Prometeus

— Nevermore! Nevermore!
— Quer parar?
— Que foi? Não gosta de Poe?
— Gosto. Não gosto é de anacronismo. Será que você não percebe que a América nem foi descoberta ainda? Além do mais, você não é um corvo!
— Você e seu perfeccionismo. Todo metido a intelectual. Não é à toa que te prenderam aí. Tudo bem, troco de poeta. Que tal um pouco de poesia brasileira do século XXI?
— Não, pelo amor de Zeus! Volte a comer meu fígado, eu imploro!
— Relaxa, bicho. Se solta. Se a gente vai passar a eternidade juntos, o
melhor é quebrar o gelo. A culpa não é minha de você tá aí.
— Não, a culpa é do Montesquieu, que não nasceu ainda. Se houvesse separação dos poderes, eu exigiria a anulação do julgamento.
— Também, que idéia! Dar a razão aos homens! Pff! Se ao menos tivesse dado a razão a outros animais de maior aptidão, como a lesma ou o ouriço.
— E daí? Grande coisa! Dei a razão aos homens e eles nunca usaram. Pior foi Pandora, que abriu aquela bolsa e liberou a dor, o sofrimento, a velhice, a miséria, a música sertaneja e o telemarketing. E nem por isso mereceu o meu castigo… Ai! Isso aí é meu pâncreas, pô!
— Foi maus. Mas é que tá difícil de distinguir o teu fígado aqui. Tá tão escondidinho, meio deteriorado…
— Ah, isso é por conta da pouca água.
— Pouca água no fígado?
— Pouca água no vinho. Ai, que saudade dos bacanais! E pensar que nunca mais vou poder curtir um efebo…
— Não faz assim, bicho. Eu não posso ver um personagem mitológico chorando que choro também. O que é que eu posso fazer pra te ajudar?
— Bom, pra começo de conversa… QUE TAL SE VOCÊ PARASSE DE BICAR O MEU PINTO?!!
— Ops, me distraí.
— Urubu!
— Não xinga, hein. Tô tentando te ajudar e é assim que você me trata? Já sei! Quer que eu te cante uma musiquinha?
— Boa. Eu te acompanho batendo palmas!
— Puxa, pra que tanto sarcasmo? Você é muito amargo, bicho. Deviam ter te condenado a perder o baço, isso sim.
— Rapaz, vou te contar, passar a eternidade acorrentado, tendo o fígado comido, tudo bem. Agora, ter a companhia de um urubu falante é que são elas.
— Abutre! Eu sou um abutre!
— Tem certeza? Tô começando a achar que tu é um papagaio…
— Eu só queria deixar a nossa convivência mais agradável, como entre todo torturador e torturado…
— Relação agradável entre torturador e torturado? Vê-se logo que você nunca casou. Vem cá, por que é que tu não dá uma volta por aí, vai encher o saco do Sísifo, por exemplo, hein?
— Chega! Nunca fui tão humilhado. Fiz de tudo pra ser teu amigo, bicho. Agora, agüenta!

— Ah, é? Vai fazer o quê? Se queixar ao hierofante? Hein? Olha pra mim. Você por acaso acha que algo pior pode me acontecer? É cada… Não! Por favor! Pára! Ha, ha, ha! Não! Hu, hu! Tudo menos isso! Cosquinha no sovaco, não!