Minotauro

— Muito bem, amigos helenos, eu sou Hesíodo e você está ligado na Rádio Atlas. (entra vinheta da rádio) “Rádio A-tla-tla-tlas. Levamos o mundo do esporte greco-romano até você. E levamos sobre os ombros”. (voltando a falar) Estamos aqui hoje em mais uma epopéia esportiva para transmitir direto de Creta aquele que é um clássico da mitologia contemporânea. Nesta tarde, a equipe de Teseu enfrenta a do Minotauro. Irá o herói ático derrotar a fera insular e interromper sua seqüência de vitórias que já dura anos? É o que todos se perguntam. Aqui, ao meu lado, o comentarista do trímetro iâmbico abalizado, Eurípides. E então, Eurípides, que você acha do enfrentamento de logo mais?
(com uma máscara teatral no rosto) Oh, Zeus, calar-me-ei, ó Heríodo! Nada direi de momento tão desazado, pelos deuses inclementes!
— Deixa de tragédia, Eurípides.
— Ó Hêsi, digo que teremos de esperar até o último momento para afirmar que este ou aquele foi feliz! Que os deuses a ambos sejam propícios!
— Não quer arriscar um vencedor, então?
— Quem vence, não sei. Mas o perdedor sofrerá e lamentar-se-á bastante no final. Oh!
— Muito bem. À minha esquerda, a língua mais afiada do mundo banhado por Oceano: Aristófanes. E aí, Ari, quais são suas impressões?
— Minha impressão, aliás, minha certeza é que a culpa é de Cleon, aquele demagogo.
— Como? Não, digo, a respeito do jogo de logo mais. Quem sairá vencedor?
— Acho que perde Atenas.
— O Minotauro vence, então?
— Sei lá. Mas com a subida de Cleon ao poder, Atenas perde, isso é certo.
— Não quer arriscar? Vai fazer como Eurípides?
— Não me xinga, hein? Você por acaso tá me vendo com gestos efeminados, compondo maus versos ou querendo dar a…
— Err… Bom… Os dois times adentram o anfiteatro. Vamos até lá, ao palco do espetáculo, onde está Apolodoro. Apolodoro, é com você.
— Boa tarde, ouvintes. Me permitam, antes de mais nada, meter a mão nessa discussão, pois os talheres não são usados ainda. Começo dizendo que o mundo dá muitas voltas, porque…
— Desculpe, Apolodoro, mas o mundo é plano.
— Não, meu caro Hesíodo, o mundo gira ao redor do sol, já dizia Aristarco de Samos.
— É plano!
— Gira!
— Gira é você! Maluco!
— Posso ser maluco, mas pelo menos não sou cego!
— Cego? Cego é Homero, seu animal! De mim, o máximo que se pode dizer é que seja beócio! Você… (constrangido, percebendo que está no ar) Hum… Peço desculpas, Apolodoro.
— Não hades ser nada. Bem, por falar em animal, estou aqui com ele que é conhecido por não ter hierofantes na língua, the one and only
(interrompendo) Por favor, Apolodoro, peço em nome dos ouvintes que não use a língua dos bárbaros.
— Ora, tô aqui com o Minotauro. E então, Mino, como vão as coisas?
— Olha, mais ou menos. Às vezes, eu me sinto assim meio sem saída…
— E esse babado aí?
— Desculpe, não foi minha intenção.
— Não, digo, esse babado, esses boatos que andam espalhando sobre seu pai.

— Olha, Apô, Teseu pode dizer que meu pai tinha cornos, eu aceito. Mas, pelo menos minha mãe não era uma vaca, como a dele. (CONTINUA NA SEXTA-FEIRA)