Posts na categoria ‘COTIDIANO’

O MITO DA CRIAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DE UM BAIANO (Republicado em memória de Caymmi)

No princípio era a Bahia. E Caetano disse:
— Faça-se o Pelô!
E Gil argüiu:
— Enfim, sob o prisma transitório da protomatéria nasciva, enfim, tendo em mente as palavras de Arjuna a Krishna e toda a prosódia popular do cancioneiro, enfim, ademais considerando-se as premissas da Escola de Frankfurt e a biosfera como um todo, enfim…
E aquela [...]

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ORGIAS FILOSÓFICAS (informe publicitário de inteira responsabilidade do anunciante)

A coisa anda Husserl para o seu lado, Strauss certo? Você se encontra numa via-Crusius. Lee seus pensamentos? O desejo que você tem é Dessoir por aí, sem Humboldt certo, sem ter mais que engolir a doxa de ninguém, não é Maimon?
Boehm, não fique Mach assim, porque recentemente foi inaugurado o nosso Orgias Filosóficas, estabelecimento [...]

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ENTROPIA

— Você pode me explicar por que não levou a Maria Júlia e o Rodriguinho no colégio, Carlos Lucas? Hein? Tô esperando!
— Entropia.
— Ai, coitadinho, aquela dor no joelho de novo?
— Não, aquilo é condromalácia.
— E você pegou essa entropia onde? Bem que eu disse pra botar agasalho que o tempo ia mudar. Mas você [...]

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DIÁLOGOS (POT-POURRI)

- Cara, eu não acredito!
- Que foi?
- Dá só uma lida aqui nessa matéria da Veja.
- Não posso.
- Como assim? Tá sem óculos?
- Pior. Tô com cérebro.
……………………………………………………
 - Me diz uma coisa. Tu entende de psicologia?
- Um pouco. Por quê?
- Que é que tu acha dessa história do Outro de Lacan, hein?
- O outro de Lacan?
- [...]

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MATURIDADE

Talvez a observação seja apenas fruto de um filho único que, quando pequeno, se entregava a atividades tão producentes, enérgicas e brilhantes quanto passar a maior parte das horas do dia em semiletargia, admirando o nada e pensando não apenas na morte, mas no ataúde, no cortejo fúnebre, nas exéquias, nas coroas de flores, no [...]

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ABIOGÊNESE CASEIRA

Entre outras revelações igualmente críveis, o Livro dos Espíritos afirma que a lua tem forma pendular e que a geração espontânea não apenas existe como será devidamente comprovada no futuro.
Ora, quanto ao formato do satélite terrestre, nada posso dizer, pois, como se sabe, moro em São Paulo, onde a lua pode até existir, mas o [...]

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AQUELA MÚSICA

- Como é mesmo aquela música?
- Que susto! Como é que você me acorda com um berro desse no meio da noite, Arnaldo? Quer me matar? Meu Deus!
- (acendendo o abajur) Não consigo lembrar daquela música!
- Que música, Arnaldo? Jesus! Olha aí, meu coração tá acelerado!
- Aquela música, aquela que faz assim: tum, tim, tum.
- [...]

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CULPA

- Não fica assim, Almeida. Olha pra mim. Em que é que cê tá pensando?
- No Moisés.
- Ih, ih, ih, que nome esquisito pra se colocar no pinto!
- Não, Moisés, o patriarca, o que abriu o Mar Vermelho. Tô pensando nele.
- Já vi o sujeito virar religioso após calamidades, Almeida, mas depois de uma brochada [...]

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DE COMO PASSEI POR UMA EXPERIÊNCIA METAFÍSICA

Marido dedicado que ama a mulher e, sobretudo, a pele que reveste o próprio corpo, tirei o dia de ontem para montar uma estante de ferro, a qual, geniosa e leitora de Thoreau, se recusava terminantemente a ser montada, propugnando pela desobediência à engenharia civil.
Dispenso entrar em detalhes sobre a luta travada contra o pérfido [...]

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NUNCA APROXIMAR DE ÍMÃS

Demorei tanto tempo para aparecer por aqui porque estava, como sói acontecer com intelectos profundos como o meu, envolvido com uma questão ontológica do mais alto significado, cuja solução poderá alterar o destino humano ou, quando menos, o de advogados e outros animais inferiores.
Ao me deparar com tal problema, fiquei intrigado como Champollion diante da [...]

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DEPRIMIDOS

- A cerveja tá quente.
- Tudo isso é culpa de Abraão.
- Abraão! Uma cerveja mais gelada, por favor!
- Não, o nome do garçom é Pedro. Tô falando é que a pós-modernidade, esse lixo artístico todo, o pop, o Programa do Didi, a carne de soja, o sertanejo, o funk carioca e quem sabe até mesmo [...]

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ESTRÉIA

- Isso não vai dar certo! Isso não vai dar certo! Que história é essa de mudar endereço de blog?
- Foi o Milton Ribeiro que me convidou e…
- Milton quem?
- Ribeiro. Ribas.
- Ah, um que posta aquelas indecências no sábado?
- Arte, aquilo é arte.
- Sem dúvida. Arte pornográfica. Ele não tem mulher, não?
- Tem. Se [...]

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ENTRELINHAS

— Ai, meu Deus! Você não é aquele escritor… o Márcio Pereira?
— Má-Mário. Mário Pereira. Eu mesmo.
— Me belisca.
— Ahn?
— Vai, aqui, no meu braço. Belisca, belisca, belisca, seu bobo…
— Que é isso, minha senhora, eu…
— Pega nos meus seios!
— O quê?!
— Meus seios, toma, agarra, morde, fica. Ui, você me dá uma coisa!
— Ca-calma. [...]

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HIPERBIBASMO

— Ué? Por que você parou?
— Você gozou?
— Uhm-hum.
— “Uhm-hum”, sim, ou “uhm-hum”, não?
— Lá vem. Você não ouviu quando eu disse: “Isso, isso, ai, isso”, Caio Fernando?
— Ouvi. Acontece que você disse “issuuu, issuuu”, acentuando a segunda sílaba, ao passo que quando você vai gozar de verdade você diz “iiisso, iiisso”, marcando a primeira.
— [...]

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PROFISSIONAL DA ONOMATOPÉIA

— E você faz o quê?
— Eu? Sou profissional da onomatopéia.
— Ahn?
— Onomatopéia. Eu trabalho com sons.
— Como assim?
— Assim. Fluct-pu.
— Hein?
— Fluct-pu. “Assim”. Também faço “talvez”, “todavia” e “contudo”, olha aí: plocting, blabunz e digdag.
— Tá tirando onda comigo, rapaz?
— Chuá, chuá.
— Olha que eu te bato, cara! Não tira onda comigo que eu [...]

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