O Pensador Selvagem  |  Blogs  |  Busca

O DRAGÃO

Publicado em 22/02/2007, às 02:59, por Marconi Leal


Odragao

— Vem, Ari, tira o cinto…
— Pronto, pronto.
— Chega mais perto, chega… Abre o zíper…
— Assim?
— Isso, Arizinho, baixa a calça… Agora, a cueca… Isso… iss… Ariovaldo? O que é isso, Ariovaldo?!!
— Meu pinto, ué!
— Não, Ariovaldo, em cima do pinto!
— Fimose?
— Ariovaldo, meu Deus do Céu, o que foi isso que você fez no… nos…
— Depilação artística. Gostou?
— Você cortou os pêlos pubianos em forma de borboleta, Ariovaldo?
— Assim você me ofende. Eu lá sou homem de fazer desenho de borboleta em pêlo pubiano? Sou macho! É um dragão. De asas abertas. (abana os braços como asas) Uaah! Uaah!
— Que é esse “uaah”? O dragão tá de ressaca?
— Não gostou, amor?
— Se eu gostei? Esse dragão tá a cara do Bozo! Qual era exatamente a tua idéia? Fazer uma homenagem ao Sílvio Santos?
— Pô, amor, você não disse que as coisas tavam meio paradas e tal, que era preciso variar? Então eu achei que…
— Que se colocasse uma peruca no pinto as coisas iriam melhorar?
— Pois fique a senhora sabendo que o dragão é um símbolo de fertilidade na China Antiga, tá entendendo? Uaah! Uaah!
— E eu lá tenho cara de semente pra ser fertilizada, Ariovaldo? Eu só queria fazer sexo com alguém que não tivesse suíças…
— Quanta ignorância! Você não tem cultura, mulher. Trata-se de um trabalho artístico.
— Sei. E, pelo visto, o artista era dadaísta, né? Só isso explica que o corpo do dragão seja tão menor que as asas.
— Epa! Insulto, não, hein?
— Santo Cristo… Que foi que te deu na cabeça pra fazer uma coisa dessas? Você tem quase cinqüenta anos, homem! Onde foi que você fez isso, me diz?
— Onde! No salão de beleza, ora essa!
— Foi uma mulher que fez isso em você?
— F-foi. Quer dizer… Uma senhora… Uma velha… Gorda.
— E ela ficou segurando o teu pinto, foi?
— Bom… Só nos primeiros segundos…
— Deu, Ariovaldo! Sai do quarto, sai!
— Você não acompanha os tempos modernos, Maria Regina.
— Sai! Sai daqui, já disse. E leva esse dragão com você.
— Olha que você vai perder, hein?
— Perder? Perder o quê?
— Uaah! Uaah!

TERAPIA DE CASAL

Publicado em 21/02/2007, às 03:31, por Marconi Leal


Terapia

TERAPEUTA: E então, o que os traz aqui?
CÉLIA REGINA: O Aurélio, doutora.
TERAPEUTA: Aurélio? Mas eu pensei que o senhor se chamasse Euclides.
EUCLIDES: E me chamo, doutora. Aurélio, no caso, é o dicionário.
TERAPEUTA: Quê?
CÉLIA REGINA: É o seguinte, doutora, o Euclides, ele fala “nincho de mercado”.
EUCLIDES: Veja a senhora, doutora: dez anos de casado e só porque eu deixei escapar, uma vez na vida, “nincho de mercado”, a casa caiu.
CÉLIA REGINA: “Nincho de mercado”, doutora! “Nincho de mercado” é o fim da picada. Ele diz isso sempre, sempre!
EUCLIDES: Tá, tudo bem. Admitamos que eu tenha dito, uma vez ou outra. Em compensação, você vive falando “sombrancelha” e eu nunca reclamei.
CÉLIA REGINA: Ha! Quem é que fala “sombrancelha” aqui?
EUCLIDES: Você. “Sombrancelha” e “iorgute”. Por que é que você acha que lá em casa agora tem caixas e caixas de iogurte, que eu compro toda semana? É só pra não ouvir você me pedir pra trazer “iorgute” quando eu vou no supermercado.
CÉLIA REGINA: Ah, então é isso, senhor “um plus a mais”?
EUCLIDES: Como é que é?
CÉLIA REGINA: Não se faça de desentendido, Euclides. Ainda ontem você tava falando com o Rogério pelo telefone que “a empresa tal tem um plus a mais e por isso encontrou um novo nincho de mercado”. Urgh, chega a me dar uma coisa! Fico com os pêlos todos arrepiados só de lembrar, doutora!
EUCLIDES: Até os da “sombrancelha”?
CÉLIA REGINA: Olha a ironia, Euclides. Fique sabendo que essa coisa de “sombrancelha” é uma questão de costume, tá? Lá na minha terra todo mundo fala assim.
EUCLIDES: Deve ser porque vocês tomam muito “iorgute”.
CÉLIA REGINA: Não, não. Lá eles, se tomam ior… io… gurte, fazem que nem você: “gospem” fora.
EUCLIDES: Eu imagino que agora você está querendo insinuar que eu falo “guspir”, em vez de “cuspir”?
CÉLIA REGINA: Juro sobre o Houaiss que ele fala, doutora.
EUCLIDES: Essa é boa! Uma pessoa que diz “poblema”, reclamando do meu vocabulário!
CÉLIA REGINA: Nunca disse “poblema” na minha vida. E o seu vocabulário, Euclides, é de “mindingo”
EUCLIDES: Meu São Caldas Aulete! É “mendigo”, “inguinorante”!
CÉLIA REGINA: É “ignorante”, “instrupício”!
TERAPEUTA: Calma, calma, gente. Vocês precisam se acalmar.
CÉLIA REGINA: Desculpe, doutora…
EUCLIDES: É, doutora…
TERAPEUTA: Parem um pouco e meditem. Casamento é compreensão.
CÉLIA REGINA: Quer dizer…
EUCLIDES: Uhm…
TERAPEUTA: Será que vale a pena discutir por conta de algo tão pequeno?
CÉLIA REGINA: Bom…
EUCLIDES: Ahn…
TERAPEUTA: Vejam bem, será que coisas assim são o que verdadeiramente importa, a nível de casamento?
CÉLIA REGINA e EUCLIDES: “A NÍVEL DE”, DOUTORA?!!
CÉLIA REGINA: Vamos embora, Cli!
EUCLIDES: Agora mesmo, Celinha! Dá a mão.

O QUEIXO

Publicado em 20/02/2007, às 05:08, por Marconi Leal


Queixo

— Por que é que cê tá com essa cara aí, olhando pro nada, todo amuado, Adamastor?
— O queixo.
— Ai, meu Deus, machucou o queixo, Totozinho? Vem cá, vem, que eu dou beijinho.
— Não, não, o queixo como conceito.
— Ahn? Que é que cê disse?
— Fico pensando… De onde será que Deus tirou a idéia, hein?
— Ai, ai, ai, lá vem você filosofando na hora do jantar de novo. Ontem, eram especulações em torno da teoria das supercordas aplicada ao caminhar do Clodovil. Semana passada, estabeleceu uma relação entre os nove dedos do Lula e o conflito no Oriente Médio. Agora…
— Não, porque, veja bem, o nariz a gente até entende. É meio feião, cria meleca, mas serve pra respirar ou, no meu caso, pra sustentar os óculos, já que tenho renite alérgica. Mas o queixo, mulher, por que o queixo?
— E eu vou lá saber, Totô! É a mesma coisa do cotovelo… Sei lá! Simplesmente existe.
— Não, senhora. O cotovelo tem um propósito. Sem o cotovelo, por exemplo, os Estados Unidos não teriam invadido o Iraque. Ou tu não viu os marines se arrastando pelo solo, com os fuzis? Aliás, ouso dizer até que, sem o cotovelo, não teria existido Napoleão. Digo mais, a Inglaterra nunca teria sido o Império que foi. Tudo graças ao cotovelo. Sem falar que não daria para escutar o Agnaldo Timóteo sem o dito cujo.
— Tá, tudo bem, Totô, não precisa se exaltar. Que a Gloria Kalil não me ouça, o cotovelo presta pra alguma coisa, devo admitir. Agora, que tal se a gente ligasse a TV pra…
— Você veja que até o calcanhar tem o seu mérito. Está aí o Sócrates que não me deixa mentir.
— Sócrates? Você não tá errando de grego? O calcanhar não era do Aquiles?
— Sócrates, o jogador, mulher. Ou tu não lembra da Copa de 82? Está ali a maior prova de que o calcanhar tem a sua função, cumpre o seu papel, faz parte da economia do organismo. O calcanhar, quando menos, serve para coçar a panturrilha. Mas, e o queixo?
— Ah, Totozinho, deixa o queixo em paz, vamo ligar a televisão pra assistir a novela, vamo. Olha, é hoje que o…
— O queixo nem pra coçar serve! Com ele mal se alcança o peito! A menos que você seja o Frei Damião ou trabalhe no Cirque du Soleil, claro.
— Sei, sei. Agora, bem, venha, passe o…
— Mesmo o dedão do pé, mulher! Mesmo o dedão do pé tem os seus encantos. Quem nunca arrancou a unha do dedão do pé para cheirar aquela nojeirinha verde que fica ali embaixo?
— Adamastor, faz favor! Eu tô comendo!
— As coxas servem pra cruzar as pernas…
— Uf! Passa o controle, Adamastor!
— O umbigo pra juntar farelo de comida…
— Adamastor! O controle!
— O joelho tem o seu propósito sexual…
— Quê? Que história é essa de propósito sexual do joelho?
— Hipoteticamente. Tô falando hipoteticamente.
— Hum! Quer saber? Me passa esse controle remoto de uma vez que eu vou ver minha novela. Chega!
— Tudo bem, tudo bem, não precisa gritar. Mas como é que você quer que eu passe? Tô com as mãos todas sujas de manteiga!
— Sei lá, ora essa!… Empurra com o queixo!
— Com o… (olhos brilhando de alegria) Você é um gênio, querida! Você é um gênio!

A DIFÍCIL ARTE DE AGRADAR AS MULHERES

Publicado em 19/02/2007, às 04:30, por Marconi Leal


Artemulheres

— Está tudo acabado, Menezes.
— Ahn? Como assim?
— Assim, acabou, chegou, deu. Não quero mais viver com você.
— Você deve estar brincando, Maria Luísa! Posso saber por quê?
— A verdade é que você, Menezes, você…
— Eu não tenho sido bom, compreensivo, amigo, companheiro, carinhoso?
— Tem, tem. E isso é justamente parte do problema.
— Parte do problema? Acho que você ficou louca!
— Não, não, Menezes. Você é muito perfeito, Menezes, assim não tem mulher que agüente.
— Ha! Essa é boa! Você quer acabar comigo porque eu sou muito perfeito?
— Isso e também porque… Menezes, você não faz xixi fora da privada. Você até abaixa a tampa do vaso!
— Ué? E as mulheres não vivem reclamando exatamente disso, que os homens sujam o chão e não levantam a tampa da privada?
— Vivem, Menezes, mas eu não! Eu não, entende? Quando me reúno com a Marcinha e a Pê, elas ficam lá, desancando os maridos, dizendo que eles jogam a roupa pelos cantos de qualquer jeito, que não ajudam no trabalho da casa, que soltam pum na frente delas, e eu não tenho o que dizer, Menezes, não tenho nada pra falar de você. É muita humilhação! Você nem barriga de chope tem! Aliás, você nem bebe nem joga pelada no final de semana. Nunca me deixa esperando quando marca de me levar pra jantar!
— Não fique assim, Lu. Hein? Olha aí, atirei a meia no lustre! Ahn? Que tal? E, se eu me esforçar um pouco, posso soltar pum na sua frente! Espera… Hum! Calma… Tá saindo… Huuum!… Viu? Viu?
— Isso lá é pum, Menezes? Uma bufa sem graça dessa, que nem feder fedeu. Pum é uma coisa potente, ruidosa… Aliás, peido! Você não peida, Menezes. Você no máximo solta flatos.
— Calma, querida. Só preciso de um pouco de treino, eu juro que vou me esforçar.
— Não adianta, Menezes. Você não tem o physique du rôle.
— Epa! Aí não, hein, não insulta. Rôle eu tenho e das grandes, você sabe muito bem disso.
— Vê? Você forrou a cama e lavou os pratos antes de eu chegar!
— Mas, filha, que mal há nisso? Cheguei antes do trabalho, você chega cansada e…
— E ainda mais isso, Menezes: você me chama de “filha”. “Filha” não dá. Você tinha que ter me insultado, uma vez ou outra…
— Feia! Chata! Boba! Viu, viu?
— De vaca, Menezes. Tinha que ter me chamado de vaca. Sabe quando eu tô de TPM e atiro vasos na sua cabeça?
— São os hormônios, amor.
— Não fala isso, Menezes! Deixa de ser compreensivo!
— Não fica assim, querida, vem cá, me dá um abraço…
— Larga, Menezes, deixa de ser pegajoso!
— Ô, Bunjunguinha, chega aqui.
— Pára, Menezes, pára! Será possível que nem uma vez na vida você pode se comportar como um porco? Você tem que ser machista, Menezes! Como é que você nem ao menos se digna a contar piada sobre a suposta inferioridade feminina em mesa de bar? Por que é que você não fala mal da minha família? O meu irmão é um vagabundo, que vive te pedindo dinheiro emprestado, Menezes!
— Coitado, mô, ele tá desempregado! A culpa é da política econômica do governo.
— Menezes, ele é funcionário público desde a época do Collor! E não é isso, Menezes, não é apenas isso… É o conjunto. Se você pelo menos coçasse o saco em público…
— Eu vou me esforçar, filha. Juro. Eu vou me esforçar.
— E não me chama de filha!
— Desculpe, sua vaca, me desculpe.
— Vaca? Você me chamou de vaca?… Boa, Menezes! Continue.
— E… E agora cala a boca que eu quero ver televisão!
— Perfeito, Menezes!
— Já disse pra calar a boca! Tô ligando a TV e não quero ouvir nem mais um pio!
— Isso, Menezes!
— Você ainda tá falando, sua cachorra? Cala a boca, já! Ora, não tá vendo que está atrapalhando a minha novela!
— Novela, Menezes? Novela? Chega, eu vou pra casa da mamãe!

ARTE PÓS-MODERNA

Publicado em 16/02/2007, às 05:05, por Marconi Leal


Arteposmoderna

— Bela escultura, não?
— Belíssima. As bolsas agrupadas de forma desordenada, como uma metáfora da solidão e do hedonismo contemporâneos. Uma crítica à sociedade de massas, sem dúvida, com a cor forte da madeira representando o Estado em sua…
— Bolsas? Madeira? Mas, pra onde é que tu tá olhando, afinal?
— Pra escultura, ora essa! Ó lá: a luz artificial de uma sociedade fria e mecanizada incide sobre as individualidades destroçadas pela modernidade tardia, os casacos sem corpos significando a ausência do espírito ante a dura materialidade da…
— Pô, mas tu tá olhando pro cabide!
— Ahn?
— Aquilo ali é um simples cabide, pra colocar as roupas, rapaz! Não faz parte da exposição. A escultura é essa aqui, olha aí.
— Qual? Aquela ali ao lado da geladeira quebrada com um pingüim em cima?
— Não! É a própria geladeira quebrada com o pingüim em cima!
— Ah…
— Não é incrível como o artista consegue passar a sensação de impotência diante de uma realidade que nos… Ei, ei! Que é que tu ta fazendo? Não toca aí, rapaz!
— Ué, não posso pegar um bombom?
— Pô, Benevides, isso daí é uma instalação! Tu comeu um pedaço da instalação, rapá!
— Nhammm… Foi maus! Nham… Como é que eu ia saber?… Nham… nham… Os bombons tavam na cristaleira e…
— Deixa de ser bárbaro, rapaz! Te trouxe aqui pra tu tomar um banho de cultura e tu me apronta uma dessas. Tu não disse que queria impressionar aquela publicitária com quem tu tá saindo? Pois então? Coloca a mão nos bolsos! Isso, mão nos bolsos! Tu precisa conformar teu olhar à beleza, Benevides. Sacar as curvas, o jogo de formas, as nuances, cara, as nuances. Tá ligado?
— Só um minuto. Olha lá o nuanção daquela morena de saia, ali, atrás da pilastra, entre o pára-lama de Fusca e a pirâmide de Comandos em Ação.
— Tu tá de brincadeira comigo, Benevides?
— Pô, cara, o negócio é o seguinte: será que eles não têm um Rafael, um Rembrandt, Frans Hals, Rubens? Qualquer flamengo serve ou, quem sabe, mesmo um Pavel Fedotovzinho…
— Tu és um visigodo, rapaz. Deixa de ser obtuso. Isso daqui é arte pós-moderna, mermão. Esses teus pintores tão ultrapassados, não falam da sensibilidade contempo… puta que o pariu, Benevides! Tu jogou a guimba do cigarro dentro da mão de Krishna, rapaz!
— Mãe de quem?
— Mão! Mão de Krishna, o deus hindu!
— Mas isso daqui não é um cinzeiro?
— Cinzeiro é o cacete, Benevides! Não tá vendo que isso daí é arte, bicho? Tu não saca Duchamp, rapaz? Arte é o que a gente chama de arte, pô!
— Calma, calma! Não vai voltar a acontecer. Vou fazer uma arte, digo, vou fazer uma obra, enfim, vou ali no banheiro e volto já. Te acalma. Güentaí. Juro. Eu vou me comportar. (sai)
— É cada uma. As coisas que a gente tem que aturar. Eu trago esse infeliz aqui pra beber da verdadeira arte e, quando vai ver, o camarada… Ahn? Mas, o que é aquilo? Ai, meu Deus do céu. Vou-me embora, alguém me esconda. Não posso acreditar… Socorro, o Benevides tá fazendo cocô dentro do penico do Duchamp!

JUVENTUDE PERDIDA

Publicado em 15/02/2007, às 02:38, por Marconi Leal


Juventudeperdida

— O que você está fazendo, Maria Cecília?!
— Ahn? Hein? Nada, mãe!
— Maria Cecília, Maria Cecília, eu não sou cega, Maria Cecília! O que é isso que você tá escondendo atrás do corpo?
— Nada, não, mãe, eu juro. Nada!
— Não adianta tentar me enganar. Eu vi! Vamos, mostre o que você tá escondendo aí!
— Mas…
— Nem “mas” nem meio “mas”. Mostre!
— Pronto. Tá aqui…
— Eu sabia! Ai, meu Deus! Ai, Jesus! Eu vou morrer!
— Calma, mãe, não é o que a senhora tá pensando…
— Como você pôde fazer isso de novo, Maria Cecília? Nós já não tínhamos conversado, eu, você e seu pai? Nós não já lhe tínhamos mostrado as conseqüências desse seu comportamento? Adalberto! Ô, Adalberto, chega aqui!
— Não é pra tanto, mãe. Que é que eu posso fazer? Eu curto. É o maior barato.
— Não, não, pare de falar, por favor. Assim eu não agüento. Adalberto! Cadê o palerma do seu pai? Isso são esses seus amigos, Maria Cecília, é a má influência. Quantas vezes eu já disse pra você sair, pra ir no pagode? É nesses ambientes que você vai se relacionar melhor, minha filha, arrumar um marido cantor, um ator, quem sabe até um jogador de futebol.
— Eu gosto de música clássica, mãe.
— Ai, não, não quero ouvir. Música clássica! Música clássica vai levar ninguém pra frente, Maria Cecília? Por acaso você já foi a algum show lotado do Mozart ou do Chopin?
— Não freqüento centro espírita, mãe…
— E aquele curso de modelo em que eu te inscrevi com tanto carinho e você abandonou? Você não pensa no seu futuro?
— Penso, mãe.
— Pois é, você pensa muito, esse que é o seu problema. Você já viu alguém que pensa trabalhando na TV, Maria Cecília?
— Eu não quero trabalhar na TV, mãe.
— Malditas más companhias. Adalberto! Vem cá, Adalberto! Passe isso pra cá, Maria Cecília, me dê. Me dê essa droga aqui de uma vez. Eu não queria, mas, desse jeito, a gente vai ter que acabar te internando. Saramago? Então é esse o título?
— Não, esse é o autor.
— Saramago? José Saramago? Peraí, esse daí não foi o que ganhou o Oscar, outro dia?
— O Nobel, mãe.
— Ai, meu Deus! Ai, Jesus! Adalberto! Vem cá, Adalberto! Tá surdo? Tua filha tá lendo livros de novo! Uma menina tão bonita… Maria Cecília, ah, Maria Cecília, você nos mata de desgosto!

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (3)

Publicado em 14/02/2007, às 02:22, por Marconi Leal


Retornojesus3

As senhas eram repartidas de acordo com o destino de cada um: azuis, Céu, para os virtuosos; brancas, Purgatório, para os pecadores leves; vermelhas, Inferno, para os pecadores pesados; e roxas com bolinhas verdes, Piauí, para políticos e jornalistas.
.
Jesus se aproximou e, furando a fila — o que causou certa revolta —, disse ao santo, nervoso:
.
— Tudo bem, Pedro?
— Bem? — voltou o ex-pescador, indignado. — O Senhor acha que isso é serviço de gente? Preferia ser crucificado de cabeça pra baixo mais umas nove vezes a ter que ficar aqui distribuindo essas fichinhas pra esse povo mal-educado. E ainda ficam falando de mim por conta daquele galo! Hum! Judas é que se deu bem!
— Pedro, Pedro, estou precisando de um favor teu.
— Se for pra passar parente do Senhor para a frente da fila, nem pensar. O seu Pai não gosta de nepotismo. Outro dia fez um estardalhaço desse mundo, só porque eu deixei um operador de telemarketing entrar no Céu. Sabia lá que era proibido?!
— Não é nada disso, Pedro. Escute…
— E não coloca ninguém pra me ajudar, não! É a besta de carga aqui que tem que fazer tudo sozinho, enquanto os outros ficam por aí, passeando pelas nuvens! Por que é que eu não posso fazer chuva, que nem São João?
— Pedro…
— São Paulo mesmo é um que vive discursando feito um doutor e nunca coloca a mão no pesado. Só porque sabe falar latim!
— Pedro… Escuta, Pedro…
— A culpa é do Senhor, que resolveu me dar a chave do Céu. Se eu soubesse…
— ME ESCUTA, CACETE!
— Pois não, pois não. Que nervosismo! Parece que vai tirar o pai da cruz!
— Pedro, se eu lhe contar uma coisa, você guarda segredo?
— O Senhor sabe: eu sou uma pedra.
— Eu preciso sair do Paraíso, Pedro.
— SAIR?! DO PARAÍSO?!
— Fala baixo, pô!
— O Senhor ficou louco?
— Vou no Brasil e volto já, Ped…
— Aonde? Será que eu ouvi direito?
— Brasil!
— Perdoa, Pai, ele não sabe o que diz.
— Ai, meu Progenitor! Que será que tem de tão especial nisso? O Brasil é um país como qualquer outro!
— O Senhor está mesmo convencido?
— Sim.
— Tudo bem. Venha comigo. Quero lhe mostrar uma coisa.
.
Então São Pedro pegou o celular, chamou um anjo-substituto e levou Jesus até uma pequena salinha, nos aposentos de seu humilde castelo.
.
Ali, pediu para o Senhor sentar no sofá diante da televisão, com cuidado, para não furar o estofado com os espinhos da coroa. Em seguida, ligou o videocassete e, reclamando porque Deus não tinha providenciado para ele ainda um DVD, apertou o play.
.
Na tela da TV de 2.435 polegadas, começaram a passar imagens de um compacto com o pior do Brasil: cenas de violência, miséria, preconceito e de coisas ainda mais terríveis, como o futebol carioca, o carnaval baiano e o ambiente corporativo paulista.
.
Em seguida, o Filho do homem foi bombardeado por capítulos inteiros de novelas do SBT, shows de música sertaneja e comentários da Miriam Leitão no Bom Dia Brasil. E a muitas outras coisas tenebrosas assistiu, com direito a trilha sonora do Babado Novo e crônicas do Pedro Bial ao fim.
.
Quando acabou de ver tudo aquilo, o Senhor sacou de seu bodoque e São Pedro correu desesperado para a frente da TV:
.
— Por favor, Senhor, não faça isso! Ainda não acabei de pagar as parcelas das Casas Bahia!
— Fica tranqüilo, Pedro — falou Jesus, levantando-se do sofá e se dirigindo à saída.
— Ei? Volte aqui! Não desistiu da idéia de ir ao Brasil?
— Sim.
— E o que o Senhor vai fazer com esse bodoque?
— O de sempre, ora: atirar em anjinhos distraídos.
.
Assim, a paz voltou a reinar no Céu. E Deus viu aquilo e achou bom. Mas, vingativo, para castigar o país pela insubmissão do Seu filho, aumentou a bancada do PP no Congresso e deu mais trinta anos de vida ao Gugu.
.
TODOS OS CAPÍTULOS

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (2)

Publicado em 13/02/2007, às 03:26, por Marconi Leal


Retornojesus2

Jesus encontrou o Espírito Santo se divertindo a passear sobre a face das águas.
.
— Já sei, você quer ir ao Brasil — falou o Invisível, assim que ele se aproximou.
— Nossa, como esse pessoal é fofoqueiro: já saíram espalhando por aí! — falou Jesus, caminhando sobre as ondas.
— Você deveria ser condenado ao Inferno, Jesus.
— Eu? Só por que quero ir ao Brasil?
— Não, porque concordou “saíram” com “pessoal”. Isso é que dá ter tanta aula de catecismo e tão poucas de gramática. Além do mais, ninguém me contou. Ou você se esquece que eu estou por toda parte?
— Mais um motivo pra eu me mandar pro Brasil. É impossível ter privacidade aqui nesse lugar!
— E no Brasil você acha que vai ter? Ha! Vejo que você não domina o conceito de câmeras de vigilância nem conhece frases do tipo: “Sorria, você está sendo filmado”.
— Lá pelo menos eles colocam placas de aviso!
— Sim, mas só para evitar processos, o que seria desnecessário aqui. Afinal, como você bem sabe, no Céu não entram advogados.
— Quer saber? Não interessa. Eu tô decidido a ir ao Brasil, Espírito, e vim pedir tua ajuda.
— Olha, Jesus, eu gostaria muito de te ajudar, mas o que você pede está acima de meus poderes. Viver no Brasil não dá! Por que você não escolhe localidades mais aprazíveis, como o Iraque ou o Afeganistão?
— Porque por lá é outro magro barbudo que faz sucesso, Espírito. Veja bem, só quero que você convença meu Pai a me deixar ir…
— Hi! hi! hi! Convencer seu pai? Hu! hu! É tão fácil convencer seu pai de alguma coisa quanto ensinar princípios cristãos ao George Bush, Jesus. Você já devia saber disso. Com um homem que derrotou Satanás não se brinca. O pobre Diabo tá até hoje de cabeça pra baixo no Inferno. Você não leu Dante?
— Não, nunca consegui uma boa tradução em aramaico. Mas, voltando ao meu problema, e se você pelo menos me ajudasse a sair daqui sem ninguém ver?
— Impossível. Ou você acha que chamam seu pai de Onisciente só pra puxar o saco dele?
— Putz! Mas esse lugar é uma prisão!
— Pior. Na prisão é fácil sair, se você for membro do PCC.
— Eu vou falar com Pedro!
.
Agastado, Jesus disparou na direção dos portões do Paraíso, onde São Pedro organizava as filas e distribuía senhas, vestido com uma bata do INSS.
.
TODOS OS CAPÍTULOS

O FRUSTRADO RETORNO DE JESUS À TERRA (1)

Publicado em 12/02/2007, às 02:29, por Marconi Leal


Retornojesus1

Cansado daquela eternidade toda, que não passava nunca e cuja única diversão era dar tiros de bodoque em anjinhos distraídos, o bom Jesus resolveu voltar à Terra.
.
Foi comunicar o fato ao Pai, que naquele instante dava um esporro verdadeiramente paradisíaco num santo, para que ele consertasse sua auréola, que estava torta.
.
— Esses italianos! — resmungava o Onipotente. — Maldita hora que eu permiti o Vaticano em Roma!
— Pai, quero ir de volta à Terra — disse Jesus, contrito.
— Ahn? Pra Terra? Mas meu filho, com tantos planetas girando ao redor do sol, que fiz com tanto carinho e onde é tão mais fácil respirar!
— Pô, pai, o senhor sabe que eu gosto de uma cruz. Vou lá ver se resolvo uns problemas. Os homens andam sofrendo muito…
— Ver se resolve uns problemas! Esses adolescentes! Se é pra resolver problemas, por que você não se dedica a aparar a cauda de uns cometas, tapar um ou outro buraco negro, colocar outros anéis em Saturno, enfim, coisas mais simples?
— Pô, pai, o Senhor sabe que eu me interesso pelos seres humanos.
— Puf! Às vezes eu acho que não sou seu Pai.
— E eu não entendo o Senhor, Pai! Pô, será que não pensa em fazer nada para minimizar o sofrimento daqueles infelizes?
— Claro que sim. O negócio é que, seu eu eliminar a Terra, digamos, com uma grande explosão, a gravidade desarranjaria o Sistema Solar e ia dar um trabalho danado pra arrumar tudo de novo… Maldita gravidade! Eu devia ter desconfiado quando o Diabo deu a idéia!
— O Senhor não tem coração, Pai.
— Graças a Mim! Estou livre da angina. Meu filho, talvez você não entenda, mas essa sua reação é típica de quem só tem dois mil anos. Confie no seu velho, que é mais vivido. Aquilo ali não tem jeito. Além do mais, aonde você está pretendendo ir dessa vez? Espero que não tenha em mente a Palestina de novo, né? Se você estrilou com uma cruzinha de nada daquela vez, imagina o que não sofreria com fragmentos de bomba!
— Não, Pai. Eu tô pensando mesmo é em ir ao Brasil.
— Co-como? Acho que não entendi direito.
— Brasil, Pai. Aquele país grande na América do…
— Eu sei muito bem onde fica o Brasil! Não foi por acaso que eu coloquei ele ali, vizinho da Argentina. Só não entendo o seguinte: se é para ser assaltado e seqüestrado, por que você não dá uma voltinha pelo Inferno, que é mais seguro?
.
Desanimado com a atitude negativa do Pai, Jesus resolveu consultar a mãe, que naquele momento bordava uma bela túnica para o sobrinho João Batista, em mais um esforço para que ele abandonasse as peles de camelo, tão démodé.
.
— Jesus, meu filho, por que você está com essa cara de quem comeu fel e não gostou? — perguntou Maria, cheia de graça, ao vê-lo.
— Quero ir ao Brasil e o Pai não deixa, mãe!
— Pro Brasil?! Você andou fumando cânhamo estragado de novo, Jesus?
— Pô, mãe, até a senhora?
— Não, não e não. Meu filho, você anda muito rebelde ultimamente, não conversa mais com a gente, vive pelos cantos. Cadê aquela água que lhe pedi pra transformar em vinho semana passada e até hoje você não fez?
— Eu vou pra Terra, mãe, tô decidido.
— Jesus Cristo, Jesus Cristo, você não ouse desobedecer sua mãe, Jesus Cristo!
— Ah!…
.
Revoltado com a reação dos pais, o Filho do homem resolveu conversar com um membro mais compreensivo da família, o Espírito Santo que, afinal de contas, já estava acostumado a altos índices de violência e não iria se assustar com bobagens.
.
TODOS OS CAPÍTULOS

ATOR DE COMERCIAL

Publicado em 09/02/2007, às 04:11, por Marconi Leal


Atordecomercial

— Aí você olha para a câmera e diz: “Sucinto, não? Serve de aviso a…”
— “Sucinto” com “c” ou com “sc”?
— Hein?
— “Sucinto”, como é que se escreve?
— Sucinto? Sei lá, pô! Acho que é com “sc”. Mas que diferença isso faz? Você tá falando!
— Toda diferença. Repare que um sucinto com “sc” exige uma pausa dramática, um hiato que se prolonga plasticamente entre o “s” e o “c”: suis-cinto! Entende? Propõe, assim, o uso da quarta parede. O sucinto com “c” apenas, por sua vez, provoca um impacto instantâneo, detonando no telespectador um certo desconforto que remete a Artaud e ao…
— Tá, tá, tá bom. Faça como quiser, contanto que você diga: “Sucinto, não? Serve de aviso a todas as…”
— “Aviso” com “s” ou com “z”?
— Ai, meu ovo esquerdo! Aviso! Aviso! Sei lá, deve ser com “s”.
— Será que alguém da técnica sabe?
— Não sei, não sei! Olha, quero apenas que você fale “aviso” e acabou-se. Qual é a grande dificuldade?
— Nenhuma. É apenas uma questão de ajuste de tom. Porque você há de entender que um aviso com “z” é uma coisa imponente, categórica, que nos remete diretamente a Ésquilo. Enquanto que no aviso com “s” há um amaneiramento na sonoridade que…
— Já entendi! Tudo bem. Faça como quiser. Aviso com “s”, com “z”, até com “ç”. Agora, pelo amor de Deus, olhe para a câmera e diga: “Sucinto, não? Serve de aviso a todas as mulheres que não admitem perder…”
— Com “i”?
— O quê?
— O “admitem”. Devo omitir o “i”, deixá-lo mudo, à maneira de um Gil Vicente, ou pronunciá-lo amortecido e adocicado, abrasileirando o som?
— Inacreditável! Será possível que você não pode olhar para aquela câmera e simplesmente dizer: “Sucinto, não? Serve de aviso a todas as mulheres que não admitem perder tempo com nhenhenhém?” Só isso! Uma frase e pronto!
— Posso, posso, claro. Tudo bem. É pra já. Desde que você me diga se “nhenhenhém” contém ou não hífen. Porque, segundo Ziembinski…
— Desisto! Me diz uma coisa: por que é que você não vai à merda, ahn?
— Com crase ou sem?

← Anterior 01 ... 21 22 23 24 25 Próxima →