Vobeggar 

- Dá uma consciência social aí, tio.
- Tem não.
- Só uma consciência social, tio.
- Tem não, menino, já le disse.
- Por favor. Eu tô morrendo de avareza.
- Avareza nada! Tu tá chei de piedade, que eu seio.
- É avareza, tio, eu juro.
- Que avareza o quê! Pensa que eu num tô sentino esse bafo de piedade?
- Eu juro, tio, é avareza. Meu pai é juiz, minha mãe trabalha em ministério. Eu cresci em berço de ouro, tio, queimando índio, fazendo racha…
- Tá pensano que me engana? Eu posso de num ter apego material, mas num sou trouxa, moleque. Sei muitcho bem quando vejo arguém da elite responsave. Tu deve até de trabaiá em ONG e contribuir pro Greenpeace…
- Não é, não, tio. Pro senhor é fácil falar, vive aí na esquina, vestindo farrapo, com esse saco imundo nas costas, cheio de piolho, comendo do ruim e do pior. Mas eu nunca tive amor ao próximo. É verdade.
- Meu fio, outro dia mermo eu vi uma reportage na televisão, mostrano menino rico em carro importado, ingualzinho esse que você tá dirigino aí, fazendo se passar por gente insensive, sem compaixão, e era tudo mentira. Todos eles tava se dedicano a aiguma causa pelo bem da humanidade. Acelera, passa marcha. O sinal já abriu.
- Mas no meu caso é verdade, tio. Eu não tenho consciência social nenhuma. Venho de uma família de 400 anos de Brasil. Tem usineiro, banqueiro, barão de indústria paulista… Nunca soube o que era pobreza, tio. Me ajude.
- Num tenho, meu fio, já le falei. Se tivesse, le dava. A última consciência social que eu tinha dei prum deputado que passou aqui dez minuto atrai. Tava usano carro chapa-branca pra serviço particulá e carregava uma mala cheia de dinheiro público desviado. Dava pra ver que tava necessitado. Mas você?
- Olha aqui, tio, minha declaração de IR. Quer ler? Veja, por exemplo, se aí tá declarado esse carro? Não tá. Também não tenho nenhum imóvel listado aqui. E olha que eu tenho apartamento em todas as ruas do Banco Imobiliário.
- Isso é farso, meu fio. A coisa mais fáci do mundo é encontrar documento farso pra comprovar as corrupção de arguém. Por causo disso que esse país num vai pra frente. Todo mundo trabaia com honestidade e pratica filantropia. Agora chega. Vamo. Circulano. Fecha o vrido elétrio e vai embora.
- Mas, mas, tio… Por favor, se eu chegar em casa sem consciência social a minha mãe não vai brigar comigo de novo.
- Passa, moleque. Vê se encontra outro indiota pra tentá enganá. Anda.
- (dando partida) Eu sou egoísta! Eu juro!
- Vai, vai embora. (para si) Eitcha, que esse povo num aprende mermo! Num se pode mais nem viver na misera, em paz, nessa cidade!