Retornojesus3

As senhas eram repartidas de acordo com o destino de cada um: azuis, Céu, para os virtuosos; brancas, Purgatório, para os pecadores leves; vermelhas, Inferno, para os pecadores pesados; e roxas com bolinhas verdes, Piauí, para políticos e jornalistas.

Jesus se aproximou e, furando a fila — o que causou certa revolta —, disse ao santo, nervoso:

— Tudo bem, Pedro?
— Bem? — voltou o ex-pescador, indignado. — O Senhor acha que isso é serviço de gente? Preferia ser crucificado de cabeça pra baixo mais umas nove vezes a ter que ficar aqui distribuindo essas fichinhas pra esse povo mal-educado. E ainda ficam falando de mim por conta daquele galo! Hum! Judas é que se deu bem!
— Pedro, Pedro, estou precisando de um favor teu.
— Se for pra passar parente do Senhor para a frente da fila, nem pensar. O seu Pai não gosta de nepotismo. Outro dia fez um estardalhaço desse mundo, só porque eu deixei um operador de telemarketing entrar no Céu. Sabia lá que era proibido?!
— Não é nada disso, Pedro. Escute…
— E não coloca ninguém pra me ajudar, não! É a besta de carga aqui que tem que fazer tudo sozinho, enquanto os outros ficam por aí, passeando pelas nuvens! Por que é que eu não posso fazer chuva, que nem São João?
— Pedro…
— São Paulo mesmo é um que vive discursando feito um doutor e nunca coloca a mão no pesado. Só porque sabe falar latim!
— Pedro… Escuta, Pedro…
— A culpa é do Senhor, que resolveu me dar a chave do Céu. Se eu soubesse…
— ME ESCUTA, CACETE!
— Pois não, pois não. Que nervosismo! Parece que vai tirar o pai da cruz!
— Pedro, se eu lhe contar uma coisa, você guarda segredo?
— O Senhor sabe: eu sou uma pedra.
— Eu preciso sair do Paraíso, Pedro.
— SAIR?! DO PARAÍSO?!
— Fala baixo, pô!
— O Senhor ficou louco?
— Vou no Brasil e volto já, Ped…
— Aonde? Será que eu ouvi direito?
— Brasil!
— Perdoa, Pai, ele não sabe o que diz.
— Ai, meu Progenitor! Que será que tem de tão especial nisso? O Brasil é um país como qualquer outro!
— O Senhor está mesmo convencido?
— Sim.
— Tudo bem. Venha comigo. Quero lhe mostrar uma coisa.

Então São Pedro pegou o celular, chamou um anjo-substituto e levou Jesus até uma pequena salinha, nos aposentos de seu humilde castelo.

Ali, pediu para o Senhor sentar no sofá diante da televisão, com cuidado, para não furar o estofado com os espinhos da coroa. Em seguida, ligou o videocassete e, reclamando porque Deus não tinha providenciado para ele ainda um DVD, apertou o play.

Na tela da TV de 2.435 polegadas, começaram a passar imagens de um compacto com o pior do Brasil: cenas de violência, miséria, preconceito e de coisas ainda mais terríveis, como o futebol carioca, o carnaval baiano e o ambiente corporativo paulista.

Em seguida, o Filho do homem foi bombardeado por capítulos inteiros de novelas do SBT, shows de música sertaneja e comentários da Miriam Leitão no Bom Dia Brasil. E a muitas outras coisas tenebrosas assistiu, com direito a trilha sonora do Babado Novo e crônicas do Pedro Bial ao fim.

Quando acabou de ver tudo aquilo, o Senhor sacou de seu bodoque e São Pedro correu desesperado para a frente da TV:

— Por favor, Senhor, não faça isso! Ainda não acabei de pagar as parcelas das Casas Bahia!
— Fica tranqüilo, Pedro — falou Jesus, levantando-se do sofá e se dirigindo à saída.
— Ei? Volte aqui! Não desistiu da idéia de ir ao Brasil?
— Sim.
— E o que o Senhor vai fazer com esse bodoque?
— O de sempre, ora: atirar em anjinhos distraídos.

Assim, a paz voltou a reinar no Céu. E Deus viu aquilo e achou bom. Mas, vingativo, para castigar o país pela insubmissão do Seu filho, aumentou a bancada do PP no Congresso e deu mais trinta anos de vida ao Gugu.