A COVA
— Que é que tu tá olhando pra mim assim?
— Eu? Nada!
— Como nada? Há duas horas tu tá aí, olhando pra alguma coisa no meu rosto, nem me deixa ler o jornal direito! Que foi que houve?
— Não, não, é só que…
— O quê?
— Bom, eu nunca tinha reparado nessa… esse… Você sempre teve essa covinha no queixo?
— Não, fiz ontem. Cavei com uma chave de fenda.
— Sério?
— Claro que não, né? Sempre tive uma cova no queixo! Tá maluca?
— Tem certeza?
— Olha, pra falar a verdade, eu tô meio em dúvida. Afinal, são só cinqüenta anos que eu me olho diariamente no espelho, de maneira que posso estar me confundindo um pouco.
— Não, tudo bem. Eu me lembro que você tinha uma cova. Mas essa daí é a sua mesmo?
— Peraí… Ah! Meu Deus, como eu sou idiota!
— Que foi?
— Agora é que eu me lembrei!
— Fala! Que foi?
— É que ontem o vizinho tava precisando de um umbigo sobressalente e, pra ser gentil, eu acabei emprestando o meu. Em troca, ele me deixou a cova de queixo dele. Foi isso. Tá explicado.
— Eu tô falando sério. Mesmo. Não me lembro dessa cova no teu queixo. Pelo menos, não assim.
— É, não sei. Talvez seja uma cova perdida. Ou órfã. Outro dia até vi uma campanha tocante na TV sobre a adoção de covas de queixo. Cê sabe que a maioria das pessoas só aceita adotar uma cova cônica ou cúbica, sem estrias, e deixam as covas irregulares e enrugadas para trás? Um absurdo!
— Pode ironizar à vontade. Mas o certo é que eu… Posso tocar?
— Com cuidado, faz favor. Elas às vezes ficam agressivas. Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de cinco por cento das internações por perda de dedo são motivadas pelas covas de queixo assassinas.
— Estranho… Ela era mesmo exatamente assim?
— Não, não. Como toda cova de queixo, ela iniciou a carreira como um simples poro. Com o tempo, ascendeu a cravo e, subindo na hierarquia dos orifícios, após árduo trabalho, chegou a cova de bochecha e, finalmente, a cova de queixo. Mas o sonho dela é mesmo chegar a ser um c…
— Epa, olha os modos! Não se pode mais manter uma conversa adulta nessa casa? Olha, podia jurar que mês passado isso… essa… esse… a cova não tava aí. Ela sempre se localizou nesse exato ponto?
— Claro que não. Você nunca ouviu falar das correntes migratórias das covas de queixo? No inverno elas retornam às coxas, onde nasceram, para fugir do frio. Vem cá, por que é que tu tá fazendo essa cara de nojo, hein?
— Eu? Cara? Não, nada… Nojo? Uhm-uhm. (após alguns minutos em silêncio) Olha, Cova, digo, olha, Augusto, eu andei pensando e… acho que a gente precisa dar um tempo no casamento.
— (baixa o jornal, impaciente) Jesus Cristo! Tudo isso por conta de uma cova, Joana?
— Hoje uma cova, amanhã uma amante. Não dá. Não posso mais confiar em você.

agosto 17th, 2007 às 4:50
O que aconteceria se fosse uma tatuagem? (Ou, quem não tem desculpa, inventa.)
agosto 17th, 2007 às 12:58
O romance da cova saltitante ou O louco do jardim. Taí um bom título para um romance de cordel.
agosto 17th, 2007 às 13:47
Quando a velhice vai chegamos é possível ver miragem…Por isso a visão diminui.
agosto 17th, 2007 às 16:02
Mulher aCOVArdada. Mal, não resisti.
agosto 17th, 2007 às 16:53
bom, bom jeito de acabar um casamento, ao menos, criativo!
agosto 17th, 2007 às 22:05
Otimo fds a vc,MARCONI
Abração!
agosto 18th, 2007 às 18:18
kuaaaaaaaaaaaaaaaa! Valeu o alerta, meu querido, essa noite vou prestar mais atenção na carinha do nego véio… qualquer coisa diferente…
Sorte e saúde pra todos!
agosto 19th, 2007 às 18:55
Oi Marconi,
Muito tempo se passou, vc mudou de casa, mas não me esqueci de você! rsrss
Adorei me divertir de novo com suas histórias…
Devo voltar, eventualmente!
Abraços
Ca