DIANTE DA TV – APELIDOS
— Como assim? Separou por quê, cara? Vocês pareciam se dar tão bem…
— A Marly, ela…
— Quer um filho? Toca a bola, toca a bola!
— Que nada! Você não vai acreditar.
— Te traiu?
— Pior. Muito pior. Chuta! Pra fora… A Marly… A Marly me chamou de “Nhonhonga”, cara. Pronto, disse.
— Nononga?
— Antes fosse! “Nhonhonga” mesmo. Com “h” e tudo.
— Peraí, bicho, tu tá me dizendo que separou porque a Marly te colocou um apelido? Ih, lá vem o contra-ataque!
— Desarmou. Apelido? “Nhonhonga”? Isso é apelido que se me apresente? Se ainda fosse “Xurungo” ou “Pitoca”… “Nhonhonga” não dá! Não tem volta.
— Tu ficou louco, Abelardo? Tu vai jogar fora 5 anos de casamento por causa de um Ninhonga à toa?
— Nhonhonga! Nho! Se fosse Ninhonga ainda haveria diálogo. O “i” tem lá sua aplicabilidade. Agora, “Nhonhonga”, francamente… É chamar o sujeito de débil mental, no mínimo. Assim ele vai matar o goleiro.
— De rir. Isso não é motivo, rapaz, não é motivo mesmo. A Graziela chama o Zé Augusto de “Sartrinho” e nem por isso eles se separam.
— “Sartrinho” é elogio, Pereira. Quer dizer que o sujeito é culto, gosta de filosofia e…
— O Zé Augusto nunca abriu um livro na vida, Abelardo. Sartrinho é porque ele é zarolho e parece um sapo, ou tu nunca percebeu? Cavalo!
— Cavalo é você! Não admito que…
— Chamei de cavalo o zagueiro, abilolado. Botou a bola pra escanteio. E outra: nunca ouvi dizer, por exemplo, que o Toquinho ia deixar de fazer música com o Vinícius porque chamava ele por esse apelido depreciativo.
— Grande comparação! Me admira você, Pereira, que acabou o relacionamento com a Ana Rita só porque a moça era lacaniana. E ainda veio com aquela história de incompatibilidade de gênios.
— E não foi? Eu gosto do Freud, ela do Lacan. Incompatibilidade de gênios mais literal, eu desconheço. Isso é coisa que…
— Derruba.
— Que derruba qualquer relação, exatamente.
— Não, derruba o atacante, ele vai marcar o gol. Tira! Isso… Você não conhece a Marly, Pereira. Ela tem mania de apelidos. Sabe como ela chama a nossa casa?
— Residência?
— Não. Lança pro ataque, imbecil! Olha aí, o jumento.
— Lateral… Moradia?
— “Ninho de amor”.
— Não acredito.
— Pois pode acreditar, “ninho de amor”. Ou “ninho”, para os íntimos. “Vamo voltar pro nosso ninho?”
— Não, não acredito que o juiz marcou pênalti, ah lá. Pênalti. Isso não é motivo.
— Como não? O cara só faltou esfaquear o centroavante!
— Não é motivo pra se separar, Abelardo. Se você não gosta de algumas palavras que ela usa, que sentem e conversem sobre o assunto. A Maga, por exemplo. Perdeu o pênalti, uh, uh! Pra fora… A Maga, lembra da Maga? Pois então, ela chamava uísque de “vísque”, pra parecer engraçadinho, sabe como é? Um dia disse pra ela que não gostava e…
— A Maga aceitou? Duvido. Com aquele gênio dela. Fala a verdade: ela parou de falar “vísque”?
— Não, parou de beber. Ih, olha lá, falta pra gente na meia-lua.
— Não vou nem olhar. Com esse daí não vai ser gol nunca. Pra encerrar o assunto de uma vez por todas, Pereira. Sabe como a Marly chama o meu pinto? Adivinha.
— Ah, cara, apelido pra pinto toda mulher…
— “Pimpolho”.
— Não acredito!
— Que foi? Perdeu o gol?
— Não, no apelido. Separa.

janeiro 30th, 2008 às 19:53
31 de janeiro?
Calma, desacelera, rapaz.
janeiro 31st, 2008 às 2:54
vem cá: Lacan não é uma releitura de Freud, só que mais filosófico?
Tudo a “merma” coisa!;-)
janeiro 31st, 2008 às 11:12
hahaha
pior é se ela cantar o pagode do pimpolho junto.
janeiro 31st, 2008 às 12:18
Você voltou com a corda toda, não é, rapaz? Um bom texto, como sempre. E como sempre, com bom humor. Um abraço. E um bom carnaval, viu?!?
fevereiro 7th, 2008 às 20:19
Kuaaaaaaaaaaaaaaaa!
Um primor, meu bruxo.
gol de placa.
Sorte e saúde pra todos!