Aristofanes

Sócrates olhou para todos os lados, certificando-se de que estavam sozinhos. Em seguida, sussurrou:

— Trata-se de uma disputa.
— Disputa? Bem que eu desconfiava. Os hereges e pagãos querem tomar de assalto o nosso Paraíso.
— Não é nada disso.

O filósofo voltou a perscrutar ao redor. Após o quê, sussurrou novamente:

— Cartas…
— Cartas conspiratórias, é isso? Você vem trazendo cartas conspiratórias do Hades. Meu Deus! O Pai precisa ser avisado. O profeta tá envolvido nisso?
— Tá.
— Meu próprio primo!
— Primo? Não sabia que você e Maomé eram parentes.
— Maomé? Então, Maomé faz parte da sedição? Claro! Tudo faz sentido. Acabo de descobrir, sem querer. Na verdade, quando disse “profeta”, tava me referindo a João.
— O Batista também joga?
— Não se faça de desentendido. Por isso Karl Marx tava com ele essa manhã…
— Marx? Peraí, mas desse jeito já tem seis. É gente demais.
— Que seis? Sei o quê?
— Seis jogadores: eu, Maomé, João Batista, Marx, Moisés e Abraão.
— Do que é que você tá falando, afinal?
— Do jogo de cartas que a gente tem toda semana! Eu, Maomé, Moisés e Abraão. Que é que você pensava?
— Esquece…
— Bom, tenho que ir. Pela montanha estacionada, vejo que Maomé já chegou. Lembrança aos seus pais.

Sócrates se levantou, repôs a túnica no corpo e, apertando a mão de Jesus, se preparava para retirar-se quando se ouviu um grito:

— Olha a cabeça!

Pensando que era Deus com sua mania de se disfarçar de nuvem e lançar raios sobre os outros em momentos de raiva, Jesus se atirou de lado e rolou pelo chão. Sócrates, por sua vez, permaneceu no mesmo lugar.

Talvez por estar acostumado, afinal Javé pode até ser um tanto ou quanto irado, mas em matéria de lançar raios, como é notório, não há páreo para Zeus. Intrigado, o filósofo apenas levantou a cabeça na direção da voz, perguntando:

— Quando você diz “cabeça” se refere à minha própria? Ou estaria você falando da de…

Não chegou a completar a frase, porque naquele instante, não um raio, mas um homem despencou das nuvens e atingiu em cheio o cocuruto do filósofo, que desapareceu sob a areia.

Qual não foi, portanto, o assombro do Nazareno quando, reabrindo os olhos e procurando o grego, viu, em seu lugar, o sujeito que caíra sobre ele e que, já de pé e batido o pó da túnica, mirava as nuvens, em posição muito semelhante àquela em que estava o outro antes de ser tragado pelo chão.

— Sóc… Sócrates? — perguntou o Senhor, cabreiro.

E mais surpreso ficou quando, ao virar-se o homem para ele, constatou estar diante de Aristófanes.