O Pensador Selvagem  |  Blogs  |  Busca

AQUELA MÚSICA

Publicado em 05/05/2008, às 02:25, por Marconi Leal


Themusiclesson Peterlely

- Como é mesmo aquela música?

- Que susto! Como é que você me acorda com um berro desse no meio da noite, Arnaldo? Quer me matar? Meu Deus!

- (acendendo o abajur) Não consigo lembrar daquela música!

- Que música, Arnaldo? Jesus! Olha aí, meu coração tá acelerado!

- Aquela música, aquela que faz assim: tum, tim, tum.

- Jóia, agora que a gente eliminou todas as músicas que não fazem tum, tim, tum, restam apenas vinte e sete mil quatrocentas e doze. Me deixa dormir, Arnaldo!

- Mulher, aquela música sobre a menina e a alma dos antepassados.

- Não curto música indígena.

- Música indígena nada. Faz assim tum, tim, tum. A menina tá assustada, no escuro…

- Porque o marido dela acordou ela com um berro no meio da noite, perguntando sobre uma música?

- Será que dá pra você me ajudar? Nunca mais vou conseguir dormir se não lembrar dessa música!

- Arnaldo, com tum, tim, tum, se pode compor desde o Hino Nacional até uma obra de Unsuk Chin. Parabéns pra você leva tum-tim-tum, Arnaldo. Como é que você quer que eu adivinhe a música? Ela tem gênero, pelo menos?

- Feminino.

- Gênero musical! É funk, axé, pagode ou é música propriamente dita?

- Já disse: tum, tim, tum. Música eletrônica. Bossa nova eletrônica, pra ser mais exato.

- (cantando) “Dia de luz, festa de sol, o barquinho a deslizar, tum, tim, tum, no azul do mar…”

- Muito engraçada, você. É uma música recente. E é sobre essa infeliz, essa desgraçada dessa menina, que tá sozinha com o fantasma, parece, e…

- Fantasma? O herói?

- Não, um fantasma qualquer. Então…

- O Gasparzinho?

- Dá pra você ficar um minuto em silêncio? Juro que não dói.

- Eu pretendia ficar oito horas em silêncio, antes de você me acordar.

- Tudo bem, pode voltar a dormir. Eu fico aqui, com minha insônia, minha amnésia e um princípio de concussão…

- Ô Bunjunjunguinho! Vem, eu vou te ajudar. Afinal, o mecanismo de expansão do universo depende dessa descoberta tão importante, sem falar nas inúmeras supernovas que deixarão de existir caso ela não se concretize. Bom, você tem essa abilolada dessa menina, o fantasma, o escuro…

- Lembrei! (cantando) “Eu tenho medo do escuro, tenho medo do inseguro, dos fantasmas da minha avó”, tum, tim, tum.

- “Voz”.

- “Dos fantasmas das minhas vós”, tum, tim…

- Voz, emissão sonora, Arnaldo. “Fantasmas da minha voz”.

- Ahn… Faz sentido. Eu sempre me perguntei por que a avó dela tinha mais de uma alma. Pensei que a compositora fosse taoísta…

- Satisfeito por ter lembrado dessa genial canção? Agora, por favor, desliga o abajur e vamo dormir.

- (cantando) “Dos fantasmas da minha voz…” (Desliga o abajur e se cala, satisfeito. Vinte minutos depois, torna a ligá-lo.)

- Que foi agora, Arnaldo?

- Não consigo tirar a porcaria da música da cabeça!

CULPA

Publicado em 30/04/2008, às 02:00, por Marconi Leal


Moises Michelangelo

- Não fica assim, Almeida. Olha pra mim. Em que é que cê tá pensando?

- No Moisés.

- Ih, ih, ih, que nome esquisito pra se colocar no pinto!

- Não, Moisés, o patriarca, o que abriu o Mar Vermelho. Tô pensando nele.

- Já vi o sujeito virar religioso após calamidades, Almeida, mas depois de uma brochada é a primeira vez. Logo você, um ateu!

- Ateu, não. Já disse que, em se tratando de Deus, sou abstêmio.

- Tá, então que história é essa de Moisés? Ele é o santo protetor dos brochas, agora? Faz sentido, já que vivia levantando o cajado…

- Como você é ignorante. Moisés inventou a culpa cristã, pro seu governo. Se não fosse ele, nada disso teria acontecido.

- Olha, Almeida, eu já ouvi muita desculpa de homem quando brocha, agora culpar o pobre Moisés, que além de tudo traçava uma pagã como nenhum outro, era o que faltava,

- É a mais pura verdade. Se a gente tivesse no tempo dos romanos, eu teria feito você subir por essas paredes.

- Tomando como base o seu desempenho dessa noite, se estivéssemos nos tempos romanos a única maneira de você me fazer subir pelas paredes seria me crucificando.

- Muito engraçado da sua parte. Mas o fato é que eu me sinto culpado.

- Não deveria. Com exceção do Ziraldo, isso acontece com todo o mundo.

- Não, me sinto culpado por tá aqui com você, entende? Traindo minha mulher. E isso é culpa de Moisés. Ou, se quiser, é culpa de Deus, que esperou quarenta anos pra matar ele, diante de Jericó, quando podia ter abatido o velho antes de ele receber as tábuas da Lei, com uma intoxicação de maná, por exemplo.

- Que blasfêmia! Abraão pode ter inventado a culpa cristã, mas também foi responsável por Cristo, que ressuscitou dos mortos. Se fosse você, me apegava a Ele, pois é o tipo do milagre que seu pinto tá precisando no momento…

- Ressuscitou dos mortos, sim, mas no terceiro dia e eu só tô com dinheiro pra pagar o pernoite, de maneira que não vai ser de grande ajuda. E a questão não é essa, não é absolutamente essa. O problema é que, sem a noção de pecado, a gente teria transado numa boa.

- Duvido muito. Sem a noção de pecado, o máximo que a gente faria seria trocar uns apertos de mão e jogar baralho…

- Você entendeu perfeitamente o que eu quis dizer. O sexo na Antiguidade Clássica era livre, não era carregado.

- Espero, sinceramente, que você esteja querendo dizer com isso que à época dos gregos ainda não havia cuecas. Porque se por “sexo” você está se referindo à relação sexual, achando que ela era livre entre senhores e escravos, aconselho você a parar de ler Casa Grande & Senzala, imediatamente.

- Livre entre cidadãos livres, é claro. Não complica, Alcinda. Você sabe do que eu tô falando. O adultério não tinha toda essa carga moral.

- Ou seja, em outras palavras, você tá culpando dois mil anos de civilização por sua impotência momentânea. Não deixa de ser uma forma revolucionária de determinismo histórico. Pior, pelo que depreendo, você faria de bom grado a viagem Rio-São Paulo no lombo de um burro ou estaria se comunicando através de sinais de fumaça até hoje, em troca de uma ejaculação.

- Não é nada disso, apenas… Ih, olha aí, ele tá se animando!

- Então vem cá, vem, vamo aproveitar pra… Ué?

- Alarme falso.

- Se encolheu de novo.

- Maldito Moisés!

DE COMO PASSEI POR UMA EXPERIÊNCIA METAFÍSICA

Publicado em 28/04/2008, às 01:49, por Marconi Leal


Metafisica

Marido dedicado que ama a mulher e, sobretudo, a pele que reveste o próprio corpo, tirei o dia de ontem para montar uma estante de ferro, a qual, geniosa e leitora de Thoreau, se recusava terminantemente a ser montada, propugnando pela desobediência à engenharia civil.

Dispenso entrar em detalhes sobre a luta travada contra o pérfido móvel, posto já ser mais que conhecida minha habilidade para trabalhos manuais, digna do Stephen Hawking. Direi apenas que se Hércules executou apenas 12 trabalhos, isso se deu porque o décimo terceiro era a montagem de estantes de ferro.

Após cinco horas em trabalhos esforçado, quando finalmente, tendo passado além da Trapobana, apertei o último parafuso e recolhi a língua do chão, percebi contente que ainda me restavam cerca de vinte por cento do corpo. Já a minha alma, não encontrei em parte alguma.

Arrastei-me até a cama com o andar elegante de Hefesto e a dificuldade mesma com que um requerimento passa de setor em setor, do guichê à presidência de uma repartição pública. Uma vez no quarto, preparava-me para atirar minha insuficiência cardíaca na cama, quando vi algo tremendo debaixo do lençol. Era a minha alma.

- Min’alma, minh’alma, sai-te daí - falei, em decassílabos, como convém em diálogos com entidades imateriais.

- Socorro! Um corpo! - gritou ela, assustadiça, e cobriu-se com o lençol.

- Sou eu, minh’alma. E estou cansado. Dá pra sair?

- Nem viva.

- Quer que eu use de ignorância?

- Você é um homem sem espírito.

- Pelo menos tenho alguma substância.

- Mas não tem essência.

- Sua categoria ontológica!

- Seu aminoácido!

- É guerra?

Insultado, manquei até a biblioteca e saquei o primeiro existencialista com que topei, passando em seguida a ler em voz alta uma série de argumentos contra a efetividade do espírito e da vida após a morte. A alma tentou tapar os ouvidos, mas eles estavam comigo.

- Tudo bem, eu te dou um canto - desistiu, me cedendo espaço. - Mas, da próxima vez, vou exigir que leia Tomás de Aquino.

E foi assim que dormimos, lado a lado, eu e minh’alma, numa composição metafísica capaz de espicaçar a curiosidade de mais de um teólogo. Mormente se eu acrescentasse que minh’alma roncava, coisa que não faço por não ser polido falar mal dos ausentes.

Algo, no entanto, afirmo, tendo em vista contribuir para futuros estudos espíritas: ela não tinha dinheiro consigo. O que, creio, prova definitivamente aquilo que meus detratores não se cansam de repetir: sou um pobre de espírito.

NUNCA APROXIMAR DE ÍMÃS

Publicado em 24/04/2008, às 02:57, por Marconi Leal


Bilhete

Demorei tanto tempo para aparecer por aqui porque estava, como sói acontecer com intelectos profundos como o meu, envolvido com uma questão ontológica do mais alto significado, cuja solução poderá alterar o destino humano ou, quando menos, o de advogados e outros animais inferiores.

Ao me deparar com tal problema, fiquei intrigado como Champollion diante da Pedra da Roseta (não, ignorantes, a Pedra da Roseta não é uma composição de axé music) e, sábio amante da nossa espécie, esforcei-me por fazer algo a que, até então, não estava acostumado: raciocinar.

Eis que, faz agora duas semanas, ao comprar um bilhete do metrô deparei-me com uma inscrição de alcance místico e valor obtuso. “Nunca aproximar de ímãs”, estava escrito na parte superior do retângulo de papel. E, espírito sensível, imediatamente pressenti que era aquela uma mensagem do Cosmos para mim.

Minha segunda reação foi voltar ao guichê para comprar novo tíquete. A primeira, claro, foi recolher o queixo do chão. E qual não foi minha surpresa ao depreender que todos os bilhetes traziam a mesma frase misteriosa? “Nunca”, reparem bem, “nunca aproximar de ímãs”.

Não se tratava, portanto, de uma ordem para “não aproximar de ímãs” ou “aproximar de ímãs somente quando necessário”, ou ainda “se aproximar de ímãs você vai ver só, seu feladaputa”. Não. “Nunca”. Nunca, em toda a minha existência, eu poderia aproximar aquele pedaço de papel de um ímã. Aí está como se iniciavam os tormentos de minha mente, dignos de um Karamásov com aftas.

Voltei para casa trêmulo, decidido a desvendar a charada endereçada a mim pelo Universo e escondendo o bilhete no mais fundo do bolso, de maneira a evitar que algum ímã distraído cruzasse a sua frente, pondo em risco a vida na Terra e planetas periféricos.

Dava graças a Deus por ele ter vindo parar na minha mão e não na de algum viciado, entregue às drogas, ao álcool, ao fumo e a encostar pedaços de papel perto de pedras magnéticas. Ficava imaginando a possibilidade de o objeto cair em posse de algum malfeitor, o qual certamente ligaria para Washington, fazendo ameaças:

- Um trilhão de dólares na minha mão ou encosto o tíquete do metrô de São Paulo em um ímã e bye-bye, honey!

No entanto, vocês hão de convir comigo que a responsabilidade era atroz. Tanto poder não deveria ser entregue a um só mortal, muito menos um que ingere 150mg de venlafaxina a cada manhã.

Há quinze dias o tíquete de metrô está comigo, bem guardado dentro de uma gaveta do armário. Mas a dúvida persiste e me apavora: tenho medo de uma noite, acossado pela curiosidade como o Senhor no deserto, não resistir à tentação, pegar o bilhete e encostá-lo à maldita pedra.

Por isso, aviso: caso algum dia desses vocês, ao se olharem no espelho, repararem que têm um nariz sobressalente, ou, na rua, que o seu cachorro está com um rabo a mais, ou mesmo que a Glória Maria está dizendo coisas sensatas e coerentes na televisão, saibam que fui eu que, derrotado, aproximei o bilhete de um ímã, sem mais ligar para as trágicas conseqüências do ato.

SODOMIA, AQUI ME TENS DE REGRESSO

Publicado em 23/04/2008, às 10:05, por Marconi Leal


Aqui estou. Não disse que voltava numa quarta-feira, incréus? Donde se conclui que Deus definitivamente não existe. Amanhã tem crônica nova. Juro. E, dessa vez, quero que o diabo exista se eu estiver mentindo!

NOTA BENE

Publicado em 14/04/2008, às 02:39, por Marconi Leal


Eu sei, eu sei, semana passada não apareci por aqui, senhores. Acontece que estou com um ligeiro problema técnico. Não, minha mulher não está tendo um caso com um eletricista, tampouco com ninguém que comanda um time de futebol.

Estarei aqui amanhã, no máximo na quarta-feira. Juro. E quero que Deus exista se eu estiver mentindo!

VERSÃO DE “ATIREI O PAU NO GATO” SEGUNDO DOSTOIÉVSKI (ÚLTIMO MIADO)

Publicado em 04/04/2008, às 02:45, por Marconi Leal


Dostoievski3

III. O Desenlace

Três meses após o julgamento, Chica Chiconovna Franciscaia se suicidou, sem deixar bilhete ou qualquer tipo de explicação, ao tomar uma chávena - ah, ironia fatal! - repleta de veneno de rato.

Gato Gatovitch Felinosov abandonou o século ao cabo de um ano do veredicto, pouco mais ou menos, e entrou para um mosteiro onde, dizem, atualmente é uma espécie de staretz ou coisa que o valha.

No asilo em que estou e tantos anos após o terrível incidente, escrevo estas páginas na intenção de me livrar da ira de Deus, que espero para breve, pois estou desenganado pelos médicos.

Que o mundo e a posteridade saibam, portanto, ter sido eu o autor do crime de R… e que, no instante mesmo em que tenho esta pena na mão, um inocente cumpre a sentença em meu lugar na fria e distante Sibéria.

VERSÃO DE “ATIREI O PAU NO GATO” SEGUNDO DOSTOIÉVSKI (2)

Publicado em 03/04/2008, às 03:03, por Marconi Leal


Dostoievski2

II. O Julgamento

Chica Chiconovna Franciscaia era uma mulher temente a Deus, de constituição frágil e seu tanto histérica. Vira no episódio uma significação transcendente, como se fosse todo ele uma resposta divina a seus pensamentos anticristãos. Porém, tendo pouca coragem e, ainda por cima, um amor-próprio cheio de autocomplacência, apesar de se sentir culpada, teve como reação, numa tentativa de apaziguar sua má-consciência, acusar Rato Ratovitch pelo crime que ela mesma supunha cometer perante Deus. Portanto, no julgamento de Rato Ratovitch, ainda hoje rememorado pela gente de nossa cidade com algum temor e bastante emoção, e que se deu um mês após o ocorrido nas terras de R…, foi ela a principal testemunha da acusação.

Ora, sendo Rato Ratovitch um ser atormentado por idéias de inferioridade e, no entanto, de moral inabalável, passara a crer, de sua parte, que fora seu medo mesmo de Gato Gatovitch a mola detonadora do crime. Daí o ter-se declarado culpado perante o juiz, esperando nada menos que a forca ou o traslado para a Sibéria como paga pelo seu malfeito.

Gato Gatovitch - que compareceu ao julgamento enfaixado da cabeça às garras -, por sua vez, cônscio dos sentimentos que nutria por Rato Ratovitch no momento em que o graveto o derribou da charneca, deixou toda a platéia que lotava o tribunal do júri boquiaberta ao declarar ser Rato Ratovitch, pelo contrário, inocente.

Segundo Gato Gatovitch afirmou, ele próprio tentara o suicídio ao se precipitar no vale, sendo coincidência apenas que Roédor estivesse no mesmo local. Disse ainda ter Rato Ratovitch procurado evitar, por todos os meios, seu ato antinatural.

Todavia, o júri, como era de esperar, tomou as afirmações de Gato Gatovitch como abnegação própria do espírito cristão pelo qual nossa sociedade o conhecia, pois Felinosov era membro de instituições filantrópicas de toda a província e participava de academias científicas e grêmios literários, não apenas na Rússia, mas também na Europa.

Segue que Roédor foi julgado culpado, como em realidade a todos que assistiram à peça da acusação parecia, e sentenciado a trabalhos forçados. Partiria para cumprir a pena no dia seguinte.

Quanto a mim, ao ouvir o juiz pronunciar a sentença, saltei de minha cadeira para o centro do tribunal, bradando como um alucinado:

- Fui eu! Senhores, eu… eu sou o culpado! Fui eu que… atirei o pau no Gato Gatovitch!

Tinha o aspecto de um demente, pois no último mês me alimentara pessimamente e pouco me banhara, penitenciando-me pelo sangue derramado de um justo.

Debalde. Reconheceram em mim apenas alguém agitado por uma crise de febre nervosa e, contendo-me - pois esperneava e gritava desesperadamente -, arrastaram-me para fora da sala.

(TERMINA AMANHÃ)

VERSÃO DE “ATIREI O PAU NO GATO” SEGUNDO DOSTOIÉVSKI (1)

Publicado em 02/04/2008, às 02:17, por Marconi Leal


Dostoievski1

I. O Incidente

Gato Gatovitch Felinosov passeava pelos campos de R… quando se viu atingido por um lareiro que lhe alvejou a testa e o levou ao solo com um brado ensurdecedor. Sob o impacto, seu corpo rolou cômoro abaixo, chegando ao pé de um escarpado talude.

Isto, no momento preciso em que Gato Gatovitch deslindara, por trás do tronco de uma tília, a silhueta de Rato Ratovitch Roédor, circunstância que lhe despertara instintos deveras assustadores. Estes, evidentemente, teriam conseqüências graves para Rato Ratovitch, caso aquele providencial incidente não os tivesse refreado.

Por uma dessas coincidências que soem acontecer comumente por ocasião de ocorrências definitivas na vida social de um país ou de uma região, passava também naquele momento sobre a charneca de R… Chica Chiconovna Franciscaia, em sua telega, conduzida pelo fiel mujique Piotr Petrovitch.

Chica Chiconovna meditava sobre a pertinência da existência de um ser divino, superior e eterno e a moral dela decorrente, quando, ao ouvir o berro de Gato Gatovitch estremeceu e ruborizou, como se houvesse sido surpreendida em seus pensamentos íntimos por uma entidade invisível.

Instintivamente, virou-se para os lados da tília e viu quando Gato Gatovitch era precipitado outeiro abaixo e Rato Ratovitch se escondia por trás das raízes da árvore.

A cena causou forte impressão a Franciscaia, a quem os modos furtivos de Rato Ratovitch deram a certeza de ter sido ele o autor do crime que vitimara Gato Gatovitch.

Entretanto, eu me afastava a longas e incertas passadas na direção de O…, as mãos ainda vermelhas do graveto que havia apanhado ao acaso e, num impulso sádico daqueles que por vezes me dominavam e talvez também um pouco por desfastio, atirara em Gato Gatovitch.

Suava abundantemente. Em minha angústia, pude ver, relanceando-lhe os olhos, que Felinosov, apesar do tremendo choque e da queda não menos brutal, ainda movia as patas no fundo do vale.

(CONTINUA AMANHÃ)

VOU DE VARIG, CÊ SABE

Publicado em 26/03/2008, às 00:44, por Marconi Leal


Mapabrasilcolonia

Após uma ida ao Recife e passagens pelo Rio de Janeiro, este blog agora vai a Porto Alegre e Florianópolis, com o objetivo de, em menos de um mês, conquistar 22 estados, um continente a sua escolha e o Piauí. E, mais importante, cobrar os dois tíquetes-alimentação oferecidos por Milton Ribeiro pela minha entrada n’O Pensador Selvagem.

De maneira que estaremos fora do ar nos próximos dias. Mas se Deus quiser, os controladores de vôo ajudarem e a febre aftosa, como dá a entender o governo, de fato não atinge ruminantes bípedes, estaremos por aqui semana que vem, com um carregamento de saquinhos de amendoim e barras de cereal para distribuir entre vocês.

Sendo assim, e como diria Milton, o poeta: See you when I see you.

← Anterior 01 02 03 04 05 ... 25 Próxima →