O Pensador Selvagem  |  Blogs  |  Busca

A QUEM DESINTERESSAR POSSA

Publicado em 02/06/2008, às 21:40, por Marconi Leal


Sport1

Senhores, é provável que esta semana não dê expediente por aqui. Eis que saí para comprar ingressos para o jogo do Glorioso da Praça da Bandeira, campeão brasileiro do recente ano de 1987, pela final da Copa do Brasil. E, dado o tamanho das filas, lotadas de gente e de torcedores do Corinthians também, é provável que só reapareça na segunda-feira da próxima semana, se der sorte. Caso isso não aconteça, por favor, avisem meus familiares. Talvez tenha sido descoberto como agente pernambucano infiltrado e esteja sendo torturado por membros da Gaviões da Fiel.

DA ÉTICA PÚBLICA APLICADA ÀS RELAÇÕES AMOROSAS

Publicado em 30/05/2008, às 03:16, por Marconi Leal


Lete, o rio da integração nacional.

- Você? Sua canalha! O que é que você tá fazendo aqui?

- Simples, Adelson. Andei analisando o cenário político nacional durante um bom tempo e acho que eu mereço uma segunda chance.

- Uma oitava chance, você quer dizer. Porque, até onde eu sei, você me traiu sete vezes enquanto estivemos casados!

- Sete e meia, Adelson, considerando que também saí com Montanha, o Famoso Anão Tirolês.

- Não acredito! Você me traiu com aquele anão! O anão trabalha em circo, Ofélia! Como é que você pode ter feito isso?

- Com alguns tijolos pra dar o calço, Adelson. Mas a questão não é essa. O fato é que vivemos o Estado democrático de Direito e…

- Era o que faltava! Sou corno de um anão! Agora eu entendo perfeitamente aquela tara que Freud cita… Só pode ser isso, o ananismo.

- Onanismo, Adelson. Crime de Onan. É o mesmo que se masturbar, “descabelar o palhaço”…

- Como é que é, Ofélia? Eu ouvi direito? Além de sair com o anão, você ainda pegou o palhaço, Ofélia? Quem mais, Ofélia? O trapezista e os cachorrinhos de saia também?

- Não, Adelson, o que eu quis dizer… Bem, não importa. Quero que você saiba que vim até a sua casa depois de meditar muito e…

- E a mulher barbada?

- Como? Me escuta, Adelson!

- As focas, talvez?

- Adelson! Eu vim aqui pra dizer uma coisa importante.

- Que você vai fugir com o homem-cobra?

- Esquece isso, Adelson. Você não pensa em outra coisa?

- Penso, sim, claro. Penso que você me traiu até com aquela Lésbia!

- Lésbica, Adelson.

- Lésbia, Lésbica, o nome dela não importa.

- Não, lésbica é… Enfim, Adelson, a verdade é que todo ser humano merece uma segunda chance. Aliás, vou além: até os políticos merecem uma segunda chance. Ou você não tem ouvido a oposição dizer o tempo todo que é preciso esquecer o passado e olhar pro futuro?

- Isso é porque o passado dela não tem um anão tirolês!

- Tem o FHC, que é quase tão estranho e ainda fala fofo, Adelson. Sivam, compra de votos pra reeleição, aumento de impostos… Em suma, tudo o que eles acusam o governo atual de fazer e eles fizeram antes… Pum. Sumiu, esqueceu, acabou.

- Nada é pior do que levar chifre de sete pessoas e de um anão, Ofélia. Tudo bem, talvez o Marco Maciel na vice-presidência. Mas…

- E o governo Lula, por outro lado? Adotou a política econômica que condenava, aumentou juros, segurou o salário mínimo quando precisou, fez o mensalão… Ou seja, adotou tudo aquilo que denunciava e esqueceu, em apenas cinco anos. É o novo espírito do país, Adelson.

- Sei. Espírito de corno.

-Vamos seguir o exemplo, Adelson. Entre eles, veja que coisa bonita, os erros são cometidos, mas ninguém é julgado nem condenado por isso. Apenas se esquece. Vamos voltar e esquecer tudo, Adelson. É um ato de abnegação. De patriotismo, até.

- Sinto muito, Ofélia. Mas, felizmente, em casamento, não existe imunidade parlamentar! (Bate a porta.)

- (Esmurrando a porta fechada.) Não traia a pátria, Adelson! Não traia a pátria!

MATURIDADE

Publicado em 28/05/2008, às 02:54, por Marconi Leal


Madonnalitta Davinci

Talvez a observação seja apenas fruto de um filho único que, quando pequeno, se entregava a atividades tão producentes, enérgicas e brilhantes quanto passar a maior parte das horas do dia em semiletargia, admirando o nada e pensando não apenas na morte, mas no ataúde, no cortejo fúnebre, nas exéquias, nas coroas de flores, no sepulcro e no enterro da bezerra…

(Segundo especialistas, aliás, eu não era propriamente uma criança, mas um fluxo de consciência, e a progressão da minha infância poderia ser, em vez de datada, contada tomando como base uma determinada quantidade de páginas escritas por Virginia Woolf.)

Porém, desde a mais remota infância, eu acreditava fervorosamente que a maioridade, uma vez atingida, se manifestaria em mim através de uma imediata aquisição dos profundos conhecimentos dominados pelos adultos e terminantemente ocultos às crianças. Como, por exemplo, as verdades últimas da criação, o cálculo pitagórico, a leitura de hieróglifos, o número exato de plásticas feitas pela Elza Soares ou, mesmo, o significado esotérico daquele Paranapanema PP que aparecia na tela do Jornal Hoje, antigamente, todas as vezes que vinham os comerciais.

O mínimo que esperava, nesse sentindo, eram alguns sinais da divindade, à maneira de Suetônio: talvez um eclipse, um singelo terremoto ou que o Galvão Bueno passasse mais de um minuto em silêncio em alguma transmissão de futebol.

Para minha surpresa, no entanto, nada de extraordinário aconteceu quando completei dezoito anos. A não ser que se considere índice de paranormalidade o surgimento de pêlos em partes remotas da anatomia. O que me parece improvável, pois, nesse caso, o Tony Ramos estaria apto a fazer milagres, do tipo, quem sabe, interpretar um personagem significativo em uma telenovela.

No que diz respeito à auto-estima, continuava a me sentir ridículo como jornalista interpretando personagem em publicidade de programa esportivo. Não podia conceber algo mais idiota do que o meu próprio corpo. Com exceção, provavelmente, do pop dos anos 80.

Nunca, aliás, a dualidade espírito/corpo foi tão cientificamente expressa quanto no cisma que se estabeleceu entre mim e meu invólucro material. De tal maneira que me revoltava não existir um exorcismo da carne, processo em que um xamã especializado, através de ritos espirituais arcaicos, fosse capaz de livrar a alma do corpo que a obsedava.

Do ponto de vista psicológico, minha maturidade era tanta quanto a de um argumento contra o aborto. Sentia-me, além disso, seguro como a fronteira Brasil-Paraguai. E minha força de vontade era a de um César. Sobretudo a de Júlio, quando atacado por epilepsia.

Hoje em dia, quando penso nessa época - agora que os anos trouxeram a aguardada experiência e já sou, definitivamente, adulto, maduro, cavidoso, culto, belo, alto e tenho olhos azuis - sorrio, meditando sobre o quanto me apegava a idéias equivocadas e fúteis. E, balançando a cabeça, suspiro, superior, me perguntando: “Mas, afinal, que diabos significava mesmo aquele Paranapanema PP?”

PELA INTERNACIONALIZAÇÃO DO VALE DO SILÍCIO

Publicado em 26/05/2008, às 05:32, por Marconi Leal


Volto amanhã. Mas vim aqui só para dizer que sou totalmente a favor da internacionalização da Amazônia. Desde que EUA e França internacionalizem o Vale do Silício e o Louvre. Ah, e também sou a favor da imediata internacionalização do Arthur Virgílio e do Dunga.

CLÁSSICO DO FIM DA HISTÓRIA: BURGUESIA X PROLETARIADO (Segundo Tempo)

Publicado em 21/05/2008, às 02:20, por Marconi Leal


Van Dyck Gaston De France

TROTSKY: É isso, amigos. Vamos agora com Paul Johnson, que está com o time da Burguesia. Paul.

JOHNSON: Ok, Trotsky. Quero dizer que a torcida burguesa, apesar de em menor número, também está agitada. A batucada das pedras de gelo no fundo do copo de uísque é ensurdecedora. Sem falar no belo coro de poodles com pompom e da ola de leques Maria Antonieta, que tornam o espetáculo maravilhoso. Ouçam o barulho das jóias…

TORCIDA: Chhh, chhh, chhh…

TROTSKY: Puxa! Como é bom sentir todo esse calor humano!

VINHETA: Está com calor? Não agüenta mais viver no trópico infecto, cercado de mestiços? Acha que a vida é um inferno? Não deixe de lado toda a esperança. Ar-condicionados Ségrégation. Pour vous protéger de l’inconnu.

JOHNSON: Nós estamos aqui com o técnico Romeu Roberto Reinaldo Marco Figueiredo Gonçalves Arantes Orleans e Bragança. Romeu, alguma mudança com relação ao jogo passado?

ROMEU: Não, Paul. A idéia é manter o status quo. Em time que tá ganhando não se mexe.

JOHNSON: Então, a exemplo do que vem fazendo até aqui, você vai guardar bem o seu campo contra o avanço do adversário?

ROMEU: Isso mesmo. Se invadirem o nosso campo, a ordem é expulsar. Mas sem cometer falta, tudo dentro da lei. Afinal, nós jogamos com a tabela do campeonato do nosso lado.

JOHNSON: Alguma premiação especial em caso de vitória?

ROMEU: Um milhão de reais para cada jogador e quinhentos mil para a comissão técnica e o juiz.

JOHNSON: Aí está, Trotsky. Vai ser iniciada a partida.

TROTSKY: Comeeeeeça o jogo e… Pênalti! Com um segundo de jogo, pênalti para a equipe burguesa. Vai o camisa número nove da Burguesia para a cobrança. Não digo seu nome pra não perdermos o lance. Bateu… Gol! Gooool da Burguesia… Ahn? O que o juiz tá sinaliz… Pênalti! Outro pênalti. O jogo nem foi reiniciado e a Burguesia já tem outro pênalti a seu favor. Bateeeeu… Gol e pênalti. Mais um pênalti. 2 x 0 para a Burguesia. Bateeeeu… Gol, mais um pênalti e outro. Aos três segundo de jogo, 4 x 0 pra Burguesia. E pênalti… Gol. Pênalti. Gol. Pênalti…

VINHETA: Cansado de sacar dinheiro para molhar a mão de autoridades? Relaxe. Chegou Penalty Card, o cartão do corruptor moderno. Penalty Card. Because money is what really matters.

CLÁSSICO DO FIM DA HISTÓRIA: BURGUESIA X PROLETARIADO (Primeiro Tempo)

Publicado em 20/05/2008, às 02:54, por Marconi Leal


Jusepe De Ribera Le Pied Bot1

TROTSKY: Muito bem, amigos, estamos aqui, diretamente do fim da história para transmitir esse clássico da sociologia, ansiosamente esperado por marxistas-leninistas de todo o mundo. Depois de uma bela campanha, em que venceu o Mercantilismo nos últimos séculos, a Burguesia chega à final com o Proletariado, o azarão do campeonato, que após pequenas mas significativas conquistas ao longo do século XX, joga o seu destino hoje, na partida decisiva. Vamos à escalação. A Burguesia jogará com João Pedro Paulo Bruno Rodrigo Hermógenes Silveira Santos Wanderley Péricles e Silva, camisa número um. Na zaga, vai de Carlos Adeílton Rodrigues… Mas, peraí que me chamam lá, do palco do espetáculo. É com você, Chomsky.

CHOMSKY: Boa tarde, Trotsky, boa tarde amigos ouvintes. O jogo de hoje realmente promete. O Proletariado está com fome de gol e comendo a grama, mesmo antes do início do jogo. Já foram providenciadas, inclusive, novas bolas e o auxílio de jardineiros. Ouçam os gritos da torcida…

TORCIDA: Nós quer bife! Nós quer bife! Nós quer bife!

TROTSKY: É, Chomsky, parece que o Proletariado está com sede de vingança.

VINHETA: Vin-gan-ça-ça-ça. Água Mineral Vingança. Agora também nos sabores coliformes fecais e cólera light.

CHOMSKY: É realmente emocionante, Trotsky. Tanto mais que, como noticiamos antes, centenas de torcedores do Lúmpen vieram ao estádio, mas não puderam entrar por falta de numerário. Porém, mesmo do lado de fora, tentam mostrar seu apoio à equipe-irmã. Ouçam seus estômagos…

TORCIDA: Roinc, roinc! Roinc, roinc! Roinc, roinc!

TROTSKY: Que sincronismo! Que bonitas são essas manifestações autênticas do povo! É, de fato, uma beleza!

VINHETA: Beleza Ortodontia. Promoção de fim de campeonato: compre sua chapa hoje e, se o Proletariado vencer, não precisa pagar. Afinal, o comunismo vai ser instaurado mesmo e vão fechar nossa loja.

CHOMSKY: Bem, e nós estamos aqui com Brotoeja, o craque do selecionado de camisas com furinhos, calções esgarçados e meia cor de burro quando foge. E então, Brotoeja, vocês acham que vão conseguir vencer a Burguesia e levantar o troféu?

BROTOEJA: Bem, seu Chónsique, nós acredita que vencer a Burguesia vai ser o mais fáci. Difice mesmo vai ser levantar a taça, porque ela é meio pesada é nós não almoçou hoje.

CHOMSKY: É verdade que vocês vão insistir no contra-ataque, partindo para o gol rapidamente quando roubarem a bola?

BROTOEJA: É verdade, seu Chónsique. Nossa estratégia é roubar a bola e, se der, levar também algum relógio e bijuteria. O pobrema é que o time adversaro tá bem armado e conta com o apoio dos poliça.

CHOMSKY: Obrigado, Brotoeja. Trotsky, é com você. (Para Brotoeja) Devolve minha carteira! Devolve minha carteira!

(CONTINUA AMANHÃ)

CLÍNICA DE RECUPERAÇÃO PARA POLÍTICOS

Publicado em 15/05/2008, às 03:59, por Marconi Leal


Cesare Maccari Cicero Denuncia Catilina

- Bom dia! E então, como é que estamos nos sentindo, deputado?

- Vazio. Sinto um vazio muito grande.

- Angústia?

- Não, física. Vazio nas mãos. Faz uma semana hoje que não toco ao menos numa cédula de real!

- Não seja por isso. Se for só esse o problema… Aqui, tome, eu tenho uma de dez.

- Que bom! E a senhora pode deixar aí em cima e fingir que não vê, enquanto eu subtraio ela?

- Pelo visto o senhor não tem se esforçado no tratamento, deputado. Tem lido a Ética a Nicômaco que lhe dei?

- Juro que tentei. Mas, definitivamente, não gosto de ficção, doutora. A senhora não teria alguma coisa do Mario Puzo?

- Não. Tem tomado os remédios contra compulsão?

- Compulsivamente.

- Não é o que a enfermeira me contou. Diz que o senhor tem guardado os remédios e tentado revender aos doentes da ala dos autistas, com preços superfaturados e comissão de dez por cento.

- Nego e repilo. Eu e os autistas tivemos apenas contatos de ordem pessoal. São gente boa. Gosto de conversar com eles.

- Deputado, deputado, pense no bem que o senhor vai sentir após acabar o tratamento. Passando o período de abstinência, tudo fica mais fácil. Lembre do prefeito, seu ex-colega de quarto, por exemplo…

- Ha! Pois ontem mesmo meus assessores tavam me contando que ele se transformou num pária. Tem feito licitações, não desvia dinheiro do orçamento, recusou aumento de salário e até - pasme! -respeita o percentual de investimento na saúde! Diz que dá pena ver o coitado.

- Ele apenas foi reintegrado como cidadão útil à sociedade, deputado.

- Só se foi à Sociedade Brasileira de Psiquiatria! Porque ninguém da sociedade, que eu conheça, quer mais papo com ele: nem banqueiro, nem empreiteiro, nem empresário, nem juiz, nem lobista. Segundo parece, o pobre vai acabar a vida como funcionário assalariado e honesto. Tem até pagado imposto! Argh.

- É… O seu caso é mais grave do que eu pensava. Ao que parece, a medicação não tem surtido o efeito esperado, o senhor desenvolveu uma espécie de imunidade… É de lamentar.

- (orgulhoso) Dilamentar, não. Parlamentar.

- Vou aumentar a dosagem do seu remédio. O senhor vai passar a tomar duas caixas do Ladronol, 200mg diários de Corruptil e dois comprimidos noturnos de Propinex.

- É pouco.

- O senhor sente necessidade de mais?

- Sinto. Que tal se a senhora receitasse, digamos, dez caixas? Vendo as outras oito e lhe dou o lucro de três.

- Deputado, deputado… Isso é desonestidade!

- Tudo bem. De quatro, então. Meio a meio.

- Chega. Vou mandar recolher o senhor. O senhor só tem jeito com CPI.

- Oba! Enfim um lugar onde a gente pode mentir à vontade sem maiores conseqüências.

- Centro de Profilaxia Integrado. O seu caso é pra tratamento intensivo!

- Calma, doutora. Pra tudo há um jeitinho. Será que a gente não pode fazer um acordo? A senhora já pensou num cargo no Ministério da Saúde? Pode ser secretária da minha filha!

- O que nós já conversamos sobre nepotismo?

- Mas eu sou um homem família!

- Deputado, deputado…

ABIOGÊNESE CASEIRA

Publicado em 13/05/2008, às 04:02, por Marconi Leal


Abiogenese

Entre outras revelações igualmente críveis, o Livro dos Espíritos afirma que a lua tem forma pendular e que a geração espontânea não apenas existe como será devidamente comprovada no futuro.

Ora, quanto ao formato do satélite terrestre, nada posso dizer, pois, como se sabe, moro em São Paulo, onde a lua pode até existir, mas o céu não, e não possuo um shuttle para verificar a veracidade da afirmação in loco.

Porém, homem moderno que ajuda nos afazeres domésticos sem que, para tanto, minha cônjuge precise dar mais que duas chicotadas em meu lombo a título de incentivo, não posso deixar de concordar com a segunda afirmativa, sobretudo quando estou diante de uma pilha de pratos por lavar.

Não entendo como, tendo a ciência em nosso tempo evoluído a ponto de pesquisar fenômenos extraordinários como o da vida em ambientes sem oxigênio e o de raciocínio no cérebro do Zeca Camargo, não haja despertado para a perquirição de processo tão inexplicável quanto o da multiplicação de louças sobre a pia.

Processo, por outro lado, há milênios de conhecimento de teólogos e estudiosos da religião, uma vez que, se Jesus multiplicou peixes e pães, é razoável pensar que o tenha feito também com relação aos recipientes que os continham.

Com respeito a essa hipótese há, inclusive, menção no Evangelho Apócrifo de São Limpol ao fato de, durante os 40 dias que o Senhor passou no deserto, Maria e Madalena terem ficado em Galiléia, lavando os pratos do Seu último milagre. Ocasião em que a segunda, estafada após se livrar de uma pilha particularmente volumosa, teria dito à primeira:

- Em verdade vos digo: antes Ele não tivesse me livrado do apedrejamento!

Seja como for, não possuo epígonos ou seguidores e como tenho, ainda por cima, ouvidos extremamente sensíveis a berros femininos, sou obrigado a me atracar com as louças diariamente, o que vem me permitindo observar de perto a abiogênese.

Ultimamente, por exemplo, venho me atendo a acompanhar um fenômeno típico de livros de Stephen King (e não me refiro à transformação de cocô em dinheiro): assim que termino de lavar o último prato, imediatamente, em algum outro ponto da casa, surge uma peça de talher suja. Aguerrido cientista, tomo o objeto nas mãos e me ponho a lavá-lo, ouvindo as palavras de apoio de minha amada:

- Slapt! Slapt!

Debalde (não, leitor ignorante, não lavo a louça dentro de um receptáculo de alumínio com alça), pois, ato contínuo, sem que ao menos ouça a introdução de Assim Falava Zaratustra de Strauss, surge um outro utensílio emporcalhado debaixo do nariz. O que é tanto mais incrível quando se sabe que meu nariz não é pequeno.

Tenho, assim, atravessado meus dias azafamado e entregue a tarefas tão produtivas quanto as de uma danaide. Portanto, não me culpem se o ritmo de crônicas aqui não anda dos mais constantes, ó gente sem tino para grandes descobertas! Estou empenhado em garantir o futuro do homem e a evolução da ciência.

PELA PENA DE MORTE PARA GARRAFAS DE CERVEJA

Publicado em 09/05/2008, às 02:19, por Marconi Leal


Pelaprisao

Sempre atentos aos ingentes problemas nacionais e, sobretudo, detectando maneiras precisas de combatê-los, o governo e o Congresso encontraram um jeito infalível de acabar com os acidentes nas estradas motivados por embriaguez, proibindo estabelecimentos comerciais de venderem bebidas alcoólicas às margens das BRs.

Enquanto países atrasados e lassos quanto a normas públicas utilizam do expediente bizantino de fiscalizar as rodovias e enviar para a cadeia os infratores do código, nossos legisladores e governantes, utilizando-se de um approach derridiano das leis, vão ao cerne da questão e decretam o imediato aprisionamento dos verdadeiros autores dos crimes que vitimam milhares de brasileiros anualmente: as garrafas de cerveja.

De fato, não consigo imaginar forma mais prudente de evitar acidentes de trânsito e de punir os culpados por eles. E já penso inclusive que a ação deveria se expandir a outros flagelos nacionais, como, por exemplo, os desastres aéreos e as brigas de torcida. Ora, já é tempo de fazer-se imprimir nova lei decretando o fim da utilização do trem de pouso em aeroportos e de bolas em campos de futebol, evitando assim que torcedores se matem nos estádios em função do jogo e aviões decolem, vindo eventualmente a explodir.

Isso, sem falar no bem que poderia advir do eventual impedimento da reprodução humana no país, o que garantiria de uma vez por todas a extinção de crimes hediondos como o parricídio e o infanticídio. Ou, mesmo, do fechamento de todas as empresas, nacionais e estrangeiras, impedindo-se com tal medida que milhares de pessoas saiam de casa diariamente para procurar emprego, aumentando o índice de desempregados.

Verdade seja dita, diagnóstico de causa e efeito mais beliz não se via no Ocidente desde a morte do façanhoso professor Pangloss. Sendo de estranhar que até hoje ninguém houvesse posto em prática tal idéia, cujos autores deveriam, sem dúvida, ser agraciados com o prêmio Faraó para Contenção de Calamidades.

No entanto, seres inconseqüentes que nada entendem de raciocínios cartesianos e física newtoniana, para não dizer que desconhecem inteiramente os caracteres cuneiformes de Hamurabi, certamente movidos por interesses escusos e elitistas, manifestam-se contrários à nova determinação, alegando que os moradores e comerciantes das pequenas localidades do interior serão prejudicados pela medida e que esta nada fará pela contenção dos acidentes rodoviários. Eis aí como o capitalismo pode deturpar as verdades mais simples e - por que não dizer? - apriorísticas.

Bravos e indiferentes à grita da doidarraz minoria, nossos homens públicos seguem em frente com o projeto e já prevêem, num futuro aprimoramento da lei, a construção de engradados federais de segurança máxima para segregar as garrafas de cerveja recalcitrantes do seio da sociedade ordeira e trabalhadora das garrafas PET de refrigerante, e uma mudança constitucional, estabelecendo a pena de morte para cascos reincidentes.

Fica aqui, portanto, meu aplauso a nossos dirigentes e parlamentares. E a seus detratores, meu apelo: que reconheçam o esforço produtivo e parem de fingir, de uma vez por todas, que um mais um é igual a dois. Insensatos!

O SUBPENSAMENTO VIVO DE MARCONI LEAL (9)

Publicado em 07/05/2008, às 02:13, por Marconi Leal


Decamps Lesingepeintre

Militância política é a arte de vestir a camisa do partido e seguir destemidamente para a luta, deixando o cérebro em casa.

*

O segredo para o casamento dar certo, em pleno século XXI, é a contratação de uma boa diarista.

*

A questão fundamental não é, propriamente, saber se existe vida após a morte, mas sim se, nela, o sujeito mantém o senso crítico.

*

Se é verdade que quando a gente tem um desejo o Universo conspira a nosso favor, devo dizer que ele é extremamente incompetente.

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Certa vez, tentei me livrar da artificialidade da vida em sociedade e, como Thoreau, me retirar para a solidão da floresta para meditar sobre a venalidade da civilização e a ascensão, em nosso tempo, do material sobre o espiritual.

Não deu certo. Esqueci o repelente.

*

Acho, como muitos, que só o amor é capaz de mudar o mundo. Mas a R$ 200 a trepada, fica difícil.

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Eu tento me comunicar com Ele, sim. Porém, que posso fazer se Deus está sempre off-line?

*

Há alguns anos vi uma epifania. O céu se coloriu de púrpura, o sol se expandiu e, de entre as nuvens, o anjo do Senhor surgiu, dourado, esplêndido, em toda a sua glória. Descendendo sobre mim, que me ajoelhava - extático, vertendo lágrimas de puro arrebatamento espiritual -, exortou-me, em sua voz tonitruante: “Com essa idade e ainda acreditando em anjo, rapaz?”

*

É com já dizia Dostoievski: se Deus não existe, a axé music está justificada.

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