Ensine um crítico literário a ler.

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Para agradar a amigos que reclamam da minha neofobia literária, resolvi comprar os últimos romances publicados. E confesso que gostei. Aliás, não foi surpresa. Sempre fui fã da literatura do século XIX.

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Quantos quilos de Will Self, Brad Buchanan, Don DeLillo, Pat Barker, Tim O’Brian, Kazuo Ishiguro, Philip Roth e congêneres valem um hexâmetro de Ovídio?

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Sou a favor do aborto, mas com restrições. Para mim, o procedimento só deveria ser permitido nos casos de fetos maiores de vinte anos que escutam heavy metal.

MARCONÍADA (ÚLTIMO CANTO)

Publicado em 09/11/2007, às 06:04, por Marconi Leal


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Em São Paulo, saber se o céu existe não é uma questão metafísica, mas puramente astronômica. De um lado, somos beneficiados pelo fato de uma agência estadual regular rigidamente a qualidade do ar, evitando que entre muito oxigênio em sua composição. De outro, contamos com um fator econômico ancilar: o oxigênio paulista é tão pobre que não consegue passar no pedágio da Dutra.

Essa combinação venturosa tem como principal conseqüência, segundo comprovei, o despertar de uma irrefreável nostalgia. No meu caso, a nostalgia de uma asma esquecida na adolescência e que voltou fulminante para ter sobre mim um efeito singular — singularíssimo: de pulmões, passei a ter pulmão.

Foi, portanto, com esse potencial de lhama subindo os Andes carregada de mantimentos que saí do supermercado. Já ao final do primeiro quarteirão, tal era meu aperto que, sem estorvo, conseguiria coçar a sobrancelha com a língua. Meu elegante caminhar me credenciaria a ser adotado pelo arquidiácono de Notre-Dame.

Alcançada a segunda esquina, o placar era de seis a zero para a lei da gravidade e a força de atrito nem tinha entrado em campo ainda. Improperei Newton e o Parlamento inglês que aprovou medida tão arbitrária, sem a qual os objetos ainda hoje estariam todos flutuando por aí. E só não soltei um palavrão porque, exposta ao frio, minha língua estava tomada pela cãibra.

Porém, homem usado a esportes radicais — entre eles, beber leite diariamente no Brasil —, avancei, intrépido. Dado meu empenho, tudo levava a crer que ao fim me caberia o sucesso obtido, no mar, por Ulysses. Não o herói épico, mas o Guimarães.

Ao chegar a minha rua, trajava roxo, a cor da estação. Sem fôlego, tive um insight digno de Eratóstenes: descobri que a Terra não é plana e gira. Aliás, modestamente, devo dizer que também no que diz respeito à visão, a minha possuía a mesma profundidade da do sábio. Isso, a se confiar nas fontes que dizem ter ele terminado a vida cego.

Quando finalmente cheguei em frente ao meu prédio e com a ajuda do porteiro entrei no átrio e no elevador, perseverante, só via uma coisa na minha frente: o chão.

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Uma vez no meu andar, joguei os sacos pelo corredor (menos o imanente, que não sabia onde estava), abri a porta com os caninos e engatinhei até o sofá, onde me quedei, trêmulo como o falecido João Paulo II, mas dominando menos idiomas.

Duas horas depois, foi ali que minha mulher me encontrou, ainda sem conseguir coordenar os movimentos, no entanto já conseguindo respirar sem emular o Francisco Cuoco.

— Ai, meu Deus! Que foi, que foi? Fala! Falta de ar? — perguntou ela, alarmada.
— Não — respondi assim que pude, na manhã seguinte. — De clorofila.

Contudo, como a prolongada ausência de oxigênio me deixou um pouco esverdeado, dormirei toda a semana de luz acesa. Mantenho esperanças de, até as próximas compras, lograr fazer fotossíntese.

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